Notas iniciais
Olá pessoal! Mais um capítulo, desculpem era pra eu postar ontem, mas não consegui, espero que gostem e muito obrigada pelo carinho de todos vcs❤️

Pov. Katniss Everdeen


“Há silêncios que nascem do medo de perder alguém... e outros que existem porque já sentimos que essa pessoa está partindo.”


Nunca imaginei que a distância pudesse me causar tanta dor. No começo, eram apenas alguns dias. Depois, uma semana. Em seguida, duas.

Eu repetia para mim mesma que fazia parte. Nashville era o sonho do Peeta. Era o lugar onde ele sempre quis estar. Eu precisava aprender a dividir o homem que amava com o mundo. No entanto, o mundo parecia estar levando tudo dele.

As ligações ficaram mais curtas. As mensagens passaram a chegar horas depois. Às vezes, apenas no dia seguinte.

“Desculpa, amor. O dia foi uma loucura.”

“Passei o dia inteiro gravando.”

“Hoje tive reunião com os produtores.”

Sempre havia uma explicação. E eu nunca reclamava. Porque conhecia aquele brilho nos olhos dele desde sempre.

Era o mesmo brilho que via quando ele subia ao palco do Rusty Horseshoe. Só que agora aquele palco tinha se tornado muito maior.

Todas as noites eu estacionava perto do velho pomar. Na mesma estrada onde tantas vezes esperamos o pôr do sol juntos. Às vezes, levava a caminhonete azul dele.

O tio Otho havia pedido que eu ligasse o motor de vez em quando para não deixar a bateria descarregar. Foi assim que ela acabou se tornando meu esconderijo.

Eu me sentava atrás do volante. Segurava o volante com força e chorava. Ali dentro ainda existia o perfume dele.

O cheiro de madeira, a presença dele e do sabonete que sempre usava. Eu fechava os olhos e quase conseguia fingir que ele estava sentado ao meu lado.

— Volta logo... — sussurrava para o silêncio.

Mas o silêncio nunca respondia.

Na terceira semana, finalmente consegui falar com ele por vídeo.

Seu rosto apareceu na tela do celular. Estava cansado. Os cabelos um pouco maiores. A barba começando a crescer. Mesmo assim... Continuava sendo o homem que eu amava.

— Meu Deus... como eu estava com saudade de você.

Sorri.

— Eu também.

Conversamos por alguns minutos.

Contei sobre minha rotina. Sobre meu pai reclamando porque um dos tratores havia quebrado.

Era como se eu tentasse manter Meadowville viva entre nós.

Então respirei fundo.

— Peeta... eu preciso te contar que...

Ele abriu a boca para responder.

Mas alguém o chamou do outro lado.

— Peeta! Cinco minutos!

Ele virou rapidamente a cabeça.

— Já vou!

Olhou novamente para mim.

E sorriu daquele jeito que fazia meu coração esquecer qualquer tristeza.

— Amor... eu também preciso te contar algo. — Meu peito acelerou. — O contrato foi ampliado.

Sorri.

— Isso é maravilhoso.

— Não é só isso.

Os olhos azuis dele brilhavam.

— Eles decidiram fazer uma turnê nacional.

Fiquei imóvel.

— Turnê?

Ele assentiu, completamente empolgado.

— Vamos passar por mais de vinte cidades. Depois talvez venha uma turnê internacional... Katniss, isso é tudo o que eu sempre sonhei.

Sorri novamente. Ou pelo menos tentei. Porque naquele instante percebi que minhas novidades já não encontrava espaço.

— Eu sabia que você conseguiria.

Ele sorriu.

— Você acredita em mim mais do que eu mesmo.

A garganta queimou.

— Sempre vou acreditar.

Mais alguém voltou a chamá-lo.

— Preciso ir.

— Tudo bem.

— Assim que eu tiver um tempo, te ligo com calma.

— Claro.

— Eu te amo.

Fechei os olhos por um segundo.

— Eu também te amo.

A chamada terminou.

E fiquei olhando para a tela apagada durante vários minutos.

Sem conseguir falar ou respirar.

Os dias continuaram passando. E meu corpo começou a mudar. Primeiro pensei que fosse apenas cansaço. Dormia mais do que o normal. Acordava sem disposição. Meus seios estavam sensíveis. Doloridos. Pensei que era TPM. E só então percebi, minha menstruação estava atrasada.

