Notas iniciais
Boa tarde!!! Como vcs estão? Desculpem pela demora, mas eis-me aqui... Desde já agradeço o carinho de todos e pra compensar hoje terá dois capítulos.

Pov. Katniss Everdeen


“Cinco anos podem mudar uma vida inteira... mas, às vezes, bastam alguns segundos para trazer o passado de volta.”


Estacionei a caminhonete em frente ao Everdeen Farm Stand. A pequena construção de madeira fazia parte da história da nossa família havia pouco menos de quatro anos. Ali vendíamos as maçãs colhidas no rancho, hortaliças frescas, legumes, frutas da estação, geleias caseiras e as famosas tortas preparadas pela minha mãe. Em um dos cantos da loja, prateleiras de madeira exibiam pequenos frascos de vidro com ervas secas, folhas para chás, pomadas naturais, xaropes e preparados medicinais feitos por ela, receitas que passavam de geração em geração e que faziam muitos moradores de Meadowville passarem a procurar o Farm Stand sempre que precisavam de um remédio antes mesmo de pensar em ir à farmácia.

Empurrei a porta de madeira, fazendo o pequeno sino acima dela tocar. O aroma de maçãs frescas, canela e ervas secas me envolveu imediatamente.

Foi então que avistei Prim atrás do balcão. Ela estava completamente concentrada na tela do celular. Seu semblante era estranho. Surpreso, quase preocupado.

Assim que percebeu minha presença, bloqueou a tela depressa e pousou o aparelho sobre o balcão.

Ela sorriu, mas era um sorriso forçado.

— Bom dia, Katniss.

Franzi a testa.

— Bom dia, patinha.

Aproximei-me apoiando as mãos no balcão.

— Aconteceu alguma coisa?

Ela hesitou por um instante.

— Não... nada demais.

Conhecia minha irmã bem demais para acreditar naquela resposta.

Seus olhos sempre contavam a verdade antes que sua boca conseguisse escondê-la.

Inclinei um pouco a cabeça.

— Prim...

Ela respirou fundo e desviou o olhar por alguns segundos.

— Eu só... estava vendo uma notícia.

— Que notícia?

Ela voltou a olhar para o celular, como se ainda estivesse decidindo se deveria me mostrar ou não.

Por fim, pegou o aparelho novamente.

Na tela permanecia aberta a manchete:

“Peeta Mellark anuncia pausa na turnê mundial após cinco anos de sucesso.”

Meu coração acelerou por um breve instante apenas por ouvir aquele nome. Antes que eu pudesse ler qualquer outra coisa, Prim abaixou discretamente o celular.

— Achei melhor você não ver isso logo que chegasse... — disse baixinho.

Pisquei algumas vezes.

Cinco anos.

Mesmo depois de todo esse tempo... O nome de Peeta ainda era capaz de mudar completamente o clima de uma manhã comum.

Peeta Mellark.

Era impossível escapar dele.

As músicas tocavam todos os dias nas rádios da cidade, nos mercados, nas lanchonetes e até durante os festivais de Meadowville.

E, por mais que eu tentasse seguir em frente, nunca conseguia mudar de estação rápido o bastante.

Na última gaveta da minha penteadeira, escondida sob algumas cartas antigas, ainda guardava uma fotografia nossa sentados à beira do lago. Às vezes me perguntava por que nunca tive coragem de me desfazer dela. Talvez porque aquela imagem pertencesse a uma época em que nós dois acreditávamos que o amor, sozinho, seria suficiente para nos manter juntos.

Debaixo da fotografia continuava o anel de noivado que Peeta colocou no meu dedo. Nunca mais o usei, mas também nunca consegui me desfazer dele.

Peeta era o cantor mais famoso do país. O dono das músicas que dominavam as paradas de sucesso. O artista que lotava estádios por onde passava.

Mas, para mim...

Ele continuava sendo o garoto que cresceu em Meadowville. Aquele que segurou a minha mão. O que me olhou nos olhos e prometeu que me amaria para sempre.

Cinco anos...

Tempo suficiente para o mundo acreditar que eu havia seguido em frente, mas a verdade era bem diferente. Eu tentei.

Deus sabe o quanto tentei.

Durante algum tempo, aceitei alguns convites do Gale. Eram jantares simples no restaurante da cidade, caminhadas pela praça e até um piquenique às margens do lago, onde a pequena Willow corria pela grama enquanto nós dois conversávamos sobre qualquer assunto que não envolvesse o passado.

