Notas iniciais
OLÁ rs Pessoal, desculpe a demora mas tá aqui. Desculpa qualquer erro de digitação etc.

O abrir e fechar da porta despertou Flávia do sono mais pesado que conseguiu desfrutar a tempos, mas sua consciência se recusou a considerar o ruído importante o bastante para abrir os olhos.

Depois do que parecia milênios correndo com os preparativos da exposição, tudo o que queria era dormir pra sempre, sentindo o alivio de estar tudo pronto e certo para o grande dia.

– Flavinha. – ouviu uma voz sussurrada mas a única coisa que conseguiu tirar do próprio corpo foi um gemido cansado. – Flávia, acorda.

Abriu os olhos para a sombra escura e a certeza de que estava acordada veio quando reconheceu o perfume peculiar.

– Marina, o que aconteceu? – preocupou-se já levantando mas a chefe a parou.

– Nada, nada. – respondeu com pressa. – Digo, nada importante. Não foi minha intenção te assustar.

Caíram no silencio barulhento da noite e a assistente começou entender as coisas. Não conseguia ver o rosto a sua frente, mas a voz cansada dizia praticamente tudo que precisava saber.

– Quer companhia pra dormir? – ofereceu.

Marina observou o quarto um pouco menor que o seu, mas o tamanho não tinha nada a ver com a sensação de aconchego que sentiu.

Assentiu e deitou no lugar que a amiga limpou as cobertas, sentindo os dedos acariciarem sua cintura. Poderia pensar ser Vanessa ali se fechasse os olhos, mas hoje seus passos a guiaram para o quarto de Flávia.

– Nervosa? – ouviu a amiga em seu ouvido.

– Só pensando muito.

– No que?

Marina respirou fundo, fechando os olhos e se concentrando no zumbido que incomodava o ouvido abafado pelo travesseiro.

Flávia piscou duro. Sabia que a exposição sendo amanhã não era o grande motivo dessa inquietação, já que Marina sempre foi muito bem controlada. Tinha inseguranças, claro, mas sempre se deu todo o crédito que merecia. Sempre teve confiança nas idéias que escolheu desenvolver e não tinha problema nenhuma para aceitar os elogios de terceiros, se encaixando em sua percepção pessoal. Tinha tudo para ser arrogante e desagradável, mas poderia facilmente ser melhor amiga da maioria que focava aqueles olhos de gato por alguns segundos seguidos, abrindo o sorriso confortador que escondia uma alma mimada pelo pai que não via necessidade de mostrar.

Conhecia a amiga e sabia existir uma grande diferença entre ser reservada e não conseguir falar sobre o abstrato, e Marina só era reservada. Ou seja, tem que querer e precisar para conseguir falar.

– Marquei um horário pras Fernandes no salão. – comentou. – Amanhã vão ligar pra cada uma avisando dos detalhes.

– Você e suas surpresas. – sorriu.

– É a primeira exposição da Chica. – justificou. – Quero que seja perfeito.

– Você a adotou como mãe, não é? – Flávia escolheu deixar Clara fora da conversa.

– Ela me adotou como filha. – corrigiu. – Por mais maravilhoso que meu pai seja, sempre foi muito ausente e acabei tendo mais contato com ela que com ele. Ela me ligava três quatro vezes por semana, ela me falava o que comprar quando ficava doente, ela me deu as boas broncas que todo adolescente tem que levar. Minha gratidão é eterna.

– Eu sei. – beijou o ombro descoberto da artista.

Voltaram ao silencio e Flávia fechou os olhos já totalmente desperta, sentindo a respiração uniforme de Marina contra seu peito.

Sabia que não era o melhor momento para refletir sobre isso, mas nunca se viu em uma amizade assim. Suas colegas foram as típicas meninas que só falavam sobre namorados e cabelos hidratados, indo cada um para seu canto quando a sessão de cinema acabava. Daí apareceu Marina com suas idéias de querer juntar tudo numa só casa e selinhos de despedida. Cansou de chegar na faculdade e encontrar Marina e Vanessa uma sobre a outra no sofá e simplesmente voltarem para suas vidas amorosas no outro dia. Uma coisa é fazer isso com estranhos, outra é conseguir uma amizade de cubra cantos assim.

