Sempre Foi Você

2 O Festival da Colheita


Notas iniciais
Oieeee... já inicio agradecendo as meninas que estão me dando essa força, obrigada queridas por cada comentário, amei demais e vou responder tudo com carinho💕 vcs são incríveis e bora para o novo capítulo que têm os dois pov do nosso casal 🧡💚


Pov. Katniss Everdeen


Levantei cedo como de costume. Por alguns instantes permaneci sentada na cama, abraçando os joelhos, enquanto a luz suave da manhã começava a atravessar as cortinas do meu quarto.

Ainda estava presa ao sonho.

Ou melhor...

Ao homem que aparecia nele.

Peeta.

Fechei os olhos por um segundo e consegui me lembrar de cada detalhe.

Nós estávamos sentados na caçamba da velha caminhonete azul dele, estacionada em algum lugar entre os campos de milho dos Mellark e os pomares da família Hawthorne. O céu estava coberto de estrelas e ele tocava violão enquanto eu apoiava a cabeça em seu ombro.

Nada extraordinário. Nenhum grande acontecimento.

Apenas nós.

E, por algum motivo, aquilo parecia perfeito.

Talvez porque fosse exatamente o que eu mais queria. Ou porque, no fundo, eu soubesse que momentos simples como aqueles poderiam não durar para sempre.

Afastei o pensamento antes que ele pudesse se aprofundar.

Empurrei as cobertas para o lado e caminhei até a janela.

Quando a abri, o ar fresco da manhã invadiu o quarto imediatamente. Respirei fundo. O horizonte começava a ganhar tons dourados enquanto o sol despontava devagar sobre Meadowville. Era uma visão que eu observava desde criança.

E que nunca deixava de me impressionar.

Os campos se estendiam por quilômetros, brilhando sob a luz nascente. Ao longe, algumas vacas já pastavam tranquilamente perto das cercas.

Mais perto da casa principal, as galinhas corriam agitadas pelo terreiro, bicando os grãos de milho que meu pai acabara de espalhar para elas. Consegui enxergá-lo usando seu velho chapéu de fazendeiro enquanto caminhava pelo galinheiro.

A mesma rotina de sempre.

A mesma que fazia Meadowville parecer imutável. Segura.

E, ainda assim...

Tudo parecia diferente.

Porque meus pensamentos estavam presos em Peeta.

Como quase sempre.

Sorri sem perceber.

Provavelmente ele já estava acordado.

Talvez ajudando Otho com alguma tarefa na fazenda. Talvez alimentando os cavalos. Talvez reclamando do horário enquanto fingia estar de mau humor.

A verdade era que eu conhecia cada versão dele.

O cantor.

O fazendeiro.

O sonhador.

O homem que passava horas falando sobre música com os olhos brilhando como um garoto.

O som de passos no corredor me tirou dos pensamentos.

Pouco depois, a porta se abriu.

— Você está acordada? — Prim, minha irmã de dezesseis anos, apareceu usando um pijama florido e o cabelo preso em uma trança bagunçada.

— Infelizmente.

Ela riu.

— Mamãe mandou avisar que o café está pronto.

— Claro que mandou.

— E também disse que, se você ficar parada olhando pela janela mais cinco minutos, vai acabar perdendo as panquecas.

Isso foi suficiente para me fazer sair do quarto.

Prim sorriu satisfeita.

— Sabia que isso funcionaria.

Descemos juntas as escadas.

Mas, mesmo enquanto conversávamos sobre coisas sem importância e o cheiro de café fresco preenchia a casa, meus pensamentos voltaram para ele.

Para Peeta.

O cheiro de café recém-passado e panquecas quentes me recebeu assim que entrei na cozinha.

Minha mãe já organizava algumas caixas de maçãs sobre a mesa enquanto Prim ajudava a separar pedidos para uma entrega daquela tarde.

Meu pai entrou logo depois, tirando o chapéu e sentando-se à cabeceira.

Aquela cena era tão familiar que chegava a ser reconfortante.

Tão Meadowville.

Tão casa.

— Dormiu bem? — perguntou minha mãe, enquanto colocava mais panquecas no meu prato.

— Mais ou menos.

