Notas iniciais
Ficou um pouco pequeno, mas tá ai.

Perguntava-se por que seus sentimentos pela artista não passaram depois de todos esses anos de tentativas e amizade. Como conseguiu prender-se de tal maneira.

Vanessa observava o movimento das bocas na conversa, Marina com a cabeça nas pernas esticada de Clara e recebendo carinho nos cabelos. Os óculos escuros escondiam os olhos, destacando o sorriso no rosto pálido.

Estavam deitadas na sombra do guarda sol, em uma espécie de cama feita pela junção das espreguiçadeiras. Pareciam em paz, um clima leve e brincalhão.

Fechou os olhos e lembrou da sua época. Saindo de mãos dadas para o centro no final de semana, quando eram só as duas em Londres. As surpresas planejadas uma para a outra, os presentes, gargalhadas de piadas internas e aquela sensação de ser única. Sentia falta da liberdade de puxá-la mais para perto ao detectava um olhar interessado, dos beijos que não precisava justificar e o som da voz lhe dizendo o quanto a amava.

– O que tá fazendo? – ouviu a voz rouca e virou.

O coração de Vanessa falhou uma batida quando focou a mulher. Os cabelos ligeiramente ondulados, a boca vermelha e as roupas roubadas do guarda roupa da artista. Os olhos exibiam a delicadeza da espera, escondendo no piscar as pérolas escuras que lhe observavam.

– N-nada. – gaguejou.

Era impossível não entender o dilema de sua vida depois dessa visão. O porquê de seu fascínio por Flávia já não podia ser evitado pela própria mente.

– Quando vai parar de se torturar? – cruzou os braços ao se aproximar.

Vanessa ergueu um pouco o queixo e Flávia deu um passo para trás pela proximidade, o rosto surpreso.

Virou as costas para a mulher e inevitavelmente focou a janela. A falta de distancia entre o casal era autoexplicativa, mas, por mais que quisesse, não conseguia desviar o olhar. Clara abocanhou o lábio inferior de Marina e Vanessa sentiu a inevitável queda. Os dedos da artista foram para a nuca da carioca e o coração afundou.

– Van... – sentiu a caricia mas não hesitou nem mais um segundo.

Puxou a mão de seu ombro e virou-se para Flávia, passando o braço pela própria cintura.

A fotografa não teve tempo de concluir a frase e foi atacada pelas mãos que prenderam sua boca na de Vanessa. Os sentimentos que recheavam o beijo simplesmente tiraram qualquer reação de resposta.

– Realmente tá me perguntando quais as chances de um agressor de mulheres ganhar uma causa? – Nando riu, tomando um gole do chopp.

– Agressor não é a palavra. – Cadu tentou corrigir.

– Quem agride é agressor. – deu de ombros. – E não estamos falando só de ação física.

– Mas e se, por um acaso – mascarava. –, a mulher for a maior culpada na situação?

– Como assim? – confundiu-se.

– Digo no caso da mulher dar motivos para o marido... bater. – levou o copo até os lábios.

– Não importa se há ou não motivo, a violência é proibida. – pontuou. – O marido ainda seria o errado.

– E se a mulher o der razão?

– O errado ainda seria o marido. – falou óbvio. – Violência não é aceita pelo tribunal quando se trata de desavenças.

As juntas formigavam com a transformação da ansiedade para raiva.

– E você? – recostou-se na cadeira do bar, atuando com perfeição.

– Se eu acho aceitável um marido bater na esposa? – riu alto, achando o assunto absurdo demais para realmente ser discutido.

– Com motivo. – frisou.

– Claro que não, Cadu. – continuou óbvio. – É desumano.

Desumano.

– Então acha esse tipo de cara um monstro. – concluiu com entonação de pergunta.

– Lógico. – respondeu. – Existem uns sem vergonha por ai, mas na maioria, pelo menos eu acho, são doentes.

– Doentes?

– Não acho que realmente percebem o que estão fazendo. – terminou a bebida.

Calou-se.

A dor no corpo aliviou por alguns segundos, mas voltou com toda a força junto com a negação.

Por mais sentido que fizesse, a possibilidade chegava a ser cômica. Não era doente mental, simplesmente impossível.

Despediu-se de Nando e levantou-se.

Não era um monstro... e de fato não era mesmo. Ninguém é um monstro e sim se tornam um, adotando o comportamento contrario ao que todos julgam correto.