Contei os dias uma. Duas. Três vezes. Meu coração começou a bater tão forte que mal conseguia respirar.

Não.

Não podia ser.

Ou podia?

Minha mente voltou imediatamente ao último fim de semana que passamos juntos no Rancho Girassol.

A casa. A chuva caindo no telhado. Os beijos. As promessas. Naquela noite não pensamos em mais nada. Apenas em nós.

Na manhã seguinte, inventei uma desculpa para minha mãe.

Peguei a caminhonete, dirigi até a cidade vizinha. Não queria que ninguém em Meadowville me visse entrando numa farmácia. Escolhi o teste quase sem enxergar. Minhas mãos tremiam tanto que a atendente perguntou se eu estava passando bem.

Respondi que sim.

Era mentira.

Voltei para casa. Esperei todos saírem. Entrei no banheiro do meu quarto. Fechei a porta. Eu ainda tremia de tanta ansiedade.

Segui todas as instruções. Depois coloquei o teste sobre a pia.

Três minutos.

Nunca três minutos demoraram tanto.

Andei de um lado para o outro. Olhei pela janela. Respirei fundo.

Quando finalmente criei coragem para olhar...

Minha respiração parou.

Grávida.

As duas linhas estavam ali. Nítidas. Inconfundíveis. Levei a mão à boca. As lágrimas começaram a escorrer antes mesmo que eu percebesse. Sentei no chão frio do banheiro. Sem forças.

Sem conseguir entender se chorava de medo... Ou de amor.

Com as mãos trêmulas, levei os dedos até minha barriga. Ainda completamente plana. Ali, existia uma vida. Nosso filho.

— Oi... — sussurrei entre lágrimas. — Eu sou a sua mamãe.

Sorri pela primeira vez naquele dia. Um sorriso pequeno. Frágil, mas verdadeiro.

Durante a semana tentei ligar para Peeta várias vezes. Caía na caixa postal. Enviei mensagens. Nenhuma resposta.

Mais tarde ele respondia apenas:

“Desculpa, amor. Ensaios o dia inteiro.”

“Hoje gravei uma entrevista.”

“Prometo que compenso quando voltar.”

Mas... quando ele voltaria?

As notícias começaram a aparecer por toda parte. Primeiro em pequenos jornais. Depois em programas de televisão. Em seguida nas redes sociais.

“Peeta Mellark é a nova promessa da música country.”

“O garoto do interior conquista Nashville.”

“Turnê nacional começa no próximo mês.”

Eu via fotografias dele sorrindo diante das câmeras.

Abraçando fãs. Concedendo entrevistas. Parecia tão feliz. Tão... distante.

Foi então que compreendi uma verdade que partiu meu coração. Talvez não existisse mais espaço para mim naquela nova vida. Muito menos para um bebê.

Passei a noite inteira acordada pensando.

No amanhecer, sentei na varanda do rancho enquanto o sol iluminava os pomares.

Acariciei minha barriga outra vez.

— Você nunca vai crescer sem amor — prometi em voz baixa. — Mesmo que seja só comigo... eu vou cuidar de você. Vou te proteger todos os dias da minha vida.

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Não porque eu deixasse de amar Peeta, mas porque o amava tanto... que me recusei a ser o peso que pudesse fazê-lo desistir do sonho que esperou a vida inteira para viver.

Naquela manhã, tomei a decisão mais difícil da minha vida.

Meu filho cresceria sabendo quem era o pai, mas eu o criaria sozinha. Mesmo que meu coração precisasse se partir em silêncio para isso.

Passei dois dias escondendo a gravidez. Não porque tivesse vergonha, mas porque, depois de aceitar aquela nova realidade, dizer em voz alta fazia tudo parecer ainda mais verdadeiro.

Na terceira manhã, acordei decidida. Meus pais tinham o direito de saber. Encontrei os dois na cozinha.

Minha mãe preparava café enquanto meu pai organizava alguns papéis da cooperativa sobre a mesa.

— Bom dia, filha. Dormiu bem? — perguntou minha mãe.

Assenti, embora fosse mentira.

Meu pai percebeu imediatamente.

— Aconteceu alguma coisa?

Minhas mãos começaram a tremer.

— Eu... preciso conversar com vocês.

