Sempre Soube
19 19
Notas iniciais
Antes do choro, vem o estado de choque.
Marina lembrava muito bem da sensação que dominou ao saber da morte da mãe. Era pequena mas Diogo nunca fez rodeios para explicar fatos, então lhe foi dito exatamente como aconteceu. A voz suave e cuidadosa pronunciando a sentença que mudaria sua vida para sempre.
– A mamãe morreu, Ma.
Primeiro o não entendimento, não só pela idade mas a própria confusão de se ver perdida na informação, depois a descrença e então o luto.
Marina dirigiu do hospital direto para casa sem pronunciar uma palavra se quer, atendendo a necessidade da amiga de permanecer presa no próprio mundo. Talvez lá dentro de sua cabeça a realidade fosse melhor que fora e todos nos escondemos ao descobrir verdades que mudam vidas, cabendo aos que te amam respeitar esse tempo tão individual e solitário que levamos para compreender tais coisas.
A artista ainda tremia de susto e medo, focando a rua a sua frente com tanta atenção, ao pensar na segurança da carioca, que não tinha espaço para nenhuma divagação da cabeça tão agitada. Não tinha ideia do que fazer, mesmo que as decisões não fossem suas diretamente, e daria simplesmente tudo para transferir para si toda a dor e pesar que acatariam Clara quando o choque passasse.
Clara olhou para as próprias roupas como se o corpo não lhe pertencesse. Sentiu pena da mulher de vestido ensanguentado que não sabia explicar para o médico o que aconteceu. Nojo do cheiro de morte que sua cabeça projetava com tanta perfeição, o corpo fisicamente mais leve por ter consciência de estar sozinha e essa era a pior sensação do universo.
As lágrimas começaram escorrer silenciosamente pelo rosto ainda sem expressão alguma.
Fechou os olhos e viu com a clareza o circulo de sangue em que estava mergulhada quando Marina chegou. Quando se deu conta do que aconteceu, o nome a artista era o único em que conseguia pensar. Era a única pessoa que não precisaria explicar nada, não enchendo-a de perguntas antes de ajudar simplesmente por que sabia exatamente o que aconteceu. Helena se desesperaria, Chica transbordaria de questões enquanto considerasse as opções e mesmo que todas as pessoas presentes fossem úteis, ligaria para a artista.
Assistiu- a engolir todo o espanto e carregá-la para um dos melhores hospitais, se estressando com a enfermeira ao deixar claro que a quantidade de dinheiro não importava.
Encontraram Vanessa e Flávia tomando café, sendo um pouco cedo demais para a casa acordar. Ambas hesitaram ao focar Clara, sem grandes perguntas pois já sabiam o necessário dos telefonemas de Marina durante a madrugada.
A ruiva atendeu a voz irritada da artista, preocupando-se ainda mais quando soube superficialmente o que aconteceu, correndo acordar Flávia para executar de imediato a tarefa que lhe foi pedida.
– Tudo limpo no apartamento da Clara. – a fotografa avisou. – Fomos pessoalmente e ninguém importante notou.
– E já desmarquei todos os seus compromissos pra hoje. – Vanessa completou. – Aliás, pra semana inteira.
– Obrigada, meninas. – a artista esboçou um sorriso educado e fraco. – Vamos subir para o meu quarto e, por favor, não me chamem pra nada.
– Só não preparei um banho pra Clara por que não sabia a hora que chegariam... – a ruiva voltou a observar o rosto sem expressão de Clara que abraçava o braço de Marina. – Qualquer coisa é só pedir.
Marina não tinha palavras para agradecer as amigas. Vanessa era a fonte de brigas e um amor tão incondicional que quando pensa ter atingido o ápice, ainda tem toda uma nova fase a ser explorada. Percebeu o olhar cheio de preocupação para com Clara, ultrapassando as indiretas que escapavam vez ou outra referentes a aparência sempre cansada da artista.
Puxou a Fernandes com delicadeza pelo corredor, percebendo que não estava entendendo praticamente nada do que acontecia ao redor e de fato não estava. Mas era Marina ali. Eram os dedos de Marina entrelaçados nos seus. Era Marina a guiando então iria a qualquer lugar.