— Sonhou com o Peeta de novo? — Prim quis saber com aquele típico sorriso travesso.

Revirei os olhos.

— Você fala como se isso fosse raro.

— Porque não é.

Papai soltou uma risada baixa atrás da xícara de café.

— Não incentivem.

— Não estou incentivando — respondeu Prim. — Só constatando fatos.

Ignorei os dois e cortei um pedaço da panqueca e colocando um pouco de calda.

Depois de alguns minutos em silêncio, lembrei-me do motivo pelo qual precisava falar com minha mãe.

— Ah, mãe... você pode me ajudar com uma coisa depois?

Ela ergueu os olhos.

— Claro.

— Preciso ajustar a bainha da minha saia para o Festival da Colheita.

— A preta estampada?

Assenti.

— Ela ficou um pouco comprida.

— Depois do almoço nós arrumamos isso.

— Obrigada.

Ela sorriu.

— Vai ficar linda nela.

— Você fala isso de todas as minhas roupas.

— Porque é verdade.

Balancei a cabeça, mas não consegui evitar um sorriso.

Quando terminamos o café, ajudei Prim a recolher algumas louças e subi novamente para o quarto.

Meu primeiro pensamento foi pegar o celular.

Queria mandar uma mensagem para Peeta. Contar sobre o sonho e perguntar o que ele estava fazendo. Talvez apenas dizer que estava com saudade, mesmo tendo visto ele na noite anterior, mas quando desbloqueei a tela, uma notificação já me esperava.

Evidentemente.

Peeta.

Abri a conversa imediatamente.

[07:18] Peeta 🧡

Bom dia, Passarinha. ❤️

Espero que esteja sorrindo agora. Se não estiver, considere esta uma missão oficial para mudar isso.

Também sonhei com você. Então acho que já estamos empatados. 😉

Meu coração aqueceu instantaneamente.

Sorri enquanto digitava.

[07:20] Katniss 🌻

Bom dia.

Idiota.

Idiota maravilhoso.

Acabei de sonhar com você também. Nós estávamos observando as estrelas na sua caminhonete. Parecia tão real que fiquei triste quando acordei.

A resposta chegou quase imediatamente.

[07:21] Peeta 🧡

Porque já é real.

Franzi a testa.

[07:21] Katniss 🌻

Como assim?

Os três pontinhos apareceram.

Desapareceram.

Voltaram.

Meu coração acelerou sem motivo algum.

[07:22] Peeta 🧡

Porque tudo que importa naquele sonho já existe.

Você.

Eu.

A caminhonete.

As estrelas.

O resto são apenas detalhes. ❤️

Meu coração praticamente derreteu.

Antes que eu pudesse responder, a tela iluminou novamente.

Chamada recebida... Peeta 🧡

Atendi.

— Oi.

— Bom dia, Passarinha.

Meu sorriso aumentou.

Era o apelido que ele usava desde o ensino médio.

Dizia que eu passava tanto tempo nos pomares que acabaria criando asas.

— Você sabe que é impossível competir com mensagens românticas às sete da manhã, certo?

— Sete e vinte e três.

— Isso não melhora sua situação.

A gargalhada dele atravessou a linha.

E, por um instante, tudo pareceu exatamente como deveria ser. Conversamos amenidades e nós despedimos com ele dizendo que me buscaria mais tarde para o festival.

Sacudi a cabeça, me vesti adequadamente para realizar as tarefas do dia. Muitas demandas antes da abertura do festival.

Mais tarde, Meadowville parecia ter acordado com energia suficiente para iluminar todo o Kansas.

As ruas próximas à praça principal estavam tomadas por caminhonetes, tratores decorados e famílias inteiras caminhando entre as barracas da Feira Rural. Faixas coloridas atravessavam a avenida. Bandeirinhas dançavam ao vento.

O cheiro de milho assado, torta de maçã, churrasco defumado e pipoca doce pairava no ar.

Era impossível não sentir que o Festival da Colheita finalmente havia começado.

Eu estava sentada no banco do passageiro da caminhonete de Peeta enquanto observava o movimento pela janela.

Usava uma blusa preta de mangas longas e a saia florida que minha mãe passara boa parte da tarde ajustando. As botas de couro já estavam cobertas pela poeira típica da cidade.

