Notas iniciais
Desculpe os possíveis errados de digitação.

Juliana colocou o bolo na mesa enquanto Clara saia na ponta dos pés do quarto de Bia. Não existiam duvidas sobre o instinto maternal da Fernandes mais nova, sempre disposta a cuidar de qualquer criança a qualquer hora tratando-a como seu fosse o próprio filho. E, por mais que a uma nuvem cinza estivesse obviamente tendo algum tipo de efeito nos comportamentos, Juliana percebia a luz que irradiava de seus olhos e corpo nessa fase grávida.

Era a fase mais proposital na vida de Clara, onde ela nunca se sentiu mais útil e feliz. Ela finalmente se preparava para aplicar tudo o que veio coletando para maternidade, Cadu feliz com o sexo masculino no bebê, a família a paparicando cientes de sua felicidade não-humana e Marina de volta em sua vida.

– Dormiu. – avisou a tia, sentando-se na mesa.

– Adorei essa frequência da Clara aqui nessa casa. – Guiomar brincou.

– Uma folgada, você. – Juliana rebateu. – Clara fazendo o seu trabalho.

– Por opção própria, deixa a coitada da Guiomar fora disso. – a grávida levantou as mãos.

– E agora bem que a senhora podia me liberar pra ir pra uma volta. – a menina sugeriu. – Dai me liga caso a Bia acordar. Só pra eu não ficar aqui presa.

Geralmente Juliana convidaria Guiomar a sentar-se a mesa mas hoje precisava ficar sozinha com a sobrinha para finalmente tentar avançar nos planos que Marina ligou só para frisar.

– Tudo bem, acho que não tem problema nenhum. – concordou, olhando pela janela ao sentar na frente de Clara. – Tá bem sol, vá tomar um sorvete ou algo assim.

A menina agradeceu e saiu do apartamento já contando as moedas do bolso da calça e Juliana serviu um copo de café.

– A Bia te ama, sabe disso, certo? – comentou e Clara ampliou o sorriso.

– A Guiomar também, pelo jeito.

A tia riu.

– E como anda a vida?

– Ai, boa demais pra ser verdade. – respondeu com um sorriso sonhador, ignorando todos os problemas e questionamentos para fazer o momento durar mais tempo.

Passou a tarde com Marina, deitada no chão do estúdio enquanto a música que explicou ser britânica tocava baixo ao fundo. Vanessa as interrompeu umas três ou quadro vezes com um telefone da mão onde Marina teve que puxar um pouco de massa cinzenta cerebral nesse dia de folga pra proferir algumas simpáticas palavras em francês ou inglês. Foi como as vezes que se jogavam no chão confortavelmente gelado da sala de Chica no clima que castigava pelo calor, na falta de ar condicionado, intercalando assuntos estúpidos com sérios e silêncios confortáveis que preenchiam os buracos da saudade presencial.

Quando Clara percebeu o horário e finalmente tomou coragem para ir pra casa antes do anoitecer, Marina começou a sentir o peso bruto que parecia ter sido colocado sobre os ombros. O pescoço doía e os olhos ardiam de cansaço, a respiração oscilava vez ou outra pra uma expiração mais profunda que parecia arranhar os pulmões.

Clara pareceu comprar a ideia de aproximação, tirando o trabalho que Marina teria de aplicar para convencê-la mas isso não a fazia menos exausta.

Conseguia identificar o medo e receio da aproximação nos olhos de Clara, sabendo do efeito de uma sobre a outra. Passaram o dia todo deitadas no tapete do estúdio, e por mais que a artista tentasse puxar o assunto para o passado onde a relação foi não-presencial, Clara sempre respondia com normalidade, nunca indicando nada a não ser algum choque repentino por lembrar do marido.

Tirou os óculos e esfregou as têmporas com um suspiro cansado.

A única coisa que não queria era estragar a vida formada de Clara, afinal, se manteve longe por todo esse tempo exatamente por esse motivo. Sabia que ela nunca teria a oportunidade de seguir em frente se estivesse por perto e agora que escolheu aparecer com o cuidado de certificar-se do motivo não ser Clara, os resultados ainda demonstravam ser os mesmos.