Os dois levantaram os olhos ao mesmo tempo. O silêncio tomou conta da cozinha. Sentei-me devagar. Respirei fundo diversas vezes, mas nada pareceu me acalmar.

— Eu estou grávida.

As palavras finalmente escaparam.

Minha mãe deixou a xícara cair dentro da pia. Meu pai permaneceu completamente imóvel. Por alguns segundos, ninguém disse absolutamente nada.

Meu coração parecia querer sair pela boca.

Então, minha mãe caminhou até mim. Segurou meu rosto entre as mãos.

— Tem certeza?

Assenti com lágrimas escorrendo.

— Fiz o teste...

Ela me abraçou tão forte que comecei a chorar outra vez. Meu pai se aproximou logo em seguida. Colocou a mão sobre meu ombro.

— Você não está sozinha, querida.

Olhei para ele.

— Eu achei que vocês fossem ficar decepcionados.

Ele balançou a cabeça.

— Um filho nunca será motivo de vergonha.

Mamãe enxugou minhas lágrimas.

— Esse bebê é nosso neto. E será muito amado.

Solucei.

Era exatamente o que eu precisava ouvir. Papai puxou uma cadeira e sentou diante de mim.

— Agora existe uma coisa que precisa acontecer.

Eu já sabia o que ele diria.

— O Peeta precisa saber.

Baixei os olhos.

— Eu tentei...

— Tente outra vez.

— Ele nunca atende.

— Tente de novo.

Respirei fundo.

— Vou tentar.

Passei o restante do dia olhando para o celular.

Enviei uma mensagem.

“Amor, preciso muito falar com você. É importante.”

Nada.

Horas depois gravei um áudio.

— Oi... quando puder, me liga. Por favor. Eu realmente preciso conversar com você.

Visualizado e nenhuma resposta.

No dia seguinte liguei cinco vezes.

Caixa postal.

Mandei outra mensagem.

“Você pode separar cinco minutos do seu dia para falar comigo?”

Eu tentei diversas vezes.

Mais uma ligação.

Outra.

Outra.

Nada.

Comecei a sentir uma mistura estranha de tristeza e raiva.

Será que era tão difícil assim?

Será que eu tinha me tornado apenas mais uma ligação perdida no celular dele?

Três dias depois.

Meu telefone tocou.

Meu coração disparou.

Peeta.

Atendi imediatamente.

— Finalmente.

Do outro lado houve um breve silêncio.

— Kat... me desculpa. Esses últimos dias foram completamente malucos.

Fechei os olhos.

— Eu sei.

— Estamos ensaiando doze horas por dia. — Continuei em silêncio. — Você está aí?

— Estou.

— Parece estranha.

Respirei fundo.

— Porque estou cansada, Peeta.

— Eu prometo que quando essa correria passar...

— Quando?

Ele se calou.

— O quê?

— Quando essa correria vai passar?

— Eu...

— Quando terminar a turnê e começar outra gravação?

— Talvez...

— Depois vem outra entrevista?

— Katniss...

— Depois outro show?

Minha voz começou a falhar.

— Você faz ideia de quantas vezes eu tentei falar com você?

— Eu sei que errei.

— Não, você não sabe.

Ele suspirou.

— Passarinha...

Aquela palavra doeu.

— Não me chama assim.

— O que aconteceu?

As lágrimas começaram a cair.

— Aconteceu que eu fiquei esperando você lembrar que eu existia.

— Isso não é verdade.

— É.

Minha voz saiu firme pela primeira vez.

— Você sempre disse que nós enfrentaríamos tudo juntos.

— E vamos.

Sorri sem humor.

— Não vamos, Peeta.

— Claro que vamos.

Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ele não podia me ver.

— Você já escolheu o seu caminho.

— Katniss...

— Eu não consigo mais viver esperando alguns minutos da sua agenda.

— Você está falando isso porque está magoada.

— Estou.

Houve um silêncio. Longo e doloroso.

Até que respirei fundo.

— Acho que é melhor terminarmos.

Do outro lado da linha, nenhuma resposta.

Apenas respiração.

— Não faz isso.

Fechei os olhos.

Se ele estivesse ali... Talvez eu não conseguisse, mas ele não estava.

Fazia muito tempo que não estava.

— Adeus, Peeta.

— Kat, espera...

