Sempre Soube
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Notas iniciais
Marina e Juliana analisavam Cadu, Clara e a relação entre eles da cabeça aos pés sem deixar escapar um mero detalhe. Noites em claro juntando os pontos e a resposta cada vez mais confirmada.
Os olhares de Cadu para a esposa eram o primeiro tópico que comentavam e Marina morreria para tirar um foto daquela energia. Era compreensível que ele não queria agir daquele jeito, inclusive parecia que não notava, simplesmente saia naturalmente. Conseguiram até tabular uma seqüência de comportamentos em reuniões de família, começando com o grande e amigável sorriso, cumprimentando e rindo das piadas, passando pelo neutro, onde já se afastava da participação ativa nas conversas, até transformar em um olhar preocupado por tentar disfarçar o peso das vibrações que só seu cérebro sabia quais eram. E Marina estava louca para descobrir.
Via o ciúme involuntário do homem para com a mulher, tendo uma consequência um pouco agressiva quando a chamava em um canto privado. Suas vozes não pareciam exaltadas ou grosseiras mas o aperto no braço de Clara já dizia muita coisa, assim como o jeito suave e delicado que o soltava.
A artista queria poder esquecer Clara e sua situação por dois segundos daquele domingo em família, mas estava tão preocupada que um alarme gritava em sua cabeça a cada movimento de Cadu. Havia muito tempo que dormia pouco sem realmente descansar, o que refletiu em todos os aspectos de sua vida. Suas pessoalidades mudaram, as relações com o mundo externo se tornaram mais fechadas e até seu trabalho, por ser baseado na inspiração, sofreu uma alteração ligeiramente sombria. Curiosidade, preocupação, medo, ansiedade e agora toda a tensão sexual, incontrolável após aquele beijo, tomavam a cabeça da artista e suas ações por consequência.
Vanessa notava cada pingo a mais de corretivo que aplicava no rosto para esconder o cansaço e assistia o mais de perto possível, já que Marina não lhe dava abertura quase nenhuma, essa fase. Voltou dez anos no tempo, lembrando-se de quando Clara e Marina terminaram o namoro e nem aquilo a derrubou. O que a ruiva notou antigamente era tristeza e decepção e os estados que a descreviam atualmente era alerta e assustada. As vezes dava um pulo na cadeira e corria anotar algo ou ligar para alguém que nunca soube exatamente quem era, mas sempre parecia ser a mesma pessoa.
Aquele domingo tinha tudo para ser o melhor dia do ano. Além das risadas e barulho que enchiam a casa da artista, os negócios de Diogo o levaram a ficar uns dias no Brasil então conseguiu tirar um tempo para participar presencialmente da vida da filha. Não soube apontar se realmente era válida a emoção absurda ao ver o pai ou se foi só o efeito dessa época frágil, mas sentiu os olhos encherem de lagrimas ao abraçá-lo pela primeira vez em tempo demais para se contar precisamente. Mas não conseguiu desligar o olhar atento quando se tratava do risco que suas hipóteses cada vez mais confirmadas insistiam que Clara corria.
Não tiveram grandes acontecimentos naquele evento, mas a presença do pai já era o bastante para ser a data do ano. Passaram a noite assistindo os filmes da madrugada quando todos foram para casa, como se estivessem juntos nas férias de Natal como costumava ser na época de colégio, comendo uma coisa ou outra enquanto ficavam bêbados de vinho.
O melhor pai do mundo, Marina rotulava.
No dia seguinte acordou com aquela ligeira pontada característica do vinho em um dos lados da cabeça e pediu ao universo que essa sensação durasse para sempre, por ser a lembrança da melhor noite com Diogo.
– Quer que pegue um vinho pra vocês? – Flávia colocou a cabeça dentro do estúdio.
– Não. – Marina respondeu quase instantaneamente.
– Nossa! – Clara assustou-se, assim como Flávia.