Mandou mensagem para Juliana assim que o portão fechou, recebendo uma ligação corrida da amiga que tentava conciliar filha, marido e uma casa no mesmo ambiente. Ambas estavam exaustas de analisar uma Clara normalmente feliz.

– Tá amando essa experiência, não é? – Juliana indicou a barriga ligeiramente saliente da sobrinha, que não conseguiu evitar passar a mão em forma de carinho.

– Cada segundo. – suspirou. – É um amor tão incondicional que to nutrindo por esse ser humano que nem nasceu... nem mesmo se formou completamente! Sabia que o sentimento seria gigantesco mas realmente não conseguimos imaginar até passar pela situação.

– Acho que compreendo. – sorriu lembrando-se de Bia, que nem era sua filha de sangue e considerava o primeiro tópico nas prioridades de sua vida.

Esse era um dos motivos principais da sua maior preocupação com Clara. Juliana a entendia em praticamente todos os pontos, de concepções até sentimentos, ambas loucas pelos filhos e sempre dispostas, mas o conformismo em Clara era perceptível e a mais velha simplesmente não se imaginava assim. Se não estava bom de alguma forma, Juliana tentava seu máximo para mudar a situação de maneira que favoreça seus interesses, já Clara sentava e se adaptava a realidade mesmo não estando confortável. Enquanto Juliana buscava constantemente a felicidade, Clara preferia se acomodar ao adotar a felicidade alheia como sua.

– E as coisas andam tão bem, sabe. – continuou retórica. – Cadu realizado no bistrô, minha mãe sempre distribuindo alegria com o Ricardo, Felipe namorando Silvia, Helena finalmente bem na Casa de Leilões depois naquela dificuldade financeira meio barra pesada, Marina de volta na minha vida...

Juliana abaixou os olhos para o próprio copo tentando encontrar um jeito de explicar o que via, sabendo, no fundo, que ser didática não faria a outra finalmente entender.

– Engraçado. – começou.

– O que é engraçado? – Clara perguntou dando uma mordida no bolo.

– A única coisa que eu vejo referente a tua felicidade, foi a parte da Marina.

– Ah, não. – deu de ombros. – Tudo influencia na minha felicidade.

– Você sabe o que quero dizer. – apontou, certa que a sobrinha só estava jogando a interpretação da má escolha de palavras para o lado menos perigoso. – A parte da Marina foi o único fragmento que interfere diretamente na sua felicidade por que... é com você. O negócio do Cadu é com ele, a crise da Helena é com ela, a felicidade de Felipe é com ele e a presença de Marina sim é contigo.

– É o meu jeito. – justificou. – Normal.

Juliana sentiu os nervos começarem a ficarem tensos e engoliu o impulso de respirar fundo para não demonstrar o estresse.

– Eu só fico meio confusa com essa situação entre você e a Marina. – mudou o foco para o importante.

– Como assim?

– Chica me contou umas histórias e, nossa, quem escuta pensa que nada podia separar as duas... – encostou-se da cadeira, construindo o clima leve. – Dai, de repente, acontece ficarem dez anos sem nenhum tipo de contato... por que é isso que me pareceu. Helena e Felipe viviam viajando, ela nunca mais voltou e você também nunca se mexeu.

– Onde quer chegar?

– Sabe onde quero chegar. – riu óbvia. – O que aconteceu? Briga? Por quê?

Clara abaixou os olhos quando a tia tentou encará-la.

– Porque não pergunta pra Marina? – jogou. – Me pareceram tão... próximas, ultimamente.

– Ah, acho que nós temos mais intimidade. – explicou. – Contigo tenho mais liberdade com as perguntas.

Você realmente preocupada com limites? – riu irônica. – Me poupe, Ju.

– Olha, você não tente mudar de assunto! – apontou o dedo para a grávida, que riu alto.

