Notas iniciais
Olá, olá pessoal olha eu aqui de novo postando um novo enredo e participando de mais um evento o qual amei demais a temática 🥰 a Vitória veio me intimando (brincadeirinha) a participar desse evento e como moro em uma região rural kkkk isso me encantou ainda mais. Espero de coração que gostem do que criamos pra vcs, foi com muito carinho. Aqui teremos o primeiro capítulo no ponto de vista do narrador, mas a partir do segundo em diante será no pov da Katniss e do Peeta, ok? 😉 Enjoy!!!!!!


O sol nascia preguiçoso sobre os campos dourados do Kansas, tingindo o horizonte com tons de âmbar e cobre. A pequena Meadowville despertava devagar, como fazia todas as manhãs, envolta pelo perfume da terra úmida e pelo som distante dos tratores iniciando mais um dia de trabalho.

Com pouco mais de oito mil habitantes, Meadowville era uma cidade onde todos conheciam todos. As ruas arborizadas eram cercadas por lojas familiares, cafés acolhedores e construções antigas que guardavam décadas de histórias. Era o tipo de lugar onde as portas raramente ficavam trancadas e onde os moradores ainda se reuniam na praça principal durante os festivais de verão.

A cidade era conhecida principalmente por duas coisas.

As maçãs dos Everdeen.

E as plantações dos Mellark.

Do lado leste da cidade, o Rancho Everdeen se estendia por hectares e hectares de pomares impecavelmente cuidados. Fileiras de macieiras se espalhavam até onde a vista alcançava, formando um mar verde pontilhado por frutas vermelhas e douradas.

Burdock Everdeen havia herdado aquelas terras do pai e transformado o rancho em uma referência estadual. Ao lado da esposa, Asterid, administrava a propriedade com orgulho e dedicação.

Era comum encontrar Asterid supervisionando a colheita logo cedo, enquanto Burdock organizava contratos e entregas.

E então havia Katniss.

A filha mais velha.

A garota que parecia pertencer àquelas terras tanto quanto as próprias árvores.

Aos vinte anos, Katniss Everdeen carregava nos olhos cinzentos a mesma força silenciosa do pai. Trabalhava no rancho desde criança e conhecia cada trilha, cada cerca e cada macieira como a palma da própria mão.

Seu lugar favorito era um dos pomares mais antigos da propriedade.

Ali, entre árvores centenárias, ela costumava sonhar acordada.

Ou esperar por alguém.

— Katniss! — A voz animada de Primrose ecoou pelo campo naquela manhã.

A jovem virou-se.

Prim vinha correndo pelo gramado usando um vestido amarelo claro que balançava ao vento.

Diferente da irmã mais velha, Prim parecia irradiar luz. Delicada e gentil. Capaz de arrancar sorrisos até dos dias mais difíceis.

— Mamãe quer você na casa principal — avisou, recuperando o fôlego.

Katniss sorriu.

— Já estou indo.

Mas antes que pudesse dar mais alguns passos, um som familiar atravessou o campo.

O ronco de uma caminhonete.

Ela não precisou olhar para saber quem era.

Mesmo assim olhou.

E sorriu.

Do outro lado da estrada de terra, uma velha picape azul desacelerava.

Peeta Mellark.

Sempre ele.

Como acontecia praticamente todos os dias havia mais de quatro anos.

Os Mellark viviam no lado oeste de Meadowville.

A fazenda da família era famosa em todo o estado.

Enquanto os Everdeen produziam as melhores maçãs e hortaliças orgânicas da região, os Mellark cultivavam milho e abóboras gigantes que frequentemente venciam competições agrícolas.

Otho Mellark comandava a propriedade com pulso firme. Raiko, sua esposa, cuidava das finanças e da administração. O filho mais velho, Cato, estava sendo preparado para assumir os negócios familiares.

Peeta... Bem, Peeta era diferente.

Sempre fora.