A mentalidade do ser humano é movida a justificativas. A religião é a maior arma no mundo exatamente por ser a fonte de porquês que tapam com areia os buracos que a chuva da razão faz no solo do coração, por isso, para a maioria das pessoas, a fé precisa estar em constante manutenção com a ida à igreja. O ser seguro é forte, tendo certeza nas justificativas e formando, portanto, suas conclusões concretas. E o ser inseguro é fraco, pois se enche de culpa. Culpa e medo são as chaves para a manipulação tanto de si mesmo quanto de massas, porque, além de ninguém querer sentir, todos têm medo de ser o culpado.

Cadu acreditava em suas justificativas e não sentia culpa, ou seja, seria imparável se não fossem essas conversas.

A vida em sociedade enterra nas crianças o medo da opinião do próximo. Medo da mudança. Medo do desconhecido. Medo de não ser aceito. Medo de ser julgado. Medo de ser o errado. E por mais que Cadu se sentisse certo, o medo de ser o errado para o mundo existia.

E, como percebeu realmente ser o errado para o externo, fechou os sentidos de comunicação e continuou ignorando qualquer razão que justificasse o que não conseguia acreditar.

Na lei do mundo, pagaria por algo que não se considerava culpado. E se seria julgado como monstro, porque não agir como um?

A iniciativa era gritar com Marina, jogando as palavras engolidas em todas as oportunidades, mas um flash de sangue piscou em suas pálpebras e imaginou como seria quebrar a boneca de porcelana. Sabia que não se conteria no meio da discussão e não via isso como um problema de fato já que seria preso mesmo assim.

Abriu a porta do apartamento e alguém colidiu com seu peito.

O transe era tão profundo que teria passado por cima se não fosse a imagem a sua frente.

– Ju? – foram as últimas palavras antes de ser empurrado para dentro. – O que é isso?

Juliana entrou, trancando a porta com a chave já pendurada.

– Daqui você não sai até eu falar tudo que tá engasgado.

Cadu apoiou-se no sofá para levantar e, mesmo não tendo a intenção de assustar, percebeu que a mulher não se amedrontava com seu tamanho. Mantinha a mão segura na alça da bolsa e o rosto raivoso.

Sentiu a segurança abalar pelo medo de alguém finalmente tocar no assunto, mas não demonstrou. Não foi muito observador dos laços entre Juliana e Clara mas não precisava de muito para entender o companheirismo e carinho que envolvia a relação.

– O Nando sabe de alguma coisa? – ela perguntou.

– Nando? – estranhou. – Não.

– O que estavam conversando?

Algo lhe dizia que essa ciencia de seus passos não vinha de hoje.

– Sobre o trabalho dele. – não mentiu, propriamente.

– Nem precisa ir atrás de um advogado, viu. – riu irônica. – Eu mesmo vou certificar que vá direto pra cadeia.

– Ela... ela vai me denunciar?

– Vou fazer o possível para que sim. – admitiu.

– Tenho o direito de me defender... – rebateu.

– Se defender? Não existe defesa séria pra isso. – interrompeu. – Tem noção do que fez? Você estragou a vida dela.

Ela me coloca na cadeia e eu que estrago sua vida?

Os olhos de Juliana se estreitaram nos segundos de silencio.

– Não pode estar falando sério.

Tentou ignorar o sentimento de estupidez causado pelo tom da mulher.

Pegou ar para continuar o discurso mas parou, parecendo lembra-se de algo.

– Você ainda não sabe...

– Não sei o que?

– Clara perdeu o bebê. – falou sem cerimônia.

Cadu perdeu o chão.

Você matou seu filho. – a voz de Juliana pareceu longe.

Sentiu a visão escurecer e a pressão baixou. Fechou os olhos, abaixando a cabeça para oxigenar o cérebro e a cena veio completa em sua mente. A força usada para segurá-la pelos braços, o rosto molhado de lágrimas...

– Ele tá dentro de mim, Cadu. – lembrou. – Por amor de Deus, é muito perigoso...ainda mais depois do Felipe explicando que a fragilidade do feto é maior devido a minha idade.

Sentiu a culpa.

Clara perdeu o bebê. Uma onda de preocupação o tomou. Não precisava conhecer muito a esposa para identificar a vontade de ser mãe como o maior dos sonhos.

