Sempre Foi Você
3 O Sonho que Se Aproxima
Notas iniciais

Pov. Katniss Everdeen
“Às vezes, amar alguém também significa encontrar coragem para deixá-lo seguir o próprio sonho.”
Alguns dias haviam se passado desde o Festival da Colheita.
E, aos poucos, Meadowville parecia ter voltado à sua rotina tranquila.
Os tratores voltaram a cruzar as estradas de terra antes mesmo do amanhecer. As crianças enchiam a praça principal depois da escola. As vitrines das lojas mudavam conforme as estações, e o cheiro de pão fresco da padaria dos Bell voltava a se espalhar pelas ruas todas as manhãs.
No Rancho Everdeen, a colheita das maçãs ocupava boa parte dos meus dias. Eu ajudava meu pai entre os pomares, minha mãe organizava as entregas, e Prim encontrava um jeito de transformar qualquer tarefa em motivo para sorrir.
Tudo parecia exatamente como sempre tinha sido. Ou, pelo menos, era isso que eu tentava acreditar. Porque, quando o sol começava a se pôr e eu via a antiga caminhonete azul de Peeta estacionar perto da cerca, o resto do mundo deixava de importar.
Era como se Meadowville inteira coubesse naquele sorriso. Naquela voz. Naqueles olhos azuis que sempre encontravam os meus.
Naquela tarde, enquanto caminhávamos entre as macieiras iluminadas pela luz dourada do fim do dia, sorri ao vê-lo equilibrando o violão nas costas.
— Você vai cantar hoje à noite? — perguntei.
— No Rusty Horseshoe.
— Estarei lá.
— Eu sei.
Sorri.
Porque ele sempre sabia.
Naquela noite, o Rusty Horseshoe estava lotado.
Era um dos restaurantes bares mais tradicionais da cidade.
As mesas estavam ocupadas. Os clientes conversavam animadamente.
O cheiro de comida caseira preenchia o ambiente.
Greasy Sae era a dona e comandava tudo com olhar crítico.
Então as luzes diminuíram.
E Peeta subiu ao palco com seu violão e apenas sua voz.
O silêncio tomou conta do lugar.
Eu o observava da primeira mesa.
Como sempre. Como fazia havia anos, mas naquela noite havia algo diferente. Algo que eu ainda não conseguia identificar.
Talvez fosse a forma como as pessoas paravam para ouvi-lo. Talvez fosse a intensidade de sua voz. Ou talvez fosse apenas a sensação de que aquele pequeno palco já não era suficiente para ele.
Quando a última música terminou, o bar inteiro explodiu em aplausos.
Peeta agradeceu.
Sorriu e desceu do palco.
Foi então que um homem desconhecido se aproximou.
Elegante e bem vestido. Claramente não era de Meadowville. Percebi quando ele apertou a mão de Peeta.
Os dois começaram a conversar.
Minutos depois, o sorriso de Peeta desapareceu. Substituído por pura incredulidade.
Levantei-me da mesa. Caminhei até ele.
— O que aconteceu?
Peeta ainda parecia incapaz de acreditar.
O homem estendeu um cartão.
— Meu nome é Seneca Crane. Trabalho com desenvolvimento artístico em Nashville.
Pisquei.
Nashville?
— Eu estava de passagem pela cidade e ouvi sua apresentação no festival. Soube que cantaria hoje aqui — continuou ele. — Filho, você tem algo raro.
Peeta permaneceu imóvel.
— Estou montando um novo projeto musical. Gostaria que você fosse para Nashville fazer algumas gravações de teste.
Meu coração acelerou fora do normal e o ar pareceu sumir dos meus pulmões.
Observei Peeta, o brilho surgindo lentamente em seus olhos.
Aquele brilho que aparecia sempre que ele falava de música.
De sonhos.
De futuro.
Era o sonho dele.
O sonho que carregava desde criança.
O sonho que parecia impossível.
Até agora.
Peeta apertou o cartão entre os dedos.
Sem perceber, procurou minha mão.
E eu a segurei.
Porque sabia exatamente o que aquele momento significava.
Eu o amava mais do que qualquer coisa.
E, de repente, tive a sensação de que o futuro estava chamando por ele muito além dos limites de Meadowville.