Ao meu lado, Peeta mantinha uma das mãos no volante. A outra repousava sobre o câmbio. Camisa xadrez cinza e jeans escuro. O cabelo meio bagunçado pelo vento.

Exatamente como eu o conhecia.

Exatamente como eu gostava.

— Está nervosa? — perguntou.

— Por quê?

— Porque você está observando aquela barraca de tiro há cinco minutos.

Olhei para ele.

— Estou avaliando a concorrência.

— Concorrência?

— Claro.

— Você quer competir?

— Quero ganhar aquele urso gigante.

Peeta acompanhou meu olhar até o enorme prêmio pendurado no alto da barraca.

— Ah...

— O quê?

— Nada.

— Você acha que eu não consigo?

Um sorriso surgiu no canto de sua boca.

— Eu acho que você consegue qualquer coisa que coloque na cabeça.

Meu coração acelerou de forma irritantemente previsível.

— Essa foi uma resposta muito inteligente.

— Eu sei.

— Covarde.

— Também sei.

Ri.

Do lado de fora, crianças corriam entre as barracas.

Mais adiante acontecia a tradicional competição de tortas.

Ao lado da prefeitura, agricultores exibiam suas melhores colheitas.

Abóboras gigantes.

Milho.

Tomates.

Morangos.

Maçãs.

As maçãs dos Everdeen ocupavam praticamente uma barraca inteira.

E as abóboras dos Mellark estavam posicionadas logo em frente.

Como todos os anos.

Como uma rivalidade amigável que já fazia parte da identidade da cidade.

— Você percebe que sua família e a minha transformaram uma competição agrícola em um evento esportivo? — comentei.

— Meu pai leva isso muito a sério.

— Seu pai levou uma fita métrica para medir uma abóbora.

— Exatamente.

— Isso não é normal.

— Talvez não.

Eu ri novamente.

Mas quando me virei para ele, percebi que Peeta já não estava olhando para a praça. Nem para as barracas. E nem para o festival.

Ele estava olhando para mim.

Apenas para mim.

Por alguns segundos o barulho da multidão pareceu desaparecer.

— O quê? — perguntei.

O sorriso dele suavizou.

— Nada.

— Peeta.

— Estou só observando.

— Isso é suspeito.

— Talvez.

Desviei o olhar, sentindo o rosto aquecer.

Mas ele continuou.

— Você sabe qual é minha parte favorita do Festival da Colheita?

— A competição de tortas?

— Não.

— A música?

— Não.

— O concurso de abóboras gigantes?

— Definitivamente não.

— Então o quê?

Ele apoiou o braço na janela aberta.

Os olhos azuis refletiam a luz dourada do fim de tarde.

— Você.

Meu coração perdeu uma batida.

— Isso nem faz sentido.

— Faz para mim.

— Claro que faz.

— Faz porque você está em todas as minhas melhores lembranças daqui.

Engoli em seco.

— Peeta...

— Estou falando sério.

A voz dele saiu mais baixa.

Mais sincera.

— Quando penso na primeira vez que subi naquele palco improvisado da praça... você estava lá.

Meu peito apertou.

— Quando penso no primeiro Festival da Colheita que participei... você estava lá.

Ele sorriu.

— Quando penso em qualquer sonho que já tive... você também estava.

Desviei o olhar para a multidão. Não porque não quisesse ouvi-lo. Mas porque ouvir aquilo fazia meu coração bater rápido demais.

— Você está ficando sentimental.

— Talvez.

— É perigoso.

— Não para mim.

O silêncio se instalou por alguns instantes.

Então ele completou:

— Você não faz ideia do quanto é importante para mim, Passarinha.

Levantei os olhos novamente.

E havia algo diferente em seu olhar.

Algo profundo. Algo que parecia maior do que aquele momento.

Maior do que tudo que nos cercava.

— Peeta...

— Você é a razão de metade das músicas que escrevi.

Meu coração disparou.

— E da outra metade?

— Também.

Não consegui evitar a risada.

Mas ele continuou sério.

— Você sempre foi minha maior inspiração, Katniss.

O mundo desapareceu.

As vozes. A música. O movimento da feira.

Tudo.

— E sempre vai ser.

