A sensação era vazio. O corpo parecia eco e a alma negra.

Flávia sentou-se a seu lado como uma boa companhia calada enquanto engoliu a vitamina que Vanessa lhe empurrava, concentrando para não sentir o gosto. Sabia que precisava comer algo nem que vomitasse depois.

Vanessa desceu com o copo e sentou-se no sofá, colocando a televisão no mudo para prestar atenção nos ruídos que vez ou outra escapavam do quarto. Tentava disfarçar a preocupação com teatro mas até Clara percebeu o cuidado da ruiva.

Encostou as costas na cabeceira da cama.

Flávia ofereceu-se para ficar ao seu lado, respondendo as maneiras diferentes de perguntar onde Marina estava e Clara deixou explicito a gratidão mas recusou.

Já observou esse quarto de todos os ângulos possíveis, mas dessa vez com certeza era diferente. Estava vestida em seus pijamas, enrolada em seus lençóis, dormindo em seu travesseiro, cheirando ao seu sabonete.

Pensou em como seria mais uma manhã em seu apartamento. Mais uma manhã de mentiras. Mais uma manhã de gravidez. Resistiu ao impulso de levantar-se e correr para o espelho. Achava-se tão linda. Seu marido a achava tão linda.

Esqueceu da gravidez por um momento e, exausta demais para raciocinar, deixou-se sentir. Ele a culpava pelas agressões e, por mais que depois pedisse desculpas choradas, ela acreditava.

Lembrou do sorriso largo de Cadu e sentiu saudade. Saudade de uma época que era verdade e mentira ao mesmo tempo. Duvidava do amor do homem quando, agora, parava para pensar, mas quando se permitia sentir... era tão brutalmente real e simples que a deixava confusa. Ele a amava e isso era certo, o errado estava um pouco bagunçado demais para apontar.

Num movimento inconsciente de olhar, focou a porta aberta.

A mulher a observava apoiada do batente, a serenidade sendo exalada como um perfume no meio. Paz e respeito na situação individual a sua frente, paciente o bastante para esperar ser percebida e convidada para adentrar onde talvez ainda não soubesse ser bem vinda.

Os braços cruzados na camisa três quartos verde escuro e marrom, amarrada de maneira que a barriga ficasse ligeiramente exposta, as pernas descobertas pela saia curta de malha e os cabelos soltos emoldurando o rosto adulto da pessoa que conheceu criança.

A visão lhe acariciou. Era o conforto no meio do desconhecido. A corda que auxilia a escalada, como disse Juliana.

Encostou a porta e deixou a mala em qualquer lugar, desabotoando um botão da camisa ao sentar-se.

– Desculpa a demora.

– Onde foi? – perguntou, a voz cansada de quem dormiu dias e não descansou um segundo.

– Na sua mãe.

– Fazer o que? – franziu a testa.

– Dar uma explicada na situação. – respondeu. – Se não, vira uma confusão maior que já é.

– E contou do...

– Ñão falei nada. Só que, por motivos esclarecidos no futuro, tu vai passar um tempo na minha casa.

– Vou?

– E acha que vou te deixar voltar pra aquele apartamento? – disse óbvia.

– E esse cativeiro vai durar quanto tempo? – riu fraco.

– Quanto quiser.

Marina assistiu os olhos piscarem duro, o leve sorriso ainda nos lábios sem cor.

Clara aproximou-se, sentando em suas coxas e apoiando a cabeça no ombro. Um braço lhe envolveu o quadril enquanto os dedos do outro acariciavam as pernas morenas.

Tão natural.

Tão familiar.

– E o que eles disseram? – continuou.

– Tua mãe tá preocupada – foi sincera. –, porém controlada. Disse que vou dar noticias constantes.

– E aquela mala?

– Algumas roupas suas. – explicou. – Você não sobreviveria com as minhas por muito tempo.

– Magrela do jeito que é, não sobreviveria mesmo.

– Ninguém nunca reclamou – fingiu indignação. –, inclusive você.

Fechou os olhos sentindo-se pronta para dormir novamente, relaxada o bastante para simplesmente deixar o cansaço ganhar.