– Senta aqui. – a voz a despertou, focando o banco de madeira apontado.
Sentou, observando os dedos escorregarem por entre os seus, saindo do toque para ligar a banheira. Olhou ao redor conhecendo o banheiro onde acompanhou alguns banhos da amiga.
Assistiu a mulher mover-se com delicadeza ao som da água corrente, evitando olhar-se no espelho. Pegava seus sais preferidos para perfumar e divertir o banho, ainda vestida no mesmo pijama chique ligeiramente sujo de sangue. Os cabelos presos em um cabo de cavalo para facilitar a mobilidade e os dedos um pouco trêmulos.
A mulher da sua vida, que deixou tudo e todos para ir ao encontro da necessidade.
– Vamos tirar essa roupa? – fechou os olhos para a suavidade. – Vem. – sentiu os dedos lhe acariciarem os braços, puxando-a para cima novamente.
Levantou e o vestido caiu junto com a roupa intima. Pareceu ter um momento de inconsciência, voltando a abrir os olhos somente no abraço da água morna. O cabelo molhado e, por cima da espuma baixa, os olhos de gato lhe assistiam atentos.
– Entra. – o som rasgou a garganta da carioca.
– Não. – negou suave.
– Entra. – insistiu. – Por favor.
Ia negar novamente, mas talvez o tempo de isolamento se esgotou e tentava sair da bolha que a protegia da realidade.
Clara a assistiu despir-se e estranharia a falta de culpa e remorso se realmente estivesse preocupada com controle. Já não havia mais o que se discutir, em sua cabeça. Foi como se o acontecido fosse o necessário para finalmente sair da caverna e descobrir que tudo lá dentro era uma ilusão de sombras. Sim, aquilo estava acontecendo. Sim, era sua vida. Sim, agora via sem o véu da censura que cobriu seu corpo por muito tempo.
Colocou um pouco de sabonete liquido na mão, fazendo espuma e passando nos ombros pálidos da artista quando finalmente aconchegou ao lado.
– Não precisa...
– Precisa sim. – cortou. – Não sei como te agradecer por tudo.
– Só fiz minha obrigação. – respondeu, percebendo que a mulher ainda não queria refletir sobre o que aconteceu de fato.
– Ninguém tem uma obrigação dessas.
– Quando se ama, tem. – queria dissertar sobre o pesar da responsabilidade que toma conta de suas necessidades ao se tratar daquele rosto.
Deixou as mãos percorrerem seu corpo, sabendo que aquele era um dos jeitos de Clara pensar que quem precisava de cuidados era Marina. Foi carregada uma tensão sexual gigantesca em toda a intimidade que tiveram desde aquele beijo na casa de Chica. O contato que tinham sempre foi além de todo o físico, além do sexo e toque, mas não evitavam a energia pesada dos olhares que sempre se cruzavam e demoravam a dispersar, talvez precisassem desse momento doloroso. Talvez tudo realmente aconteça por um motivo e esse processo de preparação de Clara para aceitar-se no lugar que a vida lhe colocou colaborasse para a evolução da relação.
Após do que pareceu horas de silencio e olhares exalando todos os nomes de emoções, Clara abaixou a cabeça, acariciando a barriga ainda pequena pelas poucas semanas. Sentiu a faça da verdade furar seu coração sem piedade, o rasgando de fora a fora o mais lentamente possível.
Os soluços começaram e foi puxada para foda da água com cuidado, ajudando a amiga vestir-lhe com um pijama não conhecido.
– Fica ai deitada. – ouviu Marina por entre as lágrimas que embaçavam a visão. – Vou pegar alguma coisa pra você comer...
– Não. – desesperou-se ao agarrar sua mão. – Não, por favor, não me deixa sozinha.
– Mas...
– Por favor, por favor, por favor. – chorou ao sentar para abraçar o tronco a sua frente.
– Ei – sentiu os braços lhe envolverem –, calma. Não vou sair daqui. – assegurou. – Deita comigo.