Pensou que não conseguiria isso com uma amiga e depois viu que estava certa e errada ao mesmo tempo. Errada porque tudo se esclareceu na minha vez que transou com Marina, acordando no dia seguinte com aquele sorriso largo de bom dia e nenhuma mutação de sentimentos. Foi uma noite linda com sua melhor amiga e ponto. E certa porque, embora sendo exatamente igual no começo, não conseguiu segurar seus sentimentos por Vanessa.

– Dormiu? – o hálito quente bateu em seu rosto e abriu os olhos surpresa ao não perceber quando Marina virou-se. – Pensei que já tinha apagado.

Conheceu o sorriso na fala e não evitou um nascer em si mesmo.

Marina firmou as mãos delicadamente na mandibula da amiga, passando o polegar nos lábios carnudos. Flávia era tão linda em todos os sentidos, mas a artista considerava aquela boca quase imoral.

A assistente aplicou um pouco mais de força no aperto que desceu para o quadril da artista e voltou a fechar os olhos por impulso da proximidade.

Marina brincou um pouco com o tempo antes de abocanhar o lábio inferior de Flávia numa mordida lenta e suave, finalizando com uma linha de três beijos até o queixo.

– A gente não vai dormir? – Flávia perguntou.

– Você quer dormir? – ouviu a resposta e abriu os olhos.

– Querer e precisar são coisas diferentes.

– São mesmo.

Beijou-a novamente.

Enquanto Clara passou o dia no salão de beleza mais caro do Leblon, Marina ficou mergulhada numa banheira sem fome e sede. Pediu que não fosse chamada nem em emergências e as amigas entenderam a gravidade da situação pelos olhos fundos da artista.

Depois de alguns orgasmos proporcionados por Flávia, o sono pareceu ainda mais difícil de ser alcançado. Esperou a amiga dormir, desceu até o estúdio e arrumou algumas das milhares gavetas do arquivo até finalmente acabar dormindo no chão de madeira.

Enrolou-se numa toalha quando percebeu o horário e encontrou Vanessa sentada em sua cama como se estivesse a esperando.

– Você não ia estar comandando as coisas lá no Galpão? – estranhou ao encostar a porta por duro costume.

– Já voltei. Tá tudo certo. – explicou. – Queria ver se ainda estava viva, mas lembrei que pediu pra não incomodar.

– Agora sabe que estou. – sorriu e a ruiva percebeu que essa tarde isolada realmente a tinha feito muito bem. – Foi só uma noite estressante, você sabe, todos temos de vez em quando. Nada que um bom banho não resolva, no meu caso.

– Tô vendo mesmo. – Vanessa sorriu. – Quer ajuda pra se arrumar?

– Hm, pode ser. – deu de ombros, abrindo o closet. – Trás suas coisas pra cá e a gente se arruma juntas, o que acha?

– O que acho? – riu, já levantando-se. – Me acho na faculdade de novo.

Marina riu junto.

– Maquiando uma a outra para as grandes festas que fazíamos questão de ir.

– Nossa, lembra do nível das festas daquele pessoal de humanas?

– Lógico. – falou óbvia. – Eu mesma dei umas bem boas.

– As suas eram as melhores.

– Não. – apontou o dedo para amiga. – As do pessoal de pintura eram as melhores.

– Meu Deus. – gargalhou ao lembrar dos episódios como se fosse ontem, levando Marina junto. – Como a gente ta velha!

– Ah, só se for você, porque eu não to não. – esclareceu. – Pareço velha?

Emoldurou o rosto entre as mãos e Vanessa cruzou os braços sem deixar o sorriso nostálgico morrer.

– Não sei... – brincou. – Tira essa toalha ai pra eu ver.

– O que tá acontecendo aqui? – Flávia estranhou, assistindo as duas crianças.

– Nada, meu amor. – Vanessa abraçou seu quadril. – Trás suas coisas pra cá também, vamos nos aprontar todas juntas.

– E até parece que eu ia conseguir sair daqui apresentável sem minha estilista e maquiadora profissional.

– Nossa – Flávia entrou na brincadeira, abraçando o pescoço da ruiva. –, acho que é legal começar a cobrar se a gente é toda essa competência.