Com a mão tremendo, encerrei a ligação. O celular escorregou dos meus dedos e caiu sobre a cama. Levei as duas mãos até o ventre. As lágrimas vieram sem controle.

— Me perdoa... — sussurrei para o pequeno coração que crescia dentro de mim. — Eu tentei. Juro que tentei.

Do lado de fora, o vento balançava as copas das árvores. Levantei arrancando o anel de noivado do meu anelar e o joguei no fundo da gaveta onde tinha inúmeras fotos de nós dois. Em outro momento jogaria tudo fora.

E, desde que Peeta partira para Nashville, senti que não estava apenas encerrando um relacionamento. Estava me despedindo da vida que sempre imaginei para nós dois.

Os dias passaram devagar.

Pela primeira vez na vida, eu deixei de contar o tempo pelas estações do ano.

Passei a contá-lo pelas semanas de gestação.

Cinco semanas.

Seis.

Sete.

Meu bebê crescia em silêncio.

E eu aprendia, aos poucos, a ser mãe.

Minha mãe marcou minha primeira consulta pré-natal logo que contei sobre a gravidez.

— Nada é mais importante agora do que vocês dois — ela disse, segurando minha mão antes de entrarmos no consultório.

Nós dois.

Ainda era estranho ouvir aquilo, mas ao mesmo tempo, fazia meu coração se aquecer.

A médica confirmou que tudo estava evoluindo bem. Pediu uma bateria de exames. Solicitou ultrassonografias. Receitou vitaminas. E uma lista enorme de cuidados.

Quando saímos do hospital, Prim caminhava ao meu lado com uma pasta cheia de papéis.

— Eu vou guardar tudo em ordem cronológica.

Sorri.

— Você já está agindo como uma tia superprotetora.

Ela deu de ombros.

— Alguém precisa.

Passei o braço sobre seus ombros.

— Obrigada.

Ela encostou a cabeça na minha.

— Eu sempre vou estar com você.

Então, os sintomas apareceram com força. Todas as manhãs começavam da mesma maneira. Eu acordava, corria para o banheiro e passava vários minutos ajoelhada diante do vaso sanitário.

Meu estômago parecia rejeitar qualquer coisa. Até o cheiro do café, que sempre adorei, me fazia enjoar.

Mamãe preparava torradas, frutas e chás.

Nada parecia funcionar.

— Você precisa comer alguma coisa, Katniss.

Balancei a cabeça.

— Não desce.

— Mesmo assim.

Ela colocava um prato diante de mim todos os dias.

E Prim se sentava ao meu lado.

— Uma mordida.

— Não consigo.

— Então meia mordida.

Soltei uma risada cansada.

— Vocês duas são impossíveis.

— Somos insistentes — respondeu Prim.

— É diferente.

Acabei pegando um pedaço pequeno de torrada.

As duas sorriram como se eu tivesse vencido uma grande batalha.

Naquele momento percebi que, se eu estava conseguindo atravessar tudo aquilo, era porque elas seguravam minha mão o tempo inteiro.

As semanas continuaram passando.

Minha barriga ainda era discreta.

Mas eu já conseguia notar pequenas mudanças diante do espelho. Levava a mão até ela quase sem perceber. Era um gesto automático. Como se meu corpo soubesse exatamente onde meu coração agora morava.

Às vezes conversava baixinho. Contava como havia sido meu dia. Falava sobre o pomar. Sobre os cavalos. Sobre Meadowville.

E prometia que, quando chegasse a hora, eu mostraria ao meu bebê o lugar mais bonito do mundo.

Numa tarde de sábado, mamãe pediu que eu fosse ao mercado comprar algumas coisas para o jantar.

Prim insistiu em ir comigo.

— Não precisa.

— Precisa, sim.

Revirei os olhos.

— Você virou minha guarda-costas?

Ela sorriu.

— Exatamente.

Fomos rindo o caminho inteiro.

Depois das compras, Prim lembrou que precisava passar na livraria da praça para buscar um livro reservado.

— Me espera aqui na frente?

— Claro.

Fiquei parada próximo ao estacionamento, segurando as sacolas.

Foi quando ouvi uma voz conhecida.

— Ei... Catnip!

Meu coração deu um pequeno salto.

Virei-me.