– Ai, Ju... – respirou fundo. – Aconteceu tanta coisa.

A tia sentiu os portões da sobrinha se abrirem, só não sabia se foram suas habilidades de persuasão ou a necessidade de conversar em Clara.

– Conta pra mim.

Subiu os olhos para os de Juliana, os encarando como se avaliasse a confiabilidade mesmo sabendo ser bobagem. Atualmente, Juliana seria a primeira pessoa que procuraria para conversar sobre algo complicado demais para externalizar.

– Nós... nós duas... – tentou. – Ah, é muito complicado.

– Não é não. – se inclinou, pegando as mãos da outra sobre a mesa.

Estreitou os olhos para a tia, desconfiada. Viu uma compreensão anormal brilhando nas iris bonitas.

– Ela já contou. – concluiu. – A Marina já te contou.

– Não, não contou. – assegurou. – Você a conhece melhor que eu, sabe que não abre a boca fácil.

– E eu abro. – suavizou. – Por isso veio em mim.

– Basicamente. – deu de ombros, fazendo a outra rir pelo nariz. – Só tenho uma boa ideia do que pode ter acontecido.

– Acho que sua hipótese esta certa.

– Vocês tiveram um caso, não é?

Clara hesitou, sabendo que não havia mais por que fugir da resposta. Não havia mais por que fugir da lembrança.

– Sim.

– Faz muito sentido. – comemorou consigo mesmo, sabendo que estava certa. – E por que terminaram?

Clara riu novamente, piscando duro como se, de repente, tivesse ficado extremamente cansada.

– Porque eu sou uma idiota.

Então Juliana percebeu que a sobrinha não era tão leiga assim.

...

– Cheguei. – Clara falou, abrindo a porta da casa da mãe.

– A mãe saiu. – avisou um Felipe sentado no sofá só de samba canção e barba mal feita.

Ricardo viajando era a deixa para Felipe simplesmente não usar roupa em casa.

– Vai colocar roupa, menino. – seguiu para a cozinha com as sacolas. – Mas dona Chica é uma figura mesmo, viu. Pede pra ir no mercado pra não precisar sair de casa, mas sai mesmo assim.

– Ela me deixou avisado que vinha deixar umas coisas aqui. – comentou sem tirar os olhos do jogo de futebol gravado. – E disse pra você fazer o almoço por que vai demorar e a Leninha vem comer aqui.

– Não disse onde ia? – abriu a geladeira para guardar a compra.

– Até disse.

A mais nova revirou os olhos no tom mecânico do irmão, que obviamente nem havia prestado atenção nas palavras da mãe.

Fazia quase uma semana completa que não tinha uma conversa decente com Cadu. A relação tinha se resumido em cumprimentos e selinhos de despedidas e o que a incomodava era isso já ter acontecido algumas outras vezes, principalmente com o sucesso do bistrô, mas agora a afetava de uma maneira estranha. Tentou colocar a culpa dos hormônios da gravidez mas sua conversa com Juliana pareceu clarear sua mente em um nível onde ela simplesmente não podia mais ignorar o fato de Marina ainda lhe causar efeito.

Respirou fundo enquanto tirava as panelas do armário, a voz da televisão era só mais uma parte do ambiente onde seus pensamentos flutuavam.

Achou mais fácil acreditar que Marina se aproximava a cada passo distante de Cadu, mas percebeu que a em movimento das relações era ela mesmo. Clara estava se distanciando de Cadu e ele ainda não tinha notado por completo, devido o tempo extremamente restrito.

A presença da artista estava cada vez mais solida na mente da dona de casa e já não era algo que podia esconder de si mesmo. De madrugada se pegava imaginando como seria acordar ao lado de Marina nessa altura da vida, enrolada em suas pernas e cabelos como antigamente, como se fossem um só corpo e alma. Então voltava o olhar para o marido ao lado e sentia o peito se encher de remorso, como se realmente estivesse o traindo fisicamente.

