Sempre Foi Você
6 A Menina dos Cabelos Dourados
Notas iniciais

Pov. Peeta Mellark
“Existem lugares para onde voltamos porque pertencemos a eles. E existem pessoas que jamais deixamos de carregar, não importa a distância.”
Observei a paisagem pela janela do ônibus da turnê enquanto os campos verdes se estendiam até onde a vista alcançava.
Por um instante, eles me lembraram Meadowville.
Minha cidade. Meu lar. Ou, pelo menos, o lugar onde deixei a melhor versão de mim.
Ao meu lado, meu empresário continuava falando sobre a agenda dos próximos meses.
Contratos. Entrevistas. Shows. Patrocínios.
Eu escutava sua voz, mas nenhuma palavra realmente fazia sentido.
Minha atenção estava voltada para a fotografia que eu segurava entre os dedos.
O papel já começava a amarelar nas bordas. Mesmo assim, eu a carregava para todos os lugares. Nela, Katniss e eu tínhamos dezessete anos.
Estávamos sentados à beira do lago, sorrindo como se o mundo inteiro fosse pequeno demais para os nossos sonhos.
Passei o polegar delicadamente sobre o rosto dela.
Ainda conseguia me lembrar daquele dia. Do brilho dos seus olhos cinzentos refletindo a luz do fim da tarde. Da risada que sempre surgia quando eu dizia alguma bobagem. E da paz que eu sentia sempre que ela segurava minha mão.
Naquela época...
Tudo parecia tão simples.
Até Nashville.
Até os primeiros contratos. Até eu acreditar que precisava escolher entre o amor da minha vida e o sonho de cantar.
Fechei os olhos por um instante.
Conquistei tudo aquilo que um dia parecia impossível. Cantei em estádios lotados. Recebi prêmios que jamais imaginei segurar.
Viajei pelo mundo. Ganhei dinheiro suficiente para nunca mais me preocupar com o futuro.
Milhões de pessoas sabiam o meu nome, mas nenhuma dessas conquistas conseguiu preencher o vazio que carregava dentro do peito.
Durante anos, tentei ignorá-lo. Mergulhei em festas que terminavam antes mesmo de começarem. Aceitei convites para eventos que eu nem queria frequentar.
Saí com mulheres incríveis.
Atrizes. Cantoras. Modelos. Todas gentis. Bonitas. Interessantes, entretanto, nenhuma delas conseguia permanecer. Porque, em algum momento, eu sempre fazia a mesma comparação e, infelizmente, nenhuma era Katniss.
Bastava ouvir uma música antiga, sentir o cheiro da chuva ou avistar um campo pela janela para que ela voltasse aos meus pensamentos.
O lago. Os pomares de maçãs. As noites de verão olhando as estrelas na caçamba da caminhonete. O jeito como ela apoiava a cabeça no meu ombro enquanto fazíamos planos para um futuro que nunca aconteceu.
Às vezes, eu me perguntava como teria sido a minha vida se tivesse permanecido em Meadowville.
Talvez eu nunca tivesse me tornado famoso. Talvez nunca tivesse cantado para dezenas de milhares de pessoas. Talvez meu nome jamais estampasse capas de revistas.
Mas, quem sabe...
Eu ainda acordasse todos os dias ao lado da mulher que sempre amei.
E, por um momento em muitos anos, essa possibilidade pareceu valer mais do que todos os sonhos que um dia realizei.
Cinco anos vivendo dentro de ônibus de turnê, aviões, hotéis e camarins. Acordando em uma cidade diferente quase todos os dias. Cantando para milhares de pessoas enquanto uma parte de mim continuava presa em Meadowville.
Naquela manhã, terminei de assinar a carta que minha equipe de imprensa divulgaria poucos minutos depois.
“Peeta Mellark anuncia pausa na turnê mundial após cinco anos de sucesso.”
Não foi uma decisão impulsiva. Eu estava cansado. Não de cantar. Jamais da música, mas da velocidade com que a vida vinha acontecendo.
Os aplausos terminavam. As luzes se apagavam. O estádio esvaziava. E, no fim da noite, eu continuava sozinho.
