Notas iniciais
Finale

Chica desceu do taxi, um pouco distraída demais com tudo a sua volta para ajudar Ricardo a pegar as malas.

Agora entendia de fato as reclamações da filha para com o clima pois realmente era muito diferente. O sol forte do Rio de Janeiro era substituído pelos leves raios que, de vez em quando, saiam de trás das nuvens nubladas para esquentar um pouco a encantadora, mesmo que gelidamente desconfortável, neve.

Era outro mundo, Marina já havia avisado, principalmente nessa época. Londres comemora o Natal à mais de 1000 anos e talvez a presença da neve inspire as pessoas a decorarem as casas. Luzes por todos os lados, bonecos e placas com mensagens positivas nas quais Chica não entendia muito bem mas Ricardo, como um bom marido e companheiro de viagem, a ajudava entre os selinhos que o ambiente aconchegante inspirava.

Marina abriu a porta com um sorriso, já esperando o abraço quente da mulher que ajudou a criá-la. Os cabelos escuros emolduravam o mesmo rosto que ainda parecia infantil para Chica, os dentes brancos e retos iluminando mais que as luzes coloridas penduradas na porta de pinho.

Era possível ouvir crianças brincando e adultos conversando por cima de uma musica instrumental, mas Chica estava ocupada demais tentando controlar as próprias emoções.

– Engraçado chegarem agora – ajudou a puxar uma mala de rodinha para dentro da casa aquecida. –, estamos falando de vocês.

– E cadê todo mundo? – a mais velha limpou as lágrimas ainda não derrubadas.

– Na sala. – os guiava pelo pequeno hall. – Amor, dona Francisca chegou.

Pensou que não poderia sentir-se mais feliz, até entrar na sala da lareira. Por um momento entendeu a necessidade de tirar foto de momentos, que Marina tinha desde sempre.

Felipe e Virgílio conversavam perto do fogo, vendo as fotografias no meio, das pinturas nas paredes. Silvia e Helena riam sentadas no sofá, bebericando o chá quente e alternando o olhar entre as crianças no chão e as bolachas na mesa de centro. Juliana, Bia e Luiza no tapete, brincando com brinquedos não conhecidos junto a outra menininha de cabelos castanhos e olhos ligeiramente puxados.

Nem conseguiu terminar de cumprimentar todos quando escutou a filha mais nova chamar.

Clara saiu da cozinha, Ricardo ao seu lado já com uma xícara nas mãos, ajeitando o cabelo impecável que fazia par com o rosto bem cuidado e radiante. Abriu os olhos se aproximando em passos lentos e permitiu que a mãe enterrasse a cabeça em seu pescoço.

– Mãe, nossa, que saudade. – sussurrou.

– Vocês me abandonam e depois reclamam de saudade. – fingiu indiferença, segurando o rosto da filha entre as mãos. – Como você ta linda.

– Acabei de voltar do centro – justificou o estado um pouco arrumado demais para ficar em casa. –, já que precisávamos de algumas coisas pra ceia de amanhã.

– Melanie, não percebeu que a vovó chegou? – Marina chamou e a garotinha abriu os olhos surpresos, levantando-se com rapidez quando o olhar encontrou o de Chica.

– Grandma! – a voz aguda ecoou pela casa de tamanho médio, os pequenos pés descalços correndo no chão de madeira escura em direção aos braços abertos da Fernandes. – A mãe disse que você ia chegar ontem.

As diferenças evolutivas da criança saltaram aos olhos de Chica. O cabelo bem mais comprido e provavelmente já cortado, as mãos gordinhas já coordenadas, mesmos olhos orientais um pouco mais abertos e a boca cheia de palavras que lembrava ser meros murmúrios da ultima vez.

– E a mãe é a...

– Vária, mas geralmente sou eu. – Clara passou a mão na cabeça da filha. – A Marina é a mamãe porque, aparentemente, sou a mais chata.

– É que eu não sei brigar. – Marina passou o braço pelo quadril da esposa, puxando-a mais para seu lado. – Estou mais pra amiga que mãe.