Enquanto o irmão passava horas estudando novas técnicas de cultivo, Peeta passava horas com um violão.

Enquanto Cato sonhava em expandir a fazenda, Peeta sonhava com palcos.

Luzes. Música. Canções.

Ainda assim, ninguém trabalhava mais duro do que ele.

Durante o dia ajudava na colheita.

À noite cantava em bares, festivais, casamentos e feiras agrícolas.

Qualquer lugar que tivesse um microfone disponível.

E em cada apresentação havia uma pessoa que nunca faltava.

Katniss.

— Você está atrasado.

Katniss cruzou os braços quando ele estacionou próximo à cerca.

Peeta desceu da caminhonete sorrindo.

O sorriso que ela conhecia melhor do que qualquer outro.

— Três minutos.

— Cinco.

— Três.

— Cinco.

— Três e meio.

Ela tentou manter a expressão séria.

Falhou.

Peeta aproximou-se e segurou sua cintura.

— Bom dia para você também.

Katniss ergueu os olhos.

— Bom dia.

Ele a beijou. Suave e natural. Como se aquele gesto fosse tão inevitável quanto o nascer do sol.

E talvez fosse.

Namoravam desde o ensino médio.

Desde os bailes da escola. Desde os jogos de futebol americano. Desde as noites sentados na caçamba da caminhonete observando estrelas.

Meadowville inteira praticamente considerava inevitável que acabassem casados.

A questão nunca foi “se”.

Mas “quando”.

— O festival já está aí — disse ela, entrelaçando seus dedos aos dele.

— Meu pai está convencido de que vocês vão ganhar novamente — comentou Peeta enquanto caminhavam entre as macieiras.

Katniss arqueou uma sobrancelha.

— E ele acha que vocês vão perder?

— Meu pai acha que as nossas abóboras vão precisar de um trailer próprio para serem transportadas.

Ela riu.

— Então ele está certo.

— Eu sei.

O ano inteiro em Meadowville era marcado pelas estações da colheita.

Mas existia uma semana que a cidade aguardava com uma ansiedade quase infantil.

O Festival da Colheita.

Durante meses, comerciantes decoravam vitrines, fazendeiros preparavam suas melhores produções e famílias inteiras organizavam barracas para a grande celebração que atraía visitantes de diversas cidades do Kansas.

Era praticamente uma tradição sagrada. E naquele ano não era diferente.

Bandeirolas coloridas começavam a surgir pelas ruas principais. A praça central ganhava canteiros floridos e os moradores discutiam animadamente quais fazendas levariam os troféus mais importantes da temporada.

Era impossível não gostar daquela época do ano.

Durante uma semana inteira, a cidade parecia ganhar vida nova. E no último dia acontecia o evento mais aguardado.

O Grande Arraial da Colheita.

Barracas de tortas de maçã. Milho assado. Compotas caseiras. Pães artesanais. Churrasco defumado. Doces típicos. Música ao vivo. Jogos. Competições.

A praça central transformava-se em um verdadeiro espetáculo.

E, quando a noite chegava, uma enorme roda de dança se formava envolta de uma grande fogueira em um arraial montado pelos moradores. Toda a cidade participava. Dos adolescentes aos idosos.

Era uma tradição que atravessava gerações.

— Já separou seu repertório para o festival? — Katniss perguntou, embora soubesse que ele já estava pensando nisso havia semanas.

Peeta apoiou os antebraços sobre a cerca de madeira e observou o horizonte além do pomar. O vento suave agitava seus cabelos loiros enquanto ele parecia organizar os pensamentos.

— Sim. Estou trabalhando em uma música nova, mas ainda não sei se está boa.

Katniss sorriu.

— Sou sua ouvinte mais fiel. Você sabe disso.

— É justamente por isso que sua opinião me assusta.

Ela riu.