Sem que nenhum de nós soubesse, naquele instante, nossas vidas começaram a mudar para sempre.
O restante da noite passou como um borrão. As pessoas continuavam conversando, rindo e brindando como se nada tivesse acontecido.
Mas, para mim, o mundo parecia ter parado no instante em que ouvi a palavra Nashville.
Voltamos para casa com as janelas da caminhonete de Peeta abertas. O vento entrava pela cabine, trazendo o perfume dos campos e das plantações que cercavam todo o condado. Pela primeira vez desde que nos conhecíamos, o silêncio parecia ter mais coisas a dizer do que qualquer conversa.
Foi Peeta quem o quebrou.
— Ei... — Olhei para ele. — Você está muito quieta.
Forcei um sorriso.
— Só estou tentando processar tudo isso.
Ele respirou fundo.
— Eu também.
Parou por um instante antes de continuar.
— Katniss... é só uma oportunidade. Nem significa que vou conseguir.
Balancei a cabeça.
— Eu sei.
Mas nós dois sabíamos que aquilo era muito maior do que uma simples oportunidade.
Era o sonho dele batendo à porta.
Os dias seguintes passaram depressa.
A notícia se espalhou por Meadowville como tudo acontecia naquela cidade.
Na padaria, no mercado, na prefeitura, nas fazendas. Todos comentavam sobre o convite recebido por Peeta.
Seu pai, dizia pouco, mas era impossível esconder o orgulho estampado em seu rosto. Raiko já fazia planos para ajudá-lo a organizar a viagem. Até Cato, sempre mais reservado, lhe deu um tapinha nas costas e disse que aquele era o tipo de chance que aparecia apenas uma vez na vida.
Em casa, meus pais também comemoravam.
Meu pai dizia que sempre acreditou que a voz de Peeta era grande demais para ficar restrita aos bares da cidade e minha mãe concordava.
Prim estava animada como se o convite tivesse sido feito para alguém da própria família.
E eu...
Eu também estava feliz. Precisava estar. Porque ninguém merecia realizar aquele sonho mais do que ele.
Mesmo que cada palavra sobre Nashville apertasse um pouco mais o meu peito.
Passei a aproveitar cada segundo ao lado dele.
Depois do trabalho, caminhávamos pelos pomares do rancho.
Outras vezes seguíamos até a fazenda dos Mellark, onde observávamos o pôr do sol entre os enormes campos de milho balançando ao vento e as fileiras de abóboras que tornavam a propriedade conhecida em todo o Kansas.
À noite, quase sempre terminávamos na caçamba da caminhonete.
O mesmo lugar onde, anos antes, demos nosso primeiro beijo.
Peeta levava o violão. Cantava apenas para mim.
E eu fingia que aquelas canções não pareciam despedidas.
Com o passar das semanas, comecei a notar pequenas mudanças. Peeta passava horas ao telefone acertando detalhes das gravações. Respondia e-mails. Escolhia repertório. Fazia videoconferências com a equipe de Nashville.
Seu sonho estava deixando de ser apenas um sonho.
Estava se tornando real.
E, quanto mais real ele ficava...
Mais perto parecia o momento em que Meadowville deixaria de ser suficiente para ele.
Eu nunca tentei impedi-lo.
Jamais faria isso.
Mas havia noites em que eu me perguntava quanto tempo algumas semanas realmente significavam.
Numa dessas noites, enquanto caminhávamos de mãos dadas pela estrada de terra que separava nossas propriedades, resolvi perguntar aquilo que vinha martelando minha cabeça havia dias.
— Você vai demorar muito?
Peeta parou de andar.
Virou-se para mim.
Segurou meu rosto entre as mãos.
— Ei...
Sorriu daquele jeito calmo que sempre fazia meu coração desacelerar.
— São só algumas semanas.
Abaixou a testa até encostar na minha.
— Vou fazer as gravações de teste... e volto antes que você tenha tempo de sentir saudade.
Ri baixinho.
— Isso é impossível.
Ele riu também.
— Então vou voltar antes que a saudade fique insuportável.
Acreditei nele.
Ou, pelo menos, quis acreditar.
Porque, naquele momento, tudo o que eu precisava era continuar segurando sua mão e fingir que o tempo ainda estava do nosso lado.