– Você a destruiu, Cadu. – levantou a cabeça. – Queria que tivesse assistido os efeitos de todos esses anos. Deveria dar graças a Deus por Marina estar presente, por que, sinceramente, acho que teria enlouquecido.

– Marina... Marina tá cuidando da Clara?

– Como você nunca conseguiu. – pesou. – Se existe algo mais certo que cadeia, é divorcio.

A dor da palavra trombou o peito. Divorcio. Divorcio para ficar com Marina.

Quis sentir raiva, mas não conseguiu. Acreditava em Juliana. Acreditava que Marina foi a salvação de Clara.

– Na verdade – continuou rindo. –, Marina é a responsável por você ainda estar livre, leve e solto por ai, sentado no bar como se nada tivesse acontecido.

– Não sabia que de fato aconteceu algo... – tentou mas sabia ser em vão.

– Não estava falando do Ivan.

O nome do filho queimou suas orelhas e deixou um soluço escapar.

Perdeu a justificativa.

Juliana ainda queria falar muita coisa. Esfregar um pouco de consciência naquela mente doente. Queria fazê-lo pagar física e psiquicamente, já admitirá a vontade de vingança para Marina, mas essa cena, que previu como o clímax da satisfação, foi tomada um sentimento doce-amargo. Doce por finalmente poder exercer o que queria e amargo por perceber a dor a sua frente.

Foi surpreendida com o sentimento de dó. Tentou retomar sua raiva ao lembrar de seus feitos, mas não conseguiu isentar totalmente a pena que esfriou a temperatura das palavras ainda não cuspidas.

– Espero que isso não seja mais uma de suas peças de teatro. – finalizou e saiu.

Marina passou mais uma imagem no computador em seu colo, anotando a numeração no caderno sem linhas ao lado.

Tentava sintetizar a ideia e achar uma marca especifica que caracterize o trabalho completo, especificando as dicas impessoais, como se não fosse melhor amiga da fotografa, e rascunhando as ideias próprias em uma folha mal cortada.

– Ei – virou-se para Clara na porta do estúdio. –, a Helena já tá indo.

– Mas já? – levantou-se do sofá, colocando os materiais na mesa de centro.

– Não se mexa, Meirelles. – Helena entrou. – Tô sabendo que anda trabalhando pouco e não quero atrapalhar.

As visitas de Clara faziam o tempo de trabalho de Marina.

– Não atrapalha. – sorriu, abraçando a amiga. – Janta com a gente.

– Não, não. – balançou a cabeça. – Preciso voltar pra minha vida, infelizmente.

– Sinto que minha casa é o lugar onde todo mundo se esconde da realidade. – falou. – Todo mundo vem pra cá quando quer fugir.

– Mas é isso mesmo. – Helena riu e puxou o caminho. – Alguém abre pra mim.

– Tem certeza que não quer ficar mais um pouco? – Marina tentou novamente. – A comida já deve estar chegando.

– Hoje é japonesa. – Clara tentou.

– Não, obrigada. – Helena parou na porta.

Virou para despedir-se e não evitou o sorriso.

Sempre viu felicidade na irmã ao se tratar de Cadu.

Marina abriu a porta para a noite nublada.

Com o tempo, todos perceberam que a alegria estava totalmente conectada a do marido e não era considerado um problema. Mas agora era diferente. Não se tratava de Cadu ou Marina e sim de si mesmo.

– Lembra que não tá sozinha. – acariciou os cabelos da irmã.

Piscou duro e respirou fundo.

– Eu sei. – pegou a mão da mais velha. – Avisa a mãe.

– Estarei esperando. – beijou as duas e saiu.

Marina esperou o portão bater para voltar o olhar para a namorada.

– Vamos só fingir que amanhã não vai chegar nunca. – Clara pediu.

– Certo. – deu de ombros como se não fosse nada importante. – E o que quer fazer nesse eterno hoje?

Pegou sua mão e prensou as costas de Marina contra si, abraçando a cintura fina ao apoiar o queixo no ombro descoberto pela blusa larga. Sentia-se cada dia mais estúpida por não ter aceito o convite de dez anos atrás, mudando-se para Londres e tendo isso todos os dias.

– Não vai continuar a revisão das fotos da Flavinha?

– Ah... acho que não. – fingiu pensar, arrepiando-se com a respiração perto do pescoço. – Tô pensando em dormir cedo.

Notas finais
@whitelilflowers