– Digo – passou a mão no rosto. –, se quiser pode ficar a vontade, Clarinha, mas nada de álcool pra mim hoje.
– Não vou querer nada, Flavinha. – Clara respondeu ainda chocada. – Meu Deus, acho que nunca presenciei você recusando vinho.
Marina recebeu o telefonema de Clara enquanto tomava seu banho matinal perguntando se podiam fazer algo juntas, então a artista sugeriu um almoço na piscina, já que não estava em um estado muito propicio para sair de seu pijama. Mandou o motorista ir buscá-la e acabou ficando a tarde toda.
– É que ontem meu pai acabou comigo, você não faz ideia.
– O velho sabe beber, não é?
– Demais! – Clara riu da indignação da amiga. – Você ri agora por que não o viu desafiando e tirando sarro da minha situação. E olha que sou a pessoa mais forte pra bebida que conheço.
– A diversão dele foi de embebedar, então? – bateu palma e a outra revirou os olhos. – Que programa maravilhoso! Porque não fui convidada?
– Idiota. – recostou-se no sofá. – Era pra ter fechado a ideia do orçamento da minha próxima viagem. Culpa sua.
– Não me culpe pela sua impotência. – levantou o dedo para o rosto bonito. – Mas nem me fale em orçamento.
– Por quê? – Marina estranhou.
– Ah, é o Cadu. – suspirou. – Pensei que ia sossegar depois de finalmente abrir o bistrô mas agora o dinheiro nem cobriu todos os gastos e já quer ampliar no negocio pra um café.
– Hm... – Marina procurou palavras. Não sabia exatamente como agir quando o assunto era Cadu. – Sabe que... qualquer coisa eu posso ajudar, né? Qualquer problema com o capital é só dar uma ligada e...
– Não, não, não. – Clara cortou. – Nem pensar Marina. Além do mais, Cadu nunca...
– Aceitaria minha ajuda, eu sei. – completou a hesitação da outra. – Mas que homem difícil. Tento chegar perto mas... não dá.
– Nem tente. – abaixou os olhos para as mãos. – Ele é muito cabeça dura, não adianta.
Marina seguiu os olhos da dona de casa e percebeu que tentava esconder um pequeno hematoma no pulso desde que chegou. Talvez nem perceberia se não fosse a atenção inconsciente de Clara em disfarçar.
– Mas um cabeça dura que você ama. – começou a traçar o caminho.
Não podia esperar mais. Talvez não o material não seja suficiente, mas não ter certeza de nada fazia Marina agonizar. Precisava saber.
– Amo. – continuou cabisbaixa.
Falar com Marina sobre o amor que sentia por Cadu era mais machucar a si mesmo que qualquer outra pessoa.
– Ama mesmo?
Clara hesitou, levantando os olhos para a artista.
O rosto fino, a mandíbula definida, os dentes brancos escondidos pelos lábios sérios, os cabelos castanho escuro que acentuavam a brancura da pele e os olhos atentos e brilhantes.
Não sabia se todos viam essa beleza que chegava a ser estupida de tão grandiosa ou se toda a luz que iluminava cada canto era fruto de seu amor.
Amava Marina. Sentiu-se uma adolescente boba e apaixonada ao admitir, mas era verdade. Sempre amou.
O jeito que Marina a olhou de volta... parecia ler seu olhar como quem abre aquele livro de cabeceira já lido infinitas vezes para relembrar um parágrafo ou dois antes de dormir. Desconfiou que se falasse em voz alta as exatas palavras que estava pensando, a artista a acompanharia na fala.
Foi transportada temporalmente para dez anos atrás, identificando a situação. Acontecia a mesma coisa: Marina ali, esperando uma resposta positiva a sua proposta de murar para Londres, Clara negando e a artista aceitando sua palavra por entender a insegurança que tentava não demonstrar mas era inevitável quando se tem tamanha ligação de energias.
– Amo.