——— *** ———
Pov. Peeta Mellark
Sempre achei que realizar meu maior sonho seria a melhor sensação do mundo.
Descobri que não era.
Porque, quanto mais Nashville deixava de ser uma possibilidade distante e se tornava uma data marcada no calendário, mais eu via a tristeza escondida no sorriso da Katniss.
Ela fazia de tudo para não demonstrar.
Mas eu a conhecia melhor do que qualquer pessoa. Conhecia cada silêncio. Cada olhar perdido. Cada sorriso que ela forçava apenas para me ver feliz.
E aquilo estava me destruindo.
Nossa primeira discussão aconteceu por causa de uma coisa completamente boba.
Eu havia passado a tarde inteira em uma videoconferência com a equipe de Nashville.
Quando consegui chegar ao Rancho Everdeen, já estava escuro.
Katniss me esperava sentada sobre a cerca do pomar.
Os braços cruzados.
— Achei que você não vinha.
— Me atrasaram.
— Ultimamente sempre atrasam.
Respirei fundo.
— Estou tentando organizar tudo antes da viagem.
— Eu sei.
Ela respondeu rápido demais.
— Então por que parece que você está brava comigo?
Ela desviou o olhar.
— Porque sinto que já estou perdendo você... e você ainda nem foi embora.
As palavras me atingiram como um soco.
— Kat...
— Não precisa explicar.
Ela limpou discretamente uma lágrima.
— Eu sei que esse é o seu sonho.
— E você faz parte dele.
— Será?
Aquilo doeu.
Mais do que qualquer coisa.
Aproximei-me, mas ela deu um passo para trás.
— Você fala de Nashville o tempo inteiro... dos ensaios, das gravações, das pessoas que conheceu... e eu fico aqui imaginando quando Meadowville vai deixar de ser suficiente.
Balancei a cabeça imediatamente.
— Meadowville nunca foi o motivo de eu ficar.
Ela me olhou, confusa.
Segurei delicadamente seu rosto.
— Você sempre foi.
O silêncio que veio depois dizia mais do que qualquer discussão.
Então ela desabou nos meus braços.
E eu a abracei como se pudesse impedir que o tempo continuasse passando.
Dois dias depois, tive uma ideia.
Se não podia parar o relógio...
Podia criar uma lembrança que durasse para sempre.
Na manhã de sábado, parei a caminhonete azul em frente ao Rancho Everdeen.
Katniss entrou e logo perguntou:
— Aonde estamos indo?
Sorri.
— Confia em mim.
Ela riu.
— Sempre.
Seguimos por uma estrada de terra pouco usada até chegarmos a um lugar que ela reconheceu no mesmo instante.
O Rancho Girassol.
A antiga propriedade dos Miller à beira do lago.
Lembrei-me perfeitamente de uma conversa nossa.
Katniss havia dito que aquele era o lugar mais bonito de Meadowville.
Naquele dia, prometi que um dia compraria aquele rancho.
Construiríamos nossa casa ali.
Criaríamos nossos filhos correndo entre os girassóis.
Ela pensou que eu tivesse esquecido.
Nunca esqueci.
Depois de alguns minutos, consegui destravar discretamente a velha porta dos fundos.
Ela me olhou com as sobrancelhas erguidas.
— Você invadiu uma casa?
Sorri.
— Prefiro dizer que peguei emprestado um fim de semana.
Ela riu pela primeira vez em dias.
E aquele som valeu tudo.
Passamos a manhã limpando um pouco da varanda, abrindo as janelas e deixando a luz do sol invadir os cômodos.
Depois fomos para a cozinha.
Preparei o almoço.
Ela cortava legumes enquanto eu mexia uma panela fumegante sobre o velho fogão.
Em alguns momentos, largávamos tudo apenas para dançar ao som de uma música que saía baixinho da playlist do meu celular.
Como se o mundo lá fora não existisse.
No fim da tarde, estendemos uma manta sobre a grama dourada pelo outono.
Deitei ao lado dela.
Ficamos apenas olhando o céu mudar de cor.
Conversando sobre nossos planos. Sobre uma casa cheia de risadas. Sobre crianças correndo entre os girassóis.
Ela apoiou a cabeça no meu peito. E, por alguns minutos, consegui acreditar que o tempo realmente havia parado.