Por um instante, apenas o observei.

O garoto que conheci no jardim de infância. O homem que sonhava com palcos maiores do que aquela cidade. O homem que, apesar de todos os sonhos, ainda olhava para mim daquela forma.

Então ele se inclinou em minha direção, segurando meu rosto entre suas cálidas mãos e me beijou. Suave e demorado. Como se quisesse guardar aquele momento.

Quando nos afastamos, ele encostou a testa na minha.

— Isso foi um sim para o urso gigante?

Sorri.

— Isso foi um desafio.

— Então vamos ganhar esse urso.

— Nós?

— Você atira.

— E você?

— Eu carrego o prêmio até a caminhonete.

— Parece justo.

— Eu sou um homem justo.

— Você é um mentiroso.

— Mas sou seu mentiroso favorito.

Descemos da caminhonete e caminhamos em direção às barracas.

O som da música country ecoava pela praça principal enquanto dezenas de pessoas circulavam entre as barracas decoradas com fardos de feno, girassóis e fitas nas cores da cidade.

Meadowville inteira parecia ter saído de casa.

— Eu juro que a população dobrou desde a semana passada — comentei.

— Não dobrou.

— Então explique por que eu acabei de ver três pessoas carregando galinhas.

— Porque é Meadowville.

— Argumento justo.

Peeta segurou minha mão e começou a caminhar pela feira. Como sempre, demorávamos o dobro do tempo para chegar a qualquer lugar.

A cada dez passos alguém parava para conversar. Perguntar sobre a colheita. Sobre as maçãs. Sobre as músicas dele. Ou simplesmente para desejar um bom festival.

— Katniss!

Virei-me ao ouvir meu nome.

Violet Abernathy atravessava a multidão em nossa direção.

Os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo alto balançavam enquanto ela corria.

— Finalmente encontrei vocês.

— Faz cinco minutos que chegamos.

— Exatamente. Vocês desaparecem num piscar de olhos.

— Como desaparecemos se estamos no meio da rua principal?

— Detalhes.

Ela então apontou para uma barraca logo adiante.

— Competição de tiro ao alvo.

Peeta soltou um gemido.

— Ah, não.

— Ah, sim.

— Eu conheço esse olhar.

— Você deveria estar preocupado.

— Eu estou.

Violet cruzou os braços.

— Vocês vão competir.

— Isso foi uma ordem? — perguntei.

— Sim.

— Então acho que não temos escolha.

Peeta olhou para mim.

— Você sabe que isso sempre termina mal para alguém.

— E esse alguém normalmente é você.

— Exatamente.

Poucos minutos depois estávamos diante da barraca.

Balões coloridos cobriam um enorme painel de madeira.

O prêmio principal era justamente o urso gigante que eu havia visto da caminhonete.

O dono da barraca entregou a espingarda de pressão.

— Cinco tiros.

Observei os alvos. Respirei fundo. Mirei.

Estouro.

Um balão.

Outro.

Mais um.

Mais dois.

E o último.

Cinco disparos.

Cinco acertos.

Ao meu lado, ouvi Violet gritar.

— Eu sabia!

Peeta apenas balançou a cabeça.

— Claro que acertou todos.

— Você duvidou de mim?

— Nunca.

— Mentira.

— Um pouco.

O dono da barraca retirou o enorme urso do gancho.

Quando o colocou em meus braços, a pelúcia era quase do meu tamanho.

— Isso é ridículo.

— Eu acho perfeito — respondeu Peeta.

— Porque quem vai carregar é você.

— Agora entendi.

Ele passou o braço pelos meus ombros enquanto continuávamos caminhando.

A tarde avançava lentamente.

Assistimos à competição de tortas.

Vimos Prim vencer uma disputa de decoração de cupcakes contra três senhoras que claramente levavam aquilo muito a sério.

Encontramos Delly e sua família.

Conversamos com o prefeito Abernathy próximo ao palco principal e acabamos sentados na beira da cerca que cercava uma área gramada atrás da feira.

Ali o movimento era menor. Mais tranquilo. O sol começava a descer no horizonte. Transformando tudo em tons dourados.

Peeta estava sentado ao meu lado. As pernas esticadas. O urso gigante apoiado entre nós.