Gale caminhava em minha direção com o mesmo sorriso despreocupado de sempre. Fazia meses que eu não o via. Ele abriu os braços.

— Quanto tempo.

Sorri por educação.

— Oi, Gale.

Ele passou a mão na nuca.

— Você sumiu.

— As coisas andaram corridas.

— Imagino.

Ele observou meu rosto por alguns segundos.

— Você parece cansada.

Forcei um sorriso.

— Só um pouco.

Ele começou a conversar sobre a cidade, sobre alguns conhecidos e sobre a fazenda da família dele. Depois comentou, completamente sem perceber o efeito que aquelas palavras causariam em mim.

— E o Peeta, hein? — Meu corpo enrijeceu. — Está fazendo o maior sucesso. Vi uma reportagem dele esses dias. A turnê parece estar lotando todas as cidades. Dizem que ele pode até gravar um álbum novo antes do fim do ano.

Meu sorriso desapareceu. Baixei os olhos por um instante. Era como se cada notícia abrisse outra ferida.

Gale continuou falando, animado.

— Meadowville inteira está orgulhosa dele. Quem diria que aquele garoto que cantava no Rusty Horseshoe chegaria tão longe...

Levantei a cabeça.

— Fico feliz por ele. — Minha voz saiu baixa e distante. Peguei firme nas alças das sacolas. — Me desculpa, Gale...

Ele franziu a testa.

— Aconteceu alguma coisa?

Balancei a cabeça rapidamente.

— Não.

Forcei outro sorriso.

— Eu estou atrasada. A Prim já deve estar me esperando.

Ele pareceu confuso.

— Ah... claro.

— Foi bom te ver.

— Também foi, Catnip.

Afastei-me antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.

Cada passo parecia mais pesado que o anterior.

Quando encontrei Prim na calçada, ela olhou para mim por apenas um segundo e percebeu imediatamente.

— Você está passando mal?

Engoli em seco.

Olhei discretamente para a barriga ainda pequena e respondi quase num sussurro:

— Não... — Passei a mão sobre o ventre. — Acho que é só saudade... da vida que eu achei que teria.


Pov. Peeta Mellark


Quando cheguei a Nashville, senti que estava vivendo dentro de um sonho.

O primeiro estúdio era muito maior do que eu imaginava. Havia músicos vindos de vários estados, produtores premiados, salas de gravação que eu só conhecia pela televisão.

Durante os primeiros dias quase não consegui dormir. Ensaiávamos de manhã. Gravávamos à tarde. À noite aconteciam reuniões, entrevistas, sessões de fotos e aulas de preparação vocal. Eu repetia para mim mesmo que precisava aproveitar cada oportunidade.

Era o que sempre sonhei.

Mesmo assim...

Toda noite, antes de dormir, eu procurava uma foto da Katniss no celular.

A mesma foto que tiramos no Festival da Colheita. Ela estava sorrindo para mim como se o mundo inteiro fosse caber dentro daquele sorriso.

Era dela que eu sentia falta.

As primeiras músicas começaram a ganhar forma.

Os produtores pareciam satisfeitos.

Seneca dizia que minha voz tinha identidade. Que o público gostava justamente porque eu parecia “o garoto do interior que nunca esqueceu de onde veio”.

Eu ria.

Mal sabiam eles que tudo o que eu fazia lembrava Meadowville.

Cada canção tinha um pedaço daquelas estradas de terra. Do Rancho Everdeen. Da velha caminhonete azul.

E, principalmente...

De Katniss.

Nos intervalos das gravações eu tentava ligar para ela. Quase sempre sem sucesso.

Quando conseguíamos conversar, era rápido demais.

Cinco minutos.

Às vezes menos.

Ela dizia que estava tudo bem.

Perguntava se eu estava me alimentando direito. Queria saber se eu estava descansando. Nunca reclamava.

Achei que aquilo significava que ela entendia a correria.

Hoje percebo que talvez ela apenas estivesse escondendo o que realmente sentia.

Algumas semanas depois, Seneca entrou sorrindo na sala de ensaio.

— Tenho uma notícia.

Todos pararam.

Ele abriu uma pasta.

— A gravadora aprovou uma turnê nacional.

Meu coração disparou. Não consegui acreditar. Aquele era o sonho que eu carregava desde menino.

Lembrei imediatamente de Katniss.

