Sempre Soube
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Com o tempo Cadu foi percebendo a relação que as duas tinham e a cada ano ficava mais e mais visível que não mudaria. Perdeu as contas de quantas vezes brigou com Clara por dar mais prioridade a amiga que o próprio namorado.
Cadu era um namorado exemplar, cheio de beijos, sorrisos e presentes. Clara se sentia maravilhosa perto dele, sabendo que era única em sua vida, mas tinha o ano todo para ficar com Cadu e meros três meses para se aninhar no pescoço de Marina e dormir, sorrir e chorar com a segurança que nunca conseguiu ter com ninguém.
– Tá falando sério? – Marina se assustou, sentando na cama e encarando a amiga.
– Pior que to. – Clara riu. – Ca-sa-men-to, ele falou. Não sabia o que fazer e tive que levar na brincadeira. Até agora não tive a cara de perguntar se ele tava fazendo sério.
– Casamento? Aos 18? – tudo parecia muito absurdo para Marina. – Ele é louco ou coisa parecida? Nessa idade ninguém sabe cuidar nem de si mesmo, imagina ter uma vida a dois.
– Eu sei, eu sei, também fiquei chocada. – Clara sentou do seu lado da cama.
– Então você... recusou? – Marina perguntou confusa, tomando mais um gole da garrafa de Jack Daniels.
– Acho que sim. – deu de ombros. – Aceitar tá na cara que não aceitei.
Marina riu, deitando novamente na cama, imaginando a cena.
– Puta que pariu, Clarinha. – continuou rindo. – Deve ter sido muito engraçado.
– Engraçado agora. – Clara queixou-se, rindo também. – Na hora foi desespero, minha filha. – olhou para a amiga, já deitada. – Vai dormir de óculos hoje?
– Eita. – lembrou-se dos óculos ainda no rosto, o tirando e colocando no criado-mudo. – Sempre esqueço. Quando não tenho você pra avisar, sempre acabo tendo que comprar outro por que acaba quebrando.
– Eu sei que sua vida seria um caos sem mim, eu sei. – Clara passou os dedos no cabelo comprido de Marina, que ironizou uma risada.
Marina ainda tinha uma leve sombra das bochechas infantis, que estavam ligeiramente coradas pelo álcool no organismo, mas a maturidade dos 18 anos afinou o rosto bonito. Não sabia se era verdade mas parecia que Marina estava cada vez mais branca ao passar dos anos, mas também poderia ser somente o efeito do tempo nas ansiedades de Clara.
– E Vanessa? – Clara limpou a garganta.
– Ah... – Marina respirou fundo, virando mais um gole pequeno. – Foi difícil esses últimos meses no colégio, sabe. Primeiro achei que ela tinha levado nosso termino numa boa, mas depois de um tempo ela começou com umas conversas estranhas... daí começou a ficar chato. A convivência ficou chata.
– Mas namoro de colegial é assim mesmo. – Clara consolou, olhando a garrafa segura pelos dedos longos e pálidos. – Digo, quase todos. – lembrou-se do seu.
– Eu sei. – concordou. – Expliquei que queria muito sentir o mesmo em relação a ela... mas se não deu, o que eu vou fazer? – perguntou retorica. – Principalmente quando ela veio com essa conversa de amor. Logo no finalzinho do namoro, isso. Um dos motivos que terminei, inclusive.
– É. Se não sente o mesmo, quanto mais rápido terminar melhor acaba sendo pra ela.
– Foi exatamente isso que pensei. – afirmou. – E até tava aguentando todo o drama por que sabia que as aulas estavam acabando e pronto, mas acabei descobrindo que ela também vai ficar em Londres pra fazer faculdade. – olhou cansada para Clara. – O que eu fui arrumar pra minha cabeça, Clarinha?
– Como assim? Mesma faculdade?
– Mesma faculdade. – riu irônica. – Quando fui pedir uma explicação melhor, por que até onde eu sabia ela tinha falado que iria para Portugal, mas dai ela justificou que viu uns papeis na minha mesa e foi procurar sobre a universidade, dai “acabou se apaixonando”. Não sei nem se é verdade mas, poxa, eu não posso impedir a menina de ir pra lá só por que eu vou.
– Pode ser verdade – Clara considerou. –, mas também pode ser que você tenha arrumado mais um chaveiro pra sua coleção. – terminou brincalhona.
– Como assim “coleção”, sua louca? – Marina fingiu indignação.
– Ah qual é, Marina. – Clara a olhou obvia. – Você é uma destruidora de corações, não negue.
– Ai! – reclamou. – “Destruidora de corações” soa tão perverso, para.
– Bem, nobre não é. – deu de ombros, sincera.
– Esse chaveiro tá mais pra mochila, isso sim. – brincou tomando mais um gole.
– E só você pra comprar whisky no aeroporto e trazer escondida pra cá. – riu baixo, mudando de assunto sem um motivo em particular.
Marina a olhou. Clara ficava cada vez mais linda a cada dia. Estreitou os olhos e mordeu o lábio inferior com um charme discreto e Clara teve que se concentrar para continuar focada na conversa.
Tudo com Marina era especial, sempre foi, e quanto mais o tempo passa, mais “diferente” ficava. Desde o jeito que Clara se vestia até o jeito que agia.
Até Cadu já havia reparado que a namorada usava a franjinha para o lado na temporada que ficava com Marina, com roupas sempre um pé da Europa mas ainda casuais, a dando um ar mais de mulher que de moça, voltando a franja reta no dia seguinte que a amiga saia de sua casa. Talvez Cadu até tenha percebido que um brilho diferente estava sempre presente nos olhos de ambas a qualquer contato visual, desde o mais intenso até o mais simples, aquela peculiaridade estava ali, tão explicita que nem parecia verdade. E era exatamente o que o rapaz fazia, não acreditava ou fingia para si mesmo não acreditar.