Gale era gentil e paciente. Nunca me pressionou a nada. Talvez porque, no fundo, ele também percebesse. Em todos aqueles encontros, havia sempre alguém sentado entre nós.

Peeta.

Bastava Gale sorrir para que eu me lembrasse do sorriso torto de Peeta.

Quando uma música começava a tocar ao longe, era a voz dele que eu escutava na minha memória.

Até o lago, que um dia pareceu um bom lugar para recomeçar, só me fazia recordar das tardes em que Peeta e eu passávamos horas ali, sonhando com um futuro que nunca chegou. Até tentei me desfazer da caminhonete azul e não consegui.

No fim, percebi que estava sendo injusta com Gale e comigo mesma. Então coloquei um ponto final antes que aquilo se transformasse em algo que eu jamais conseguiria corresponder.

Achei que, com o tempo, as coisas seriam mais fáceis.

Não foram.

Alguns meses depois, Cato começou a aparecer com mais frequência. Dizia que passava pelo Everdeen Farm Stand por acaso, mas sempre no meu turno e não o de Prim.

Às vezes oferecia ajuda para descarregar algumas caixas. Em outras, aparecia apenas para conversar alguns minutos antes de voltar para a fazenda dos Mellark.

Era um bom homem. Sempre foi, mas estar perto dele era ainda mais difícil.

Cada traço do seu rosto, cada jeito de cruzar os braços ou de pronunciar o meu nome carregava pequenos fragmentos do irmão.

E eu só conseguia pensar em Peeta.

Cato percebeu antes mesmo que eu precisasse dizer qualquer coisa. Depois de algum tempo, simplesmente deixou de insistir e passou apenas a ser o tio Cato para minha pequena.

Apesar de tudo... os Mellark nunca se afastaram da Willow.

Raiko e Otho faziam questão de visitá-la sempre que podiam. Nos aniversários, o presente deles nunca faltava. No Natal, havia sempre um pacote com o nome dela debaixo da árvore.

E, de vez em quando, Cato aparecia apenas para levá-la à fazenda, mostrar os filhotes que haviam nascido ou deixá-la colher uma abóbora para levar para casa. Eles nunca permitiram que Willow sentisse a ausência da família do pai.

E, por mais doloroso que fosse admitir, eu era profundamente grata por isso.

E então havia a Willow.

Minha menina. Meu maior amor. Meu maior lembrete.

Toda vez que eu olhava para ela, era como se uma pequena parte do Peeta ainda estivesse comigo. Os cabelos loiros, macios como espigas de trigo sob o sol do verão. Os olhos azuis, tão expressivos quanto os dele, capazes de demonstrar alegria, curiosidade e carinho sem precisar dizer uma única palavra.

O sorriso... Ah, aquele sorriso.

Bastava Willow sorrir para que meu coração fosse transportado anos atrás, para os dias em que Peeta iluminava qualquer lugar apenas por estar ali.

Às vezes, quando ela ria de alguma travessura, eu precisava desviar o olhar por alguns segundos.

Doía. Porque, por um instante, era como se eu estivesse vendo o pai dela outra vez.

A única coisa que Willow não havia herdado dele era o jeito tranquilo, pois seu temperamento forte era totalmente o meu.

Ela tinha a minha teimosia e a minha impaciência. Quando colocava alguma coisa na cabeça, não existia argumento capaz de fazê-la mudar de ideia.

Prim vivia dizendo que Willow era a mistura perfeita de nós dois.

A doçura do pai. A determinação da mãe. Eu costumava responder apenas com um sorriso.

Mas, no fundo, sabia que ela tinha razão.

Às vezes, antes de dormir, Willow pegava um dos CDs do Peeta na estante da sala e me perguntava por que aquele homem bonito das fotografias cantava tão bem.

Eu sempre dizia a mesma coisa.

— Porque a música sempre fez parte de quem ele é.

Ela sorria satisfeita, abraçava o CD contra o peito e saía correndo para brincar. Sem imaginar que aquele homem não era apenas um cantor famoso. Era o pai que ela nunca conheceu.

E o grande amor da minha vida.

Eu nunca consegui contar que ele era seu pai e por algum motivo todos ao redor pareciam respeitar aquele grande elefante na sala.

✦✦✦

Como se o destino gostasse de brincar comigo, a tarde chegou tranquila demais.

Depois do almoço, coloquei alguns livros de colorir, um caderno de desenhos e o estojo de giz de cera da Willow dentro da mochila dela.

— Vamos trabalhar com a tia Prim? — perguntei.

— Vamos! — respondeu ela, animada, correndo até a porta.