E amava. Clara amava Cadu, com certeza. Mas era diferente. Seria feliz com Cadu o resto da vida, se Marina não estivesse por perto. Seria feliz com Marina com ou sem Cadu por perto. O problema maior sempre era ela mesmo.
Comparar os dois amores, por mais que fosse a chave para uma tomada de decisão, parecia desumano para a dona de casa. Podia se afastar de Marina e continuar a vida com Cadu, mas não queria largá-la agora que conseguia sentir vivamente a sensação que a artista exercia. Sabia que um pedido de afastamento bastaria, tamanho o respeito que tem por suas decisões. Clara disse não querer vê-la naquele telefonema de uma década e ela simplesmente sumiu. Não a viu até ser convidada para comparecer ao casamento, aceitando por educação uma formalidade utilizada a seu favor para matar a saudade do rosto da mulher que naquela época já não considerava a dona da sua vida. Mas agora tem certeza ser.
Clara ficará com Cadu ou com Marina. Marina ficará com Clara ou com ninguém.
– E ele te ama? – a artista voltou a questionar.
Observou a morena franzir a testa, claramente confusa.
– Quê?
– Ele te ama? – repetiu.
– Claro que ama. – riu pelo nariz, não entendendo.
A pálida levou as mãos até o pulso machucado da outra, tentando deixar subentendido o que queria dizer mas sabia que teria de pronunciar todas as palavras.
– Vi outro – apontou para o hematoma. – no seu ombro, perto da nuca.
– E? – não tinha entonação de pergunta.
– Por favor – Marina apertou os dedos de Clara nos seus, focando o olhar de um jeito que não tinha como simplesmente desviar. –, me diz que to errada e ele não tá te batendo.
– Ele não ta me batendo. – falou imediatamente, tão obvia que o choque da outra foi quase sólido.
Cadu não batia em Clara?
– N-não? – engasgou.
– Não! – soltou-se do aperto da artista, levantando. – Como assim você pensou isso do Cadu?
– Eu-eu...–levantou-se também, tentando se explicar. – Era a única explicação que consegui dar para os machucados misteriosos que... que te devoram! Esses seus roxos me dão medo e era impossível tu ficar caindo todo santo dia...
– Escuta aqui Marina: – o tom de voz assustou a outra. – a minha vida não é uma noticia do Jornal Nacional, ok? Meu marido nunca seria capaz daquelas coisas horríveis! – estava a um passo de verdadeiramente gritar até que aquietou e Marina sentiu uma pontada de insegurança que lhe deu abertura para um sentimento de desconfiança. – O que acontece entre nós dois é outra coisa...
– Outra coisa o que? – Clara sentiu a mudança de tom de culpado para quase esperançoso. Estava se enrolando em respostas, sem entender a si mesmo. – Se é tão normal o que ele faz, porque tá tentando esconder?
– Mas a sua vida deve tá muito tediosa pra querer cuidar da minha, não é possível. – riu ironicamente.
– Por que tá tentando mudar de assunto? – tentou manter o tom normal, mas o choque de não conhecer esse gênio defensivo-ativo de Clara ligou uma ansiedade que quase nunca teve contato na vida. – Imagino que não tenha nada a temer, então porque ficar dando voltas e voltas?
– Não estou dando voltas, Marina. – retrucou. – Respondi o que queria saber, não respondi?
– Clara, o Cadu te bate? – perguntou novamente.
– Claro que não! – gritou indignada, olhando para o teto.
– Fala isso olhando pra mim. – deu os dois passos necessários para fechar o espaço entre os corpos, segurando o rosto da morena com as duas mãos firmes. – Olha aqui e responde... dai eu acredito.
Era como se a voz não pertencesse ao mesmo corpo no exato momento em que seus olhos pararam nos de Marina, sendo uma força dentro de sua cabeça. Deu vontade de chorar por finalmente não conseguir adiar o fato de: se ela escondia algo, aquilo não era tão certo como interpretava.
