Estava apreensiva mas não conseguiu negar a alegria ao ouvir aquela voz do outro lado do telefone quando atendeu.

Marina ligou a convidando o mais formalmente possível para passar a tarde ensolarada de domingo na piscina, junto com toda família. Clara aceitou sem pensar duas vezes, não acreditando que realmente recebeu aquela ligação, mas logo a lembrança do marido cortou a mente ao desligar. Como explicaria que estava indo passar o dia ao lado da ex-namorada vestida num biquíni?

Considerou não ir, mas lembrou-se do que a mãe lhe disse no dia da exposição: esposo e esposa são pessoas diferentes que tem o mesmo sobrenome. E, embora odiasse essa sensação de estar fazendo algo errado, escolheu sair de casa logo que Cadu foi preparar o bistrô para o almoço.

Tentava se consolar dizendo para si mesmo que não era uma mentira em si, porque ele não chegou a perguntar se ela iria sair ou algo parecido, foi só uma omissão. Tão desnecessária a preocupação que até esqueceu-se de avisar, montou o texto de desculpa. Mas ela sabia muito bem que toda preocupação do mundo era necessária quando se tratava de Marina, principalmente depois daquela exposição.

Havia se esquecido da inquietude de Marina para com os hematomas pois, em sua concepção, os justificou muito bem, então a hesitação vinha pura e simplesmente da maneira que sentiu-se na exposição. Já começava sentir os sintomas só de lembrar.

Coração acelerado, nervosismo subindo e descendo da nuca, se espalhando pelo estômago, até os joelhos, os deixando fracos e desobedientes. Sabia que estava assinando seu atestado de morte ao se aproximar de Marina novamente, mas se dirigia em piloto automático.

Acelerou o carro, fechou os olhos e tirou a mãos da direção, como se não conseguisse fazer nada para impedir o acidente, sendo que ali estava ela: em perfeitas condições mentais para continuar seguindo o caminho da decisão que escolheu. Afastou o pensamento da cabeça. Era Marina. Era Marina no telefone. Era sua voz e risada.

E o dia tinha sido maravilhoso. Seu primeiro vislumbre já lhe tirou o ar dos pulmões, encostada no batente da porta com um moletom cinza e regata branca, os olhos pequenos de sono. Lembrou-se de todos os dias que aquele rosto era a sua primeira vista ao acordar e de toda a liberdade que se permitiam uma com a outra. Foi recebida por um abraço quente carregado de perfume nostálgico e uma caricia na barriga já característica.

Odiava admitir, mas pareceu esquecer o nome do marido. Foi o dia mais divertido em 10 anos de casamento e sabia que a grande porcentagem desse título deu-se a presença ativa de Marina ao seu lado.

Sentaram-se lado a lado nos degraus da piscina, assistindo Luiza brincar com as duas colegas de escola que convidou. Marina falou sobre o mundo e puxou algumas lembranças da infância que Clara não esperava.

Percebeu o quanto Marina era parte daquela família, o que a fez questionar se ela própria era tão integrada assim. Ia de carinhos de Chica, passando por danças sem música com Helena, tapas em Felipe e gargalhadas arrancadas de Luiza até montar nas costas de Virgílio dentro d’água. Era como se todos estivessem tão acostumados com Clara não estando presente, que nem a notavam direito... se não fosse por Marina.

Com uma estranha ajuda de Juliana, também presente acompanhada pelo marido, fizeram o dia mais familiar que experimentará a anos. Sentiu-se tão a vontade que se pegou a gargalhando com a cabeça encostada no ombro de Marina enquanto Chica contava histórias das duas pequenas para quem quisesse ouvir.

Sentiu a pele macia da amiga no rosto, fechando os olhos para tentar guardar esse momento o mais fiel possível na mente. Levantou os olhos e Marina a focou também, aquele sorriso cheio de dentes com os olhos cobertos pelos óculos de sol.

Clara sentiu um puxão na barriga mas sabia que não tinha nada a ver com a criança e sim com a mulher a sua frente. Por um momento sentiu como se pudesse se esticar e dar-lhe um rápido selinho nos lábios, como costumava fazer vez ou outra sem nenhuma grande explicação e, agora que parou para refletir, percebeu que só não o fez por que sua mãe estava presente. Era como se tivesse voltado no tempo, onde a lógica de esconder aquele namoro cheio de afeto com ainda mais carinho fazia sentido.

Essa espontaneidade ativada em Clara era um tópico de um pacote que tinha nome e sobrenome.

Quando percebeu que estava na hora de voltar para casa, sentiu-se confusa. Estava em casa. Mas então o marido lhe tomou toda a consciência e até Chica percebeu o choque comportamental da filha mais nova.