As unhas curtas acariciaram seu coro cabeludo com leveza e o braço lhe envolvia firme e seguro. Segurança, esse era o nome. Uma bomba atômica podia ser jogada na casa e tudo se desintegraria mas elas continuariam imóveis, sem nem mesmo escutar a explosão. Queria entrar em Marina, acabando deitada quase totalmente sobre seu corpo. Fundir corpos, sentimentos e sensações, roubando a força e paz que parecia ter.
Aproveitou que o nariz estava em seu pescoço para fechar os olhos com força e descarregar um pouco da adrenalina trancada na tentativa de ajudar. Na verdade estava apavorada, controlando a respiração para não piorar a situação da outra, que se acalmava nos batimentos de seu coração calmo. Algumas lágrimas pesadas escorreram antes de ser obrigada a ignorar a dor interna para não estragar o teatro necessário, limpando-as no o travesseiro sem ousar tirar as mãos da mulher encolhida em seus braços. Era quase como estivesse arrancando a roupa de Marina para satisfazer a necessidade de contato direto. Os pontos na barriga doíam mas não importava. Como se Marina fosse o colchão e as roupas o fino e simples lençol que impedia o toque completo.
Queria morrer e matar, mas não tinha força suficiente para nenhum dos dois, essa era a sensação. O peito ardia e o choro era tão violento que não conseguia respirar. Ela o perdeu. E junto foi vomitada todas as doses de mentira confortável tomadas a casa manhã. Sua cabeça latejava com o entendimento, mesmo não sabendo explicar para si o que compreendeu.
– Me tira daqui. – falou entre o choro. – Quero sair daqui, por favor, não agüento mais.
Aquilo precisava passar. Não agüentaria nem mais dois segundos desse desespero e a soma de um estado de choque com motivos abstratos é a culpa imediata do ambiente, sendo a coisa mais fácil de lidar por ser concreto e palpável, então a solução instintiva que contaminou a razão foi simplesmente correr para o mais longe possível.
– Clara... – apertou ainda mais o abraço, compreendendo seus impulsos.
– Eu aceito, Marina, eu aceito. – pareceu não ouvir a tentativa da outra. – Aceito ir contigo. Vamos pra Londres. Só nós duas.
– Meu amor...
– Vamos. – ergueu a cabeça e seus olhos realmente mostravam um insight. – A gente não conta pra ninguém, só some e pronto, sem explicações ou adiamentos.
– Meu amor... não podemos fazer isso. – apontou a inconseqüência.
Encararam-se pelo tempo necessário para Clara perceber que realmente não podiam. Pensou em sua mãe, Helena, Felipe e todos os demais rostos que mantinha um contato amoroso. Não tinha ideia de como contar. Falar de Cadu... falar de Marina... falar de Ivan...
– Eu sei. – sussurrou – Não podemos fazer nada... não dá pra voltar no tempo... – a cabeça pesou como se fosse vitima de uma ressaca. – Não dá mais pra consertar nada...
– Não, não dá pra consertar. – pegou o rosto moreno entre as mãos. – Mas dá pra começar de novo. Uma nova história com um novo jeito, vivida de outra maneira.
– Não quero simplesmente outra coisa. – concluiu. – Quero você. Seu jeito, sua maneira de viver... entrar na sua história.
– Entrar? – riu fraco. – Você é a minha história, Clarinha.
Na floresta que era seu coração existiam três velhas arvores de raízes atrofiadas no solo que vivia sempre úmido, por mais que só fizesse sol: uma era artista, outra era chef e a última era criança. A artista foi coberta por uma longa e pesada cortina vermelha de teatro, a chef a saciou da saudade tão bem que até lhe concretizou uma criança. Ser mãe era seu destino de ser humano e como se não bastasse a perda desse tão amado ente dono de expectativas maravilhosas, foi o marido que lhe tirou. Com o apodrecimento da criança, uma tempestade arrancou a chef quase que pela raiz, a derrubando quando a cortina da artista caiu com violência. Agora só sobrou uma arvore viva e todo o amor, antes distribuído, foi concentrado.