Sorri sem perceber.

Peguei sua mão, tranquei a casa e nós duas entramos na velha caminhonete azul.

O caminho até o Everdeen Farm Stand era curto. As estradas de terra cortavam os pomares carregados de maçãs, enquanto o vento entrava pela janela aberta trazendo o cheiro da grama recém-cortada.

Willow cantarolava baixinho no banco ao meu lado, completamente entretida com um ursinho de pelúcia.

Por alguns minutos, consegui esquecer tudo o que havia acontecido no início da semana.

Esquecer a notícia. O nome que ainda fazia meu coração vacilar.

Estacionei em frente ao Everdeen Farm Stand e desliguei o motor.

— Vamos, pequena.

Willow saltou da caminhonete antes de mim, abraçando a mochila contra o peito.

Abri a porta de madeira da loja. O pequeno sino acima dela anunciou nossa chegada.

E então...

Eu o vi.

Peeta Mellark.

Meu coração simplesmente parou.

Por um instante, achei que minha mente estivesse pregando uma peça em mim.

Cinco anos imaginando como seria revê-lo.

Cinco anos acreditando que, se aquele momento algum dia acontecesse, eu estaria preparada.

Eu não estava.

Ele permanecia de costas para a porta, conversando com Prim enquanto segurava uma pequena cesta de maçãs. Estava um pouco mais alto do que eu me lembrava, os ombros mais largos, os cabelos loiros levemente mais curtos e um discreto início de barba lhe dava um ar mais maduro.

Mesmo assim...

Eu o reconheceria em qualquer lugar do mundo.

Meu peito apertou com tanta força que precisei prender a respiração.

Foi nesse instante que Willow segurou minha mão com mais força.

— Mamãe...

A voz dela me trouxe de volta à realidade.

Antes que eu conseguisse responder, Peeta pareceu sentir nossa presença.

Seus movimentos cessaram.

Lentamente...

Ele começou a se virar.

Lentamente...

Ele começou a se virar.

Meu estômago se revirou. Por um segundo, tive vontade de fugir. De dar meia-volta, pegar a Willow pela mão e fingir que nunca tinha entrado ali, mas minhas pernas simplesmente se recusaram a obedecer.

Os olhos dele encontraram os meus.

E o mundo pareceu parar.

Não ouvi mais nenhum som ao redor. Nem a música baixa que tocava no rádio. Nem mesmo a voz de Prim.

Só existiam aqueles olhos azuis.

Os mesmos olhos que um dia me olharam como se eu fosse o lugar mais seguro do mundo.

Vi a surpresa atravessar o rosto dele.

Depois, algo mais difícil de definir.

Saudade. Dor. Incredulidade.

Como se ele também tivesse imaginado aquele momento centenas de vezes... mas nunca acreditado que realmente aconteceria.

Nenhum de nós disse uma palavra.

Cinco anos de silêncio pareciam pesados demais para serem quebrados por um simples “oi”.

Foi Willow quem rompeu aquele instante.

Curiosa, apertou minha mão e olhou para o homem à nossa frente.

— Mamãe... quem é ele?

Meu coração falhou outra vez.

Peeta baixou os olhos para a menina. Vi sua expressão mudar completamente.

Primeiro, confusão.

Depois, espanto.

Então seu olhar percorreu o rostinho dela devagar, como se estivesse tentando entender o que via.

Os cabelos loiros. Os olhos azuis. O sorriso tímido. Era impossível não perceber.

Willow parecia ter levado consigo as melhores partes dele.

Vi os lábios de Peeta se entreabrirem, mas nenhuma palavra saiu. Ele apenas respirou fundo, como se o ar tivesse desaparecido dos pulmões.

Prim, percebendo que nenhum dos dois conseguiria dizer alguma coisa, limpou a garganta discretamente.

— Katniss... o Peeta passou para comprar algumas coisas. Disse que sentiu falta das geleias da dona Asterid.

Sorri de um jeito que nem eu mesma reconheci.

Era um sorriso sem força. Sem coragem.

Voltei a encará-lo.

— Oi, Peeta.

Minha voz saiu quase como um sussurro.

Ele demorou um instante para responder.

Como se ainda estivesse tentando acreditar que eu realmente estava ali.

— Oi... Katniss.

Ouvir meu nome na voz dele depois de cinco anos fez alguma coisa se partir dentro de mim.

E eu soube, naquele exato instante, que o tempo podia ter mudado nossas vidas...

Mas nunca conseguiu apagar o que um dia sentimos um pelo outro.


Notas finais
Até mais...