Sempre Soube
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Clara jogou a camiseta por cima do corpo, observando a mulher concentrada em secar os cabelos. Vestia a camisa leve do pijama oriental mal abotoado e uma calcinha lisa que abraçava muito bem o osso pélvico.
Desligou o secador, enrolando o fio sem perceber o olhar da namorada pelo espelho. Perdida na falta de pensamento saudável que permitia um espaço no tempo, sua cabeça despertada vez ou outra pela imagem de uma nota musical imitada discretamente por seus dedos.
Fechou o armário pesado e virou-se para sair do banheiro que nunca acostumou encostar a porta e quase trombou em Clara.
– Vai passar por cima mesmo? – brincou, fingindo indignação.
– Desculpa, nem percebi que saiu do banho. – riu pelo nariz, passando a mão no rosto.
– Cansada? – perguntou percebendo os olhos pequenos.
– Bastante. – admitiu. – Mas sem sono.
– Não lembro de você ter esse problema no passado. – comentou. – Dormir nunca foi um problema, na verdade.
Marina riu novamente, aproximando-se inocentemente de Clara ao apoiar o ombro no batente.
– Isso faz muito tempo. – repetiu. – As coisas mudaram um pouco, Clarinha.
Focou aqueles olhos de gato cheio de ideias.
– Nem tudo.
Um arrepio acompanhou o caminho que a voz baixa e rouca correu no corpo da artista.
Clara deu um passo a frente, encostando os narizes. Marina fechou os olhos esperando um beijo mas a boca molhada encostou quase em seu queixo.
Os leves beijos desciam lentamente, usando a mandíbula de escada para o pescoço.
– Quando disse que queria dormir cedo – a carioca não parou com o possível protesto. –, realmente quis dizer dormir.
Ignorou o comentário, agarrando o pescoço a sua frente com uma mão, usando algo que Marina definiu como agressividade suave, e o quadril magro com a outra. A textura da pele era incrível. Parecia não ter envelhecido um dia desde a última vez que a viu, em seu casamento. Sabia que dedicava um tempo para cuidar da aparência, já que a pressão de figura pública pesava na mídia, mas assistia sua rotina a algum tempo e era simples demais para a qualidade dos resultados.
Nos dias passados descobriu que algumas coisas realmente mudaram. O mapa mental do corpo da jovem-artista sofreu alterações demais no figurativo revelo para ser reaproveitado, além da tempestade que choveu em sua cabeça tê-lo molhado e apagado suas linhas. Decidiu começar tudo de novo. E hoje, baseado nas experiências, conhecia muito bem onde a convenceria de qualquer coisa.
Pressionou o pescoço contra seus lábios, os abrindo e deixando a língua beijar o ponto invisível abaixo da orelha. Ouviu o suspiro e teve de controlar a corrente de energia que fez suas juntas doerem de excitação.
Sentiu os dedos longos se misturarem a seus cabelos.
Puxou o rosto do pescoço, assistido de perto os pontinhos vermelhos, que amanhã se resumiriam em um hematoma, aparecerem na palidez delicada. Uma boneca, conseguiu comparar. Sua boneca. Não sentiu medo como antes. Não se importava com terceiros perguntando sobre a mancha roxa. Não se importava com sua mãe perguntando sobre a macha roxa.
Marina abriu os olhos e Clara notou a escuridão de uma caverna que seguiria eternamente no breu se não fosse aliviada.
Perdida no momento de tentar inconscientemente encontrar poemas que descrevessem a vista, encontrou-se já deitada na cama. Assistiu Marina colocar uma perna em cada lado de seu quadril, sentando-se no final da barriga e desabotoando o meio caminho do pijama. Um sutiã, facilmente confundido com um biquíni, fez conjunto com a calcinha. Apoiou as mãos nas laterais da barriga característica da yoga.
Marina jogou os cabelos para um lado e abaixou-se para capturar a boca já inchada de Clara.
