Sempre Soube
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Sentia as mãos macias de Marina por baixo de sua blusa enquanto fazia questão de segurar sua nuca com firmeza. As línguas se entrelaçavam de uma maneira que Clara desconhecia. Seu primeiro beijo tinha sido com seu atual namorado então o toque de qualquer outra já seria diferente, mas o da de Marina era... indescritível, fazendo todo seu corpo formigar só com o mero pensamento de a estar beijando, se parasse para realmente sentir cada movimento de beijo tinha a sensação que podia ter uma parada cardíaca.
Marina desligou o beijo e puxou a camiseta fora do corpo de Clara. Era como se não estivesse mais bêbada, Clara percebeu, era como se a única droga em seu organismo fosse Marina.
Prendeu as pernas redor do quadril de Marina, aproveitando que estava entre elas, e continuou a beijá-la com ferocidade.
Estava tudo acabado, Clara sentia, não tinha como as coisas permanecerem assim depois desse toque. Sabia que não podia continuar com Cadu depois do que aconteceria aqui, por ele e por ela mesmo. Elas sempre souberam pertenceram uma a outra, não sabia como tinham conseguido fugir todo esse tempo. Todo toque, todo olhar, tudo era tão óbvio.
– Marina. – Clara chamou quando a outra desceu os beijos para seu pescoço bronzeado. – Eu... eu... eu quero...
– Eu também. – ouviu a voz rouca contra sua pele, voltando a descer os beijos molhados cada vez mais. – Me deixa te mostrar como pode ser bom. – continuou e a carioca sentiu os polegares de Marina se engancharem nos lados de sua calcinha.
Óbvio que Clara deixaria.
– É que... – ofegou e Marina ergueu os olhos para os seus. Aqueles olhos. Clara colocou uma mão em cada lado daquele rosto de mulher. – Eu nunca... – falou olhando em seus olhos. – Nunca... sabe...
– Nem com ele? – Marina perguntou em duvida se ficava surpresa ou não.
– Não conseguiria. – Clara balançou a cabeça em negação. – Não conseguiria com ninguém que não fosse você. – e puxou a boca de Marina para a sua.
Quando Marina pensou que a situação não pudesse melhorar, Clara admite isso. Seria sua primeira... e também queria ser a única. Se permitiu apenas sentir o beijo quente que tentava acobertar uma certa timidez, deixando Clara brincar com sua boca imóvel. Percebeu os dedos curiosos entrarem em seus cabelos pela nuca e um arrepio lhe correu pela espinha, distribuindo a eletricidade para todo o corpo.
Agora elas se permitiram realmente enxergar tudo que sempre sentiram. A enxergar que foram se apaixonando dia por dia, subindo uma escada infinita ao longo dos anos que se conheciam. Foi um encontro de almas que sempre tiveram uma ligação e isso era evidente desde a infância, elas sempre tiveram um tópico a mais na amizade. Por um tempo eram somente muito pequenas para entender ou perguntar algo, mas com a idade chegando era impossível não perceber e a solução foi fingir que não estava lá. Deu certo. Digo, deu certo até agora.
Marina puxou-se do beijo e sorriu. Se Clara tinha alguma insegurança, ela tinha evaporado com aquele sorriso. Acariciou os cabelos com os dedos ainda escondidos neles.
– Não conseguiria com ninguém que não fosse você, Marina. – repetiu e Marina fechou os olhos. – Você, Marina, você.
– Diz meu nome de novo. – pediu ainda de olhos fechados.
– Marina. – sussurrou e Marina sentiu o corpo pesado de tanta tensão. – Marina.
– Clara.
– Marina.
E elas se beijaram novamente. E fizeram amor. E trocaram carinhos. Cada toque era uma cicatriz. Cada suspiro era uma comemoração de saber que aquilo era realidade. Cada olhar marcava uma estrela nas pálpebras fechadas. Cada beijo era uma promessa... ou a realização de uma feita entre as linhas das conversas do passado.
Clara acordou com a luz forte do sol iluminando o quarto, já que tinha esquecido de fechar as cortinas escuras, e a primeira coisa que reparou foi na dor aguda e esquisita na cabeça. Olhou pelo quarto, ainda se acostumando com a claridade da manhã suave. Sentiu uma respiração na nuca e percebeu o braço que envolvia sua cintura por baixo do lençol. Lembrou do que tinha acontecido e impediu-se de deixar a preocupação ou hesitação dominar.
– Se você deixou as cortinas abertas de proposito, juro que te mato. – ouviu a voz emburrada e rouca de sono assoprar em sua nuca. – Nem to brincando dessa vez. – Marina puxou Clara contra si.
– Vai por mim, hoje não foi minha culpa. – defendeu-se com tanta doçura que Marina não pode evitar de sorrir.
Clara mordeu o lábio inferior e virou-se no eixo, ficando de frente para a amiga. Não sabia direito como agir, mas Marina lhe deu direções bem explicitas com o fato de não se afastar ou soltar o meio abraço que provavelmente permaneceu pela maior parte dormida da noite.