Meadowville nunca deixou de me chamar.
Talvez porque fosse o único lugar onde eu ainda me lembrava de quem era antes de me tornar um artista.
Peguei o celular e disquei um número que já conhecia de cor.
— Alô?
— Hank? Aqui é o Peeta.
— Bom dia, senhor Mellark! Já voltou à cidade?
Sorri enquanto observava os campos pela janela da caminhonete.
— Acabei de chegar.
— Ótimo. Estamos só esperando sua autorização para recomeçar.
Olhei ao longe. Era possível enxergar parte do terreno.
O velho rancho que eu havia comprado há quatro anos.
O Rancho Girassol.
Abandonado durante anos, precisava de uma reforma completa. Era exatamente por isso que eu o escolhi. Além de ser o lugar que ela amava e que um dia prometi que seria nosso lar...
Queria devolver vida àquele lugar. Talvez porque estivesse tentando fazer o mesmo comigo.
— Pode recomeçar a obra amanhã cedo.
— Tem certeza? O senhor nem quis olhar primeiro.
— Tenho. — Fiz uma pequena pausa. — Confio no seu profissionalismo. Quero tudo pronto antes do inverno.
— Vai morar lá?
Olhei novamente pela janela. Desta vez, meu pensamento não estava na casa. Estava em outra pessoa.
— Essa é a ideia.
Desliguei a ligação e permaneci alguns segundos em silêncio.
Meu reflexo apareceu no vidro da caminhonete. A manga da camisa estava dobrada até o cotovelo. A tatuagem do pássaro ainda ocupava boa parte do meu pulso.
Abaixo da minha nuca, escondida sob o tecido, permanecia outra, seu nome...
KATNISS.
Nunca as cobri. Nunca pensei em removê-las. Elas faziam parte da minha história. Assim como Katniss.
Por mais que eu tivesse conhecido milhares de pessoas. Por mais que meu nome aparecesse em capas de revistas ao lado de atrizes, cantoras e modelos. Nunca existiu ninguém. Não de verdade.
Meu coração nunca aprendeu outro caminho. Ainda sabia exatamente onde queria voltar.
Katniss.
Às vezes eu me perguntava se ela havia encontrado alguém. Se tinha construído uma família. Meus pais eram muito vagos, diziam que Gale Hawthorne a estava paquerando, e sinceramente, imaginar ele ao seu lado me dava um calafrio na espinha. Realmente queria que estivesse feliz. E, por mais egoísta que parecesse, eu torcia para que fosse. Ela merecia. Mesmo que esse futuro não tivesse me incluído.
Balancei a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos.
Precisava comprar algumas coisas antes de seguir para o rancho. E havia um lugar que eu fiz questão de conhecer.
O Everdeen Farm Stand.
Assim que empurrei a porta de madeira, um sino anunciou minha chegada.
O cheiro de maçãs, canela e ervas secas eram inconfundíveis.
Sorri.
— Prim?
Ela levantou os olhos do balcão e abriu um sorriso.
— Peeta!
— Quanto tempo...
Conversamos por alguns minutos. Comprei duas tortas de maçã, algumas geleias e um dos xaropes preparados pela dona Asterid.
Era estranho estar ali sem encontrar Burdock ou dona Asterid.
Prim me contou que os dois estavam viajando.
Eu segurava uma pequena cesta de maçãs quando ouvi o sino tocar novamente atrás de mim.
Não dei importância. Achei que fosse mais algum cliente. Continuei conversando com Prim.
Foi quando senti um silêncio estranho ocupar a loja. Daqueles que fazem qualquer pessoa perceber que algo mudou.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
Lentamente... Virei-me.
E o ar desapareceu dos meus pulmões.
Katniss.
Ela estava exatamente ali. Mais madura. Ainda mais bonita do que minhas lembranças permitiam guardar. Os mesmos cabelos escuros. Os mesmos olhos cinzentos.
A mesma mulher que nunca deixou meu coração.
Meu olhar encontrou o dela. Nenhum de nós conseguiu dizer uma única palavra.