Os dois caminharam até a caminhonete azul estacionada próxima à estrada de terra. Peeta abriu a porta traseira, pegou o violão e subiu na carroceria. Katniss sentou-se ao lado dele, cruzando as pernas enquanto observava os dedos dele encontrarem as cordas com a familiaridade de quem nasceu para aquilo.

Os primeiros acordes ecoaram pelo pomar.

Suaves e acolhedores.

Então ele começou a cantar.

“Ela é minha rainha desde os dezesseis anos...

Queremos as mesmas coisas,

Sonhamos os mesmos sonhos, tudo bem?

Tudo bem.

Eu tenho tudo,

Porque ela é a única.

A mãe dela me chama de amor,

O pai dela me chama de filho,

Tudo bem...

Tudo bem.

Eu sei, eu sei, eu sei com certeza.

Todo mundo quer roubar minha garota,

Todo mundo quer levar o coração dela embora.

Bilhões no mundo inteiro...

Encontrem outra, porque ela me pertence.”

A voz de Peeta se misturava ao som distante das folhas balançando ao vento.

Quando terminou, o silêncio que se seguiu pareceu durar alguns segundos a mais.

Katniss permaneceu olhando para ele.

Encantada.

Talvez porque a letra fosse bonita. Talvez porque a voz dele sempre encontrasse um jeito de atingir lugares dentro dela que ninguém mais alcançava. Ou talvez porque aquela música falasse deles.

Da história que haviam construído juntos. Das noites sob as estrelas. Dos bailes da escola. Dos planos compartilhados desde a adolescência.

Peeta coçou a nuca, um pouco constrangido.

— Então?

Katniss sorriu.

— É linda.

— Mas?

— Mas preciso entender uma coisa.

Ela aproximou-se dele devagar.

— Que história é essa de que querem me roubar de você?

Um sorriso divertido surgiu no canto dos lábios dele.

— Qual é, Kat... eu não sou o único que beija o chão por onde você passa.

Ele tentou desviar o olhar.

Não conseguiu.

Katniss segurou seu queixo entre os dedos e o obrigou a encará-la.

— Talvez. — Os olhos azuis dele encontraram os dela. — Mas você é o único que me importa.

Por um instante, Peeta simplesmente ficou ali. Sem argumentos.

Porque não havia nada a dizer.

Katniss então encurtou a distância entre eles e o beijou.

Devagar. Com a mesma devoção silenciosa que sempre existira entre os dois.

Tudo ao redor pareceu desaparecer.

Até que uma voz familiar atravessou o pomar.

— Katniss!

Os dois se afastaram imediatamente.

Primrose vinha correndo pelo campo com a energia de sempre.

Katniss soltou uma risada.

— Acho que esse é o nosso sinal.

Peeta suspirou dramaticamente.

— Eu estava gostando mais da parte anterior.

— Eu também.

Ela afagou o rosto dele antes de descer da carroceria.

— Preciso voltar ao trabalho. Nos vemos mais tarde?

— Sempre. — O sorriso enviesado surgiu imediatamente no rosto dele. Aquele sorriso. O favorito dela. — Até mais tarde, Kat.

Katniss afastou-se em direção ao pomar, mas não resistiu em olhar para trás uma última vez.

E encontrou Peeta exatamente onde esperava.

Observando-a partir. Como se, mesmo depois de todos aqueles anos, ainda não conseguisse parar de admirá-la.

Peeta continuou observando Katniss atravessar o pomar até desaparecer entre as fileiras de macieiras.

Só então desviou o olhar.

O sorriso ainda permanecia em seus lábios quando voltou a guardar o violão no banco traseiro da caminhonete.

Ligou o motor.

E seguiu pela estrada de terra que levava ao centro de Meadowville.

O trajeto não demorava mais que quinze minutos.

À medida que se aproximava da cidade, os vastos campos agrícolas davam lugar às ruas arborizadas, aos estabelecimentos familiares e às fachadas coloridas que tornavam Meadowville tão acolhedora.

Peeta estacionou em frente à Hunger Hardware, a tradicional loja de ferragens da cidade.