– Você não entende. – sussurrou. – E nunca vai entender.
– Então me explica.
Sentiu a ultima expiração de Marina em seus lábios e a empurrou pelo peito.
– Me leva pra casa.
A artista caiu no sofá, não acreditando que mesmo depois de uma confirmação dessas, continuava sem conclusão concreta. Poderia continuar tentando para sempre, mas Clara não falaria uma palavra importante se quer.
Clara assistiu Marina levar os dedos ao peito exposto pelo pijama de botões exatamente onde a tinha empurrado, percebendo que já começava a ficar vermelho.
– Eu... eu vou pegar a chave do carro. – gaguejou tentando disfarçar a voz quebrada.
Tentava ignorar a dor interna que sentia e concentrar toda sua tristeza no fato de que desperdiçou a grande chance de conseguir alguma informação de peso real.
– Não. – engoliu as lágrimas. – Pede pro seu motorista me levar.
...
Bateu a porta do carro, agradecendo o senhor que a amiga confiava sua segurança.
Pela primeira vez na vida teve a certeza de que Marina não a entendia, mas conhecia aquele espírito curioso que não pararia até encontrar uma resposta. Sua vida não era aquilo que as reportagens mostravam, era impossível. Cadu podia ser um pouco agressivo as vezes mas... era normal. Ele nunca a bateu de verdade. Talvez tenha recebido um ou dois tapas mas sempre pedia desculpa. Redimia-se chorando e a enchendo de beijos. Era a sua realidade e só por ser diferente das demais não quer dizer necessariamente que está errada, mas sabia que não adiantaria explicar.
Trancou a porta por dentro, pendurando a chave ao lado da estante no ambiente escuro. Respirou fundo ao acariciar a barriga com carinho e cansaço.
– Tá com fome, meu amor? – perguntou para o bebê Ivan. – Sei que comemos bastante mas a mamãe tá a fim de fazer uma bagunça, vamos?
– Boa noite. – demorou alguns segundos para identificar a voz que vinha da cozinha.
A silhueta apoiada no balcão, os braços cruzados e os cabelos despenteados.
– Cadu, que susto. – achou graça.
– Sabe que horas são? – estranhou a voz séria e o fato de não conseguir ver seu rosto direito contribuiu para a hesitação já presente nessas perguntas. – Dez horas da noite. Isso é hora de estar batendo perna?
– Não estava andando por ai.
– E onde estava?
A mulher parou. Nunca pensou na possibilidade de Cadu voltar mais cedo para casa simplesmente porque não nunca aconteceria, então sempre passava o dia com Marina sem nenhum problema e não precisava de explicações, sabendo da repercussão negativa na relação se descobrisse seu envolvimento.
– Eu sei onde estava. – riu irônico. – O cheiro dela tá por toda parte.
O cheiro da artista foi uma das primeiras coisas que Cadu notou no dia que se conheceram. Lembrava da beleza adolescente da menina vestindo um macacão leve, segurando a câmera em uma mão enquanto apertava a sua com a outra. O sorriso reto e quente na pele pálida e de aparência gelada. E o cheiro. E cheiro de perfume misturado com algo natural. Como algo só dela. Após um tempo, aquele odor passou a significar perigo e agora Clara estava impregnada nele. Clara e seu filho infectavam a casa toda.
– Como assim? – a dona de casa perguntou.
– Você tá cheirando à Marina Meirelles. – desencostou-se da parede, acendendo a luz da cozinha. – E não é a primeira vez.
– Amor, minha mãe tava com o Ricardo, a Helena trabalhando – justificou. – ,dai ela me ligou e não quis negar de novo. – mentiu.
– As vezes – continuou ignorando inconscientemente a fala da esposa. – to deitado na cama e de repente começo a sentir esse perfume... dai olho pro lado e percebo... percebo que vem de você. – parou na frente dela. – Mas prefiro acreditar que é da minha cabeça.