Por mais que os movimentos fossem antes lentos, o beijo demonstrava a ligeira falta de paciência da artista. Prendia o rosto moreno nas mãos brancas, descendo em mordidas confeitadas com a língua até a clavícula reta e saltada na pele brilhante e cheirosa.
Clara agarrou a cintura fina e virou a namorada na cama, ficando entre suas pernas.
– Nossa... – a artista não conseguiu terminar o comentário surpreso.
A sensação de já ter tocado aquele corpo inteiro a fez delirar nos beijos, provando a si mesmo, com ações, o poder de voltar a tocá-la quando quisesse permitido por tal liberdade.
Tirou as alças do sutiã da namorada, ainda concentrada no beijo continuo e complicado, desabotoando a chave e o eliminando.
Agora Clara entendia que tudo o que passou não foi para se transformar em alguém melhor e sim para tornar-se ela mesmo. Percebeu que seu coração sempre foi e será livre e o mundo despejará toneladas de justificativas por segundo do porquê nada nunca vai funcionar, mas cabe somente a você a coragem de abraçar seu único motivo para ser feliz.
Às vezes não consegue definir o que viu em alguém... é o jeito que te conduz a um lugar onde só tem acesso com ela. O lugar mais ideal dentro de si. O lugar mais você dentro de si. Uma “alma gêmea” é aquele ser que te faz pensar e agir o mais você possível. Afinal, fomos quem somos por muitos motivos e talvez nunca saibamos a maioria, mas essa pessoa é com certeza um.
Desceu os beijos dos seios para a barriga, mordendo os ossos do tórax. Beijava os pedaços de pele como se fosse a boca da artista, experimentando o singular gosto de cada parte do corpo.
Marina mantinha os olhos fechados, negando o sentido objetivo da visão e permitindo-se só sentir, cada toque parecendo ainda mais intenso.
Quando jovem, Clara percebeu que as melhores conversas aconteciam de madrugada, não necessariamente pelo horário mas sim pois ser praticamente o único tempo que eram só as duas. As duas mais as duas. Quanto maior o nível da droga no sangue, mais sincera são as palavras e mais precisos são seus significados. Já tentou o açúcar, mas sua cabeça logo percebeu que a faria mais mal, física e psicologicamente, do que bem. Tentou beber, achava divertido mas não se identificava. Tentou fumar, a fumaça era bonita e sexy mas a sensação era desconfortável. E nunca de fato esqueceu seu verdadeiro vício: Marina. Um vício nunca é saudável, mas Marina, sabendo de seu efeito sobre Clara, o administrava para ser. Sempre soube, ouvindo o que a outra não dizia.
Clara levantou o rosto por um momento e Marina quase abriu os olhos, pronta para reclamar em nome da tensão cada mais forte e irritante instalada no ventre. Começou a levantar, mas voltou a cair ao sentir os lábios se fechando em seu clitóris.
Os gemidos de Marina eram os estímulos externos que motivavam a intensidade progressiva das ações. Considerava o gosto peculiar um dos tópicos da sua definição particular de felicidade e perfeição.
A artista puxava a cabeça da carioca para impossivelmente perto do lugar de especifico prazer e esses eram os sinais de que o mapeamento por exploração estava de fato correto. A língua a penetrou como se preparasse o território. Arqueou as costas no colchão ao sentir as lambidas internas donas de tamanho prazer. A sensação diferentemente maravilhosa lhe tomou todo o cérebro, marcando uma anota em algum lugar para depois comentar.
As mãos morenas seguravam o osso pélvico com firmeza, ajudando na profundidade e aproveitando para arranhar as coxas de leve, os riscos vermelhos saltando quase instantaneamente.
Conduziu Marina até o limite do precipício, usando os gemidos como guia. Com um ultimo beijo mais forte, deixou a área e se arrastou até o rosto.
– Volta pra lá. – reclamou, os olhos indignados.