Os olhos preocupados de Marina lhe deram vontade de chorar e, se não tivesse tomado esse banho abstrato de água fria, provavelmente a abraçaria pedindo abrigo. Mas quando viu que a volta para casa não poderia ser adiada por muito tempo, pensou nos longos braços do marido que tanto amava e soube que não era o fim do mundo.

E Marina de fato ficou preocupada, mas construiu uma boa hipótese instantânea do que foi o susto da carioca.

Ficou tão impressionada com a facilidade que conseguiu conduzir Clara novamente para um ambiente intimo que perguntou-se se ela já esperava a tentativa.

Parou o carro no prédio da família e respirou fundo.

O plano parecia tão simples na voz de Juliana mas essa reaproximação estava corroendo a artista por dentro, fazendo esse interior perturbado se refletir nos trabalhos que tinha agendado. Não os fazia ruins, mas tristes. Era isso que passava nessa fase: melancolia e dor espiritual, que se transformava em física.

Abriu a bolsa e destacou o comprimido, engolindo-o a seco.

Tirou os óculos de sol ao entrar no prédio, logo seguindo para o andar correto.

Pegou o celular no elevador e viu a mensagem de Juliana.

“Clara falou que ele geralmente chega em casa daqui a pouco”, dizia.

Tinha uma hipótese violenta como justificativa daqueles hematomas em Clara. Não sabia rezar, mas pedia a um Deus que estivesse errada.

Ela e Juliana juntaram o quebra-cabeça ao analisar Clara, Cadu e os dois juntos numa possível imagem que as assustou e as poucas horas de sono e o dinheiro que teria de investir em medicamentos extras não parariam Marina até seus próprios olhos descobrirem a verdade.

– Pensei que você não tinha mais. – a grávida já indagou ao abrir a porta.

– Olá. – Marina cumprimentou, voltando a vestir sua roupa de desentendida. – Desculpa, é que a Vanessinha encheu minha mesa de coisa.

– Entra! – convidou dando passagem. – Fiz café. Quer?

– Ah, eu não tô tomando cafeína, esses tempos. – explicou. – Mas fique a vontade.

Você não tá tomando café? – Clara estranhou.

– É – riu fraco. –, problemas pra dormir, sabe.

– Nossa, você costumava dormir tão cedo. – foi até a cozinha servir-se um copo.

– Ah – a artista passou os olhos pela casa aconchegante, indo até a estante de livros. –, épocas e épocas. Naquela eu não tinha grandes preocupações e quando chegava aqui as poucas que tinha se dissipavam.

– Finalmente veio conhecer minha casa.

– Um pouco diferente do que imaginei mas não é só sua, então é justificável. – passou os olhos pelos títulos gastronômicos. – Bela coleção.

– São do Cadu. – sorriu.

– Lembrava dele sempre que entrava na seção de culinária das bibliotecas, acredita?

– Sério? – estranhou.

– Sério, sério. – respondeu risonha, parecendo guardar bons momentos mas na verdade só se divertindo com os maus. – Tinha umas coleções lindas que eu morria de vontade de comprar só pelo design.

– E não comprou?

– Não. – riu. – Tenho muita coisa desnecessária mas esse seria meu ápice, daí não quis me sentir esse nível de materialista.

– Ele ama esses livros de papel rico. – comentou. – Eu acho lindo, mas odeio o preço.

– Compreensível. – respondeu simples. – O amante nunca vê o preço antes do conteúdo.

– Mas vem cá. – tomou um gole do café fraco. – Não vai querer nem um chá? Leite com Nescau? Nada?

Marina riu, voltando o olhar para a morena.

– Tem pão da tua mãe? – tentou.

– Hm... não, o bebê comeu tudo. – acariciou a barriga.

– Ele tem nome, Clara! – repreendeu.

– Nem sabemos se é menino ainda, Marina. – riu da intuição da amiga.

– É um menino, eu sinto. – deu de ombros. – Não me contrarie.

– Mimada. – tossiu baixinho antes de o copo tocar-lhe os lábios novamente.

– Sou mesmo. – não tinha como negar. – Mas isso não muda o fato de que é um menino. Pode começar a se acostumar a chamá-lo de Ivan. – pronunciou o nome com o sotaque russo que sempre brincava.

– Você não parou pra pensar na possibilidade de acabar sendo uma menina?

– Clara... – revirou os olhos e não precisou continuar.

– Certo, certo, não é menina, ok. – se rendeu.

– E o Cadu, cadê esse homem que nunca tá por perto? – franziu o olhar para a morena. – Sempre dá um jeito de sair quando me encontra na tua mãe.

Clara apertou o copo com um pouco mais de força, decidindo se quebrava ou não essa superficialidade no assunto.

– Você sabe muito bem o porquê dele fugir de você. – Clara abaixou a voz.