Não era como ter 18 anos novamente. E sim melhor. Pois aquela época já passou e isso não se parecia nada com viver no passado. Não era uma lembrança ou outro modo de reviver o tempo, simplesmente era o presente. Um presente que se privou de imaginar por mais de dez anos e estava de fato acontecendo. Uma surpresa no óbvio.

– Eu te amo tanto. – Clara sussurrou.

Ouviu um bumbar estranho e quase abriu os olhos, mas percebeu ser o coração acelerado a sua frente. Roçou a bochecha na pele que estava deitada encima, sentindo o arrepio involuntário, e esse, mais do que outro momento, foi marcado por uma tomada de decisão concreta. Sentir as reações era com certeza melhor que ouvir ou observá-las.

– Eu sei.

– Me aceita de volta? – não tinha entonação de pergunta.

Ambas já sabiam que Clara não sairia de lá. Esse “passar um tempo na casa de Marina” era tão autoexplicativo em suas mentes que até hesitou explicar em tais palavras para Chica.

– Que pergunta estúpida.

E aquilo a fez mais forte. A fez construir novas esperanças que não cobririam as anteriores mas consolariam. Construir outros planos e expectativas, ignorando o fato de ter que lidar com as conseqüências da vida anterior.

Sabia que ainda choraria muito e dormiria pouco, mas se permitiu viver o agora e sentir uma pontada de felicidade que relampejou na escuridão onde se encontrou jogada. Não lembrava de ter sido seqüestrada, percorrendo aquele caminho gigantesco no qual ouve respiração e juras de consciência. Só se descobriu ali, em um breu tão consumidor de energias internas que afetada as funcionalidades externas. Marina a encontrou cega e, desconfiando das afirmações carregadas de tanta certeza, fazia de tudo para manter a vela acesa no quarto escuro. E agora a chama se firmou, pois Clara desistiu de continuar apagando.

...

– Entra, nossa, desculpa a demora. – Marina deu passagem, já fechando a porta.

– Magina. – Juliana respondeu óbvia. – De pijama ainda?

Marina abaixou os olhos para a própria roupa.

– Isso não é pijama! – riu ajeitando a gola abotoada da camisa social branca que lhe servia de vestido.

– Parece uma camisa do seu pai.

– Entra logo que você não entende nada de moda. – apontou para o sofá – Tirei um tempinho pra ver umas coisas no estúdio que a Vanessa separou com urgência, sabe. Aproveitar que ela dormiu.

– Tá dormindo?

– Então, ia te avisar por mensagem mas acabei esquecendo. – sentou em estilo indiano ao lado da outra.

– É, mas acho até melhor nós conversarmos sozinhas sobre isso. – começou. – Pelo menos uma prévia.

– Falou com Helena?

– Sim e já vou avisando que não sou você. – balançou a cabeça e Marina riu pelo nariz. – Não consigo ser indireta e falei tudo mesmo. Com jeito, lógico, mas exatamente como aconteceu.

– Com a Helena não me preocupo tanto. – colocou o cotovelo nas costas do sofá, apoiando a cabeça na mão.

– Mas nem preciso dizer que ficou chocada.

– Imagino.

– Quando a ficha dela finalmente caiu, quase ajudei a espancá-lo .

– Ju! – a artista repreendeu mas não segurou outra risada. – Não brinca com essas coisas.

– E quando ele apareceu no apartamento da Chica com um buque. – continuou os comentários. – No dia que você foi explicar tudo, inclusive. Me subiu uma raiva.

– Lembro de ter o visto. – admitiu.

– Ele é muito esperto, Marina. – Juliana estreitou os olhos. – Não consegui ficar muito, mas percebi que Helena ficou incomodada desde ai, por isso falei que tínhamos de contar logo.

– Incomodada?

– Alerta. – esclareceu. – Todo mundo estranhou ele também não saber o que aconteceu com a Clara e a Helena não é besta. Não sei se alguém mais notou, mas ficou desconfiada.

– Deve ter achado improvável mas considerou a possibilidade devido as circunstancias. – deduziu, conhecendo a amiga.