– Não, faz em mim primeiro. – riu. – Se não você fica com preguiça e dorme.
Marina acordou com braços ao seu redor, sentindo a boca da namorada encostada na tatuagem de estrela em sua nuca. Deixou a mente vagar antes de virar-se no eixo e acordá-la.
Tentou ser bem humorada sem ignorar o fato de hoje ser um dia tenso, beijando seu rosto com ternura ao receber gemidos de insatisfação em resposta. Brincou com a noite de sexo e a assistiu reprimir o riso, voltando a beijar-lhe o pescoço sem segundas intenções.
Clara sabia de seu compromisso mas tentou ignorar o máximo possível, até a artista ser obrigada a passar por cima da hesitação e finalmente comentar.
Abriu os olhos, encarando o rosto já quase totalmente desperto. A pouca luz invadia pelas brechas da cortina pesada, sendo o bastante para a boa iluminação do quarto. Tinha o rosto sem cor e os cílios pesados, as pernas enroladas nas suas enquanto compartilhavam o mesmo lençol.
Respirou fundo e Marina tentou não mostrar a surpresa pelo olhar decidido que conseguiu identificar. Beijou sua bochecha e levantou, expondo o corpo moreno numa caminhada até o banheiro.
Chegaram ao prédio da família de mãos dadas e Marina parou poucos metros do porteiro distraído com o jornal.
– Quer... – ameaçou soltar o contato mas Clara segurou com mais força. – Sua mãe pode desconfiar de alguma coisa.
– Essa é a intenção. – respondeu.
Não esperou a reação surpresa da artista, sabendo que viria, e deu bom dia para o senhor já de idade que a viu crescer.
Era uma vista a se acostumar, o porteiro pensou as observando de longe. Já havia as visto juntas outras vezes, percebendo uma possível reaproximação depois de todo o mistério da separação, mas o estranhamento veio exatamente por não parecer as duas adolescentes que um dia foram.
As portas do elevador abriram e Clara respirou fundo. Era a primeira vez que tocaria no assunto desde o... acidente. Sentiu dor ao ver o número de seu andar, mesmo não havendo lembranças muito vivas daquele dia. A consciência tem esse poder de apagar espontaneamente momentos autodestrutivos, sobrando só uma sensação agonizante no estômago. Conseguia pontuar seus exatos passos naquela noite, mas era como visse a cena de fora do corpo.
Foi gentilmente puxada por Marina para dentro do apartamento que cresceu e o cheiro de massa despertou uma leve fome que não resistiu ao lembrar-se do exato porquê de estar aqui.
Chica sabia que não havia espaço para brincadeiras no sumiço da filha, e provavelmente não saberia o que fazer se não fosse aquele sorriso lhe encarando.
Virou-se e, finalmente, lá estava ela. A franja de lado e a calça boca de sino, o body colado expondo as costas. E ao seu lado, Marina em um longo vestido cinza com aberturas nas laterais. Observou a falta de espaço entre as duas e os dedos encaixados.
– Oi, mãe. – Clara sorriu. – Tava com saudade.
...
Clara manteve o contato constante com Marina após o almoço, puxando os dedos entrelaçados para seu colo ao sentar no sofá.
Helena não sabia que Clara estava preparada para tais movimentos na frente da mãe e Felipe menos ainda. A desconfiança de Chica era perceptível, mas o assunto principal, obviamente, não era esse.
No momento que a artista levantou-se apressada, correndo atrás de Felipe, Clara não evitou o pesar na respiração.
Marina era sua coragem.
– Felipe! – gritava pelo corredor.
– Vou achar aquele desgraçado! – corria para as escadas.
A mais nova escondeu o rosto nas mãos, sentindo o abraço lateral da irmã.
Chica continuou estática. Impossível. Cadu não seria capaz disso.
Clara perdeu o filho.
