Clara sentiu que estava despertando e tentou se prender ao transe pelo tempo que conseguisse. Sentiu que não estava com a cabeça no travesseiro e respirou fundo, comprovando a hipótese.

Aquele cheiro. Sorriu afundando mais o nariz no pescoço de Marina, que, pela respiração tranquila, ainda estava dormindo. Clara passou de um transe para o outro, se concentrando para sentir todas as partes de seu corpo que tocavam o de Marina e lá estavam seus corpos praticamente colados.

Puxou a mão para o outro lado do pescoço da amiga, acariciando com delicadeza.

Melhores amigas não faziam isso, Clara sabia, mas elas não eram simplesmente melhores amigas. Tinham uma ligação que propositalmente não se davam o trabalho de pensar sobre.

Clara abriu os olhos e roçou a ponta do nariz no pescoço pálido e cheiroso, fazendo-a despertar com um suspiro profundo.

– Não é justo. – Marina reclamou ainda de olhos fechados, a voz carregada de sono. – Não é justo você me acordar.

Clara riu pelo nariz, fazendo Marina estremecer com a ligeira cosquinha. Sentia o corpo de Clara quase totalmente sobre o seu, apoiando uma mão preguiçosa em sua cintura.

– Senti sua falta. – a carioca admitiu.

– Acho que senti sua falta até antes de te conhecer. – a outra respondeu, sorrindo para o comentário.

– Não acha que tá muito cedo pra ser tão poética?

– Cala boca. – tossiu indignada e Clara riu, beijando o pescoço a sua frente e finalmente sentando na cama. – Bom diaaaa.

– Te odeio, te odeio, te odeio, te odeio. – Marina repetia, roubando o travesseiro, ainda totalmente afofado por não ter usado, e escondendo o rosto.

Clara ficou quieta por um tempo, o sorriso caindo ao se permitir observar o corpo da garota de dezesseis anos a sua frente. O calor do Rio de Janeiro era reconfortante para Marina, mas não quer dizer que ela amava. A simples calcinha lisa deixava as pernas longas e brancas a mostra, e a regata preta deixou uma linha de pele exposta na barriga. Clara tinha vontade de esticar a mão e tocar, mas não tinha coragem. Marina a perguntaria porque e a carioca teria que pensar em uma resposta.

Lembrou de Felipe comentando o quanto ela estava ficando linda e agora Clara parou para pensar. Sempre achou Marina bonita, mas tinha que concordar que o adjetivo “bonita” estava ficando para trás.

– Vai, criançona. – Clara brincou, puxando o travesseiro e revelando o bico na boca pálida. – Levanta.

– Vai me apresentar ele hoje? – perguntou, assistindo Clara sair da cama.

– Ele quem?

– Ele quem? – Marina franziu a testa. – O rapaz, ué.

– Ah. – Clara alcançou a escova de cabelo na cômoda. – O Cadu. Pode ser.

– “Pode ser”? – Marina repetiu novamente. – Eu interpretei animação quando li sobre ele no email.

– Mas estou animada.

– E eu amo manhãs. – sorriu irônica. – Qual é Clara, o que aconteceu?

Clara respirou fundo. Não era sua intenção demonstrar estar tão confusa. Gostava de Cadu, sentia-se nas nuvens quando ele chegava abrindo aquele sorriso encantador, tanto é que esse “rolo” já tinha virado um namoro sem nem mesmo eles perceberem. O momento que marcou essa passagem de status do relacionamento foi quando ele lhe deu uma de suas camisetas, onde Clara se embriagava no cheiro todas as noites, vestindo-a para dormir. Só que, curiosamente, não conseguiu usá-la em nenhuma das noites que passou com Marina. Era como se não quisesse sentir o cheiro dele. Era como se... não quisesse que ela soubesse dele nem ele dela.

– Clarinha? – Marina chamou, apoiando-se nos cotovelos ao encarar a amiga. – Clarinha, vem aqui. – levantou-se, pegando a escova da mão de Clara. – Senta.

Clara fechou os olhos e sentou-se na cama, de costas para a amiga.

– Não sei. – fechou os olhos, sentindo os dentes da escova passearem pelos cabelos longos. – Realmente não sei. Ele me faz sentir tanta coisa boa, sabe, tanta coisa que nunca pensei que podia existir.

– Mas se fosse isso tudo mesmo não teria problema nenhum. – Marina apontou.