Pouco antes do pôr do sol, caminhamos até o lago. A água estava gelada. Fria demais para aquela época do ano.
— Você não está pensando nisso...
Ela começou a dizer.
Já era tarde.
Corri para dentro da água.
Ela gargalhou.
Acabou vindo atrás de mim.
Nós dois ríamos como crianças. A água gelada roubava nosso fôlego, mas nenhum de nós queria sair dali.
Quando finalmente nos aproximamos, segurei sua cintura. Nossas testas se tocaram. O resto do mundo desapareceu.
Naquele instante, só existíamos nós dois.
O beijo foi lento. Demorado. Cheio de tudo aquilo que as palavras já não conseguiam explicar.
Mais tarde, diante da lareira acesa da velha casa, continuamos vivendo aquele fim de semana como se estivéssemos tentando guardar cada segundo um dentro do outro, transformando carinho, abraços e beijos em uma lembrança que nos aqueceria durante a distância que estava por vir.
Na manhã seguinte, levei Katniss até o píer de madeira.
O lago estava completamente calmo.
Enfiei a mão no bolso da jaqueta.
Meu coração parecia querer escapar do peito.
— Katniss...
Ela virou-se para mim.
— Você lembra da promessa que fiz aqui?
Ela sorriu.
— Que compraria este rancho.
Assenti.
Então ajoelhei-me.
— Ainda vou comprar. Vamos construir nossa casa aqui. E encher este lugar de crianças correndo entre os girassóis. — Abri a pequena caixa de veludo. — Mas não quero esperar tudo isso para te fazer a pergunta mais importante da minha vida.
Respirei fundo.
— Katniss Everdeen... você aceita se casar comigo?
As lágrimas escorreram pelo rosto dela antes mesmo de responder.
Ela levou as mãos à boca.
Depois caiu de joelhos na minha frente.
— Sim. — Sua voz saiu entre risos e choro. — Sim... mil vezes, sim.
Coloquei o anel em seu dedo.
Ela me abraçou com tanta força que parecia querer impedir que eu fosse embora.
E, naquele momento, fiz uma promessa silenciosa.
Voltaria para ela. Custasse o que custasse.
Os dias passaram rápido demais.
Na manhã da partida, Meadowville amanheceu envolta por uma névoa fina.
Estacionei a caminhonete azul em frente ao Rancho Everdeen.
Tirei a chave da ignição.
Coloquei-a na palma da mão de Katniss.
Ela franziu a testa.
— Quero que fique com ela.
— Peeta...
— Cuida dela para mim.
Sorri.
— Assim vou ter um motivo a mais para voltar.
Ela apertou a chave entre os dedos enquanto as lágrimas insistiam em cair.
Abracei-a demoradamente. Gravei seu perfume. Seu rosto. Seu sorriso. Cada detalhe.
Ela me levou até a rodoviária, ficamos abraçados um ao outro, nos beijamos repetidas vezes e quando finalmente entrei no ônibus que me levaria ao aeroporto, olhei uma última vez para trás.
Katniss permanecia parada uma mão segurava a chave. A outra repousava sobre o anel em seu dedo.
Naquele instante, eu repetia para mim mesmo a mesma promessa.
Seriam apenas algumas semanas.
Eu voltaria para casa.
Porque meu verdadeiro lar nunca foi Meadowville.
Sempre foi ela.
E quando finalmente cheguei, nunca imaginei que Nashville fosse tão... viva.
As ruas pareciam respirar música.
Ela escapava dos bares, das calçadas, das janelas abertas dos estúdios. Havia alguém tocando violão em praticamente cada esquina. Pessoas que sonhavam exatamente como eu.
No começo, tudo parecia um filme.
Mas, quando as portas do estúdio se fecharam atrás de mim na primeira manhã de gravação, percebi que aquilo era real.
Meu sonho finalmente havia começado.
— Bem-vindo ao Horizon Sound Studios.
Seneca abriu um sorriso enquanto caminhávamos por um corredor repleto de discos de ouro e fotografias de artistas que eu admirava desde criança.
Meu coração acelerou.
— Está nervoso?
Sorri de lado.
— Muito.
— Ótimo. Significa que você entende o tamanho dessa oportunidade.
Entramos na sala principal.