Seu pai havia pedido algumas peças para o sistema de irrigação da fazenda e, como sempre, a tarefa acabara sobrando para ele.

Depois de fazer a compra, saiu da loja carregando uma pequena caixa de ferramentas.

Foi então que ouviu alguém chamar seu nome.

— Peeta!

Ele se virou.

Do outro lado da rua, próxima à sorveteria da praça, Delly Cartwright acenava energicamente.

Peeta atravessou a rua sorrindo.

— Delly.

— Faz séculos que não te vejo.

— Nós nos vimos no domingo.

— Exatamente. Séculos.

Ele riu.

Delly continuava exatamente como sempre fora.

Falante e animada. Incapaz de passar mais de trinta segundos em silêncio.

Ela trabalhava meio período na floricultura da família e era uma das pessoas mais queridas da cidade.

— Como está o Brad? — perguntou Peeta.

O rosto dela imediatamente se iluminou.

— É justamente sobre isso que eu queria falar.

— Estou ouvindo.

— Amanhã é aniversário dele.

Peeta assentiu.

Brad Cartwright, o irmão caçula de Delly. Um garoto de dez anos que idolatrava Peeta desde que o vira cantar pela primeira vez durante um festival escolar.

— Vamos fazer uma festa lá em casa — continuou ela. — Nada muito grande. Só família, alguns amigos e os vizinhos.

— Parece ótimo.

— E eu queria saber se você toparia aparecer.

Peeta arqueou uma sobrancelha.

— Aparecer?

— Talvez tocar algumas músicas.

— Ah.

— Só algumas.

— Delly...

— Duas ou três.

— Delly...

— Quatro no máximo.

Peeta soltou uma gargalhada.

— Você já decidiu tudo, não foi?

— Talvez.

— Eu sabia.

Delly abriu o sorriso mais inocente do mundo.

O mesmo sorriso que sempre aparecia quando ela estava prestes a conseguir o que queria.

— Então?

Peeta apoiou a caixa de ferramentas contra a perna.

— Vou tentar.

— Ótimo!

— Eu não disse que sim.

— Mas também não disse que não.

Ele balançou a cabeça, derrotado.

— Que horas?

— Quatro da tarde.

— Vou ver com meus pais.

— Perfeito.

Peeta já ia responder quando Delly ergueu um dedo.

— Ah, e claro que a Katniss pode te acompanhar.

Ele piscou.

— Eu nem tinha mencionado a Katniss.

— Você não precisa mencionar a Katniss.

— Delly...

— Peeta.

— Você está me convidando ou convidando nós dois?

— Os dois.

— Okay.

— Brad vai ficar muito feliz se ela aparecer também.

Peeta sorriu.

Na verdade, sabia que Delly estava certa.

Não existia festa infantil em Meadowville onde Katniss não acabasse cercada por crianças cinco minutos depois de chegar.

— Tudo bem. Vou falar com ela.

— Excelente.

Delly bateu palmas satisfeita.

— Sabia que você aceitaria.

— Você literalmente não me deu opção.

— Isso também.

Os dois riram.

Enquanto se despediam, Peeta voltou para a caminhonete com a sensação familiar de que viver em Meadowville significava exatamente aquilo.

Não importava para onde fosse.

Sempre encontraria alguém que o conhecia.

Alguém que conhecia sua família.

E, inevitavelmente...

Alguém que perguntaria por Katniss.

Pouco depois de se despedir de Delly, Peeta voltou para a caminhonete e deixou o centro para trás.

As ruas tranquilas deram lugar às estradas de terra cercadas por extensos campos de milho que balançavam suavemente sob a brisa da manhã.

Ele conhecia aquele caminho de olhos fechados.

Afinal, o percorria desde criança.

Alguns minutos depois, a grande placa de madeira surgiu à frente.

RANCHO MELLARK

As letras haviam sido pintadas anos atrás por seu avô e, apesar do tempo, continuavam firmes acima da entrada principal da propriedade.