– Esse é o ponto. – fez uma pausa. – Parece que eu podia sentir... mais. Mais intensidade, mais tudo. Entende? Eu sinto mas... podia sentir tão mais.

– Mas como você sabe que gostar de alguém não é assim mesmo? – deu de ombros. – Tipo, suas expectativas pro amor podem ser muito grandes pra realidade.

– Não, não, é que... – Clara começou óbvia mas parou, hesitando ao abrir os olhos. – Não...

Sabia que podia sentir mais por que tinha a quem comparar Cadu. Já tinha sentido mais por alguém... já tinha sentido mais por Marina. E, inclusive, sentia. O sorriso de Cadu abria portas em seu coração, mas o de Marina possuía o chaveiro para todas essas portas, janelas e saídas de emergência. Quando via Cadu seu coração disparava, mas quando via Marina tinha a impressão de que o coração estava correndo pelo corpo e poderia despencar da cabeça a qualquer momento.

– É que o que, Clarinha? – Marina perguntou, a voz suave.

– Sei que dá pra sentir mais. – respondeu. – Só sei.

– Bem... queria poder te ajudar mas – limpou a garganta. – você sabe que garotos não são exatamente a minha praia.

– Idiota. – Clara riu e Marina sorriu orgulhosa por ter conseguido um sorriso da amiga.

– Qual éééééé. – Marina falou alto e jogou a escova na cama, abraçando a amiga por trás. – É seu primeiro amor, não exija muito. Se não der certo, lembra que é só o primeiro. – apoiou o queixo no ombro de Clara.

– Se não der certo – Clara repetiu em voz baixa, olhando Marina de canto. Cada detalhe da menina a encantava, indo desde as coisas mais perceptíveis como a altura até a pinta discreta no canto boca. – ...vai ser só o primeiro.

– Isso. – deu um beijo estalado no pescoço da carioca e se levantou. – Agora que você já me acordou, hora de correr.

– Como se você corresse muito. – Clara revirou os olhos, assistindo a amiga ir até a gaveta que tinha no quarto.

– Ei, me deixa em paz. – riu, passando as mãos no cabelo e amarrando em um cabo de cavalo. – Enfim, vai colocar tua roupa.

– Pra quem tava morta me odiando na cama, você tá bem animada.

– Lembrei que hoje é domingo.

– E...? – Clara franziu a testa.

– E é o dia que chove idosos nas ruas, ué.

– Ah, verdade. – Clara concordou, também prendendo o cabelo. – Você e essa obsessão por tirar fotos de idosos.

– Pessoas em geral. – Marina corrigiu. – E não é uma obsessão. É só... que as pessoas velhas contam mais história, sabe. Você olha a foto e vê história. Preciso encontrar um jeito de acrescentar o elemento história nas minhas fotografias... e até acho que sei como fazer. Tenho umas coisas pra testar.

– Seja o que for, já sei qual vai ser o resultado. – Clara tirou a blusa, vestindo-se para correr.

– Já?

– Lógico. – disse obvia. – Vai ficar perfeito, como sempre.

Marina sorriu agradecida. Se tinha alguém que apoiava seu sonho de ser fotografa artística era Clara. Seu pai sempre deu todo o suporte, claro, mas Clara era quem estava lá do lado ouvindo todas as ideias e realmente participando das situações.

Enquanto Clara cumpria o horário de sua corrida matinal, Marina andava calmamente, pulando de sombra em sombra para fugir do sol, a câmera profissional pronta nas mãos.

Luz, suspirou, era assim que traria história para a fotografia. Era isso que iria se dedicar a estudar, tanto na pratica quando na teoria, e seria a melhor do mundo. Sentaria ao lado de grandes fotógrafos e até diretores.

Assistiu um senhor com bermuda de surfista e camisa de botões abertos sentar no banco da praça, uma lata de cerveja na mão, o olhar distante mas um sorriso leve no rosto. Enxergou os pontinhos de luz solar bater na pele oleosa da bochecha e testa. Era só desfocar o olhar e parecia que já via a foto no lugar da realidade, como se o tempo parasse para que pudesse pintar cada sombra mínima, contar cada floco brilhante de luz e corrigir todo reflexo imperfeito. Seu coração deu uma batida pesada de animação e não conseguiu mexer um músculo, tendo que se forçar a erguer a câmera antes que pudesse perder o momento.