Traição em si já seria um choque para Cadu, mas traição com Marina seria a morte. Não sabia o que ele seria capaz de fazer se descobrisse os atuais pensamentos da esposa... mas tinha uma ideia que acreditava ser bem próxima da verdade.

Percebeu a voz alta do irmão ainda imóvel no sofá ao apagar o fogo das comidas já prontas.

– Clara! – gritou. – Por favor atende o telefone, pelo amor!

– Mas que coisa, Felipe! – gritou de volta. – Eu to ocupada, caramba! Faz alguma coisa nessa casa! – era como se ainda fossem adolescentes morando com os pais. – Duvido que a mãe pediu pra eu fazer comida e não você, mas eu to fazendo sem abrir a boca e ainda reclama de pernas pro ar.

Correu seguindo o som do telefone sem fio até o quarto da mãe.

Clara não se importava de fazer as coisas para o irmão, sabendo que tirava qualquer folga para ficar exatamente assim sem fazer nada, já que a profissão lhe exigia tanto, mas não resistiu o impulso de dar-lhe uma bronca.

– Alô. – atendeu.

– Clara?

– Fala, Leninha. – reconheceu a voz.

– Liguei pra confirmar que vou almoçar ai na mãe com a Luiza.

– Ah, não, pode vir. – respondeu. – Até acabei de fazer comida.

– Então tudo bem – confirmou. –, só que vou demorar um pouquinho pra sair daqui e ainda tem que pegar a Lu.

– Fica tranquila que tá tudo no forno pra não esfriar.

– Obrigada, mana, beijo.

– Beijo.

Desligou e riu dos telefonemas desnecessários de Helena. Imaginou Chica atendendo e revirando os olhos.

Atravessou o corredor já pronta para lavar o resto de louça mas parou antes de entrar na sala.

Voltou até a porta de seu antigo quarto. Estava fechada.

Todas portas abertas, desde o de Chica até o de Helena, mas essa fechada. Sentiu-se idiota por estranhar, até por que... era uma porta.

Colocou a mão na maçaneta velha e abriu para o quarto. As janelas estavam fechadas e as únicas fontes de luz eram o ponto vermelho da televisão desligada e o cabo do abajur roxo que tinha um brilho escuro.

Chica odiava deixar a casa fechada, ainda mais os quartos dos filhos que tanto fazia questão de deixar intocado, dizendo que é a lembrança mais solida que tem daquele passado.

Deixou a luz da porta iluminar parte do ambiente, tentando entender alguma coisa até avistar um movimento em meio aos lençóis.

Alguém ainda dormia naquela casa e Felipe não se importava em mostrar sua semi-nudez, então, por mais estranho que a cabeça de Clara ainda rotulasse, só podia ser uma pessoa.

Checou as próprias costas, como se certificasse que ninguém estava presente e fechou a porta atrás de si, tentando se encontrar no quarto escuro.

Fechou os olhos para o silencio, sentindo o cheiro da artista em toda a parte e tentando descobrir se era seu cérebro lhe pregando mais uma peça ou se o ambiente realmente estava impregnado com a essência.

Esperou a vista acostumar e tirou a sapatilha para não fazer barulho.

Deitada em seu lado de costume, Marina tinha o lençol entrelaçado nas pernas descobertas pelo short curto e a manga da regata larga caia de um dos ombros enquanto apoiava o peso no outro.

Não conseguia ver seu rosto com clareza mas sua imaginação o projetou com perfeição.

Era como se não tivesse mais controle de seu próprio corpo, as reações eram totalmente desconectas com a realidade. Como se sua presença abrisse um buraco temporal nos espaços onde a vida parava no meio de uma respiração.

Simplesmente se encontrou deitada ao lado daquele corpo ressonante, a cabeça apoiada no travesseiro intocado com o nariz a centímetros de distancia do da artista.

Precisaria sair daqui o quanto antes mas não conseguia se mover para outra direção que não fosse para frente. Seria pega, percebeu, pois não sairia dali por iniciativa própria.