– Eu já pago com paciência. – a artista rebateu.

...

Clara se olhou no espelho da casa da mãe, colocando os brincos de argolas decoradas que comprou especialmente para essa data. As três desembarcaram na casa de Chica para vestir suas respectivas roupas depois de um dia cheio de massagens e conversas de mulherzinha.

Chica não parava de expressar o quanto suas expectativas estavam altas. Todas tentaram alguma comunicação com Marina para agradecer as surpresas, mas ela parecia ter sumido do planeta, o que as fariam preocupadas se não fosse por um telefonema carinhoso de Flávia explicando essa falta de contato como “um dia de relaxamento para agüentar a correria da noite”.

Observou o longo vestido azul de desenhos brancos que deixava seus ombros expostos, o cabelo solto e a franja reta cobrindo-lhe as sobrancelhas dando o ar infantil que era complementado pela maquiagem leve. Ela poderia estar indo andar num parque em uma tarde ensolarada, mas essa foi a roupa que escolheu para ir no evento do ano no mundo da arte nacional.

– Aqui, achei. – Chica entrou com seu vestido preto sem mangas que parava logo acima dos joelhos. – Acho que combina perfeitamente.

Entregou o colar largo para a filha, que colocou e ajeitou a pedra quase entre os seios.

– O que achou? – levantou-se e deu o sorriso que desbancava a mãe.

– Linda, como sempre. – suspirou sincera.

Não sabia se era fruto do estigma de filha caçula, mas Chica sempre achou Clara, logicamente sem desmerecer os outros filhos que tanto amava, a mais bonita e delicada dos irmãos. A mais moça em todas as idades e pensamentos, refletindo em tudo que colocava as mãos prendadas. Helena era a rebelde e ainda havia resquícios em sua vida atual das coisas que a mãe não aprovou na adolescência, Felipe se meteu com a turma errada e a doçura alimentada pela mãe se destruiu com a doença mental que a bebida provocou, mas Clara nunca tinha dado um problema se quer. Sempre chorou e riu com a mãe, sendo a primeira a se mudar para o apartamento vago mais próximo junto com o marido e filho perfeito. Lógico que não tinha preferidos e era mais que feliz com todos os filhos, mas carregava esse orgulho peculiar quando se tratava da sua companheira mais nova.

– E a Helena, cadê?

– Hm – piscou algumas vezes, saindo do transe. –, no banheiro com a Ju. Ainda terminando a maquiagem. – respondeu. – Sabe como é, não sei porque pensa que precisa de tanta assim.

– Ai, dona Chica. – Clara riu. – E a senhora? Tá pronta?

– Tô, claro que tô. – passou a mão no vestido, exibindo as curvas que Ricardo tanto elogiava. – E os homens da casa estão lá na sala, reclamando na nossa demora.

– Nem me fala de homens da casa. – suspirou cansada.

– O que aconteceu, filha? – estranhou.

– Cadu sentou comigo hoje logo depois do salão ligar e pediu pra eu não ir.

– Mas ele não foi convidado também? – questionou. – Marina não convidaria você e o deixaria de lado.

– Não, claro eu não. Recebemos três convites com um bilhete na letra dela, brincando que um era pro bebê.

Chica riu alto e Clara acompanhou, esquecendo-se da chateação no peito por um momento. Marina ainda tinha esse poder de tirar-lhe a concentração mesmo que fosse nas histórias.

– Mas então porque ele não vêm!? – Chica não conseguia encontrar uma resposta e Clara não podia dá-la.

– Não sei. – mentiu. – Até pensei em não ir...

A mãe pegou ar para falar mas percebeu que não tinha direito nenhum de dizer o que queria. Acharia uma falta de respeito não ir ao evento, sendo Marina quem era para a família, mas conseguiu até tirar um sorriso de si mesmo ao perceber que nunca diria isso antes de ter conhecido Ricardo.

Ele mudou totalmente sua maneira de pensar a vida e antigamente ela teria encorajado a filha a ficar em casa cuidando do marido.