Peeta atravessou os portões e seguiu até o celeiro principal.

Assim que estacionou, encontrou seu pai examinando uma das colheitadeiras.

— Finalmente resolveu aparecer — brincou o pai.

— Fui comprar suas peças.

— E eu agradeço por isso.

Peeta entregou a caixa de ferragens.

Otho analisou rapidamente o conteúdo.

— Perfeito.

— Mais alguma coisa?

O homem ergueu uma sobrancelha.

— Já que perguntou...

Peeta suspirou.

— Eu sabia.

— Os cavalos estão esperando o feno novo.

— Claro que estão.

Otho sorriu satisfeito.

— É por isso que você é meu filho favorito.

— Sou seu único filho aqui agora.

— Exatamente.

Peeta riu e seguiu em direção aos estábulos.

O cheiro familiar de madeira e feno o recebeu imediatamente. Os cavalos relincharam ao vê-lo entrar.

Ele passou a próxima meia hora abastecendo os cochos, verificando a água dos animais e terminando algumas tarefas que acabaram surgindo pelo caminho.

Quando finalmente terminou, apoiou-se na cerca do curral e retirou o celular do bolso. Nem precisou pensar duas vezes antes de apertar o contato favorito. A ligação foi atendida após o segundo toque.

— Oi.

O sorriso surgiu automaticamente em seus lábios.

— Oi, Passarinha.

Do outro lado da linha, Katniss sorriu ao ouvir o apelido.

— Terminou suas obrigações?

— Por enquanto.

— Então isso significa que sobreviveu.

— Por pouco.

Ela riu.

O som fez alguma coisa aquecer dentro dele. Sempre fazia.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.

— Encontrei a Delly na cidade.

— Ah, isso explica.

— Explica o quê?

— Você me ligando já que acabamos de nos ver.

— Engraçadinha.

— Estou ouvindo.

Peeta acomodou-se na cerca.

— Amanhã é aniversário do Brad.

— Sério?

— Delly quer que eu apareça para tocar algumas músicas.

Katniss soltou uma risada.

— Algumas?

— Foi exatamente a mesma reação que eu tive.

— E você aceitou.

— Ainda não oficialmente.

— Mas vai.

— Provavelmente.

— Então por que está me ligando?

Peeta fingiu indignação.

— Porque minha namorada deveria parecer mais animada ao receber um convite.

— Ah, existe um convite?

— Existe.

Katniss apoiou-se contra a varanda da casa principal dos Everdeen.

— Estou ouvindo.

— Você gostaria de me acompanhar ao aniversário do Brad amanhã?

O silêncio durou alguns segundos.

— Claro que sim.

— Ótimo.

— Além disso, se eu não for, Delly provavelmente vai aparecer aqui para me buscar pessoalmente.

— Isso parece algo que ela faria.

— Com certeza.

Peeta observou o pôr do sol começando a colorir os campos.

— Então passo aí amanhã?

— Que horas?

— Três e meia.

— Estarei pronta.

— Você sempre está.

— Porque você sempre se atrasa.

— Isso é calúnia.

— Isso é história documentada.

Ele riu.

— Vejo você amanhã, Passarinha.

A voz dela suavizou.

— Até amanhã, amorzinho.

Por um instante, nenhum dos dois desligou.

Como se ambos gostassem demais daquela simples companhia silenciosa.

Então, por fim, a ligação terminou.

E, naquele instante, Peeta percebeu que estava ansioso pelo aniversário de um garoto de dez anos. Mas não por causa da festa. E sim, porque passaria a tarde inteira ao lado dela.

Na tarde seguinte, a caminhonete azul surgiu na estrada que levava ao Rancho Everdeen exatamente às três e quarenta e dois.

Oito minutos atrasado.

Como previsto.

Katniss já o aguardava sentada na cerca branca próxima ao portão principal.

Ao vê-lo estacionar, cruzou os braços.