— Você percebe que venceu praticamente tudo hoje? — comentou ele.

— Não venci a competição de tortas.

— Porque não participou.

— Detalhe irrelevante.

Ele sorriu.

O mesmo sorriso que sempre parecia surgir quando me observava.

Silencioso, calmo e familiar.

Por alguns instantes apenas ficamos ali. Sem pressa. Sem falar sobre nada importante. Apenas observando a cidade. As crianças correndo. Os músicos afinando instrumentos para as apresentações da noite.

As luzes começando a acender uma a uma.

— Eu gosto disso — falei.

— Do quê?

— Disso tudo.

Ele acompanhou meu olhar.

— Meadowville?

— Sim.

— Eu também.

— Às vezes parece que nada muda.

— E isso é ruim?

Pensei por alguns segundos.

Depois balancei a cabeça.

— Não.

Peeta pegou minha mão.

Entrelaçando nossos dedos.

— Então aproveita.

— Aproveitar o quê?

— Hoje.

Olhei para ele.

— Você está filosófico demais.

— Talvez seja culpa do festival.

— Ou da idade avançada.

— Vinte anos não é idade avançada.

— Está se aproximando perigosamente.

— Crueldade.

Sorri.

Então apoiei a cabeça em seu ombro.

E ficamos ali.

Assistindo o pôr do sol desaparecer lentamente atrás dos campos. Sem pensar no amanhã ou nas novidades do festival que seguiriam durante a semana. Estávamos apenas curtindo aquele instante. A música distante. As luzes da feira. No cheiro de maçã caramelizada. E na sensação simples e reconfortante de estar exatamente onde eu queria estar.

Após o encerramento daquele dia, Peeta me levou pra casa pouco tempo depois dos meus pais. Assim que adentrei meu quarto, tirei as botas, trocando minha roupa do festival por algo mais leve, olhei pela janela para o céu estrelado.

Logo mais, deitada na cama, peguei o celular.

Sorri ao ver uma nova notificação.

[23:48] Peeta 🧡

Já está deitada?

Revirei os olhos.

Ele provavelmente tinha acabado de me deixar na porta há menos de cinco minutos.

Mesmo assim respondi.

[23:49] Katniss 🌻

Sim.

A resposta veio imediatamente.

[23:49] Peeta 🧡

Só "sim"?

Não consegui evitar um sorriso.

[23:50] Katniss 🌻

Sim.

[23:50] Peeta 🧡

Você é impossível.

[23:51] Katniss 🌻

Boa noite, Peeta.

Houve alguns segundos de silêncio.

Então:

[23:51] Peeta 🧡

Boa noite, Passarinha. Te amo❤️

Sorri contra o travesseiro.

A conversa parecia encerrada.

Mas outra mensagem apareceu.

[23:52] Peeta 🧡

Te amo, mas você continua impossível.

[23:53] Katniss 🌻

Amo você 🫶🏼

Uma risada escapou dos meus lábios.

Apaguei a luz.

E adormeci pensando nele.

Como quase sempre acontecia.



——— *** ———



Pov. Peeta Mellark


Às vezes eu me perguntava em que momento exatamente havia me apaixonado por Katniss Everdeen.

Talvez tivesse sido quando éramos crianças e ela corria pelo porquinho da escola ou pelos pomares dos Everdeen como se tivesse nascido da própria terra. Ou talvez durante algum baile da escola. Em alguma tarde qualquer sentados na caçamba da minha caminhonete observando o pôr do sol? A verdade era que eu não sabia.

Porque parecia que ela sempre esteve lá. Em todas as minhas melhores lembranças. Em todos os meus planos e sonhos que tive desde garoto.

Quando imaginava meu futuro, Katniss aparecia nele sem esforço algum. Nas manhãs de domingo. Nos festivais da cidade. Nas noites de verão. Nas ceias de Natal. Nas fotografias emolduradas sobre uma lareira. Nos aniversários. Nas dificuldades. Nas vitórias.

Em tudo.

E talvez fosse justamente isso que tornasse nosso relacionamento tão simples.

Nós nunca precisávamos fingir ser alguém diferente. Nunca precisávamos impressionar um ao outro.

Katniss me apoiava quando eu duvidava de mim mesmo. Eu fazia o mesmo por ela.