– Você sabe que pode fazer o que quiser – deixou claro. –, mas eu, te conhecendo, não te vi tão animada assim a um bom tempo. Nunca mais saiu assim com a gente. Teve um tempo que íamos eu, você, Helena e os maridos para o cinema, comer fora e todos esses programas... mas o Cadu começou a ficar cansado demais com o bistrô e vocês pararam de ir... daí nossas saídas assim – apontou para o momento de hoje. – acabaram. Agora que eu vi o quanto você tem saudade disso.

– Nossa, e o quanto tenho. – fechou os olhos.

– Vou te dizer uma coisa que eu aprendi: – aproximou-se da filha, acariciando os ombros. – Ninguém precisa de um homem pra ser feliz. Não precisa ligar todas as pontas da tua felicidade – cutucou-lhe o coração. – com a felicidade dele, porque... por mais que o casamento seja a unificação de duas almas... vocês são duas pessoas e têm coisas que precisamos abrir mão sim, mas têm coisas que não podemos.

Clara sentiu as mãos quente da mãe na pele morena, entendendo cada palavra mas não conseguindo se enxergar nelas totalmente.

Ela era tão feliz se privando das coisas para a felicidade do marido. A felicidade dele era a dela. Sentia falta desses momentos em família... mas a lógica que a ensinou a priorizar o marido era que o casamento era o começo de uma nova família e não a continuidade dela. Mas viu uma razão nos olhos da mãe e não tinha como dizer outra coisa a não ser:

– Tem razão. – balançou a cabeça, assistindo a mãe sorrir largo.

– Tudo certo ai? – Helena entrou clicando o salto alto, com seu vestido vinho, e Juliana ajeitando a barra do seu colorido.

– Só esperando você, madame. – Chica soltou Clara, pegando a bolsa-carteira na cama.

– Gente – Felipe apareceu na porta, recuperando-se de uma surpresa aparentemente engraçada pelo tom avermelhado do rosto sorridente. –, o porteiro ligou e disse que tem duas limusines nos esperando.

– Duas limusines? – Chica se assustou. – Mas que... meu Deus, essa menina não tem jeito mesmo.

– Uma exclusivamente para a senhora e o Ricardo e uma pra nós. – continuou. – Para descermos o quanto antes pois a ordem dada para os motoristas é estar lá exatamente ás 21:30.

– Então vamos. – Helena fechou a pulseira no pulso. – Estou pronta.

– Finalmente. – Felipe avisou os companheiros em seus respectivos ternos, dando entrada para as mulheres da família.

– Sem reclamações porque demoramos por vocês. – Chica parou as criticas antes de começarem.

Clara observou os casais felizes saírem de mãos dadas, fazendo planos para a noite e trocando elogios animados. Até Jairo estava ali com Juliana. Queria tanto que Cadu estivesse ali, vestido com o terno branco que tanto amava.

– Irmã? – ouviu Felipe. – Me dá a honra de ser seu acompanhante?

– Ai, seu palhaço. – bateu no ombro do homem que já previa a reação. – Vem logo. – agarrou o braço que lhe foi oferecido.

A estratégia de iluminação era visível por todo salão, cada canto pensado com todo cuidado do mundo e o ar elegante sendo propagado pelo barulho controlado das pessoas segurando suas taças.

As fotografias seriam descobertas quando os ponteiros apontassem as completas 22 horas e Marina, ainda escondida no backstage, preparou-se para sua parte preferida.

– 1... 2... 3 – Vanessa sussurrou e o relógio bateu o horário exato.

O ruído das conversas particulares virou um silencio completo por dois segundos inteiros e a onda de palmas cresceu alto no ambiente.

Fechou os olhos sentindo o peito encher e as duas amigas a apertarem as costas.

Andou em seu longo vestido branco de franjas até a gigantesca escada que ligava os pisos. Observou de cima todos aqueles rostos, alguns conhecidos e outros não, que lhe encavaram com admiração. Isso é tudo que um artista precisa ter. Isso é tudo o que uma pessoa precisa ter.

Desceu os degraus sentindo suas fieis escudeiras atrás, também posando para os flashes ao finalmente atingir o solo.

Clara paralisou. Sorte que não estava segurando uma das taças de vidro, porque com certeza a derrubaria nessa falta de controle dos membros.