– Bom dia. – Clara sussurrou, rindo baixo quando Marina franziu o nariz ao finalmente abrir os olhos.
– Só se for pra você. – revirou os olhos mas riu quando recebeu um tapa de Clara. – Brincadeira, Clarinha. E a ressaca?
– Tá aqui, acabando com a minha cabeça. – Clara apoiou a mão no rosto de Marina, acariciando a bochecha pálida. – Porque você me deu aquilo? Poxa vida.
– Não me arrependo nem um pouco. – respondeu e deixou um sorriso crescer no silencio de Clara.
– Nem eu.
– Eu sei. – Marina afirmou. – Agora nós temos que arrumar uma aspirina ou algo assim por que ressaca de whisky não é uma coisa que podemos classificar como... suportável.
– O remédio perfeito seria ficar assim pra sempre. – suspirou. – Te sentindo respirar... teu corpo pertinho do meu...
Marina a apertou mais, entrelaçando suas pernas e aproximando suas bocas.
– Você tá cheirando álcool. – Marina comentou. Esticou-se, tocando sua boca da de Clara num selinho demorado. – E tá com gosto de whisky choco.
Clara riu e Marina também não conseguiu manter a piada sem rir. Estavam tão ocupadas uma com a outra, que não chegaram a ouvir a batida na porta.
– Mas vocês esquecem da vida quando estão juntas, poxa gente, nem pra ouvir eu batendo... – Helena congelou ao ver a cena.
Clara pulou sentada, quase deixando o lençol cair.
– Leninha...
Marina virou-se na cama, ainda deitada, observando o olhar horrorizado de Helena dançar entre as duas garotas nuas na cama. Num surto ao realmente perceber o que estava acontecendo, ou havia acontecido, Helena jogou o corpo na porta, fechando-a com um baque.
– Mas o que... o que... mas... Clara... – tentou, sentindo o ar lhe faltar. – O que exatamente aconteceu aqui? – fechou os olhos, tentando se acalmar.
Clara e Marina se olharam desesperadas. Elas tinham passado a noite toda com a porta destrancada, conversando, bebendo e fazendo amor.
– Nós... eu... – foi a vez de Clara tentar, mas nem tinha respostas precisas. Sentiu uma alfinetada na cabeça, como se seu cérebro estivesse escorrendo pelo ouvido.
– Helena – Marina tomou a frente, a voz séria como se seu coração não estivesse brincando de globo da morte no peito. –, não acho que isso precise de explicações explicitas.
– Mas... – Helena começou alto, mas logo controlou, abaixando para um sussurro gritado. – O que vocês tão pensando!? Clara! Meu Deus do céu... vocês...
Clara sentiu os olhos encherem e o ar pesou.
– Entendemos seu choque mas...
– Mas o que, Marina? – Helena esbravejou. – O que você fez? Ela tem namorado, pelo amor de Deus. Clara, você tem namorado! – respirou fundo, voltando a falar com mais controle. – Meu Deus... Marina, você disse que não ia forçar nada...
– Como assim? – foi a vez de Clara se confundir.
– Mas não forcei. – Marina se defendeu, ainda calma. – Só... aconteceu. Aconteceu e pensamos que a porta estava trancada...
– Já pensou se é o Felipe que vem chamar vocês? – apoiou a cabeça nas mãos. – Ou pior, imagina que é a minha mãe! O Ricardo! Vocês já estariam mortas!
– Mas foi você! – Marina tentou acalmá-la.
– E você disse que ia devagar! – apontou novamente. – Disse que não ia pular de paraquedas! Que ia passinho por passinho!
– Helena – hesitou, apontando para Clara com o olhar. –, aconteceu.
– O que tá acontecendo aqui? – Clara parou a conversa paralela. – Como assim “disse que não ia forcar”?
Marina repreendeu Helena com o olhar, como justificação para o olhar sugestivo de antes.
– Vocês ainda não conversaram... – Helena percebeu, ignorando a pergunta da irmã mais nova. – A levou pra cama na primeira noite, Marina!? Você disse...
– Eu sei o que eu disse! – frisou. – Helena...
– Nada disso, Marina! Você me prometeu...
– O que ela prometeu? – Clara ralhou impaciente para a irmã.
– Que ia te conquistar devagar! – respondeu voltando a se descontrolar. – Dai entro aqui e encontro... isso.
Clara voltou o olhar para Marina, que estava uma mistura de hesitação e insegurança.
– Me conquistar? – Clara repetiu. – Estava planejando me... conquistar?
– É... – deu de ombros, tentando esconder o medo. – Esse era o plano.
– E você – voltou-se para a irmã mais velha. – sabe que a Marina é gay?
Helena congelou novamente, olhando Marina com compreensão. Elas realmente ainda não tinham conversado, Helena percebeu.