O teto era alto.
As paredes eram revestidas por painéis acústicos de madeira.
No centro havia um microfone vintage.
Ao redor, dezenas de instrumentos.
Violões. Steel guitars. Baterias. Pianos. Contrabaixos. Banjo. Guitarra havaiana. Violino.
Foi então que conheci a banda.
— Pessoal, este é Peeta Mellark.
Os músicos levantaram os olhos.
O primeiro a se aproximar foi um rapaz alto, bronzeado, de sorriso fácil.
Estendeu a mão.
— Finnick Odair.
Apertei sua mão.
— Prazer.
— Sou o contrabaixista da equipe... também serei o contralto que ajudará você no vocal, mas me meto com guitarra, teclado e qualquer instrumento que colocarem na minha frente.
Ri.
— Então você faz um pouco de tudo.
— Faço.
Ele piscou.
— E já ouvi sua demo umas dez vezes. Você canta pra caramba, cara.
A tensão diminuiu imediatamente.
Logo fui apresentado aos demais músicos.
Beetee era o produtor musical.
Wiress cuidava dos arranjos.
Mitchell comandava a equipe de gravação sempre fazendo piadas entre uma tomada e outra.
Pela primeira vez desde que cheguei, senti que talvez eu realmente pudesse pertencer àquele lugar.
As gravações começaram. Eram horas repetindo a mesma música. Mudando uma nota. Refazendo um verso. Gravando outra vez.
Até que tudo soasse perfeito.
Era cansativo.
Mas eu amava cada segundo.
À noite, quando finalmente voltava para o apartamento alugado pela gravadora, a primeira coisa que fazia era pegar o celular.
Sorria toda vez que via aquele nome.
[21:08] Kat🌻
Oi...
[21:09] Peeta 🧡
Como foi o dia no rancho?
Alguns minutos depois...
[21:14] Kat 🌻
Colhemos as primeiras maçãs da semana.
[21:15] Peeta 🧡
Aposto que seu pai colocou todo mundo pra trabalhar. 😂
[21:16] Kat 🌻
Como sempre.
[21:17] Peeta 🧡
Sinto falta de você. 😢
[21:21] Kat 🌻
Também. ❤️
No início conversávamos por horas.
Chamadas de vídeo.
Fotos.
Áudios.
Ela me mostrava o pôr do sol de Meadowville.
Eu mostrava as luzes de Nashville.
Era quase como se estivéssemos juntos.
Mas, conforme os dias passaram...
Meu horário ficou cada vez mais apertado.
Ensaios.
Gravações.
Entrevistas.
Reuniões.
E, quando eu finalmente conseguia pegar o celular...
Ela já estava dormindo.
Ou eu precisava acordar cedo outra vez.
As mensagens começaram a diminuir.
[07:15] Peeta 🧡 Bom dia, meu amor.
[07:16] Kat 🌻Bom dia. ❤️
No dia seguinte...
[22:37] Peeta 🧡 Acabei de sair do estúdio. Gravamos mais uma música hoje. Queria que você tivesse ouvido.
[22:46] Kat🌻 Tenho certeza de que ficou linda. Parabéns, meu amor. 🤍
[22:47] Peeta🧡 Você jantou?
[22:51] Kat🌻Sim. E você?
[22:52] Peeta🧡 Agora vou comer alguma coisa. Boa noite, meu amor.
[22:55] Kat🌻 Boa noite. 🤍
No outro dia...
[20:54] Peeta🧡 Tentei te ligar.
[21:18] Kat🌻 Estava ajudando minha mãe. Desculpa.
[21:19] Peeta 🧡Tudo bem. Só queria ouvir sua voz.
[21:26] Kat🌻Amanhã?
[21:27] Peeta 🧡 Amanhã. Prometo.
As ligações passaram a durar cinco minutos.
Depois três.
[23:11] Peeta🧡: Hoje foi um daqueles dias que só queria estar sentado na caçamba da caminhonete vendo o pôr do sol com você.
[23:24] Kat 🌻 Eu também.
[21:42] Peeta 🧡 Como você está?
[22:09] Kat 🌻Bem.
[22:10] Peeta🧡 Só bem?
[22:18] Kat🌻 Cansada.