Ela me lembrava de continuar sonhando. Eu a lembrava de desacelerar de vez em quando.

Funcionávamos.

Como duas peças de um mesmo quebra-cabeça.

Por isso, enquanto caminhávamos juntos pela praça principal naquela noite, observando Meadowville celebrar mais um encerramento do Festival da Colheita, tive a estranha sensação de que não existia lugar no mundo onde eu preferisse estar.

As luzes penduradas entre os postes brilhavam sobre a multidão. O aroma de canela, maçã caramelizada e milho assado espalhava-se pelo ar fresco do início do outono.

A música ecoava dos alto-falantes instalados ao redor da praça. E praticamente toda a cidade parecia reunida ali.

Katniss caminhava ao meu lado usando uma saia jeans simples, mas bonita, botas de couro e uma blusa branca de mangas bufantes.

Linda.

Embora essa palavra nunca parecesse suficiente para descrevê-la.

As pessoas nos cumprimentavam conforme passávamos. Algumas perguntavam sobre as colheitas. Outras queriam saber como andavam os preparativos para o próximo inverno.

E, inevitavelmente, surgiam os comentários sobre casamento.

— Então, quando vai acontecer?

— Aposto que até o próximo festival!

— Eu dou seis meses!

Katniss apenas ria.

Eu também.

Mas seria mentira dizer que a ideia me incomodava.

Muito pelo contrário.

Ao longe, perto do palco principal montado para as apresentações da noite, avistei Haymitch Abernathy conversando com alguns organizadores.

Como prefeito de Meadowville, ele praticamente comandava o festival inteiro. Effie, sua esposa estava ao seu lado, elegante como sempre, enquanto distribuía sorrisos para metade da cidade.

Tudo parecia exatamente como deveria ser.

Meu olhar percorreu a multidão distraidamente.

Foi então que vi Cato. Meu irmão, dois anos mais velho, estava próximo às barracas agrícolas.

Braços cruzados. Expressão tranquila. Observando a movimentação.

Ou melhor...

Observando Katniss.

Não havia ressentimento nisso.

Nunca houve.

Eu conhecia Cato a vida inteira.

Sabia que ele gostava dela. Provavelmente havia gostado durante anos, mas também sabia que ele jamais faria algo para desrespeitá-la.

Ou a mim.

Ainda assim, às vezes eu percebia aquele olhar. Aquele pequeno instante de silêncio. Como alguém observando algo que sempre desejou, mas nunca tentou alcançar.

Mais adiante, outro rosto familiar chamou minha atenção.

Gale Hawthorne.

Encostado próximo a uma das cercas da praça.

Conversando com alguns amigos. No entanto, os olhos dele também encontraram Katniss.

Por apenas alguns segundos. O suficiente. Eu já tinha percebido aquilo antes. Mais de uma vez.

E talvez fosse justamente por isso que nunca senti necessidade de disputar espaço.

Porque Katniss não era um prêmio. Muito menos uma competição. Ela fazia suas próprias escolhas.

E todos nós já sabíamos qual havia sido.

Quando a cerimônia de premiação começou, a cidade inteira reuniu-se diante do palco principal.

Haymitch assumiu o microfone.

Sua voz grave ecoou pelos alto-falantes.

— Vamos descobrir quem vai levar os maiores troféus para casa este ano!

A multidão aplaudiu. As categorias foram anunciadas uma a uma.

Produtores.

Artesãos.

Criadores de animais.

Até que chegou o momento mais aguardado.

— Melhor Produção de Hortaliças Orgânicas e Frutas Diversificadas do Condado...

A praça inteira pareceu prender a respiração.

— Rancho Everdeen!

Os aplausos explodiram imediatamente.

Vi Prim praticamente saltar do chão. Asterid levou as mãos ao rosto enquanto Burdok subiu ao palco sob uma salva de palmas merecida. E, ao lado deles, Katniss sorria.

Orgulhosa.

Feliz.

Linda.

Meu peito aqueceu.

Poucos minutos depois veio o anúncio seguinte.

— Maior Produção de Milho e Melhor Cultivo de Abóboras Gigantes do Ano...

Meu pai já parecia preparado para levantar da cadeira.