...
Ajeitou as mangas três quartos da camisa, checando a respiração da mulher adormecida. Não sabia como seria a reação ao acordar sozinha, mas um dia completo se passou e a família Fernandes não fazia ideia do que acontecia. A situação de Clara era autoexplicativa na cabeça de Marina e precisava tomar a frente.
A primeira coisa que fez foi pegar o celular de Clara, percebendo a bateria quase zero e as chamadas perdidas. Abriu o relatório e rolou as inúmeras tentativas de Cadu e duas de Helena. Pegou o próprio celular, ignorando os números relacionados a trabalho e digitando uma mensagem para Helena e outra para Juliana.
Deu uma ultima olhada na morena entre seus lençóis, abraçada em um travesseiro e presa no sono merecido depois de quase um dia inteiro chorando. O rosto inchado, cabelos bagunçados, vestida em uma combinação apressada de seus pijamas e o titulo de mulher mais linda do mundo ainda permanecia inquestionável.
Encontrou a amiga na cozinha, abrindo o açúcar para colocar no suco de laranja.
– Graças a Deus. – a ruiva colocou a mão sobre o coração.
– Hm? – estranhou.
– Marina – começou e a artista conteve um sorriso no tom preocupado –, faz mais de 24 horas que vocês duas estão presas naquele quarto! Sem comida, sem água, sem sinal de vida! – respirou fundo, realmente aliviada. – Tava quase botando uma escada na janela ou arrombando a porta. – percebeu a bolsa no ombro. – Vai sair?
Queria sentar e conversar com Vanessa, mas tão tinha tempo.
– Preciso voltar antes dela acordar. – explicou – Olha, sei que já abusei muito de vocês – incluiu Flávia. –, mas dessa vez...
– Não precisa me explicar nada agora. – deixou claro. – Vai resolver isso e deixa a coisinha comigo. – Marina riu fraco do apelido que Vanessa adotou desde a época do colegial. – A propósito: Helena ligou perguntando se ela tava aqui e meio que não soube o que responder mas não vi problema em confirmar.
– Não, foi ótimo ter esclarecido. – concordou. – Eu só... não sei o que falar...
Vanessa viu o ligeiro desespero no rosto bonito. Não fazia ideia do que estava acontecendo e deduziu que suas palavras não fariam muito efeito.
– Aqui, toma isso pra eu ficar mais tranquila, por favor. – empurrou o suco. – Tá sem açúcar, prometo.
Apesar do bom tempo sem comida, não estava com fome. Na verdade até tinha receio de colocar algo no estomago.
– Ok. – concordou, bebendo tudo como um shot. – Agora tchau. Por favor...
– Sai logo! – expulsou-a em tom de brincadeira. – Vou cuidar dela, fica tranquila.
Assistir aquele puxão de lábios carregado de afeto era o espetáculo mais lindo do mundo.
– Obrigada, Vanessinha. – pareceu parar o tempo para agradecer, voltando à pressa de antes ao correr para o carro.
Pensou em convocar o motorista mas, além de precisar ficar sozinha, o transito não deixaria sua mente pesar demais. Não conseguia expor a vida de Clara, por mais que a situação lhe desse um certo direito. Só a boca de Clara tinha direito àquelas informações, principalmente se tratando de família. Pensou em Chica. Pensou em Helena.
Conseguiria enrolar Chica usando mais palavras que o necessário na finalidade de encher linhas em uma explicação superficial, mas Helena não seria tão fácil e talvez fosse melhor nem tentar.
O porteiro sorriu em sua direção como de costume. Lembrava da menina pequenininha, com suas perguntas incansáveis e uma onipresente câmera fotográfica.
Apertou a campainha e Felipe atendeu ainda sonolento.
– Ei, feioso. – cumprimentou já entrando, firmando a capa de alegria que ensaiou todo o caminho e aspirou antes de sair do carro. – Cadê tua mãe?
Pensou em incorporar a felicidade que verdadeiramente sentia ao lembrar das palavras decisivas de Clara, mas nem sabia se eram reais.