Chica observou a espontaneidade do gesto. Demorou um tempo para se acostumar com a visão, mas a compreensão eventualmente veio.

Antes de a filha assumir o relacionamento com Marina, pensava ser uma pessoa mente aberta, mas percebeu não ser tanto assim. Não tinha nada que poderia fazer para com as escolhas da filha, principalmente naquela situação horrível. Não era como se não aprovasse, mas com certeza houve um estranhamento que antigamente não admitia mas hoje, já bem mais acostumada e entendida, conseguia até externalizar que de fato existia uma hesitação.

No momento em que Clara explicou tudo o que aconteceu com Cadu, uma das poucas coisas que conseguiu surgir na ausência de pensamento, devido ao choque, foi que talvez nunca mais confiaria na próxima pessoa que a filha escolhesse, se é que haveria alguém. Mas descobrir logo em seguida que, além de já ter escolhido, esse alguém era Marina foi um choque. Por um momento viu Marina como qualquer outra mulher. Clara havia escolhido uma mulher. E também demorou algum tempo para perceber que não era simplesmente uma mulher e sim Marina.

– Amiga perfeita já que tem a mesma idade mental. – Clara apoiou seu peso no ombro da artista.

Clara fingia reclamar mas Marina era uma ótima mãe. Era sim a rotulada por Melanie como a mais brincalhona, mas Clara percebia que a criatividade de Marina a permitia entender a mente inconseqüente da filha, conseguindo mascarar todos os deveres com brincadeiras e jogos. Quando precisava ser dura, nunca hesitou, por vezes sendo até um pouco mais que o necessário.

– Ia mesmo chegar ontem – Chica continuou, voltando a atenção para a neta. –, mas o vôo atrasou então decidimos pegar o de hoje. Não ta brava, né?

– Não, não. – deu de ombros. – O vovô ainda não chegou, também.

– Ele vem? – Chica perguntou à Marina, que assentiu ainda sorrindo. – Nossa, faz muito tempo que não aparece lá em casa.

– Quer brincar comigo, vó? – Melanie convidou e Chica a colocou no chão.

– Vai indo que já vou. – sorriu, assistindo a menina sair aos saltos. – Como ela cresceu, meu Deus.

– Nem me fale. – Marina fechou os olhos com pesar.

– Ela fica apavorada. – Clara riu da esposa, não entendendo as questões existências que cercam um comentário sobre o tempo.

– O tempo só me assusta demais. – tentou disfarçar a agonia que o assunto trazia. – Uma hora você ta bem, outra não. De repente.

– Realmente parece que foi, literalmente, ontem que recebemos a autorização para adoção. – a carioca concordou.

– E hoje, de repente, ela já tá toda crescida, adaptada, socializada... – a outra completou, respirando fundo depois de uma ligeira pausa – Enfim – riu, afastando o assunto. –, quer café, chá, alguma coisa?

– Não, não, estou meio ruim do estômago por causa do avião.

– Ah, a pior parte de viajar é o vôo, pra mim. – Marina continuou.

– E por falar em viajar – Chica abriu outro sorriso. –, quando voltam pra casa?

Casa, Clara riu pelo nariz.

Ainda não entendia completamente o conceito de casa que Marina tinha, mas com certeza havia começado a senti-lo. Hoje em dia um quarto de hotel era o bastante para sentir-se em casa, pois Marina e Melanie estavam nele. Certamente passavam mais tempo entre Londres e Rio de Janeiro, mas qualquer lugar servia.

– Então, Marina ta terminando essa temporada aqui e os planos eram voltar e assinar outra no Rio, mas... – Clara pausou.

– Mas? – Chica influenciou, tentando esconder a ligeira tristeza na possibilidade de ficar mais tempo longe da filha.

– Mas acabei recebendo uma proposta praticamente irrecusável aqui e vou pra Ásia no fim do mês que vem. – Marina explicou. – Acho que em dois meses consigo fazer o que realmente preciso fazer lá, depois volto pra terminar e expor em Londres.