– Helena, conversamos as três depois, pode ser? – Marina pediu, parecendo cansada. – Eu preciso... explicar as coisas pra Clara.
Helena parou para assistir a cena novamente. As duas nuas, enroladas num só lençol, o rosto confuso e assustado da irmã e o sério e preocupado de Marina. Não adiantaria gritar, percebeu.
– Ok. – respondeu, limpando a garganta e ajeitando os cabelos. – Mas estou esperando vocês no meu quarto. Principalmente você. – apontou para Marina. – E tratem de trancar a porta dessa vez.
Quando a porta bateu elas se olharam ainda em choque.
– Tem noção do que acabou de acontecer aqui? – Clara perguntou retórica.
– Como a gente esquece a porta destrancada, meu Deus. – Marina continuou a comentar, fechando os olhos com forca. – Já pensou se fosse... graças a Deus foi a Helena.
– E esse negócio de explicar? – começou. – Como ela sabe que você é lésbica?
– Eu contei.
– Contou? E por que não me disse?
– Acabei esquecendo. – respondeu sincera.
– Esquecendo?
– É. – sentou do lado de Clara. – Ela soube antes de você, na verdade.
– Não fui a primeira? – falou depois de hesitar.
– Não. – respondeu. – Quando éramos menores não tinha coragem de... te contar.
– Mas... por que?
– O que eu sentia por você era muito confuso... – sorriu tímida, olhando para as próprias mãos. – Se admitisse que gostava de meninas era como se... como se tivesse admitindo que gostava de você.
Clara abriu a boca para continuar as perguntas mas parou, observando a garota a sua frente. A luz que entrava pela janela batia em seus cabelos escuros e fazia sombra em seu rosto baixo, os lábios pálidos estavam entreabertos exalando o ar de sua respiração calma. Essa era a declaração de que sempre gostaram uma da outra.
– Quantos anos? – Clara conseguiu questionar, a voz fraca.
– Falei com a Helena aos 13. – respondeu. – Com você aos...
– 15. – a interrompeu, completando a resposta.
– Não está... chateada ou algo assim, certo?
– Não. – pensou no que estava sentindo e realmente não era decepção. – Não tem porque ficar. – puxou o rosto de Marina pelo queixo, focando aqueles olhos tão cheios de sensações e adjetivos. – Mas, pela bronca de Helena, duvido que tenham conversado somente sobre sexualidade.
– É... eu tive que contar sobre você também. – respondeu puxando os lábios em um sorriso fraco. – Contei do que sentia, das minhas vontades e tudo. Estava muito insegura, sabe. Até pensei em investir mas a coincidência é uma filha da puta. – riu quase abaixando a cabeça novamente, mas Clara ainda a segurava. – Foi bem quando você me falou do Cadu. Dai fiquei meio desiludida e escolhi deixar pra lá.
Clara se forcou a ignorar a lembrança de Cadu e continuou.
– Mas você nunca viu que sentia o mesmo?
– A única coisa que tinha era hipóteses. – respondeu.
– Hipóteses, Marina? Suspeitas? – Clara riu. – É de você que estamos falando. Você. É impossível... te resistir.
Marina riu pelo nariz junto com Clara, que desceu a mão para seu pescoço.
– Mas sabe como é – continuou –, quando se gosta de alguém parece que não se tem certeza de nada. Conhece meu jeito, sabe que não tenho muita vergonha, mas essa situação me deixou... fragilizada.
– Marina Meirelles admitindo estar insegura? – Clara descontraiu, fingindo choque.
– E se contar pra alguém... – Marina entrou na brincadeira, batendo na coxa de Clara.
– Mas o que aconteceu ontem muda um pouco as coisas, certo?
– Um pouquinho. – Marina ironizou. – O fato é que eu já tinha cansado de agonizar. Cansado de te ver com o Cadu e simplesmente ficar lá, fazendo a fina como se tudo estivesse bem. Você, mais do que ninguém, sabe que não nasci pra sofrer, então tirei um tempo pra trocar uns e-mails com Helena.
– Vocês tem mais contato que eu imaginava. – Clara pensou alto.
– Na conclusão dessas conversas decidi tentar alguma de verdade e quando ela me apoiou foi o céu. – sorriu. – Até por que minha esperança em trocar uma ideia com a Lena era que você já tivesse comentado algo com ela e quando aprovou minha decisão foi uma onda certeza.
– Dai você me embebedou e se aproveitou, que coisa.
– Palhaça. – riu. – Não, prometi para sua irmã que ia devagar. Degrau por degrau. Te conquistar com segurança. Dai ela abre a porta e vê a gente assim logo na primeira noite que cheguei.
Clara sorriu e elas só se olharam por um tempo, trocando pensamentos quase por telepatia. Finalmente tinham se dado a permissão de admitir os fatos em seus corações.
Marina pensava que precisava que lhe conquistar, Clara soltou uma risada baixa com seus próprios pensamentos.
– Qual a graça, exatamente? – Marina perguntou.
– Você.
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