Ela seria a primeira pessoa para quem eu contaria. Peguei o celular assim que saí da reunião.

Liguei por vídeo.

Quando seu rosto apareceu na tela, senti uma saudade absurda.

Ela parecia cansada. Mais pálida.

Perguntei se estava tudo bem.

Ela respondeu que sim.

Contei sobre a turnê.

Esperava vê-la comemorando.

Ela sorriu, mas havia algo diferente naquele sorriso.

Como se estivesse feliz por mim...

...e triste por outra razão que eu não conseguia entender.

Fomos interrompidos pela equipe. Precisava voltar ao estúdio. Prometi ligar com calma assim que tivesse uma folga.

Eu realmente pretendia fazer isso, mas os dias seguintes saíram completamente do controle. Os ensaios aumentaram. As entrevistas começaram. A agenda mudou de hora em hora.

Meu empresário passou a controlar praticamente todos os compromissos.

Muitas vezes eu pegava o celular e encontrava dezenas de notificações.

Mensagens da minha mãe. Do meu pai. E até mesmo do Cato. Da imprensa. E também da Katniss.

Sempre respondia.

Nem que fosse poucas palavras.

“Desculpa a demora.”

“Hoje foi corrido.”

“Estou morrendo de saudade.”

Achei que era suficiente.

Não era.

Seneca Crane apareceu na porta do camarim com seu inseparável tablet nas mãos.

Desde que assumira minha carreira, parecia viver vinte e quatro horas por dia trabalhando. Era organizado. Inteligente. Sabia exatamente como conversar com jornalistas, produtores e patrocinadores.

Em poucos meses, transformou minha rotina em uma sequência de compromissos perfeitamente calculados.

— Já estou indo.

— Deixa seu celular comigo. Se surgir alguma ligação importante da gravadora, eu atendo e aviso.

Aquilo já tinha se tornado rotina.

Sem pensar duas vezes, entreguei o aparelho.

— Obrigado.

— Vai tranquilo.

Corri para o palco de ensaio.

Assim que a porta se fechou atrás de mim, o sorriso cordial de Seneca desapareceu.

Ele olhou para o visor do celular e permaneceu observando por alguns segundos.

Quando saí do estúdio, encontrei Seneca rindo de algum vídeo no próprio celular.

Assim que me viu, bloqueou a tela e abriu um sorriso.

— Cara, você precisava ver esse meme.

Ri sem prestar muita atenção. Peguei meu telefone. Nenhuma mensagem.

Estranhei.

— Pensei que a Katniss fosse responder.

Seneca deu de ombros, mantendo a expressão descontraída.

— Talvez ela esteja ocupada.

Assenti.

Fazia sentido. Ela também tinha a vida dela.

Os dias continuaram passando.

Sempre que eu deixava o celular sobre uma mesa durante ensaios, entrevistas ou gravações, Seneca dizia a mesma coisa.

— Pode ir tranquilo. Eu fico de olho.

E eu ia.

Numa tarde, enquanto gravávamos uma versão acústica de uma das músicas do álbum, ouvi meu celular vibrar várias vezes seguidas.

Olhei instintivamente para ele.

Seneca foi mais rápido.

— Deve ser o pessoal do marketing.

Ele pegou o aparelho antes de mim.

— Continua daqui. Eu resolvo.

Voltei a afinar o violão.

Do outro lado da sala, vi Seneca sorrindo discretamente para a tela.

Achei que estivesse respondendo algum produtor. Poucos segundos depois, ele colocou o celular novamente sobre a mesa.

Quando terminei a música, fui buscá-lo.

Nada.

Nenhuma ligação.

Nenhuma mensagem.

Nenhuma notificação.

Sem perceber que, naquele exato momento, a pessoa que eu mais amava no mundo acreditava que eu havia escolhido ignorá-la.

— Tudo certo? — perguntei.

Ele abriu um sorriso tranquilo.

— Tudo sob controle.

Sorri de volta.

Numa tarde, enquanto gravava um programa de televisão, meu celular permaneceu desligado por quase oito horas.

Quando finalmente o liguei, encontrei várias ligações perdidas da Katniss.

Mensagens.

Áudios.

Meu peito apertou.

Resolvi ligar imediatamente. Ela atendeu na primeira chamada. Nunca vou esquecer o tom da voz dela. Calma demais. Fria demais.

