Semideuses invisíveis

3 Nada disso faz sentido. Amei!


Notas iniciais
Para sua comodidade, essa fanfic também pode ser lida no Wattpad (https://www.wattpad.com/story/262733346-semideuses-invis%C3%ADveis) e no SpiritFanfiction (https://www.spiritfanfiction.com/historia/semideuses-invisiveis-21915108)

Uma mulher com cheiro de mortal ter se machucado com uma arma divina parecia ser um problema realmente muito sério, porque Grover chamou algumas ninfas que estavam por ali e pediu que elas avisassem aos outros que ele não conseguiria ajudar na coleta de lixo naquele dia.

— O acampamento não é muito longe, vem comigo. – disse ele, trotando tão rápido que precisei correr para alcançá-lo.

— Você acabou de dizer que não poderia...

— Levar mortais comuns para lá, é verdade.

Ele não precisou completar o raciocínio, pois, ao que parecia, eu não era exatamente uma mortal comum. Segui Grover por algum tempo até pararmos em uma calçada, onde ele tentava desesperadamente fazer um táxi parar.

— Grover, o que tá acontecendo? Por que você tá fazendo isso? – indaguei.

— Eu não sei, nunca ouvi falar desse tipo de coisa. – ele ainda sacudia as mãos para os carros. – Quíron deve saber o que fazer.

Meu estômago deu três cambalhotas. Ele estava me levando até Quíron.

— Mas nada aconteceu comigo antes, eu vivo uma vida normal, não precisa se preocupar comigo. – expliquei. – E eu posso chamar um Uber se você quiser.

— Mesmo assim, pode ser perigoso. E se alguma coisa acontecer com você a partir de agora?

Eu nem sabia o que responder, estava tão fascinada olhando o corte em meu dedo que aquela conversa nem parecia real. Grover não demorou muito mais para fazer um carro parar e conseguiu convencer o motorista a ser bem rápido. Eu ainda estava mentalmente confusa, nem prestei atenção em todo o caminho percorrido e, quando me dei conta, estávamos descemos do táxi. O sátiro mal me esperou fechar a porta do carro e disparou correndo colina acima.

Espera... aquilo era o pé de uma colina. Havia um pinheiro enorme lá no topo e, a menos que eu estivesse delirando, havia algo brilhando no galho mais baixo.

— Sem chance. – sussurrei para mim mesma, subindo atrás de Grover.

A ansiedade era tão forte que eu queria desmaiar e vomitar, tudo ao mesmo tempo. Eu alcancei o sátiro e, quando espiei o outro lado da colina, senti meus joelhos ficarem moles.

Havia vários chalés ao fundo, nenhum deles combinando, e vários jovens de camiseta laranja zanzavam por ali. Só de bater o olho eu podia reconhecer a casa grande e o pavilhão. Eu fazia um enorme esforço para não olhar o velocino bem ao meu lado, senão eu surtaria ali mesmo.

“Você tem 25 anos, Luiza, não vai chorar por causa disso”, eu falei mentalmente enquanto enxugava as lágrimas que desciam meu rosto. Eu não conseguiria descrever a sensação de estar olhando para algo que você queria muito, mas passou anos pensando ser apenas uma fantasia. Eu estava tão arrepiada e sensível que conseguia perceber a roupa tocando minha pele.

— O acampamento meio sangue. – sussurrei, a voz falhando.

— Hm, tente atravessar a fronteira. – sugeriu Grover, passando para o outro lado do pinheiro.

Ele me olhava com expectativa, e eu não conseguia adivinhar o que o deixaria mais apavorado: se eu conseguisse passar ou não. Não é como se eu tivesse opção de escolher o que aconteceria, então simplesmente dei alguns passos adiante. Nada impediu que eu entrasse no acampamento, o que me fez abrir um sorrisinho orgulhoso.

Grover assentiu, mas ainda aparecia ansioso. Ele não disse nada antes de dar as costas e trotar colina abaixo, e eu desci atrás dele, observando tudo de forma animada e admirada como se fosse uma criança. Alguns poucos campistas franziam a testa em minha direção, mas voltavam para seus afazeres em apenas alguns segundos. Eu ainda me sentia deslocada naquele lugar, mas eles não tinham como saber que eu era apenas uma mortal comum que por acaso cortou o dedo com a faca divina de um sátiro, então era de se esperar que eu não chamasse tanta atenção.

Eu estava tão distraída que levei um susto ao olhar para frente e ver um cavalo saindo de dentro da casa grande. Depois percebi que era apenas Quíron, a não ser que houvesse outro centauro por ali.

— Grover, pensei que você não estivesse mais recrutando semideuses. – comentou ele, me olhando com cautela.