– Todas as propostas que recebe são irrecusáveis. – Clara brincou e Chica riu pois conhecia muito bem o gênio dramático da quase filha.

– Não faz piada de mim. – apontou o dedo pra esposa. – Mas essa é uma das viagens que a Mel não pode ir, então a Clara vai precisar ficar de novo.

– Daí to pensando em ir pro Rio, pra senhora me ajudar a cuidar dessa muleca que precisa ser caçada na hora do banho. O que acha? – Clara fingiu sugerir o plano só para ouvir a felicidade na voz da mãe.

– Acho maravilhoso!

O casal riu dos olhos brilhantes da matriarca Fernandes.

– Ei, a senhora não cumprimenta mais ninguém, não? – Helena apareceu ao lado da mãe e Silvia do outro.

– É, a atenção vai só pros netos que nasceram, como assim? – Silvia passou a mão na barriga já aparente.

Clara virou o rosto para Marina, assistindo o sorriso nos lábios sem cor até finalmente perceber estar sendo observada.

– Que foi? – sussurrou por baixo da conversa alta das três mulheres à frente.

A carioca focou aqueles olhos de gato que ainda lhe davam tanto trabalho para resistir, os cabelos um pouco bagunçados que contrastavam com a pele que parecia ficar ainda mais branca nesse clima.

Esticou-se e selou os lábios num beijo simples e rápido.

– Te amo.

– Eu sei.

– Vai pegar a tua filha porque ela ta enchendo o saco do Felipe perto da lareira. – empurrou-a para longe do meio abraço. – De novo.

Agora ela é minha filha.

– Não fui eu que a ensinei puxar o cabelo dos outros.

– Dos outros não – corrigiu, já se afastando. –, só dele.

Essa menina vai dar um trabalho quando for adolescente, Clara concluiu.

FIM

AGRADECIMENTOS

Olá, pessoal, queria agradecer todos que acompanharam a estória, comentando ou não, desde a postagem do primeiro capítulo ou já mais adiantada. Sou extremamente grada por cada comentário, mensagem privada e até mention no twitter, pois são vocês tirando um tempo de suas vidas, a mais do que o preciso para ler a atualização, para me expressar sua opinião.

Agradeço a todas as vozes que escutei escrevendo esta estória porque quem gosta de música sabe o quanto é importante uma playlist na hora de escrever, e, no final, essas músicas acabam formando a soundtrack da obra que dedicou tanto tempo e pensamento.

Às meninas de Budapeste, que me encontraram no twitter, vou agradecer a atenção que me deram mesmo quando ainda não tinha conta. Elas pediram dedicação individual, então vamos lá. Yasmin, o que seria da minha vida sem tu no grupo pra conversar sobre cinema? Cat, você me ensinou muita coisa (se é que me entende). Ju, nossa administradora toda poderosa sempre presente. Karina, te dou a medalha (de tampinha de garrafa) de fã #1 da fanfic , porque tu merece. Fernanda, tu foi a que entendeu 100% da estória e obrigada por inspirar o primeiro beijo Clarina pós-dez-anos. Paty, obrigada, muito mesmo, por abrir o grupo quando fica bêbada (faça mais vezes). Thaisa, eu sei (todos sabemos) que tu não entendeu muita coisa, mas é importante mesmo assim e, só um pedido: parar de espalhar que Sempre Soube vai ter segunda temporada porque não vai. Dani, tu não ta mais no grupo mas simplesmente não dá pra não mencionar, tu me faz rir tanto que é sobrenatural.

Ao restante do twitter agradeço os puxões de orelha e ameaças de morte. Que não me abandonem se eu postar mais estórias.

Agora, por último mas não menos importante, minha amiga do corpo e coração, Graciele. Tu é foda, sabe disso. Obrigada pelas sugestões e por me respeitar acima de tudo. Te amo.

Bem, obrigada a todos, novamente, e nos vemos numa próxima.

Notas finais
@whitelilflowers
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!