[22:58] Peeta🧡 Boa noite, futura senhora Mellark. ❤️
[23:16] Kat🌻 Boa noite. 🤍
Até que algumas noites terminavam apenas com um...
“Boa noite.”
E aquilo começou a me assustar.
Não porque eu deixasse de amá-la, mas porque a distância fazia parecer que nossas vidas estavam correndo em velocidades diferentes.
Mesmo assim, eu me agarrava a um pensamento.
Está acabando.
Seneca dizia que faltava pouco. Mais alguns ajustes. Mais uma gravação.
Logo eu voltaria para Meadowville.
Para Katniss.
Naquela sexta-feira, terminei de gravar a última faixa prevista.
Saí da cabine sorrindo.
Finnick bateu em meu ombro.
— Cara... Você conseguiu.
Respirei aliviado.
— Acho que finalmente vou poder voltar.
Foi quando Seneca apareceu na porta do estúdio.
Nunca o vi sorrindo daquele jeito.
— Peeta.
— Sim?
Ele entrou na sala segurando um tablet.
— Filho...
Tenho uma notícia.
Franzi a testa.
— O que houve?
Ele colocou o aparelho nas minhas mãos.
Na tela havia milhares de comentários.
Compartilhamentos.
Vídeos.
Pessoas cantando minha música.
Podcast em rádios.
Perfis de música country falando sobre um novo artista desconhecido.
Olhei para ele, completamente confuso.
Seneca abriu um sorriso orgulhoso.
— Nós amamos aquela música. Então resolvemos soltá-la nas rádios e nas redes sociais.
Pisquei.
— O quê?
— Ela viralizou.
Senti minhas pernas fraquejarem.
— Viralizou?
Ele assentiu.
— E não foi só isso.
Respirou fundo antes de continuar.
— Consegui para você uma oportunidade que artistas passam anos esperando.
Meu coração voltou a acelerar.
— Qual?
Seneca sorriu ainda mais.
— Você vai abrir os shows da nova turnê de Claudius Jackson.
Por alguns segundos...
Esqueci até de respirar.
Claudius Jackson.
O homem cujos discos tocaram durante toda a minha infância.
O artista que me fez acreditar que um garoto do interior também podia viver de música.
Minha maior inspiração.
Olhei para Seneca.
Depois para Finnick.
Depois novamente para o tablet.
Tudo parecia irreal.
— Isso... isso é sério?
Finnick riu.
— Muito sério.
Seneca colocou a mão em meu ombro.
— Você merece essa oportunidade, filho.
O silêncio tomou conta da sala.
Fechei os olhos por um instante.
A imagem de Katniss surgiu imediatamente na minha cabeça.
A promessa que fiz.
O anel em seu dedo.
A caminhonete azul estacionada no rancho.
E Meadowville.
Respirei fundo.
Quando abri os olhos novamente, sorri.
Ainda sem acreditar.
— Eu aceito.
Naquele instante, meu maior sonho acabava de crescer.
E, sem que eu percebesse, a distância entre mim e a mulher que eu amava também.
Saí da sala de reuniões completamente atordoado.
Abriria os shows de Claudius Jackson.
Ainda parecia impossível acreditar.
Mas, enquanto todos comemoravam ao meu redor, meu pensamento estava a milhares de quilômetros dali.
Em Katniss.
Ela estava me esperando.
Achava que eu voltaria naquele mesmo dia.
E eu também.
Respirei fundo antes de pegar o celular.
O visor iluminou uma conversa que, semanas atrás, era repleta de fotos, áudios e mensagens intermináveis.
Agora...
Restavam poucas palavras.
Toquei no botão de ligação.
Chamou uma vez.
Duas.
Três.
Quando ela atendeu, ouvi sua voz suave do outro lado da linha.
— Oi...
Fechei os olhos.
Só de ouvi-la, meu peito apertou.
— Oi, amor.
Houve um pequeno silêncio.
— Você já está vindo?
Engoli em seco.
Era exatamente aquela pergunta que eu temia.
— Kat...
Ela percebeu.
Sempre percebia.
— O que aconteceu?
Passei a mão pelo rosto.
— Eu... preciso te pedir desculpas.
Outro silêncio.
— Achei que voltaria hoje. Juro que achei, mas aconteceu uma coisa.
— Que coisa?