— Oito minutos.

— Eu sabia que você ia contar.

— Sempre conto.

Peeta desceu da caminhonete sorrindo. Por um segundo, esqueceu completamente a resposta.

Porque Katniss estava linda.

Usava uma saia jeans simples, botas marrons e uma blusa azul-clara que balançava suavemente ao vento. Os cabelos escuros estavam presos em uma trança sobre o ombro.

Simples.

Como sempre.

E ainda assim capaz de tirar seu fôlego.

— O quê? — perguntou ela.

— Nada.

— Peeta...

— Você está linda.

Katniss tentou esconder o sorriso. Falhou miseravelmente.

— Vamos ou vamos perder a festa?

— Vamos.

Ele abriu a porta do passageiro.

Katniss entrou na caminhonete.

E, juntos, seguiram pela estrada rumo à casa dos Cartwright, sem imaginar que aquela seria apenas mais uma das memórias felizes que guardariam para sempre.


——— *** ———


O domingo amanheceu ensolarado em Meadowville.

Como acontecia há gerações, boa parte da cidade dirigiu-se para a pequena igreja de madeira branca localizada próxima à praça principal.

As famílias ocupavam os mesmos bancos de sempre.

Os Abernathy na primeira fileira.

Os Everdeen do lado esquerdo.

Os Mellark alguns bancos atrás.

O sino ecoou pela cidade enquanto os últimos moradores entravam.

Katniss estava sentada entre Prim e Asterid.

Do outro lado do corredor central, Peeta encontrou seu olhar.

Sorriu.

Ela revirou os olhos.

Mas sorriu de volta.

O reverendo Undersee subiu ao púlpito poucos minutos depois.

Homem de cabelos grisalhos e voz serena, era uma das figuras mais respeitadas da cidade.

— Bom dia, Meadowville.

— Bom dia, reverendo — respondeu a congregação.

A cerimônia transcorreu tranquilamente, entre hinos, orações e leituras bíblicas.

Até que, próximo ao encerramento, Undersee abriu um sorriso.

— E acredito que todos aqui tenham um motivo especial para estarem animados esta semana.

Imediatamente algumas pessoas riram.

Outras assentiram.

— Sim, estou falando do Festival da Colheita.

Uma salva de aplausos ecoou pelo templo.

— Mais uma vez teremos a oportunidade de celebrar não apenas nossas plantações, mas também nossa comunidade. Os laços que construímos. As famílias que formam esta cidade.

O olhar do reverendo percorreu os bancos.

— Porque os frutos mais importantes nem sempre crescem nos campos.

À sua frente, o prefeito Haymitch Abernathy assentiu discretamente. Effie sorriu.

E muitos moradores trocaram olhares emocionados.

— Que seja uma semana de gratidão, união e alegria para todos nós.

A igreja respondeu com um sonoro “amém”.

Após a cerimônia, as famílias se espalharam pelos jardins da igreja.

Conversas surgiam por toda parte. Convites eram renovados. Receitas eram trocadas.

E crianças corriam entre os adultos.Como sempre.

Peeta mal teve tempo de cumprimentar algumas pessoas antes de ser interceptado por Burdock.

— Você ainda vem almoçar conosco?

— Claro.

— Ótimo. Seus pais já confirmaram presença também.

— Então não tenho escolha.

— Nenhuma.

Os dois riram.

Pouco depois, as duas famílias seguiram para o Rancho Everdeen.

O almoço foi exatamente como todos os almoços de domingo deveriam ser.

Barulhento, aconchegante e cheio de comida.

Asterid havia preparado frango assado, legumes frescos do rancho, purê de batatas e duas tortas de maçã.

Ao final do almoço, enquanto os adultos permaneciam na varanda conversando, Katniss e Peeta trocaram um olhar silencioso.

O mesmo olhar que compartilhavam desde adolescentes.

Um simples aviso.

Vamos?

Ela assentiu.