– Que isso? – apontou para o saco de pão que carregava junto à bolsa.
Avistou Chica e Juliana na cozinha e percebeu que teria de firmar seus movimentos para não repararem no tremor.
– Suas rosquinhas preferidas. – respondeu, colocando sobre a mesa. – Não come tudo.
Ignorou o barulho do papel sendo rasgado e abraçou a dona da casa por trás.
– Como vai, mãe? – deitou a cabeça do ombro mais baixo.
– Nossa! – Chica riu. – Parece feliz!
Perfeito.
– Felicidade e Marina Meirelles não combinam quando se trata de manhã. – Helena apontou brincalhona, também entrando pela porta. – Tive que ir abrir a Casa.
– Tudo bem, acabei de chegar. – sorriu ao estalar um beijo na bochecha da amiga.
– Ontem Chica fez geléia de amora. – Juliana lembrou. – Vou pegar na geladeira pra gente comer.
Marina amava a geléia caseira que a Fernandes fazia esporadicamente, mas só o pensamento já a enjoou. Não queria nem passar perto das migalhas desse café da manhã, então comer em si, talvez, a dava ainda mais ânsia.
– Vou ter que recusar. – Helena, que já se preparou para uma conversa “pós-Chica”, estranhou – Estou meio mal do estomago, sabe. – pousou a mão simbolicamente na barriga e sentiu-se bem por não, de fato, mentir.
– Não vai comer minha geléia? – Chica quase gritou.
– Vi que tem pouca rosquinha mesmo. – Felipe entendeu, alheio no ambiente.
– Pelo amor de Deus, Chica. – Marina levantou as mãos. – Logicamente não é nada pessoal.
– E não vai comer nada?
– Vanessa me fez uma vitamina super esperta antes de sair.
– Vanessa. – intrigou-se. – Essa Vanessa ai... vocês não... sabe... não...
– Não estamos juntas. – riu, sentando-se ao lado de Felipe.
– Ah, bom. – colocou a garrafa térmica na mesa. – Digo, não que não aprove caso aconteça, mas...
– Ai Chica – Juliana encheu o copo de café. –, como você se enrosca nesses assuntos.
– Não é que me enrosco, Juliana! – tentou, puxando uma cadeira. – Não me importo com essas coisas. Principalmente conhecendo Marina desde criancinha, vocês sabem. Mas... sei lá, ela parece gostar de você.
– Não viu nada. – o rapaz riu e reclamou do cutucão da artista.
– Digamos que a Marina é a novela na vida da Vanessa. – Helena explicou por cima, roubando um doce do irmão.
– Minha relação com a Van é... especial – encontrou a palavra, buscando os olhos de Helena. –, mas difícil.
– Resumindo: – continuou casual até seu olhar bater no de Marina, prolongando a causa um pouco mais que o planejado. Algo aconteceu e esse não era o assunto certo. – é um amor platônico.
– Tadinha. – Chica continuou, esticando-se até o pão. – Parece uma moça tão boa.
Não existia maneira certa de fazer então resolveu seguir o caminho mais simples, lembrando-se da mulher que uma hora acordaria.
– Então – entrelaçou os dedos sobre a mesa e Helena foi a única a não hesitar. –, precisamos conversar.
Juliana queria ajudar mas não sabia quais os planos exatos da artista, então preferiu agir como mais uma inocente na sala.
Chica absorveu o tom tranqüilo que complementava a sentença, confusa no possível assunto.
– Não tá voltando pra Londres, né? – tentou.
– Quê? – Marina franziu a testa soltando um riso rápido. – Não, não. É sobre a Clara.
– A nossa Clara?
– E que Clara seria, Felipe? – Juliana revirou os olhos.
– Dá pra me deixar falar? – Marina pediu e todos silenciaram – Primeiro: sei que não é justo, mas vou precisar que não façam perguntas. – pontuou, na tentativa de somente omitir e não mentir. – Segundo: a Clara vai... passar um tempo na minha casa, digamos.
– “Digamos”? – a artista sentiu uma corrente elétrica percorrer a espinha ao ouvir a voz de Chica. – Como assim?