Respirei fundo.
— Minha música foi lançada nas rádios.
Ela viralizou.
Do outro lado da linha, ouvi sua respiração vacilar.
— Sério?
Sorri, mesmo com um nó na garganta.
— Sim. E... Seneca conseguiu uma oportunidade enorme para mim.
Ela demorou alguns segundos para perguntar.
— Qual?
— Vou abrir os shows do Claudius Jackson.
O silêncio voltou. Longo e pesado.
Meu coração disparou.
— Kat?
Quando ela respondeu, sua voz parecia misturar orgulho e tristeza.
— Você conseguiu...
Fechei os olhos.
— Eu sinto muito.
— Não precisa.
— Preciso, sim. Prometi que seriam apenas algumas semanas.
— Você não tem culpa.
— Tenho. Porque toda vez que alguma coisa dá certo por aqui... eu fico mais longe de você.
Ela respirou fundo.
— Então faça valer a pena.
As lágrimas ameaçaram surgir.
— Eu vou voltar.
— Eu sei.
— Você acredita em mim?
Ela sorriu do outro lado da linha.
Eu consegui ouvir.
— Sempre.
Dois dias depois...
O estacionamento da arena parecia uma pequena cidade.
Ônibus. Carretas. Caminhões de iluminação. Técnicos correndo de um lado para o outro. Nunca tinha visto nada daquele tamanho.
Finnick apareceu segurando dois copos de café.
— Nervoso?
Soltei uma risada.
— Acho que vou desmaiar.
Ele bateu em meu ombro.
— Relaxa. É só cantar. Como fazia lá na sua cidade. Só que... — Olhou para a imensidão da arena. — Com umas vinte mil pessoas a mais.
Revirei os olhos.
— Valeu pela motivação.
Ele gargalhou.
Poucos minutos antes do show, permaneci sozinho atrás da cortina.
Segurei o violão.
Passei o polegar sobre o anel que usava preso a uma corrente em volta do pescoço.
Era a aliança que combinava com a de Katniss.
Não conseguia deixá-la longe de mim.
Fechei os olhos.
Imaginei Meadowville.
O Rancho Everdeen.
Nossa caminhonete azul.
O lago.
O Rancho Girassol.
E ela.
Sempre ela.
— Cinco minutos! — gritou um assistente.
Respirei fundo.
— Isso é por nós dois...
Sussurrei.
As luzes da arena se apagaram.
Uma onda de gritos ecoou por todos os lados. Meu coração parecia querer sair pela boca. O apresentador surgiu no palco.
— Senhoras e senhores... Antes de recebermos esta noite um dos maiores nomes da música country... Recebam um jovem talento que está conquistando o país... PEETA MELLARK!
As cortinas se abriram.
A luz me atingiu.
Por um segundo...
Fiquei imóvel.
Nunca havia visto tanta gente.
Milhares de rostos.
Luzes de celulares iluminando a arena.
Então lembrei das palavras de Katniss.
“Faça valer a pena.”
Sorri.
Ajustei o violão.
E comecei a cantar.
No primeiro refrão...
As pessoas já batiam palmas acompanhando o ritmo.
Na segunda música...
Ouvi parte da plateia cantar junto.
Minha música.
Aquela que eu havia escrito sentado na caçamba da caminhonete, pensando nela, olhando o pôr do sol em Meadowville.
No fim da apresentação...
Toda a arena estava de pé. Aplausos. Assobios. Gritos. Nunca imaginei viver algo parecido.
Olhei discretamente para os bastidores.
Seneca enxugava os olhos.
Finnick batia palmas acima da cabeça.
Até alguns técnicos comemoravam.
Meu peito se encheu de emoção, mas, no meio daquela multidão...
Procurei apenas um rosto.
Os olhos cinzentos que sempre encontravam os meus na primeira fila do Rusty Horseshoe.
Eles não estavam ali. Ainda assim, sorri.
Porque, em algum lugar do Kansas, eu sabia que Katniss estaria torcendo por mim.
E foi pensando nela que deixei o palco sob uma salva de aplausos que parecia não ter fim.
Naquela noite, antes mesmo de Claudius Jackson subir ao palco, um novo nome começava a ecoar pelas arenas de todo o país.
Peeta Mellark.

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