– Foi exatamente isso que falou. – concordou. – Ficou agitada depois do choque, porque ninguém nunca imaginou que o Cadu, um rapaz tão direito, faria isso. Só que uma hora tive de jogar a bomba do Ivan.

– Nossa, nem me fale. – fechou os olhos. – Quando vi o estado da Clara na primeira noite... já comecei a pensar nos recursos que precisaria pra tratar depressão.

– Acha que ela corre o risco?

– Lógico que corre. – respondeu óbvia. – E minha preocupação só aumentando com ela não querendo sair da cama. Já não comia, empurrava as vitaminas improvisadas da Vanessa, não falava, não demonstrava nada, não se expressava. Só ficava lá, encolhida do meu lado.

– Você não fez nada nesse tempo, presumo.

– Pouquíssima coisa no estúdio. – admitiu. – Não que esteja reclamando, nem a Vanessa, que é uma chata, consegue reclamar disso mas tem tomado todo o meu tempo.

– E qual a situação dela atualmente?

– Ah, começou a mostrar uns sinais melhores desde o primeiro almoço fora do quarto. – contou. – Tudo bem que demorou um pouco pra conseguir arrastá-la de lá, mas pedi pra montarem uma mesa linda perto da piscina. Sabia que não iríamos comer nem a metade, mas achei que a visão a faria bem.

– E fez?

– Acho que sim. – respirou fundo. – Hoje mesmo pediu pra comer café da manhã na hora do almoço naquele mesmo lugar. Perto dos choros constantes que anda tendo... interpreto como uma coisa maravilhosa.

– Mas e vocês? – Juliana não conteve um sorriso curioso.

– O que exatamente quer dizer com isso? – Marina tentou dar seriedade a pergunta, mas a expressão a sua frente era impagável.

– Sabe muito bem o que quero dizer.

– Estamos bem. – sorriu e Juliana entendeu muita coisa naquele simples gesto. – Não acho que seja o momento ideal para discutirmos isso propriamente, mesmo não tendo mais nada pra conversar.

– Já conversaram sobre isso?

– Sim... – mordeu o dedo. – Vejo uma nova Clara, sabe. Por trás de toda essa dor e angustia... ela tá diferente.

– Um diferente bom?

– O diferente necessário para mudar tudo.

– Mas ela já comentou algo?

Marina voltou aos dias passados, lembrando dos momentos como se fossem fotografias guardadas em seu arquivo. Não havia um mero olhar que não retratasse algum tipo de emoção detectável. Até na falta de reação, via a dor e necessidade de tempo.

Depois de tudo, palavras viraram um detalhe, mas não chegava faltar.

Entre os horríveis pesadelos, Clara acordava no meio da noite, desesperada, chorando por Marina como se estivesse correndo atrás de um avião. No momento que abria os olhos e se deparava com a mulher dez anos mais velha ao seu lado, só conseguia abraçá-la chutando as palavras presas por talvez anos. Tudo o que Marina podia fazer era ouvir e se manter presente.

Por mais juntas que estivessem, as dificuldades só começaram. Marina sabia que sua presença era um alivio para Clara, mas, a partir do momento que o drama com Cadu fosse resolvido, precisariam se concentrar em como contariam da possível relação para Chica e família. E essa era uma situação que pesava na bagagem recente de Clara.

– Ju? – ambas viraram a atenção para o corredor.

Levantou na imagem da sobrinha de olhos pequenos e cabelo preso, a voz baixa e uma roupa larga não conhecida. Não hesitou em envolvê-la em um abraço que expressava toda a saudade e luto.

Fechou os olhos e prendeu o choro ao sentir tudo o que a tia queria dizer. Marina a contou sobre as investigações e o quanto acabou inevitavelmente se apegando e agora considerava Juliana uma amiga. Não pensaria em pessoa melhor para abrir as visitas que um dia viriam.

– E como anda a minha querida? – Juliana pegou entre as mãos o rosto de aparência pouco saudável.

– Viva. – os olhos marejaram mas voltou a se concentrar. Atualmente não ficava a vontade chorando na frente de alguém que não fosse Marina. – Conversando sobre o que? – continuou. – Espero não ser sobre mim porque não agüento mais esse assunto.