— Fazenda Mellark!

Desta vez foram os aplausos da nossa família que dominaram a praça.

Meu pai me deu um empurrão leve no ombro.

— Anda logo, rapaz!

— Eu não fiz nada.

— Você trabalha lá.

— Trabalho porque sou obrigado.

Sorri e ele me acompanhou.

— Continua trabalhando.

— Ponto justo.

As risadas surgiram ao nosso redor.

Acabei subindo ao palco junto de meus pais e de Cato.

Enquanto meu pai erguia o troféu, procurei Katniss no meio da multidão.

E a encontrei imediatamente.

Ela estava sorrindo para mim.

Daquele jeito que fazia parecer que eu podia conquistar qualquer coisa.

Sorri de volta.

Porque, naquele momento, aquilo parecia suficiente.

Mais tarde, quando a cerimônia terminou e as cadeiras foram afastadas para abrir espaço para a tradicional roda de dança, alguém começou a gritar meu nome.

— Vamos lá, Mellark!

— Canta uma!

— Duas!

— Três!

Fechei os olhos.

Já conhecia aquilo.

Todos os anos.

Sem exceção.

Olhei para Katniss.

Ela cruzou os braços.

Tentando esconder o sorriso.

— Vai.

— Não quero.

— Mentira.

— Talvez.

— Você sabe que não tem escolha.

Eu ri.

Porque ela tinha razão.

Poucos minutos depois estava novamente sobre o palco.

Violão nas mãos.

Luzes douradas iluminando a praça.

A multidão espalhada diante de mim.

Comecei a tocar.

Uma música.

Depois outra.

E mais uma.

Canções sobre estradas de terra. Sobre cidades pequenas. Sobre amores que atravessam estações. Sobre encontrar um lar em alguém. Os outros instrumentos me acompanhavam.

E, sem perceber, meus olhos sempre voltavam para ela.

Para Katniss.

Parada próxima à pista de dança.

Sorrindo.

Como se fosse a única pessoa ali.

Talvez porque, para mim, fosse.

Quando terminei a última música, os aplausos ecoaram pela praça.

Desci do palco.

Atravessei a multidão.

E encontrei-a exatamente onde imaginava.

Esperando.

Como sempre.

Sem dizer uma palavra, estendi a mão.

Ela sorriu.

E a segurou.

Então caminhamos juntos até a roda de dança.

As luzes brilhavam sobre nossas cabeças.

A música continuava tocando. As pessoas riam. Giravam. Cantavam.

E, enquanto Katniss apoiava a mão sobre meu ombro e eu a conduzia pelo círculo iluminado da praça, tive a certeza de que algumas coisas não precisavam ser escritas em canções.

Porque eu já as vivia.

E a melhor delas estava ali.

Dançando comigo sob as estrelas de Meadowville.

A noite parecia saída de uma daquelas músicas que eu costumava escrever em folhas soltas e esquecer dentro das gavetas.

Meadowville brilhava sob milhares de pequenas luzes penduradas entre os postes da praça. A grande fogueira lançava reflexos dourados sobre as fachadas das lojas.

O cheiro de comida típica e fumaça de lenha misturava-se ao ar fresco.

E, no meio de tudo aquilo, estava Katniss.

Sempre ela.

Às vezes eu me perguntava se ela tinha alguma noção do efeito que causava em mim.

Provavelmente não.

Porque Katniss nunca percebeu quando alguém a observava.

Nunca percebeu os olhares que atraía. Nunca percebeu que era a pessoa mais bonita da praça mesmo usando uma simples saia jeans e uma blusa branca.

Ela apenas existia.

E isso já era suficiente.

Depois da cerimônia de encerramento, achei que finalmente conseguiria aproveitar o restante da noite ao lado dela.

Estávamos próximos da fogueira quando Haymitch pegou novamente o microfone.

— Certo, pessoal! Vamos dar um intervalo de quinze minutos para os músicos descansarem!

A multidão aplaudiu.

Eu também.

Porque aquilo significava que eu estava oficialmente livre. Ou pelo menos pensei que estivesse. Quinze minutos depois, alguém começou a gritar meu nome.

— Mellark!

Olhei para trás.

— Não.

— Mellark!