Helena passou os olhos da mãe para a amiga, sentindo o motivo das justificativas de antes por trás da simplicidade que trazia para os fatos.
– Não posso responder muita coisa.
Chica soltou o copo de café, não encontrando o porquê para aquela explicação. A filha nunca foi inconseqüente e não deixaria o marido sozinho em casa por qualquer coisa, agora nem ao menos aparecia para dar a noticia.
– Como assim não pode responder muita coisa? – Felipe tentou. – Se aconteceu alguma coisa...
– Olha – Chica sentiu a profundidade da voz que ainda menina em sua cabeça. –, não posso dar respostas porque o assunto não é meu. Poderia muito bem expor toda a situação, mas não seria certo.
– Marina... – sentiu a mão de Helena sobre a sua.
– A Clara vai ficar um tempo lá em casa – continuou, no silencio. – e acho que a senhora confia em mim, certo? Pelo menos nunca dei motivo pra não.
– Claro – concordou. –, mas...
Claro que confiava em Marina, mas conhecia a filha e era impossível não preocupar-se.
– Então continue. – cortou. – Ela vai contar o que aconteceu, tenho certeza absoluta, só que não agora.
Chica não entendia, mas percebeu que nada seria esclarecido ali. Olhou nas brilhantes janelas de gato a sua frente, sentindo o oceano de certezas e confiança, tais sentimentos fortes a consolando e acalmando seus batimentos cardíacos. Não adiantaria externalizar perguntas se a dona legitima das respostas não estava presente e conhecia a moral da artista, sabendo que não lutaria contra tal lógica. O que verdadeiramente a sustentou foi a segurança maciça. A voz firme, mas calma, ajudando a convencer-se que não era nada grave. A força de entender a necessidade da mãe e mesmo assim ir contra, como prova concreta da tal confiança que tentava expressar.
– Certo. – concluiu.
– Podemos ligar todo dia, se quiser. – quis propor.
– Estou confusa, não vou mentir. – pegou o pão novamente. – Mas tudo bem. Clara já é mais que adulta e, apesar de tudo, está contigo.
A artista sorriu.
– É muito bom ouvir isso.
– Mas ficarei mais tranquila com esses telefonemas. – aceitou.
– Pode deixar. – prometeu. – E tudo bem se pegar a chave reserva pro apartamento dela? Levar umas roupas, sabe. Na verdade a deixei dormindo e queria voltar antes que acorde.
– É, acho que o Cadu já deve ter saído mesmo. – Chica levantou.
Marina levou o olhar para Helena na pronuncia do nome.
– Posso ir com você? – Helena abaixou a voz só para os presentes na mesa.
– Acho melhor ficar. – respondeu. – Falamos depois.
– Eu vou. – Juliana ofereceu como planejaram por mensagem. – Sei onde ela guarda tudo lá.
Chica pediu para devolverem depois de usar e entregou para Marina, que já se pôs de pé. Chamou Juliana e ambas seguiram para o apartamento no andar de cima.
O clima fechou junto com o elevador e elas finalmente tiveram um espaço privado.
– Como ela tá?
– Arrasada. – suspirou. – Ela perdeu a criança, Ju.
O chão de Juliana falhou percebendo a gravidade da situação. Clara perdeu Ivan. Quis correr para casa abraçar Bia só de pensar estar no lugar da sobrinha.
Marina contou seu ponto de vista da história rapidamente enquanto saiam para o corredor e abriam o apartamento.
– Quando cheguei – continuou ao entrar na sala. – olhei ali e a encontrei aos prantos, imóvel numa poça de sangue. Primeiro pensei que ele tivesse enfiado algo nela mas depois vi que o choro era de desespero.
– E ele não tava aqui?
– Não que eu saiba. – deu de ombros – A porta tava destrancada e tudo, então deve ter saído correndo. – olhou ao redor. – Onde tem mala por aqui?
– Lá no quarto. – Juliana a guiou para o quarto do casal.