Então percebi que ela não estava sozinha. Ao lado dela havia uma garotinha de aproximadamente quatro anos.
Meu coração acelerou. Os cabelos loiros. Os olhos azuis. As bochechas rosadas.
Por um instante, achei que estivesse olhando para uma fotografia da minha própria infância.
Meu olhar voltou para Katniss. Depois para a menina. E novamente para Katniss.
Não...
Meu Deus...
A menina levantou o rosto para ela e segurou sua mão com toda a confiança do mundo.
— Mamãe... quem é ele?
A palavra ecoou dentro de mim.
Mamãe.
Meu peito apertou com tanta força que mal consegui respirar.
Os traços daquela criança... O sorriso tímido. O jeito de inclinar a cabeça.
Havia alguma coisa incrivelmente familiar nela.
Fiquei imóvel, tentando organizar os pensamentos.
Mas, no fundo...
Meu coração já havia entendido muito antes da minha mente.
Aquela garotinha...
Não conseguia desviar os olhos dela.
Era como olhar para um pedaço do meu próprio passado.
Os cabelos dourados refletiam a luz que entrava pela vitrine. Os olhos azuis me observavam com a mesma curiosidade que eu costumava ter quando criança.
Meu coração batia tão forte que chegava a doer.
Voltei a encarar Katniss. Ela também parecia sem ar.
Cinco anos desapareceram no instante em que nossos olhares se encontraram.
Mas, diferente de mim, ela não desviou.
Havia tantas perguntas presas naquele silêncio que nenhuma palavra seria suficiente para respondê-las.
A menina tornou a apertar a mão dela.
— Mamãe... quem é ele?
Katniss fechou os olhos por um breve instante, como se buscasse coragem. Quando voltou a me olhar, sua voz saiu baixa.
— Oi, Peeta.
Meu nome nunca havia soado tão bonito.
Engoli em seco antes de responder.
— Oi... Katniss.
Minha voz quase falhou.
Os olhos dela brilhavam discretamente, mas Katniss continuava a mesma. Sempre foi boa em esconder o que sentia. Foi então que a menina deu um pequeno passo para a frente.
Escondeu metade do corpo atrás da perna da mãe, mas continuou me observando.
Sorri sem perceber.
Aquele sorriso tímido...
Eu conhecia aquele sorriso.
Abaixei um pouco a cabeça para ficar mais perto da altura dela.
— Oi, pequena.
Ela não respondeu.
Apenas inclinou a cabeça para o lado, estudando meu rosto como se tentasse descobrir de onde me conhecia.
Prim quebrou o silêncio.
— Willow... esse é o Peeta.
A garotinha repetiu meu nome baixinho.
— Peeta...
Sorri outra vez.
— E você deve ser a Willow.
Ela assentiu com a cabeça.
— Tenho quatro anos.
Meu peito apertou.
Quatro anos.
Fiz as contas sem querer. As datas passaram pela minha mente como um relâmpago.
Quatro anos...
Olhei novamente para Katniss.
Ela percebeu exatamente o que eu estava pensando.
Seu semblante mudou.
Por um instante, achei que ela fosse dizer alguma coisa.
Não disse.
Willow abriu a mochila que carregava e puxou um livro de colorir.
— Você sabe desenhar?
A pergunta me pegou completamente desprevenido.
Acabei rindo baixinho.
— Um pouquinho.
— A tia Prim diz que eu desenho igual um pintinho.
Prim soltou uma risada.
— Eu nunca disse isso.
— Disse, sim.
A tensão que preenchia a loja diminuiu por alguns segundos.
Ajoelhei-me diante dela.
— Então acho que vamos ter que descobrir quem desenha melhor.
Os olhos da menina brilharam.
Katniss observava a cena em absoluto silêncio. Senti seu olhar sobre mim o tempo inteiro.
Quando terminei um pequeno desenho de um girassol na última página do caderno, Willow abriu um sorriso tão espontâneo que meu coração vacilou outra vez.
Era impossível explicar.
Havia algo naquela criança que me fazia sentir estranhamente próximo dela. Como se a vida estivesse tentando me contar alguma coisa...