E poucos minutos depois já estavam na caminhonete.

A estrada de terra parecia interminável.

Campos dourados passavam pelas janelas. O rádio tocava baixo. O vento entrava pela janela aberta.

Após alguns quilômetros, Peeta diminuiu a velocidade. Uma velha cerca de madeira surgiu entre árvores altas.

Mais adiante, escondida pela vegetação, apareceu a propriedade.

O Girassol.

O lugar favorito deles.

A casa antiga permanecia vazia.

Silenciosa.

Quase intocada pelo tempo.

Anos atrás, um casal muito simpático, senhor Jonathan e senhora Martha Miller vivera ali.

Todos em Meadowville conheciam a história.

Eles haviam se amado profundamente. Porém, nunca conseguiram ter filhos.

Quando a senhora Miller faleceu, o marido continuou vivendo sozinho na propriedade e cuidando de tudo que amaram juntos e pouco mais de um ano depois, ele também partiu.

Desde então, ninguém mais ocupara aquelas terras. A natureza assumira parte do controle. No entanto, a beleza do lugar permanecia.

Talvez até maior.

— Ainda acho que este é o lugar mais bonito do condado — disse Katniss enquanto descia da caminhonete.

Peeta observou a antiga casa.

As árvores. O campo de girassóis que ainda florescia próximo à entrada. E o lago escondido atrás da propriedade.

— Concordo.

Katniss caminhou alguns passos à frente.

— Às vezes fico imaginando como seria morar num lugar assim.

Peeta acompanhou seus movimentos em silêncio.

— É?

— Uma casa, o lago, alguns animais, uma varanda, nada muito extravagante. — Ela sorriu. — E uma família.

O coração dele apertou de um jeito bom. Porque, quando Katniss falava de futuro, ele sempre fazia parte dele. Mesmo quando ela não dizia isso em voz alta.

Peeta observou novamente a propriedade.

E fez uma promessa silenciosa para si mesmo.

Um dia. De alguma forma. Ele compraria aquele lugar. Restauraria cada cerca. Cada parede. Cada detalhe. Transformaria O Girassol no lar que Katniss merecia.

No lar deles.

Atrás da propriedade, o lago brilhava sob a luz do sol.

A água refletia o céu azul como um espelho.

Era impossível resistir.

— Está calor demais para ficar só olhando — declarou Katniss.

Peeta sorriu.

— Concordo.

Depois de algum tempo descansando para fazer digestão, ela retirou as botas e deixou o vestido sobre o deque de madeira.

Então pulou como um peixe em direção a água.

— Katniss...

Ela se virou.

O sorriso travesso já anunciava suas intenções.

— Vem ou vai ficar aí parado?

Antes que ele respondesse, ela mergulhou.

A água explodiu em torno dela.

Peeta soltou uma gargalhada.

— Trapaceira.

Rapidamente retirou as roupas externas, ficando apenas com o necessário para nadar, e correu em direção ao lago.

O mergulho levantou uma nova onda.

Quando voltou à superfície, encontrou Katniss poucos metros à frente. Os dois começaram a nadar. Competindo. Provocando um ao outro e rindo como crianças que conheciam aquele lugar desde sempre.

Em determinado momento, ela espirrou água em seu rosto.

Peeta respondeu na mesma moeda.

Logo estavam abraçados um ao outro e incapazes de parar de rir.

O som ecoava pelas árvores.

Misturava-se ao canto dos pássaros. Ao movimento suave da água e ao silêncio acolhedor daquele refúgio escondido.

E enquanto flutuavam próximos um do outro, observando as nuvens passarem lentamente sobre suas cabeças, nenhum dos dois percebeu o quanto aqueles momentos simples se tornariam preciosos no futuro.

Porque algumas memórias só revelam seu verdadeiro valor quando se transformam em saudade.



Notas finais
É isso... logo voltamos com mais um capítulo frequento, obrigada pelo carinho 😘❤️ excelente semana a todos!!!