— Nem pensar.

— Mellark!

Aquela única voz logo se transformou em dezenas.

Depois centenas.

E quando percebi, praticamente metade da cidade estava participando.

— Peeta! Peeta! Peeta!

Fechei os olhos.

Katniss estava ao meu lado.

Tentando esconder o sorriso.

Falhando miseravelmente.

— Não ria.

— Estou tentando.

— Você não está tentando nada.

— Talvez não.

Haymitch surgiu no palco.

— Parece que a população tomou uma decisão democrática.

— Isso não foi democrático.

— Foi praticamente uma eleição.

— Então está fraudada.

As gargalhadas ecoaram pela praça.

Violet assobiou.

Prim levantou os braços.

— Vai, Peeta!

Traidoras.

Todas elas.

Suspirei.

— Certo.

A multidão explodiu em aplausos.

Katniss segurou minha mão antes que eu me afastasse.

Por apenas um segundo, mas foi suficiente.

— Vai lá.

Sorri.

E subi ao palco.

As luzes me cegaram por um instante.

O violão foi colocado em minhas mãos novamente.

A praça inteira parecia esperar. Eu conhecia aquelas pessoas. Cresci com elas.

Sabia exatamente o que queriam ouvir.

Porém, naquela noite, olhando para a multidão iluminada pela fogueira, encontrei Katniss na primeira fila.

E imediatamente soube qual música cantar. A música que havia escrito pensando nela.

Aquela música que nunca precisava explicar. Porque cada palavra carregava um pedaço da nossa história.

Meus dedos deslizaram pelas cordas. Os primeiros acordes ecoaram pela praça.

E então comecei.

A multidão não reconheceu a melodia.

Alguns tentavam cantar as partes repetida junto.

Outros apenas sorriram.

No entanto, meus olhos permaneceram fixos nela.

Porque, no fim, aquela música nunca pertenceu ao público.

Pertencia à garota parada diante do palco. À garota que conhecia meus melhores e piores dias. A que acreditava em mim quando eu mesmo duvidava. Àquela que roubara meu coração muitos anos antes.

E nunca o devolvera.

Quando cheguei ao último refrão, a praça inteira tentava cantar junto.

As vozes ecoavam sob o céu estrelado. Misturando-se ao crepitar da fogueira.

À música e a magia simples daquela noite em Meadowville.

O último acorde desapareceu lentamente. Por um segundo houve silêncio. Então os aplausos vieram. Fortes e calorosos.

Agradeci com um aceno.

Mas meu olhar já procurava outra pessoa.

Katniss.

Desci do palco.

Ignorei os comentários. Os cumprimentos. Os tapinhas nas costas.

E caminhei diretamente até ela.

Como sempre.

Ela me observava sorrindo.

A luz das chamas refletia em seus olhos cinzentos.

— Então... — disse ela. — Essa foi uma escolha interessante.

— Foi?

— Foi.

— E você gostou?

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Você sabe que sim.

Sorri.

Então estendi a mão.

— Dança comigo?

Katniss entrelaçou os dedos aos meus.

— Você sabe que não precisa perguntar.

Meu coração fez aquela coisa ridícula que sempre fazia quando ela dizia algo assim.

Juntos, caminhamos até a enorme roda formada ao redor da fogueira. As chamas subiam em direção ao céu. Faíscas douradas dançavam entre as estrelas.

Os músicos retomaram uma animada canção country. Banjo, violino, violão e acordeom.

E logo estávamos girando junto com toda a cidade.

Rindo. Dançando. Cantando.

Katniss girou quando a puxei suavemente. O riso dela ecoou acima da música.

Livre, feliz e perfeito.

Por alguns segundos, o resto do mundo desapareceu.

Não existiam as barracas, a multidão, os aplausos e nem os olhares de quem quer que fosse.

Existia apenas a garota que eu amava.

As mãos dela nas minhas.

E a sensação de que, se felicidade tivesse uma forma, seria exatamente aquela.

Dançar com Katniss Everdeen ao redor de uma fogueira, sob as estrelas de Meadowville.

E desejar que aquela noite nunca terminasse.


Notas finais
Por enquanto é isso, me digam nos comentários o que estão achando, volto logo!!!!!