– Não, não. – Juliana riu, voltando ao lugar e batendo na própria bolsa. – Na verdade dona Chica mandou te trazer um pão caseiro.

Virou-se para a outra ainda sentada do sofá, assistindo um sorriso de boas vindas abrir no rosto iluminado.

– Que roupa é essa, Marina?

O sorriso da artista se desfez e a risada de Juliana ecoou.

– Desisto dessa família. – balançou a cabeça inconformada.

Esses tempos foram solitários demais para considerar algo antes de agir, então simplesmente sentou no colo de Marina.

– Não tô reclamando, mas... – tentou.

Eram namoradas, a tia concluiu.

Assistiu Clara apoiar as costas no encosto do sofá, sentada nas pernas cruzadas de Marina enquanto recebia um delicado carinho dos dedos pálidos de pianista na coxa exposta.

– Mas nada. – cortou fingindo indignação. – Não me afeto por leigos do assunto.

A carioca ajeitou a franja da artista, roçando os dedos pela bochecha até despencar do queixo, voltando a atenção para Juliana.

– Eles têm alguma ideia do que tá acontecendo?

– Não. – Juliana negou com a cabeça. – Só a Helena sabe.

– Vocês contaram?

– Achamos que ela seria um bom começo. – Marina comentou.

– E... – a mais velha hesitou. – já sabe o que fazer com Cadu?

Marina voltou o olhar para a morena.

Não chegou a conversar com Juliana sobre isso e o tópico não seria bom de se tocar em um momento tão fluido como esse, apesar do assunto. Apertou um pouco mais a caricia nas pernas e Clara soube o que quis dizer. Marina sempre a isolou de qualquer pressão e agora não seria diferente.

– Divorcio é óbvio. – começou.

Denunciar é óbvio. – a tia corrigiu.

– Não... não sei... – abaixou os olhos, focando o toque na coxa.

– Como assim? – confundiu-se. – Só não fui à polícia até agora porque a Marina fica insistindo...

– Que o assunto não é nosso. – a artista cortou, o tom amigável porém firme. – Quem vai decidir é a Clara e mais ninguém.

Às vezes Clara gostaria que alguém tomasse as decisões, assim talvez teria a sensação de menos responsabilidade, mas sabia não ser certo e via todo o esforço de Marina para desenvolver tudo o mais eticamente possível.

Juliana pegou ar para falar, mas o olhar atento de Marina a parou. Soltou em um suspiro, engolindo toda a dissertação pronta.

– Tem razão. – fingiu conformismo. – Mas, na minha opinião – frisou. –, ele precisa pagar.

...

Não sabia quando o choro começou, mas, ao acordar da consciência, estava encolhido no chão. A sala escura só não era um retrato perfeito da situação interna porque não havia cacos no chão.

Mais de uma semana e nem uma mera noticia.

Impossível estar mais confuso.

Sua cabeça cansou de dar voltas no quarteirão e decidiu rodar o mundo, mas o mais longe que conseguiu chegar foi naquela casa em Santa Tereza. Os abraços da artista envolvendo a esposa com toda a intensidade que nem percebia escapar.

Cobriu a face com as grandes mãos, sufocando os soluços que faziam questão de não quebrar o silêncio. Não odiava Marina, nunca odiou, mas a raiva e medo congruentes ao nome eram inconscientes. Só sabia sentir. Queria ter conseguido tratá-la normal no dia de seu casamento, como mais uma simples pessoa no salão, mas o medo era maior que a raiva, assim como agora. E sempre que tais momentos de medo atacavam, ele, por algum motivo, descobria-se temendo a si mesmo.

A falta de explicação para as emoções e seus reflexos em ações o guiava à loucura.

Lembrou da expressão de Helena. Ela sabia e a falta de falas em sua presença era a confirmação. Ele sentava, ela levantava. Ele entrava, ela saia. Juliana. A cada frase pronunciada, não existia uma palavra que não o atingisse diferente. Enquanto Helena evitava olhares, Juliana o encarava com todas as provas do mundo. E nunca imaginaria que o motivo de já não estar atrás das grades era o nome que tanto lhe assombrava.

Notas finais
@whitelilflowers