Era um ótimo prédio, Marina sempre achou. As janelas eram grandes e alimentavam a casa com luz de uma maneira aconchegante, tendo a suavidade do sol como colaboradora assim como o canto dos pássaros.
– Mas como ela perdeu?
– O médico disse que provavelmente caiu encima da barriga ou algo assim – tentou explicar. –, não sabe se desmaiou mas o bebê já chegou morto no hospital. Teve de operar pra tirar o feto porque o organismo não ia dar conta, sei lá, só sei que chegamos na minha casa ontem de manhã e ainda não saiu do quarto.
– Meu Deus... como vai contar isso pro pessoal?
– Não faço ideia. – passou a mão do rosto e Juliana viu o cansaço. – Como se já não bastasse essa história com o marido...
– Senta ali – Juliana apontou para a cama. – e deixa que eu faço a mala. Você tá exausta.
– Estou. – concordou. – Já estava antes de tudo. – admitiu. – Agora só vai piorar.
– Você vai ser o chão dela. – previu.
– Eu sei.
– E...
– E estou disposta a qualquer coisa – esclareceu. –, mas já me sentia pisoteada mesmo que indiretamente, imagina agora.
– A diferença era que antes você não podia fazer nada.
– Agora continuou não podendo. Ela tá tão sozinha nessa que me assusta.
– Não tá não. – contrapôs. – Sei como está pensando. Entendo que só ela realmente pode sair do buraco, mas é muito mais fácil escalar com uma corda que tentar achar firmeza nas paredes lisas. E você é a corda.
– Entendo. – e entendia. – Mas por mais que eu dê o ambiente, as chances ainda existem.
– As chances sempre existem – respondeu óbvia. –, mas quem te disse que você é só o ambiente?
É claro que não era um mero contexto. Além de fazer parte da história, fazia parte de Clara e até de Cadu. Era causa, conseqüência e indiferença, presente, passado e futuro, tudo ao mesmo tempo.
Terminaram os assuntos pendentes, firmando o pacto de trocar noticias e a artista continuou a descer ao deixar Juliana no andar de Chica. Parecia sair exatamente como entrará, não diminuindo o peso figurativo carregado sobre os ombros, até que a visão a fez hesitar o passo.
Cadu parou de balançar o buque de flores ao focalizar a mulher que carregava uma de suas malas. Sua preocupação diante do desaparecimento da esposa dissipou-se em entendimento. Que Marina sabia de tudo era a conclusão mais concreta daquela imagem, já sobre Clara o medo só aumentava.
A artista não apareceria sem ser chamada, então Clara pediu ajuda. Não pensou na possibilidade de mudar seu comportamento em relação a esses seus... descontroles. Só não sabia se Clara estava presa em Marina ou ficando por vontade própria. A policia o chamaria de doente, mas não se identificava como um agressor de mulheres. Ninguém entendia, só Clara. Não era um monstro. Não podia ser preso por uma conseqüência precipitada sem levar a causa em consideração, e isso fazia total sentido em sua cabeça. Não era o culpado direto daqueles hematomas e a maior prova disso era o silencio da esposa.
Marina não sentiu raiva como projetou, mas continuou com o olhar firme. O estomago deu mortais descoordenados e o arrependimento por ter tomado o suco de Vanessa subiu junto com a ânsia de vomito.
Uma verdadeira guerra fria.
Foi a primeira a avançar, continuando seu caminho como se ele fosse apenas um ponto qualquer. Passou reto e Cadu considerou a ideia de persegui-la para entender o que sabia e explicar a versão correta dos fatos, mas não conseguiu se mexer.
Andou até o carro, estacionado um pouco longe do prédio pelo tráfego corrido do dia útil. Jogou a mala no banco e a cabeça girou antes mesmo de fechar a porta de trás.
Vomitou no meio fio, sentindo o cérebro queimar e os sons da cidade cada vez mais longe. Uma mão pousou em no ombro, exercendo solidariedade, e a artista esboçou um sorriso acompanhado da desculpa balbuciada, agradecendo e já montando no automóvel ao lembrar-se que a mulher em sua cama era o motivo da pressa.
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