Sempre Soube
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Clara nunca esqueceria a primeira vez que viu aqueles olhos castanhos. Aqueles olhinhos tão expressivos que exalavam curiosidade com um fundo de hesitação.
Traçando uma linha história da própria vida, agora via que, em sua inocência de criança, estava se sentindo exatamente como Marina, insegura mas curiosa.
Quando Clara e Felipe eram meras crianças, a mãe, Chica, não se demorou a casar novamente após a morte do marido. Conheceu Ricardo, o homem que assumiu a imagem paternal na casa. As crianças nunca o trataram como um estranho diante do carinho e atenção que estava sempre disposto a dar.
Na época, Clara não sabia exatamente o porquê de Marina vir passar as férias com sua família, só se lembrando de uma conversa que teve com sua mãe uns dias antes de sua chegada.
- Uma amiga? – perguntou a menina de seis anos.
- Sim, o Ricardo vai trazer uma amiga pra brincar com você. – Chica sorriu, ajeitando a filha na cama. – Ela vai passar as férias com a gente de vez em quando.
- Como assim? – Clara confundiu-se. – As férias inteiras?
- É. – confirmou. – Ela é prima do Ricardo e o pai dela pediu esse favor pra ele.
- O Ricardo tem uma prima da minha idade? – Clara continuou expressando suas perguntas de criança confusa.
- Tem sim. – Chica riu fraco, passando os dedos pelo cabelo da filha. – Ela mora fora do Brasil, até. Espera só você chegar na escola e contar que tem uma amiga que mora da Europa.
- Europa?
- É. – concordou novamente. – Fica do outro lado do mar.
- Mas... – Clara franziu o cenho. – Não dá pra ver nada do outro lado quando eu olho pro horizonte.
- Por que é muito muito longe. – respondeu. – Estou de avisando porque ela está precisando de uma amiga muito divertida e leal.
- Precisando?
- É... lembra do que aconteceu com o papai? – Chica hesitou, tentando encontrar o melhor jeito para explicar.
Clara assentiu, se recordando muito bem do que aconteceu para seu pai não estar mais aqui.
- Ele virou estrela. – Clara repetiu o que a mãe tinha lhe falado.
- Isso mesmo, ele virou uma estrelinha lá no céu... sempre tomando conta de você quando fechar os olhos pra dormir. – Chica continuou. – E a um tempinho atrás, a mamãe da Marina também virou uma estrela lá do lado do seu papai. – Clara continuou piscando com interesse. – E lembra como você sentiu falta do papai? Ela também tá sentindo muita saudade da mamãe dela. Dai eu falei pro Ricardo que ia falar com a menina mais legal que conheço e pedir pra ela fazer a Marina se divertir muito nesse tempo que ela tem que ficar por aqui, dai vim falar com você.
- Posso tentar ajudar ela. – Clara pensou a respeito.
- Vou ficar muito feliz se tentar. – Chica agradeceu. – E ela vai trazer uns brinquedos também. Quem sabe você pode ensinar umas brincadeiras pra ela e ela umas pra você.
- Posso ensinar ela a pular corda. – cogitou a possibilidade de ensiná-la sua brincadeira preferida.
- Tenho certeza que ela vai adorar. – Chica beijou-lhe a testa. – Agora olha de dormir pra acordar cedo amanhã.
Clara não sabia porque Marina tinha que vim passar as férias no Brasil sendo que o pai dela também morava fora, mas a única coisa que importava era que a mãe de Marina tinha virado estrela e ela tinha que ajudar, isso lhe pesou como um dever.
No ultimo dia de aula de Clara, lembrava de chegar em casa correndo ao lado de Felipe como todos os dias e de repente parar, ao ver a menina desconhecida sentada numa cadeira de madeira na cozinha, enquanto Chica fazia almoço.
As duas crianças só observaram a garota por um ligeiro espaço de tempo. Tinha os cabelos castanhos escuros, a pele branca e bochechas bem infantis, vestindo um simples vestido liso que parecia bem confortável se ela realmente tinha vindo de uma viajem longa, como sua mãe tinha lhe contato.
- Crianças! – Chica cumprimentou, secando as mãos. – Venham aqui, venham! Essa aqui é a Marina. – Deu a mão para a menina, dando apoio para ela saltar da cadeira e ficar de pé. – Esses são os meus filhos que estava te falando: Felipe e Clara.
Marina permaneceu quieta, intimidada pelos olhares em sua direção. Também, como criança, não entendia porque estava aqui. Não entendia porque simplesmente não podia ficar com seu pai... ou até mesmo continuar com sua mãe.
Clara subiu o olhar para a mãe, vendo o sinal em seu sorriso bonito.
- Vai passar as férias com a gente? – Clara perguntou, mesmo sabendo a resposta.
- Acho que sim. – Marina respondeu com um pouco de dificuldade na língua, mas sabia que não precisava ficar insegura já que dentro de casa a mãe só se comunicava com ela em português.
- Vai ser divertido. – Clara prometeu. – Esse é meu irmão. Ele não vai dormir no mesmo quarto que a gente... por que é menino, sabe, e a gente é menina.
Marina assentiu com seriedade, como se a explicação fosse extremamente importante para o bom convívio na casa.
- Quer conhecer o meu quarto? – Clara perguntou novamente, estendendo a mão para Marina.
Marina focou os dedos de Clara e pensou. Era nítida a tristeza liquida que emanava da garotinha. Não queria estar aqui nesse ambiente estranho de pessoas estranhas que falavam estranho... mas sabia que não podia estar com a mãe agora e também não tinha porque não aceitar o convite de Clara, que pareceu gentil e amigável. Clara estava disposta a construir uma amizade, percebeu, e Marina queria ter uma amiga para não chamar de estranha.
- Quero sim. – respondeu finalmente, pegando a mão de Clara, que a guiou para o quarto falando sobre o quanto cultivou a animação pelas férias desde que as aulas tinham começado.
Notas finais
Obrigada novamente e me deixe tua opinião, faz bem essa troca.
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