– Quer? – ofereceu a garrafa de whisky para Clara.
A carioca olhou para o liquido âmbar. O máximo de álcool que havia colocado na boca eram as pequenas gotas de vinho que roubava do copo da mãe nas festas de fim de ano, nunca havia bebido whisky. Pegou a garrafa com insegurança, tomando um gole pequeno.
– Epa, epa, calma. – Marina acalmou, batendo gentilmente em suas costas.
– Meu Deus. – Clara disse sem ar, limpando as lagrimas que subiram aos olhos, com o gosto forte e ardido que desceu pela garganta.
– Me dá isso aqui, vai. – Clara desviou quando Marina foi pegar a garrafa de suas mãos.
– Mais um gole. – prendeu a respiração e virou o frasco pesado na boca, não se concentrando no liquido que engolia com.
– Meu Deus, meu Deus. – Marina pulou em Clara, tirando o whisky de suas mãos. – Você tá louca, mulher? Isso é muito forte! – sussurrou. – Como vamos explicar pra tia Chica se você passar mal?
Clara percebeu o que tinha feito e sentiu o gosto horrível da bebida ainda em sua boca. Quando Marina percebeu que ela ainda não tinha engolido tudo, colocou a mão sobre sua boca fechada.
– Agora você trata de engolir isso. – continuou sussurrando, assistindo Clara ficar vermelha. – Respira pelo nariz, pelo amor de Deus. Vai, engole antes que cuspa tudo na cama. Já pensou o quarto cheirando a whisky?
Clara fechou os olhos, respirando fundo pelo nariz e engolindo o restante do álcool quase puro. Tirou a mão de Marina de sua boca e puxou o ar com necessidade.
Sentiu Marina relaxar e apoiar a cabeça em seu ombro, aliviada.
– A culpa é sua. – Clara conseguiu gaguejar ofegante, ouvindo o riso baixo da amiga em sua orelha.
Aliviou-se também, abaixando as mãos e percebendo a posição que estavam. Marina tinha uma perna de cada lado de Clara, que apoiou as mãos em suas coxas descobertas por uma das calcinhas estilo cueca que gostava de usar para dormir. Fechou os olhos, sentindo o cheiro do pescoço a sua frente. Não era o cheiro do sabonete ou perfume que usava... era o cheiro dela com uma leve ardência de álcool, que desconfiou ser seu próprio nariz.
Sem pensar, subiu uma das mãos para a cintura a frente, sentindo o arfar leve da respiração continua. Inclinou-se para frente e encostou o nariz abaixo de sua orelha, respirando fundo.
Marina rercebeu o toque com surpresa e confusão, esperando Clara se afastar. Sentiu um beijo molhado sendo depositado na linha da mandíbula e fechou os olhos. Clara estava bêbada, entendeu. Nunca havia bebido nada tão forte e era óbvio que um Jack Daniels com seus 40% de álcool iria derrubá-la. Não deveria nem ter oferecido... ou deveria? Se dissesse que não estava em pânico, estaria mentindo, mas não era um pânico de terror...
Era tão óbvia essa tensão entre as duas. Marina sempre notou. Havia uma forca que as puxava uma para a outra, física e emocionalmente. Não sabia como Clara estava conseguindo namorar aquele rapaz por tanto tempo e até cogitar casamento. Elas pertenciam uma a outra, Marina sabia, era tão nítido desde o olhar até o toque. Por isso ela quebrava tantos corações, por que ninguém substituía o nome de Clara quando se tratava desse sentimento.
Clara abriu os olhos quando sentiu Marina levantar a cabeça e os olhares se cruzaram, como que uma confirmação de tudo que havia passado pela mente corrida de Marina. Parecia que uma linha reta ligava as retinas, só refletindo uma a outra.
Segurou a garrafa com mais força entre os dedos.
– Espera. – Marina pediu, voltando a beber o whisky.
Agora os goles eram tão grandes e dolorosos que Clara podia ouvir o liquido cortando a laringe. Ambas sabiam o que iria acontecer ali e Clara só estava esperando Marina ficar bêbada, pois essa parecia a condição: ambas precisavam estar fora de si. O único nome ecoando em sua cabeça era o de Marina, nem chegou a lembrar que tinha namorado e planos.
Marina ainda tentava se recuperar do desconforto de beber tão rápido, havia engolido três dedos da garrafa praticamente sem respirar, apoiando-a de qualquer jeito ao lado do abajur no criado-mudo e voltando a encarar Clara, que fechou os olhos novamente ao sentir o cheiro forte na respiração pesada de Marina, mas agora lhe parecia tão convidativo. Agora queria beber até a ultima gota.
O primeiro toque já foi uma mordida de Marina, fazendo Clara perder o chão. As salivas de misturavam naquele gosto que antes parecia tão amargo na boca de Clara mas agora estava doce e viciante na de Marina.
A carioca queria lembrar-se dessa sensação para sempre. A boca macia, a língua flexível, o gosto saboroso e suculento que nunca tinha provado na vida. Puxou o ar pelo nariz com necessidade, grudando as mãos no pescoço de Marina ao perceber que estava se afastando.
Desencostaram as bocas e Clara não controlou os sentimentos quando assistiu aquele sorriso carregado de charme se formar nos lábios irritados da menina a sua frente.
– Aposto que ele nunca te beijou assim. – a voz de Marina era mais baixa que um sussurro normal, rouca e carregada de uma tensão que fez o corpo de Clara se contorcer.
Ele? Quem era ele? Existia mais alguém no mundo? Foi o que Clara conseguiu pensar.
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