Sentiu-se pesada de tão leve. Sono. Sentiu um sono quase instantâneo que fez seus olhos fecharem mas não adormeceu. Só ficou ali, fingindo para si mesmo que estava dormindo tão bem quando a mulher ao lado parecia estar.

A respiração lenta da artista batendo em sua face e a tentação de se aproximar ainda mais sendo controlada pelo medo de acordá-la.

Abriu os olhos sem motivo e medo foi a primeira sensação bruta que identificou.

Lá estavam aqueles olhos sombreados pela escuridão focados em Clara. Nem a falta de luz escondia o brilho peculiar daquelas janelas felinas.

Marina verdadeiramente pensou ainda estar dormindo.

Provavelmente ainda era madrugada e esse é mais um dos traidores sonhos que colaboravam para o não-esquecimento da carioca em seu coração. E por mais que odiasse essas visões, sempre abraçava a cena quando o inconsciente resolvia pregar essas piadas de mal gosto.

Levou a mão até a bochecha bronzeada e sentiu o toque macio, assistindo os olhos a sua frente fecharem-se para a sensação.

Era tudo tão real que o fato de sua mente ter desenvolvido tanto essas habilidades ativou uma preocupação em algum pequeno canto do cérebro que precisaria ser lembrada ao acordar, com medo de não conseguir mais distinguir realidade de ficção perante a qualidade extrema dos sonhos que vinham ocorrendo.

Passou o roçar de dedos para o pescoço já esperando a possibilidade de Clara cair em si e sair correndo pela porta rumo aos braços de Cadu, como acontecia da maioria dos devaneios, mas sua única reação foi um suspiro prazeroso.

Clara abriu os olhos sem dispersar a atenção que dava ao toque. Tantas emoções e lembranças disparadas que não se lembrava nem do próprio idioma. A inconsequência de Marina ao começar algo que provavelmente não acabaria bem não só a contaminou como também travou a consequência.

Uma palavra podia estragar ou concluir tudo.

Focou a boca entreaberta da artista, seca como quem implora por um beijo. Assistiu-a passar a língua entre os lábios, os lubrificando como quem tem apenas um objetivo de vida.

Queria ouvir sua voz. Sua rouca voz de sono e estresse por ter acordado. Mas também queria sentir sua boca. Sua boca que a tempo lhe foi privada por si mesmo, pregando-a como o pior dos pecados porque de fato era. Era o poço de água no meio do deserto e o fogo que incendia o inferno. Se estivesse perdida no desenho e encontrasse esse poço, qualquer um pularia; se fosse mandado para o inferno por Senhor teu Deus, qualquer um queimaria. Era inevitável.

Marina sentiu a boca abrir-se sobre a sua e aquele gosto a invadir. Era o primeiro sonho que Clara tomou a iniciativa e não ao contrario.

Fixou as mãos na nuca da carioca, colando os corpos enquanto percebeu o aperto na cintura sob a camiseta. Sentiu a força de Clara no beijo e toda a responsabilidade daquela vontade tamanha caiu sobre seu corpo em forma de prazer.

Clara caminhou a língua pelo beijo até finalmente encontrar os lábios tão familiares. A lembrança tão apagada, depois de todos esses anos tentando esquecer e relembrar, saltou em sua percepção e a imagem de Marina ligou-se novamente a sensação maravilhosa que era estar em seus cuidados. O gosto, o cheiro, o toque e a mistura deles voltaram a vestir a pele de Clara daquele modo que ninguém consegue imitar. Marina era original em todos os sentidos e isso era mais uma mera prova.

Desceu as mãos para as coxas da artista, quase fundindo o físico na finalidade de transformar em metafísico, e Marina deixou-se levar pela melhor fantasia já experimentada, cedendo todo o contato corporal que Clara parecia necessitar.

Soltou um suspiro, facilmente confundido com gemido, entre o beijo que parecia coordenado por uma força externa e sobrenatural, como se aquela ligação entre os dois organismos fosse a fonte de vida separada.

Queria amá-la e deixar-se ser amada por ela. Queria sentir isso todos os dias, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte as separassem.