Concentrou-se para engolir o choro. Esse tempo isolada a fez repensar valores e decidiu acreditar que o bebê não nasceu por um bem maior. Percebeu que só o choque da morte de um filho seria capaz de abrir seus olhos de tal maneira. A morte de Ivan foi nobre, então não via muita justificativa no choro, mas as vezes sucumbia a dor.
Sentiu a mãe sentar ao lado, acariciando sua coxa. Sabia que estava sem palavras. Simplesmente não havia o que dizer.
– Filha... – tentou mas parou.
– Cadê a Marina? – conseguiu proferir em um sussurro.
– Ela foi atrás do...
– Aquele filho da puta, covarde, lazarento, cria duma cachorra... – Felipe entrou xingando alto, o rosto vermelho e os olhos saltados de raiva.
– Cala a boca, menino! – a voz firme de Marina surgiu atrás e Clara ergueu o rosto. – Tu é louco? Quer que o prédio inteiro venha bater na nossa porta?
Pegou todo o ar que seus pulmões comportavam, apontando o dedo para amiga, pronto para responder com todas as palavras que não se importava. Mas precisava se importar. Era sua irmãzinha. Trancou a garganta, ficando ainda mais vermelho pelo choro contido.
Eram um família tão feliz que parecia mentira. Nunca imaginou a possibilidade de algo assim acontecer.
– Ele não tava em casa? – Helena perguntou.
– Não. – Marina respondeu, encarando o amigo por mais alguns segundos antes de virar para as mulheres no sofá. – Mas deixou isso.
Mostrou a folha de caderno que conseguiu pegar antes de Felipe.
– Lê. – Clara pediu.
– Tem certeza?
– Sim.
Respirou fundo, focando a letra corrida carregada de pressa e desespero. A interpretação da imagem deixava claro, pelo menos a Marina, os problemas mentais do homem julgado.
– Clara – começou. –, sei que isso não muda muita coisa, mas peço desculpa em nome de todos os santos. Entendi tudo e uma prova disso é eu admitindo minha covardia. Não conseguiria olhar em seus olhos depois de tudo que te fiz... depois de tudo que nos fiz. Te acusar de uma culpa minha me fez o maior hipócrita do mundo e tenho vergonha disso.
“Pedir perdão não faz nenhuma diferença quando se trata do nosso filho. Assumir toda a responsabilidade também não, mas preciso tentar. Perdão, Clara, por não conseguir entender minha própria mente; perdão, Chica, por fazer tua filha sofrer mesmo que inconscientemente todo esse tempo; perdão, Helena, por me esconder todas as vezes que se aproximava; perdão, Felipe, por não estar ai parar receber os socos merecidos; e perdão, Marina, por te julgar.”
Marina pausou, levantando o olhar para a namorada como se pedisse permissão. Não esperava que se abrisse com a mãe no mesmo dia da narração da história, mas obedeceu o aceno positivo da cabeça.
– Percebi que a arma dos que não entendem é o julgamento. Julgava porque não entendia e agora entendo. – continuava. – Quando Marina voltou a Londres, uma década atrás, sabia que tinha uma chance e espero não culpe um rapaz apaixonado por tentar. Mas hoje vejo a obviedade do final. Por mais que me doa admitir: vocês merecem ficar juntas. Sei que você não lidaria assim com a situação se não fosse Marina. Sei que sua família não teria uma certa misericórdia de mim se não fosse Marina. Então, obrigada, Marina.
“Eu fugi de medo e vergonha, e prometo nunca mais aparecer. Vendi meu bistrô para Laerte e desapareci. Aqui está minha assinatura aceitando o divorcio de boa vontade e lhe dando toda a razão perante o juiz. Não espero seu perdão ou compaixão, pois sei não ser merecedor, mas agora finalmente entendo o amor que Marina sustentou todo esse tempo. Um amor que não prende e sim liberta. Aceito sua ida porque te amo. Com todas as forças.”
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