Assistia a artista erguer o queixo para as câmeras como se aquela confiança fosse a coisa mais óbvia do universo, os lábios vermelhos entreabertos e a franja tão harmoniosa no total simples e elegante que nem parecia atrapalhar a visão.

Fechou os olhos e virou as costas para o centro das atenções.

– Clara? – sentiu a mão de Juliana a prendendo no chão. – Tá tudo bem?

A cabeça pesou.

– T-tá, tá sim. – puxou o tom mais calmo possível nesse estado. – Eu só preciso ir... acho que é mal estar... gravidez, essas coisas...

– Peraí que eu vou com você...

– Não não, fica ai, por favor.

– Clara... – estranhou.

– Juro que ta tudo ok... juro. – foi se afastando. – Prometo que te procuro caso... piore ou algo assim.

O coração pesado e acelerado era única coisa no corpo que podia ter certeza sentir, depois medo e então arrependimento. Deveria ter ficado em casa. Agora podia estar vendo qualquer coisa na televisão enquanto Cadu acariciava sua barriga.

Sua mente entendia todas as palavras pronunciadas pelo seu coração, mas fazia questão de se fingir de boba. Se fingir de Clara. Fazia questão de imaginar milhares de vozes gritando cada uma um hino diferente ao mesmo tempo, para fingir não entender essa tradução de emoção para linguagem que seu cérebro fazia agora com tanta clareza.

Não sabia quanto tempo ficou isolada dos que conhecia, mas com certeza seu tempo interno não concordaria com o externo.

Maldito o momento em que Marina tomou a decisão de voltar para o Brasil, maldito o momento que a morte da mãe as aproximou, maldito o momento em que fez questão de não pensar nas possíveis conseqüências de uma reaproximação... maldito o momento que não aceitei o convite de me mudar para Londres com ela.

Tapou a boca como se tivesse dito isso em voz alta. Não podia se deixar tomar consciência daqueles fatos.

Amava seu marido. Estava grávida!

– Clara? – ouviu a melodia e teria gritado se não tivesse tomado alguns poucos segundos para se recuperar.

– M-Marina. – gaguejou, escondendo as mãos atrás das costas ao perceber que tremia.

– Tá passando bem? – observou os olhos preocupados, mas logo desviou o olhar.

– Claro, claro. – limpou a garganta, quase esticando o braço e pegando um copo na bandeja que passou ao lado. – P-parabéns pelas... você sabe... parabéns. São lindas!

A artista observou a outra com atenção. Parecia uma leoa estudando os movimentos da presa, os olhos espertos e as próprias palavras calculadas na finalidade de tirar conclusões precisas.

– Vou mandar te trazer o suco. – distraiu comprando a imagem que queria vender. – Felipe chama de vinho sem álcool, mas pra mim é suco de uva mesmo.

– Sim. – sorriu tentando parecer normal mas era claro o desconforto e inquietação.

– Rapaz – chamou o menino bonito vestindo um smoking quente demais para o clima. –, traga o suco pra minha convidada de honra e fique de olho no copo dela para não faltar nada.

– Sim senhora.

– Te avisei que depois disso vai ter uma festinha na minha casa? – puxou assunto.

– ...não.

– Então provavelmente não avisei tua mãe. – concluiu, bicando o vinho. – Preciso encontrá-la. Foi a primeira a me dar um abraço,acredita?

– Não é uma coisa difícil de acreditar. – falhou no tom cômico que planejou mas Marina achou graça.

– E por falar nela – procurou entre as pessoas. –, porque não está com o resto do pessoal?

– Ah... acabei me distraindo com essa. – mentiu, apontando para a fotografia de duas mulheres claramente africanas, uma pintada de preto e a outra de branco.

– Ah, gostou? – analisou a foto que tinha escolhido a dedo para o evento.

– Sim, cheia de... conceitos. – observou a imagem, tentando pensar em algo inteligente para dizer. – Fico impressionada com a... com a qualidade da pele nessas fotografias. Até essa, que ta coberta de tinta, é tão viva. Tão tocável.

– Essa é a intenção. Interpretar a realidade da forma mais real possível – sorriu para o próprio trabalho. –, por mais óbvio que pareça.

– Com licença, aqui está o suco. – ofereceu para Clara, que pegou sem hesitação.