A outra se permitiu admitir o ligeiro choque por Clara finalmente ter saído da zona de conforto. Estava disposta a fazer de tudo para que ela fosse a primeira a pisar fora do território seguro, afinal, era Marina que se auto-convidou para tomar café no até então desconhecido apartamento Fernandes.

– Mas não pensei que o bico fosse durar tudo isso. – deu de ombros, agora estudando os poucos CDs enfileirados.

– Ele guardou um certo rancor.

– Machistas. – riu pelo nariz. – Não admitem perder para outra mulher. – percebeu o que disse. – Digo, desculpe Clara, é seu marido. Eu...

– Não, tudo bem. – sorriu. – Ele é orgulhoso mesmo.

Marina não tinha o declarado orgulhoso e sim machista, coisas com o mesmo principio mas diferentes.

– E, inclusive, ele não perdeu. – continuou. – Por isso pensei que já estava tudo ok entre nós dois.

– Ah, não acho que ele vai querer uma aproximação.

Pegou a caixinha preta do único CD sem nome, abrindo e vendo que era gravado amadoramente.

– E você? – virou para a dona de casa, que congelou mais pelo ato que pela questão. – Vai querer uma aproximação?

Não sabia exatamente como interpretar a pergunta mas respondeu a coisa mais rápida na mente.

– Sim.

Assistiu os lábios sem cor da mulher esticarem-se em um sorriso fraco, largando a bolsa no sofá e abrindo os braços.

Clara riu, deixando o copo na mesa e se encaixando na amiga.

Mergulhou o rosto no pescoço e sentiu o cheiro dos cabelos recém lavados, provando o aperto ao redor do quadril. Fechou os olhos tentando não colocar muito significado no toque, mas parecia impossível.

– Senti tanto sua falta. – ouviu o sussurro da artista.

– Todos os dias. – completou a carioca. – Por favor, não sai mais da minha vida.

Marina sentiu o peito pesar, a dor explorando novos territórios usando os nervos como via. Não queria mais soltá-la.

Sabia que no fundo não deveria ter voltado para o Brasil e até poderia ter pegado suas coisas e voltado para Londres, mas não poderia quebrar a promessa que as próximas palavras gravaram no coração de Clara.

– Nunca mais. – assegurou, lembrando-se do conto de Poe.

O pacto estava selado e o destino já travado.

– O que tá acontecendo? – ouviram a voz grossa e Clara soltou Marina ao reconhecer.

– Cadu, oi, nem percebi o horário...

– O que tá fazendo aqui? – ignorou a Fernandes, focando a visita.

Não esperava encontrar Marina em sua casa e muito menos naquela situação. Focou a mão da artista ainda no quadril da esposa, logo voltando a observar os olhos fortes que escondiam os segredos daquela pose peculiar.

Lembrava da singularidade de Marina estar presente desde o primeiro dia que se conheceram até a maneira como “roubou” sua atual esposa.

– Ela veio me devolver isso. – Clara mostrou o CD nas mãos de Marina, que confundiu-se na necessidade da desculpa. Porque simplesmente não dizer que veio ver o apartamento? – Esqueci no dia que fui na piscina e...

– Piscina? – cortou. – Que piscina? Que dia, Clara?

Marina estudou a interação com atenção, analisando Clara pelo canto do olho enquanto mantinha mais foco no homem.

Clara sentiu o chão falhar e Marina entendeu que Cadu nunca ficou sabendo do evento em sua casa.

– Na piscina do clube. – Marina levantou o CD. – Uma amiga deu uma festa lá e pediu minha playlist de cordas pra copiar mas eu tinha emprestado pro Felipe, só que estava trabalhando e não pode levar, então pediu pra Clara. Agora ele está em consulta então resolvi deixar com quem peguei.

Não sabia exatamente o porquê de estar a ajudando, mas lhe pareceu a coisa certa a fazer. Não sentia Cadu nervoso, mas sim desconfortável. Queria Marina o mais longe possível de Clara, mas essa surpresa o fez perceber que seria muito mais difícil que pensou.

– Bem – pegou Clara pelo pulso, entregando a caixinha –, está entregue. – pegou a bolsa e limpou a garganta. – Agora tenho que ir por que o caminho até Santa Tereza é longo e esse horário não precisa de muitas explicações.

Cadu deu um passo para o lado, deixando a porta livre para a artista.

Pensou em fechar a cara quando seus olhares cruzaram mas não viu ameaça explicita. Era como se ela estivesse estendendo um cumprimento de paz e, por mais que o cansaço quisesse aceitar esse aperto de mãos, ele não conseguia engolir o orgulho que já não tinha nem mais tanto motivo. Chegou ao ponto de odiar por odiar.

– Até mais, Cadu. – despediu-se, virando-se para Clara com um sorriso torto. – Se cuida, Clarinha.

Notas finais
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