– Mas é. – respondeu firme.
– Não quero meu filho perto dela, Clara. – falou. – Não quero minha mulher perto dela. Quero-a sozinha, vivendo a vida dela ali e nós a nossa aqui. E com esse “nós” quero dizer tua mãe, teus irmãos, todos, mas deles já não posso exigir nada.
– E de mim pode?
Cadu a olhou com indignação.
– Que resposta é essa? – Clara sentiu o julgamento que lhe percorreu da cabeça aos pés. – Nunca me enfrentou assim.
A franja para o lado, roupas, maquiagem e até a forma de agir denunciavam o efeito da artista na esposa. Sempre acatou as palavras do marido e respondeu as perguntas colocadas mas agora batia de frente, defendendo-se como se realmente sobrasse algo na equação quando o marido era subtraído.
– Sou tua esposa – esclareceu. – e não tua propriedade.
– E é propriedade de quem? – cruzou os braços. – Da Marina? – pronunciou o nome pausadamente, sentindo a irritação queimar na mulher a sua frente.
– Ninguém é dono de mim a não ser eu mesmo.
– Mas o filho é nosso. – pegou-lhe pelo braço com uma força não planejada. – Nosso. Então enquanto o carrega, precisa acatar minha palavra também.
– Cadu, tá me machucando. – reclamou do toque do marido, sentindo como a situação acabaria.
– Se to te machucando, a culpa é sua. – falou entre dentes, chacoalhando-a. – Se você não tivesse ido lá com a tua namoradinha, eu não estaria irritado a esse ponto. Não adianta tentar me culpar, dizer que sou o errado.
– Olha as coisas que tá dizendo! – baixou o tom e Cadu amou o choque que tentava esconder. Era como se ela admitisse que ele está certo. – Lembra do que me falou da ultima vez? Que era a ultima. Que estava arrependido e não ia me machucar nunca mais.
– Mas você me força a isso, Clara! Não vê? – falava óbvio. – Olha essa situação! É como se implorasse.
– Pensa no nosso filho. – sentiu voz falhar e as lágrimas começarem a descer pelas bochechas.
– Para de se fazer de vitima, meu Deus! – riu apertando ainda mais o braço bronzeado. – Só sabe chorar.
– Ele tá dentro de mim, Cadu. – continuou defendendo o filho. – Por amor de Deus, é muito perigoso... ainda mais depois do Felipe explicando que a fragilidade do feto é maior devido a minha idade.
– Não venha se esconder atrás do seu filho. – apontou. – Nossa, imagina quando essa criança nascer. Capaz de entregá-lo pra se safar da sua falta de vergonha.
– Cadu, eu fui ver uma amiga. – tentou explicar. – Nunca te trairia. – mentiu.
– Quieta. – gritou mas logo se recompôs, com medo de chamar alguma atenção no prédio. – Não aguento mais essa sua covardia.
Marina continuava jogada no sofá da sala, observando o teto simplesmente na finalidade de fazer o tempo passar mais rápido mas sem saber se estava ou não dando certo.
Queria dormir aqui. Estava confortável e exausta. Não aguentava mais ninguém ao seu redor e sem a si mesmo. Sua cabeça pesava e fazia questão de concentrar a pouca força que sobrou para engolir as lágrimas que acompanhavam a vontade de soluçar um choro.
– Ma? – ouviu a voz preocupada, seguida pelo bater da porta principal.
Levantou assustada, encontrando o senhor de cabelos grisalhos e olhos amedrontados.
– Pai. – foi o que conseguiu dizer antes que se pegasse correndo para abraça-lo.
– Oh, Ma. – acariciou os cabelos soltos da filha, sentindo o choro no ombro. – O que aconteceu?