— Senhor, ela cheira como uma mortal. – o sátiro explicou, e Quíron concordou com a cabeça.

— Eu posso sentir, Grover. Como ela passou pela barreira?

— Eu apenas entrei. – respondi, e mostrei meu dedo machucado. – Grover me trouxe depois que acidentalmente cortei o dedo com a faca dele.

Era impossível ler a expressão de Quíron, mas se eu tivesse que apostar, diria que ele também não vira nada assim antes.

— Tem alguma coisa errada comigo? – perguntei.

Era a primeira vez que me ocorria a ideia de estar vivendo algo terrível, e não um sonho. Se aquilo não era normal, se essas coisas jamais aconteceram antes, então só podia ser algo ruim. Talvez eu até tivesse levado uma maldição para dentro do acampamento ou coisa assim, quem poderia garantir que não?

— Qual é seu nome, criança?

— Luiza Godoi.

— Eu não tenho como responder sua pergunta sem fazer uma pesquisa, Luiza. Isso nunca aconteceu. – admitiu Quíron. – Mas ainda não há motivo para preocupação, por enquanto nada indica que tem algo errado com você.

Concordei com a cabeça, não muito confiante. Os dois estavam tentando me passar alguma tranquilidade, mas no fundo pareciam um pouco assustados comigo, e os campistas ao redor também pareciam ter reparado, pois alguns começaram a sussurrar enquanto me olhavam.

Eu estava considerando ir embora, dizer que voltaria no dia seguinte ou sei lá, mas percebi um brilho alaranjado na minha pele, como se alguém tivesse acendido uma lâmpada colorida sobre minha cabeça. Olhei para cima e senti meu coração errar uma batida ao ver o holograma de uma coruja brilhando. Era bom demais para ser verdade.

— Como...? – Quíron sacudiu a cabeça, ignorando a pergunta, e em seguida fez uma breve reverência, sendo imitado por todos que tinham parado para ver o brilho. – Salve Luiza Godoi, filha de Atena, deusa da sabedoria e da guerra.

— Salve. – algumas pessoas ao redor murmuram.

— Mas Quíron, ela não...

— Eu sei, Grover. – o centauro agora me olhava com curiosidade. – Vamos ter que descobrir o que isso significa.

— Espera. – falei, tentando me recuperar do torpor. – Eu sou uma semideusa? Uma semideusa de verdade, como nos livros?

— A não ser que Atena tenha se enganado, sim. Venha, temos que conversar. – respondeu Quíron, e depois se voltou para Grover. – Eu posso cuidar disso daqui em diante. Obrigado, Grover.

— Boa sorte. – me disse o sátiro.

Eu queria agradecer, mas Grover foi embora antes que eu dissesse qualquer coisa. Quíron deu meia volta e entrou na casa grande.

Até eu precisava admitir que aquilo era loucura, mas segui o centauro antes que ele mudasse de ideia.

Lá dentro, o leopardo de Dionísio estava roncando na parede. Passei tanto tempo olhando para ele que mal notei o homem gorducho sentado bem na minha frente. Quíron pigarreou, o que me fez olhar para baixo e ver o cara me encarar enquanto segurava algumas cartas na mão, com uma coca diet aberta ao seu lado.

— Ah... Sinto muito, Sr. D.

— Pelo menos a menina sabe o mínimo de respeito. – Sr. D murmurou, voltando os olhos para as cartas.

— Por favor, sente. – pediu Quíron, e eu puxei uma cadeira.

— O que tem de errado comigo? – repeti.

Ele franziu os lábios, pensativo, enquanto espremia seu traseiro de cavalo na cadeira de rodas ao lado da mesa.

— Me conte sobre você. O que já aconteceu na sua vida? – pediu ele.

— Nada demais. Eu vivo como qualquer mortal. Nunca fui atacada, não tive problemas na escola. A única coisa que me liga a isso tudo são os livros do Riordan.

— Esses fãs são sempre insuportáveis. Toda hora invadindo a plantação de morangos. – resmungou Sr. D, sorvendo um gole de sua coca diet.

— Sr. D, Luiza acaba de ser reclamada por Atena, mas seu cheiro não tem nenhum resquício de traços divinos. – explicou Quíron com paciência. – O senhor sabe alguma coisa a respeito?

O deus me observou de novo. Ele não parecia confuso, o que me deu uma fagulha de esperança, mas os livros me fizeram imaginar que eu não poderia esperar muita ajuda dele.

— Semideuses sem cheiro. – comentou Sr. D, descendo preguiçosamente o olhar para as cartas na mesa. – Acho que já vi algo assim.

— Você falou no plural. Semideuses. – pontuei. – Então não sou só eu.