Pedi desculpas. Expliquei a correria. Os ensaios. Expliquei tudo. Mas, enquanto eu falava... Percebi que ela já não estava me ouvindo.

Era como se tivesse tomado uma decisão muito antes daquela ligação acontecer.

Então ouvi as palavras que jamais imaginei escutar.

— Acho que é melhor terminarmos.

Meu mundo parou. Tentei argumentar. Disse que aquilo era apenas uma fase. Que tudo voltaria ao normal, mas ela parecia distante. Muito distante.

E, segundos depois...

A ligação caiu.

Fiquei olhando para o celular sem conseguir acreditar.

Liguei outra vez.

Caixa postal.

Mais uma.

Nada.

Na terceira tentativa...

O telefone já estava desligado.

Sentei sozinho no camarim. As luzes do espelho continuavam acesas. Lá fora, todos comemoravam o sucesso da gravação, mas eu não conseguia ouvir mais nada.

E desde que deixei Meadowville, o sonho que esperei a vida inteira deixou de parecer completo.

Porque, sem a Katniss...

Nenhum palco do mundo parecia grande o suficiente para preencher o vazio que ela havia deixado.

Depois que Katniss terminou tudo, passei a noite inteira tentando entender onde tinha errado. Revivi nossa conversa dezenas de vezes.

Talvez eu devesse ter ido para Meadowville naquele fim de semana. Talvez tivesse trabalhado demais. Ou talvez a distância simplesmente tivesse feito o que tantas pessoas diziam que ela fazia.

Mesmo assim, alguma coisa não parecia certa. Katniss nunca desistiria de nós sem lutar. Ela sempre enfrentava os problemas de frente.

Por isso, na manhã seguinte, decidi que, assim que terminasse o ensaio, ligaria novamente.

— Cinco minutos, Peeta!

Quando tentei novamente entrar em contato não consegui. Ela havia me bloqueado da sua vida.

A música era a única coisa que ainda fazia sentido.

Depois do término, eu me joguei no trabalho como um homem que tentava fugir da própria sombra.

Ensaios. Gravações. Entrevistas. Shows. Eu aceitava tudo. Quanto menos tempo sobrasse para pensar, melhor, mas era inútil.

Ela aparecia em todos os lugares. No cheiro da chuva. Num campo de girassóis visto pela janela do ônibus da turnê. No gosto de uma torta de maçã. Até quando fechava os olhos.

As novas canções começaram a nascer sem que eu percebesse. Falavam sobre saudade. Sobre promessas interrompidas. Sobre voltar para casa e encontrar apenas silêncio.

Os produtores diziam que aquelas eram as melhores letras que eu já havia escrito. O público chorava durante os shows.

Eles acreditavam que eu interpretava.Mal sabiam que eu estava apenas contando a minha própria história.

— Você precisa sair um pouco.

Finnick bateu em meu ombro.

— Não posso.

— Pode, sim.

— Amanhã temos ensaio.

— Justamente por isso.

Os outros músicos concordaram.

Fazia semanas que insistiam.

Segundo eles, eu estava ficando “cinza”.

Acabei cedendo.

O bar estava lotado. Música alta. Gente rindo. Parecia outro planeta.

Enquanto todos comemoravam, eu permanecia sentado com um copo na mão, observando pessoas que provavelmente nunca mais voltariam a se encontrar.

Eu queria estar em Meadowville.

Queria estar dirigindo minha velha caminhonete azul. Queria ouvir a Katniss reclamando porque eu chegava cinco minutos atrasado, mas nada disso existia mais.

Quando saí para respirar um pouco, percebi uma pequena loja iluminada do outro lado da rua.

Estúdio de Tatuagem.

Fiquei olhando para a vitrine por alguns segundos.

Então atravessei.

— Primeira tatuagem?

O tatuador sorriu.

Assenti.

— Já sabe o que quer?

Nem precisei pensar.

— Quero um nome.

Algum tempo depois, observei meu reflexo no espelho.

Logo abaixo da nuca, gravado para sempre na minha pele, estava escrito:

Katniss.

Passei os dedos sobre a tatuagem ainda protegida pelo curativo.

Doía, ainda assim, aquela dor era pequena perto da outra.

Antes de ir embora, pedi mais uma. No lado interno do pulso esquerdo. Um pequeno pássaro em pleno voo.

