Sempre Soube
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Todo ano Marina vinha passar suas férias de verão na casa de Clara enquanto o pai continuava a viajar a negócios. Sentia falta de Diogo em sua vida, mas já estava tão acostumada a sua ausência que talvez estranharia a presença. A rotina da menina Meirelles era a linha reta existente entre o colégio interno em Londres e a casa dos Fernandes no Rio de Janeiro, com direito a alguns dias no final do ano para passar com o pai, onde tiravam as noites para assistir filmes ou jogar baralho, sempre acompanhados de umas ótimas gargalhadas.
Foi bonito assistir a amizade de Clara e Marina se desenvolver. Lindo e até... curioso. A ligação entre elas era sólida, ambas sabiam, já que sentiam quase fisicamente esse laco as apertarem cada vez mais. Os anos se passavam e elas sempre trocavam as atividades, sempre crescendo e amadurecendo a relação em um ritmo de melhores amigas.
Mesmo longe, elas estavam em contado. Sempre atualizando uma a outra com novidades e pensamentos aleatórios, quando podiam.
Desde a primeira vez que se conheceram, Marina sempre chegava no ultimo dia de aula de Clara, o que a fazia acordar quase duas horas antes do normal, tomada por ansiedade, tentando se concentrar o máximo possível na aula, com a impressão de que quanto mais ocupada se manter, mais rápido o tempo passava.
– E aí? – Clara perguntou, fechando a porta do carro após entrar.
– E aí o que? – Ricardo sorriu, sabendo exatamente do que a menina falava.
– Não se faça de desentendido. – rolou os olhos. – A Marina. Chegou?
– Chegou, Clara, chegou. – Ricardo deu partida, ainda sorrindo. Tinha sorte que a enteada se deu bem com a prima, já que Marina passava tanto tempo com eles. – Tá lá com a sua mãe, já. O voo deu uma atrasada mas nada preocupante.
Queria perguntar se Marina estava diferente, o que poderia ter mudado, o que ele tinha para comentar, mas, por algum motivo, teve a impressão que soaria estranho. Ricardo daria risada se Clara de fato fizesse tais perguntas, mas ela era parada por essa sensação que já havia lhe atingido umas poucas vezes antes, ao pensar na amiga.
Clara correu quando o carro finalmente estacionou na garagem, ignorando as piadinhas de Felipe. E lá estava ela.
A menina de 12 anos ligeiramente mais alta que a estatura normal para tal faixa etária, os cabelos presos em um cabo de cavalo e um enorme sorriso nos lábios, mostrando o aparelho Damon System ainda colado nos dentes.
Uma se jogou contra a outra e Chica só conseguiu rir. Já estava acostumada com a cena, mas nunca perdia aquela pontinha de surpresa.
– Clarinha. – ouviu a voz soprada de Marina em sua orelha. – Que saudade horrível.
– Nem me fala. – respondeu, fechando os olhos.
Todo abraço de boas vindas era banhado nessa sensação de ganho misturado com perda, já que Clara não conseguia evitar de lembrar que o abraço de despedida chegaria.
– Tudo bem que vocês são, tipo, a mesma pessoa – Helena entrou na sala, fazendo as duas se separarem. –, mas eu gostaria de dar oi pra Marina também.
– Oi, Helena. – Marina sorriu, abraçando a colega. – Como tá? Preparados pra me aguentar mais três meses da sua vida?
– Ah, sortuda é você que tem três meses seguidos de férias. – Felipe sorriu brincalhão.
– Mas, em compensação, eu moro em uma escola. – Marina desafiou.
– É... – o menino pensou. – Não acho que isso daria certo pra mim.
Marina riu, dando um soco de brincadeira no ombro de Felipe. Não era como se ela tivesse essa possibilidade de “não dar certo”. Tinha que dar, não tinha escolha.
Marina voltou o olhar para Clara, que abriu ainda mais o sorriso.
– Esse seu uniforme continua cafona. – Marina comentou, beliscando a camiseta amarela e preta da amiga.
– Me deixa em paz. – Clara riu, batendo na mão da amiga. – Já comeu alguma coisa?
– Lógico que não! – falou obviamente. – Segurei a fome pra comer com vocês, como sempre, poxa. Não é todo dia que eu consigo comer essa comida maravilhosa da tia Chica.
Chica riu, colocando a panela quente na mesa.
– É ótimo ouvir isso, por que eu fiz seu prato preferido, como sempre. – frisou a ultima parte, fazendo Marina fingir-se de envergonhada.
– Como anda o macarrão de boas vindas? – Ricardo entrou na cozinha como quem segue o cheiro.
– Pronto. – anunciou Chica. – Podem comer. Vamos ver se dou uma engordada nessas pernas magras aí. – apontou para as pernas expostas de Marina. – Nem parece brasileira assim.
A primeira noite era a mais cheia de nada, no sentido de “festa do pijama”. Marina sempre ficava com sono muito cedo, pelo cansaço da viagem, e Clara fazia questão de deitar junto, assim conseguia mais uns minutos das conversas sem sentido que tanto amava.
– Só de pensar – Marina bocejou no meio da frase. – que esses três meses voam... já dá até uma desaminada, né?
Clara assentiu quieta, mas logo cortou o assunto. Pensar que uma hora iria acabar logo quando nem começou era sofrer antecipadamente durante sua época preferida do ano.
– Me conta como andam as coisas lá. – Clara pediu.
Marina fechou os olhos por completo, apoiando as mãos na barriga.
– Normal. – respondeu generalizando, tentando lembrar dos detalhes. – Ah, me mudaram de quarto na escola.