– Obrigada. – Clara pagou e pegou os dois cocos que lhe eram oferecidos pelo rapaz, já procurando Marina com o olhar.

Lá estava ela, vestida num leve macacão acinzentado que deixava as penas e braços de fora, o tênis esportivo sem cadarço nos pés e o óculos de aro grosso apoiado no nariz, a câmera do pescoço como um colar. Seus olhos se encontraram e Marina acenou, sorrindo e chamando Clara para perto.

Clara sorriu de volta caminhando até a amiga, que sentou no banco mais perto.

– Fugindo do sol, branquela? – Clara brincou, sentando-se ao seu lado.

– Admito que prefiro o efeito dele nos outros do que em mim. – Marina sorriu, pegando o coco. – Cabô a “hora fitness”?

– Acabei. – tomou um gole da água gelada. – E você? Cabô a “hora da artista”?

– Essa hora nunca passa pra mim. – respondeu, respirando fundo.

– Eu sei. – falou simples.

– E aí?

– E aí o que?

– O moço!

– Ah. – Clara tentou não parecer tão perdida. – Ele disse que ia vir.

– Qual o nome dele mesmo?

– Cadu. Carlos Eduardo.

– Cadu. – Marina repetiu, olhando para frente e franzindo a testa. – Só vai namorar de verdade se eu autorizar, viu. – brincou.

– Com certeza. – Clara riu. – É exatamente por isso que ainda não estamos namorando: por que preciso da sua aprovação. – Marina riu também, cutucando o braço de Clara com o cotovelo. – Conseguiu as fotos que queria?

– Sim! – Marina comemorou alto, apoiando o coco no banco. – Olha aqui. – pegou a câmera passando as fotos até encontrar a que queria. – Aqui. – por um momento Clara só observou Marina morder o lábio inferior, logo seguindo o olhar para a imagem. – Essa foto... eu senti... Clarinha do céu.... como se fosse a foto da minha vida, sabe.

Clara observou o senhor com chinelo de dedo sentado no banco, o sorriso aberto em uma risada gostosa enquanto encarava algo vago a sua frente, a lata de cerveja sendo segurada pela mão de unhas sujas de graxa.

– Agora imagina ela em preto e branco – Marina continuou. –, as sombras mais escuras pra realçar mais a luz e... ela revelada numa moldura de dois metros... pendurada no teto de uma grande galeria...

– Ou estúdio. – Clara sugeriu, voltando a encarar a amiga. – Estúdio Meirelles.

Marina fechou os olhos, respirando fundo.

– Por favor, vida, realize meus sonhos. – falou brincalhona, jogando a cabeça para trás.

– Clara? – ouviram uma voz grave e Marina focou no rapaz alto e magro que se aproximava.

– Cadu. – Clara chamou, sorrindo e se levantando. – Demorou.

Sorriso, foi a primeira coisa que Marina viu no rapaz, aquele sorriso era maravilhoso. Topete castanho, ombros largos e braços fortes, mas aquele sorriso era coisa de outro mundo.

– Desculpa. – abraçou a menina, sentindo o coração acelerar. – Tinha muita louça pra lavar no restaurante.

– Vem aqui. – chamou puxando-o pela mão até Marina, que se levantou. – Essa aqui é a Marina. – apresentou. – Marina, esse é o Cadu.

– Ah, a famosa Marina. – Cadu reconheceu, estendendo a mão. – Um certo alguém aqui sempre tem algo “da Marina” pra contar nas novidades.

Marina riu pelo nariz, aceitando o cumprimento do rapaz.

– Prazer em te conhecer também, Cadu. – sorriu. – Sabe como é, tive que vim de Londres pra avaliar o namorado da minha melhor amiga.

– Namorado? – Cadu olhou para Clara, que ruborizou.

Clara queria calar a boca da amiga, ainda mais entendendo o tom brincalhão que usava para deixá-la envergonhada.

– Opa, foi mal, Clara. – fez-se de desentendida. – Não era pra ter falado, né? Desculpa.

Cadu sorriu largo para Clara e voltou a focar Marina, que lhe deu uma piscadela cúmplice.

Clara e Cadu, Marina observou como se a câmera estivesse a frente de seus olhos, um casal tão lindo.

E o coração da fotografa doeu.

Notas finais
Obrigada pelos comentários, galera. Quero continuar a saber a opinião de vocês. Devo continuar?