Sentiu um calor repentino que talvez o liquido apague.

– Mas, sim – continuou. –, as fotos são lindas. Estou maravilhada.

Um sorriso satisfeito tomou conta dos lábios vermelhos da dona da festa, a gratidão inocente lhe invadindo a face bonita que o tempo aperfeiçoou os traços.

– Fico feliz por saber disso. – abaixou o olhar para o copo, disfarçando a alegria da confissão que já tinha ouvido milhares de vezes mas parecia até mudar de significado ao sair na voz de Clara.

– Ficou calor, né? – comentou sentindo aquele calor interno que queimava o pescoço.

– Você acha? – riu pelo nariz, não entendendo a mudança de assunto.

– Demais. – puxou os cabelos para um lado, tentando refrescar as costas.

– Ainda bem que não estou dentro dessa sauna. – brincou. – Mas você vai pra minha casa depois, certo?

– Ah, não sei... – considerou. – O Cadu ficou sozinho, sabe como é.

– E porque não veio? – perguntou parecendo realmente surpresa pela ausência do homem.

– Cansado. – justificou mas ambas sabiam que era mentira.

– Entendo... mas tente ir, sabe. – tentou. – Dançar um pouco.

Bebeu o restante do suco na taça e riu.

– Faz tanto tempo que não danço. – admitiu. – Sair pra dançar então, meu Deus, milênios.

– Mas que barbaridade! – Marina indignou-se. – Todos merecemos uma noite bem dançada.

– Mais, senhora? – o garçom ofereceu e Clara aceitou, se esticando para colocar a taça na bandeja lustrada.

– Clara! – identificou o espanto na voz e quase caiu no rapaz.

– Meu Deus Marina, o que foi? – voltou a se equilibrar, mas a artista a virou de costas novamente.

– O que aconteceu aqui? – sentiu seus dedos puxarem o vestido um pouco para baixo e uma dor aguda ser distribuída ao apertar sua pele antes descoberta. – Tem um hematoma violento aqui! – indignou-se com a voz mais baixa que o normal e um arrepio diferente foi descarregado em Clara. Sua mente ficou vazia tempo suficiente para Marina a chacoalhar. – Clara, alô, responde!

A carioca suspirou entediada, jogando os cabelos para as costas novamente e ajeitando o vestido, tampando o machucado e se xingando mentalmente por sempre dar esses deslizes.

– Não foi nada, só um tombo qualquer. – fez pouco caso.

– Você não costumava cair tanto assim quando éramos mais novas. – estava claro que Marina não estava aceitando respostas superficiais.

– Tem muita coisa que eu não costumava fazer quando éramos mais novas. – respondeu seca. – Com licença, porque tenho que procurar minha família e você precisa cuidar disso aqui.

A ferocidade na fala da mulher doce e tímida assustou Marina ao ponto de simplesmente não ter reação, assistindo a Fernandes desaparecer entre as pessoas, que agora lhe pareciam estranhos, conversando e bebendo como se suas vidas fossem perfeitas.

Piscou duro, engolindo o resto de vinho no copo e o deixando em qualquer lugar.

Procurou com os olhos o rosto que seu raciocínio gritava e não demorou muito para encontrar.

– Com licença – pediu ao casal de mãos dadas. –, creio que não o conheço ainda.

– Ah, esse é Jairo – Juliana apresentou. –, meu... marido.

– Hmm, marido, gostei do título. – o homem ajeitou o bigode e Marina percebeu o ritmo coloquial da fala.

– Prazer, Jairo. – cumprimentou. – Será que posso pegar sua esposa emprestada? Juro que tento não demorar.

Juliana franziu a testa ao pedido e o rapaz deu de ombros.

– Pode ser. – assentiu. – Vou estar ali com o Felipe.

– Certo. – a mais velha concordou sem tirar os olhos desconfiados da artista. – Tá... acontecendo alguma coisa?

– É exatamente isso que quero descobrir. – falou e Juliana percebeu pelo tom sério que o assunto era sério. – E com certeza você também quer.

Notas finais
Então, fiz um twitter pra manter contato mais definitivamente com vcs. Se quiser, segue lá ;) @whitelilflowers