– Quando? No começo do ano?
– É. – afirmou. – Minha nova colega de quarto é brasileira também. Os pais dela pediram para colocá-la com outra. Não sei exatamente o motivo... mas acho que ela não fala inglês muito bem. Só vamos ter aulas juntas no segundo semestre. Chama Vanessa.
Clara virou do lado, focando Marina. As bochechas infantis ainda estavam lá, marcando a pouca idade, a pele branca parecia ainda mais pálida pelo cair da noite e os cabelos formavam uma bagunça bonita no travesseiro.
– Obrigada pela cama. – Clara agradeceu brincalhona e Marina riu pelo nariz, as duas já abobalhadas de sono.
Diogo tinha mandado entregar três camas de casal na casa do sobrinho a alguns meses, uma para o próprio Ricardo, uma para Helena e outra para Clara, aproveitando, também, e seguindo o conselho de Marina para comprar um vídeo-game para Felipe.
– Meu pai gosta de fazer essas coisas. – respirou fundo, deixando a imagem de Diogo tomar sua mente cansada demais para afastar. – Estou com saudade. – admitiu.
– Não conseguiu vê-lo antes de vir pra cá? – Clara perguntou, triste.
– Não. – negou simplesmente. – Tivemos uma conversa de duas horas no telefone, mas ele não pode voar pra casa.
Clara não sabia como consolar a amiga quando se tratava desse tipo de problema. Sempre teve a mãe muito presente e Ricardo era um super pai.
– Mas tudo bem. – Marina terminou, afastando o pensamento. – Não é como se estivesse reclamando, também. Se ele diz que não pode é por que não pode mesmo.
– Isso mesmo. – concordou, baseando a resposta na impressão que Ricardo lhe dava do tio. – Ele te ama muito.
– Eu sei. – Marina sorriu, abrindo os olhos e virando de lado para encarar Clara de volta. – Tenho mais uma coisa pra te falar.
Clara se confundiu, surpresa diante do sorriso fraco da amiga.
– O que? – perguntou impaciente.
– Eu... – fez uma pausa e Clara percebeu a hesitação em seus olhos. – Eu... beijei um menino.
– Beijou? – Clara sussurrou, em choque. – E... como foi?
– Não sei. – respondeu, e Clara entendeu a confusão no olhar de antes. – Não sei mesmo.
– Não foi bom? Por que o Felipe disse que é muito difícil o primeiro beijo ser bom.
Marina hesitou, sentindo a barriga se contorcer. Não queria ter tocado nesse assunto, mas... era Clara.
– Não é que não foi bom. – tentou explicar, abaixando cada vez a voz. – É que... eu não me senti bem, sabe? Não me senti... encaixada. Não sei como explicar pra você.
– Como assim? – Clara franziu o cenho.
Marina suspirou, fechando os olhos para controlar os pensamentos. Ainda era uma criança, mas isso não a impedia de perceber certas coisas. Sempre se sentiu assim, desde suas primeiras lembranças conscientes... era assim que se sentia. Não era nada que conseguia controlar, não conseguia medir, não conseguia explicar.
Ao perceber a reação estranha dos outros para com essa sua diferença, começou a estudá-la mais e quando começou a esboçar conclusões... não conseguiu continuar.
– Não sei. – respondeu incerta se estava ou não falando a verdade. – Sabe quando você de olha no espelho e... e entra em pânico por que não vê o que era para ver?
– Marina... o que tá acontecendo? – Clara perguntou, preocupada.
Queria dizer a Clara o quão sozinha se sentia quando olhava para si mesmo. O quão desesperador era perceber que esse tipo sentimento que tentava evitar era na verdade parte do que ela era e simplesmente não tinha o que fazer.
– Não posso te dizer. – prendeu o choro na garganta, pressionando ainda mais os olhos fechados. – Não posso correr o risco de te decepcionar. Ou até mesmo te perder.
– Me decepcionar? – Clara apoiou a cabeça no cotovelo flexionado, observando a amiga com mais intensidade, como se tivesse focando seus olhos por trás das pálpebras. – Marina... mesmo que você quebrasse meu coração em mil pedacinhos... eu juntaria os pedaços e colocaria na sua mão. Sabe que pode me contar qualquer coisa.
Quando se é criança, se acontecer de você cair, os adultos perguntam onde machucou e é aponta para onde dói. Pronto, eles revolveriam o problema para você. Mas Marina começou a notar que quanto mais velho você fica, mais eles vão parando de perguntar. Ela simplesmente sentava em seu quarto no colégio e esperava que alguém a perguntasse onde dói, então ela apontaria para seu coração. Dói de medo, dói de insegurança, dói de decepção, dói de desesperança. É lá que dói.
Tentava se fazer convencer que era só uma época... uma fase. Uma fase que vinha desde sempre, mas não importava, qualquer justificativa valia para diminuir aquela dor.
Talvez se ela não contasse pra ninguém, escondendo e falando para si mesmo que não queria conversar sobre o assunto, passaria mais rápido, mas a verdade é que ela gostaria de falar sobre. Só que agora, com Clara a sua frente, o medo da rejeição foi ainda maior do que as vezes que tirou para se imaginar nessa situação. Medo de que Clara não a visse da mesma maneira ou até não quisesse mais vê-la.
Marina concentrou suas forcas e abriu os olhos, tentando acordar desse pesadelo, mas lá estava Clara, olhando para ela com carinho e preocupação. Por mais paz que a menina lhe desse... continuava nesse sonho que não conseguia acordar.
Não podia chorar ali. Não podia chorar agora.
Não podia gostar de meninas.
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