E eu ainda não tivesse encontrado coragem para fazer a pergunta que queimava dentro de mim desde que a vi entrar pela porta do Everdeen Farm Stand.
Continuei ajoelhado diante da pequena por mais alguns segundos, observando-a preencher o desenho do girassol com um giz de cera amarelo. Ela mordia a pontinha da língua sempre que precisava se concentrar.
Sorri sem perceber.
Aquele pequeno gesto... Era exatamente igual ao da Katniss.
Levantei-me devagar.
Meus olhos encontraram os dela outra vez. Havia perguntas demais presas na minha garganta.
Respirei fundo.
— Katniss... precisamos conversar.
Ela sustentou meu olhar por alguns segundos antes de responder com um discreto movimento de cabeça.
Prim percebeu imediatamente o que estava acontecendo. Sem dizer uma palavra, aproximou-se da sobrinha.
— Willow, vem comigo. Vamos ali na mesinha? Quero ver seus desenhos.
— Tá bom!
A pequena segurou a mochila e acompanhou a tia até um cantinho da loja, onde havia uma mesinha redonda de madeira cercada por duas cadeiras pequenas.
Prim retirou cuidadosamente os livros de colorir, o caderno de desenhos e a caixa de giz de cera, espalhando tudo sobre a mesa.
— Hoje quero ver qual vai ser a obra de arte da senhorita Willow.
A menina abriu um sorriso animado e começou a escolher as cores.
Só então voltei minha atenção para Katniss.
Diminuí ainda mais o tom da voz.
— Nós temos uma filha... — Vi seus olhos vacilarem. — Não acha que eu deveria saber disso?
Por um instante, ela apenas me encarou. Então sua expressão mudou completamente.
— Você é inacreditável...
A voz dela saiu baixa, mas carregada de indignação.
— Eu tentei contar várias vezes.
Franzi a testa.
— Como?
— Enviei mensagens de texto. Áudios. Liguei inúmeras vezes. — Ela respirou fundo para controlar a própria irritação. — Você visualizava tudo, Peeta... e nunca respondia.
Senti o sangue gelar.
— Não... — Balancei a cabeça imediatamente. — Não, Katniss. Eu jamais ignoraria uma notícia dessas.
Ela cruzou os braços.
— Foi exatamente o que aconteceu.
— Eu juro para você... — Minha voz falhou. — Nunca recebi nenhuma mensagem dizendo que você estava grávida.
Ela soltou uma pequena risada sem humor.
— Então meu celular resolveu inventar as confirmações de leitura?
Passei a mão pelos cabelos, completamente confuso.
— Katniss, durante aqueles primeiros meses em Nashville eu nem administrava meu próprio telefone. A gravadora contratou uma equipe para cuidar das redes sociais, dos contatos, da agenda... muita coisa passava por outras pessoas antes de chegar até mim.
As palavras escaparam antes que eu pudesse organizá-las.
— Se existiu alguma mensagem... eu nunca vi.
Ela ficou em silêncio.
Pela primeira vez desde que começamos aquela conversa, percebi a dúvida atravessar seus olhos.
Como se uma possibilidade que jamais tivesse considerado começasse, enfim, a fazer sentido.
— Eu achei... — murmurou ela. — Achei que você tivesse escolhido ir embora.
Engoli em seco.
— Nunca teria escolhido ir embora da minha filha.
Nem de você.
As últimas palavras ficaram presas na minha garganta. Foi nesse instante que ouvimos passinhos apressados se aproximando.
— Mamãe!
Willow apareceu entre nós segurando o caderno de desenhos aberto.
Seu sorriso era enorme.
— Olha! Eu desenhei nós duas e um arco-íris!
Katniss e eu baixamos os olhos ao mesmo tempo.
No papel havia duas figuras de mãos dadas.
Uma mulher de cabelos escuros e uma menina loira. Um campo de flores e acima delas, um enorme arco-íris.
Willow apontou orgulhosa para cada desenho.
— Essa é a mamãe.
Depois apontou para si mesma.
— Essa sou eu.
Meu coração simplesmente parou de bater por um instante.
Quanto tempo tinha perdido da minha vida.

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