Queria falar, mas o choro não deixava. Queria ficar assim para sempre: sentindo a segurança que a presença física do pai a passava entre carinhos e palavras. E, como se estivesse lendo sua mente, Diogo passou os braços ao seu redor estrategicamente até a erguer do chão como se fosse um frágil bebê necessitado de sentir a força paterna para voltar a dormir ao acordar no meio da madrugada.
Sentou-se no sofá, a colocando sobre as coxas e apoiando sua cabeça no peito. Deixou-a chorar tudo que precisava sem interromper, entendendo aquele como um momento em um milhão.
Conseguia ter uma visão vaga do rosto avermelhado, sentindo na pele uma potencia da dor que aparentava extravasar. Marina nunca foi uma criança chorona. Sempre enfrentou seus problemas sem grande ajuda adulta, dominando a articulação das palavras que herdou do talento do pai para negociar. Era mais uma personificação dele mesmo do que da mãe, mas só de olhar o rosto bonito era como se estivesse frente a frente com a sua falecida esposa.
– Acho que não deveria ter voltado. – conseguiu dizer.
– Não?
– É. – limpou os olhos, aconchegando mais no pescoço do homem. – Acabei estragando minha vida... e a de Clara também.
– O que quer dizer com isso?
– Quer dizer que a gente se ama. – explicou. – Porém ela é casada, tá gravida e... tudo bem que tem algo errado naquele casamento, mas não muda o fato te estar com a vida feita.
Diogo queria explicar que ninguém realmente tem a “vida feita”. Não importa em que fase etária ou mental, só na morte uma vida pode ser considerada “feita”. Mas esse obviamente não era o assunto que a filha queria focar e ele estava ali de ouvido, não de boca.
– Algo de errado?
Respirou fundo, já sem certeza alguma.
– Acho que ele bate nela. – tentou. – Já não sei mais... Tentei conversar sobre mas no começo ela simplesmente negou como se fosse a coisa mais absurda do mundo, só que parece que conforme foi escutando a própria fala... no final já não conseguiu falar mais nada com sentido.
– Mas isso é muito sério, Marina.
– Eu sei. – concordou. – Por isso tenho medo de fazer algo. É uma acusação horrível. Já pensou se eu tomo uma decisão e acaba que não é nada disso?
Acariciou a cintura da filha por cima da roupa, sentindo a respiração ficar mais tranquila.
– Parece... parece que nem ela sabe o que tá acontecendo consigo mesmo. – continuou. – Mas depois dessa briga eu até...
– Sabia que isso ia acontecer.
– O quê? – confundiu-se.
– Vocês duas. – respondeu. – Sempre desconfiei que nunca a superou.
– E não superei mesmo. – admitiu. – Talvez me convenci que superei pra não sofrer tanto mas na verdade...
O começo da linha de compreensão foi cortado pelo toque do celular, fazendo Marina esticar-se ainda no colo do pai para agarrá-lo no braço do sofá. Observou o nome piscar na lente, em duvida se atendia ou não.
Talvez elas precisassem de um tempo sozinhas depois dessa discussão, onde Clara não precisaria ouvir a voz da mulher que questionou sua relação com o marido e Marina não seria obrigada a lembrar da falha na tentativa de ajudar.
– Oi. – atendeu e por um momento só ouviu silencio. – Olha, eu...
– Marina... – ouviu o choro horrorizado e dolorido, baixo como uma garotinha escondida dos pais. – Marina, eu to sangrando demais...
A artista pulou em pé, ignorando as perguntas do pai e correndo em direção a chave do carro.
– Tá na sua casa?
– To. – respondeu. – Por favor, vem rápido, por favor por favor por favor.
– Calma, fica calma, Clarinha. – a carioca fechou os olhos, sentindo a caricia que o apelido lhe fez. – Ficar nervosa só vai piorar. To voando pra í e não vou te deixar sozinha. Conversa comigo.
– Acho que... meu Deus, não, eu não posso perdê-lo...
– Não vai perder ninguém. – tentou consolar, mesmo sem saber exatamente sobre do que estavam falando.
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