– Marina, acorda que a Vanessa tá aqui. – ouviram a voz abafada de Felipe junto com as varias tentativas de abrir a porta e a artista sentiu-se desperta. – Por que trancou a porta? – pareceu falar com alguém. – Marina, levanta!

Marina teve a sensação de finalmente estar acordada e uns segundos de confusão.

Ficou imóvel no beijo e abriu os olhos, sentindo a devoção da boca que não pareceu ouvir o problema.

Estava sendo um sonho, não foi um.

Clara sentiu Marina puxar sua cabeça pela nuca e tudo se quebrou quando ambas absorveram as informações da vida real.

– Marina! Qual é, acorda logo! – ainda batia fervorosamente na porta de madeira. – Realmente vou ter que procurar a chave reserva?

Pulou da cama, procurando atingir a maior distancia possível da artista.

– N-não. – sentiu a voz rasgar a garganta pela falta de uso. – Acordei, to acordada. – se atrapalhou com as palavras, sentando-se da cama e ainda observando o choque da carioca que lutava para permanecer silencioso.

– Abre aqui pra Vanessa.

– Não n-não não. – respondeu já conseguindo vestir sua capa de normalidade. – Pede pra ela me esperar ai.

Clara bateu na parede oposta a cama e Marina levantou tentando se aproximar.

– Tá tudo bem? – Felipe estranhou o barulho.

– Tá sim – fingiu um riso. –, só meio atrapalhada. Um minuto e já apareço.

– Não demora.

Clara escondeu o rosto já sentindo as lagrimas chegarem.

Marina também estava em choque e era incrível a quantidade de informações que seu cérebro estava conseguindo organizar, mas sempre foi a melhor em lidar com problemas e não podia piorar a situação da grávida. Por um momento desejou ter as respostas para acalmá-la, mas percebeu que só tinha perguntas.

– Clara... – começou, a voz baixa na tentativa de não demonstrar tudo o que de fato sentia.

– Não fala nada, por favor... – soluçou. – Eu... eu não... nós duas... ele...

O coração da artista se quebrou na cena a frente. Imaginou como estaria a cabeça da carioca e a imagem não precisa a fez tentar buscar algo consolador.

Era uma mistura de sentimentos tão peculiar, variando entre raiva, passando por medo, até... amor. Amor liquido.

Esse era o amor de Marina Meirelles: o liquido. Enquanto o amor de Clara era bruto demais para adentrar portas, sempre trombando no batente, o de Marina passava pelas fechaduras. Impossível de agarrar, sempre escorrendo entre os dedos, e sem forma definitiva. Era só coloca-lo em uma vasilha que se moldava exatamente àquela forma, era só jogá-lo em uma tela branca que escorria vermelho.

E lá estava Clara com um copo transbordando desse amor nas mãos.

Pelo estado da carioca, Marina conseguia compreender a luta subjetiva travada pelo querer, poder e dever.

– Ei... – Marina chamou e Clara levantou o rosto. –, isso não aconteceu. – tentou confortar.

– Aconteceu sim.

– Só aconteceu se ambas querermos. – explicou. – Você quer?

Clara a observou, perguntando-se como aquela face pacifica conseguia completa-la em todos os sentidos.

– É claro que quero. – ameaçou começar a chorar de novo – Não posso mais mentir pra mim mesmo, Marina. – a outra a pegou pelos ombros.

– Mas eu posso mentir pra mim e pra você. – focou os olhos chorosos. – Eu não quero que isso tenha acontecido.

Era mentira. Estava escrito em seus olhos, fala e respiração, mas era uma das mentiras confortáveis que Clara estava acostumada a acatar durante toda a vida.

Nada tinha acontecido.

Notas finais
Só lembrando que prometi colocar uma nota para a musa inspiradora desse "primeiro beijo", mesmo que nem eu saiba exatamente como ela ajudou organizar as ideias na minha cabeça, então: valeu Fê (aqui o apelido de Fernanda é Fer, mas tudo bem) @whitelilflowers