Simples. Delicado. Livre.

Sorri pela primeira vez em muito tempo.

— Passarinha...

Era assim que eu a chamava quando ninguém estava por perto. Agora ela viajaria comigo para qualquer lugar do mundo.

As semanas viraram meses. A turnê cresceu. As arenas ficaram maiores. As filas de fãs pareciam intermináveis.

Meu rosto estampava revistas. Programas de televisão. Painéis publicitários, mas bastava o show terminar para que toda aquela euforia desaparecesse.

Eu ligava para casa sempre que podia. As conversas eram rápidas.

Minha mãe perguntava se eu estava comendo direito.

Cato falava pouco e muitas vezes nem dizer um simples “oi” queria.

Meu pai dizia que Meadowville sentia minha falta.

E eu fazia sempre a mesma pergunta.

— Como está a Katniss?

Do outro lado da linha surgia um silêncio desconfortável.

Até que alguém mudava de assunto. Tentei novamente a ligar diretamente para ela. Nenhuma chamada era atendida.

Depois enviei mensagens. Nenhuma resposta. Alguns dias depois percebi.

Eu havia sido bloqueado.

Olhei para a tela durante vários minutos. Era definitivo. Ela realmente não queria mais saber de mim.

Numa noite, depois de um show particularmente difícil, aceitei mais bebidas do que deveria.

Lembro de risadas. Da banda reunida. Da vocalista nova, Clove, conversando comigo.

Depois...

As lembranças se tornaram confusas.

Acordei no quarto de hotel com uma dor de cabeça insuportável. Demorei alguns segundos para entender onde estava. Quando consegui organizar os pensamentos, meu estômago afundou.

Clove ainda dormia.

Fechei os olhos imediatamente.

— Meu Deus...

Passei as mãos pelo rosto.

O peso da culpa caiu sobre mim de uma só vez.

Levantei devagar, sem fazer barulho.

Antes de sair, olhei mais uma vez para meu pulso.

O pequeno pássaro parecia me encarar.

No espelho, ao ajeitar a camisa, a tatuagem com o nome da Katniss apareceu por um instante.

Senti vergonha de mim mesmo. Uma vergonha que nunca imaginei sentir. Aquilo não apagava o amor que eu sentia por ela. Só tornava minha dor ainda maior. Saí do quarto sem olhar para trás. Só queria ficar sozinho.

Na manhã seguinte, alguém bateu à porta.

Abri ainda abatido.

Meu pai estava parado no corredor.

Fazia semanas que eu não o via.

— Pai...

Ele entrou sem dizer nada. Olhou ao redor do quarto. Garrafas vazias sobre a mesa. Roupas espalhadas. Violão largado no sofá.

Depois voltou os olhos para mim. Demorou alguns segundos antes de falar.

— Eu não reconheço mais o meu filho.

A frase acertou meu peito como um soco.

— O quê?

— Você está acabado, Peeta. Olhe para você. Olheiras. Você emagreceu. Cheiro de álcool. Esse não é o rapaz que saiu de Meadowville para realizar um sonho.

Apertei os punhos.

— O senhor não sabe o que eu estou vivendo.

— Sei apenas que você está se destruindo.

— Não estou!

Minha voz ecoou pelo quarto.

— Está, sim!

Ele deu um passo à frente.

— Você perdeu a Katniss... Mas o pior é que também está perdendo a si mesmo.

Senti toda a raiva que vinha guardando explodir.

— Chega! — Meu pai permaneceu em silêncio. — Se veio até aqui para me dar sermão... — Apontei para a porta. — Pode ir embora.

Ele me encarou por longos segundos. Havia tristeza em seus olhos. Não raiva. Só tristeza.

Antes de sair, colocou a mão na maçaneta e disse calmamente:

— Quando decidir voltar a ser o homem que sempre foi... eu estarei esperando.

A porta se fechou. O quarto voltou a ficar em silêncio. Encostei as costas na parede e deslizei até o chão. Apertei o pulso tatuado contra o peito.

Então, percebi que o sucesso podia encher estádios...

Mas era completamente incapaz de preencher o vazio deixado pela única pessoa que eu realmente queria ao meu lado.


Notas finais
É isso meus queridos gostaria de saber o que estão achando, beijos e até.