— Eu diria que não. – o deus amassou sua lata vazia e estalou os dedos, fazendo uma nova coca diet aparecer na mesa. – Os deuses não pensam muito a respeito, mas a maioria já ouviu falar disso.

— Atena me reclamou. Ela deve saber alguma coisa. – eu sorri, sentindo a fagulha de esperança crescer no meu peito.

Sr. D deu uma risadinha, jogando uma carta na mesa como se a conversa não o interessasse, e Quíron me olhou com um pouco de pena.

— Criança, se você leu os livros do Riordan, sabe que falar com os deuses não é tão simples. Talvez seja melhor procurarmos respostas por outros caminhos.

Assenti, porque eu já imaginava essa resposta. Imaginei que Atena sabia da minha situação especial e, se ela me reclamara sem dizer mais nada, isso devia significar que eu poderia descobrir mais coisas por conta própria. Minha cabeça ainda estava formulando hipóteses quando Quíron voltou a falar:

— Eu considerei a possibilidade de um encapsulamento de poder até o semideus descobrir a verdade sobre si, mas você não parece ter ganhado cheiro nenhum até agora, então não é isso. Talvez seja um tipo de invisibilidade, o que seria bem útil a um semideus.

Eu hesitei um pouco e concordei devagar.

— Algo como uma evolução? Uma adaptação natural?

Eu devo ter dito algo certo, porque Sr. D ergueu os olhos de suas cartas.

— A menina não falou a coisa mais estúpida do mundo. Isso faz sentido.

— Obrigada, mas... Sr. D, o senhor disse que já ouviu algo a respeito. O que você sabe sobre semideuses assim?

Normalmente, eu me sentiria abusando da sorte por pedir explicações a ele duas vezes no mesmo dia, mas minha colocação me deu credibilidade suficiente para fazê-lo falar.

— Nos últimos tempos, nós temos vagas lembranças de crianças que mal notamos a existência. Achávamos que era imaginação, mas muitos deuses relatavam acontecimentos assim e algumas lembranças eram específicas demais, mesmo sendo curtas.

Eu pensei em comentar que os deuses nunca se lembrariam de nenhum filho se pudessem, mas eu entendi o que ele queria dizer. É como se alguns semideuses sumissem do mapa assim que nascessem.

Quíron ouvia a conversa em silêncio, se esforçando para entender a situação. Sr. D deu mais um gole em sua coca diet e jogou um petisco para seu leopardo na parede.

— Então... eu sou um tipo de semideusa invisível e, ao que parece, existem outros assim. – falei, tentando organizar os pensamentos. – Nós nos misturamos tão bem entre os mortais que passamos despercebidos até pelos deuses.

— É o que parece. – concordou Quíron. – Embora isso não explique por que Atena te reclamou.

— Talvez perceber que eu sou mesmo uma semideusa tenha chamado sua atenção. – sugeri. – Pode ter sido algo como os flashes que Sr. D acabou de contar, não sei. Só Atena poderia explicar.

— Creio que sim. – Quíron suspirou e balançou sua cadeira de rodas para frente e para trás. – Sugiro que você passe uns dias aqui, pelo menos até descobrirmos com o que estamos lidando. E, é claro, você deveria treinar.

— Um minuto. – pedi. Eu sentia os pensamentos se atropelando na minha cabeça. – Se eu tenho essa imunidade, não preciso treinar. Eu não vou ser atacada.

— Luiza, você pode...

— Eu quero e vou treinar, não se preocupe, apenas escute. – eu o interrompi. Quíron pareceu surpreso, não devia ser interrompido pelos campistas com frequência. – O treinamento pode ser útil, afinal, um semideus invisível assim pode ser perfeito para missões perigosas. A questão é que, se minha teoria estiver certa e isso realmente for um tipo de adaptação natural, talvez todos os semideuses sejam assim em alguns anos. O Sr. D disse que os deuses notaram isso apenas nos últimos tempos.

Fiz uma pausa, observando os olhos do centauro. Ainda eram difíceis de ler, mas eu sabia que Quíron não estava rejeitando minha ideia.

— Continue. – pediu.

— Sim, e eu vou descansar. – informou Sr. D, levantando-se da mesa. – Depois me avisem se souberem mais alguma coisa.

O deus foi embora, e por um momento eu e Quíron ficamos sozinhos, ouvindo a cabeça de leopardo ronronar baixinho.

— Bom... como eu ia dizendo, mesmo que eu esteja errada, o fato é que existem semideuses como eu, e isso me leva a três perguntas. – falei, retomando a linha de raciocínio. – Primeiro, se é realmente uma evolução e todos os heróis podem se tornar invisíveis, como você pretende fazer um treinamento que se adapte a essa realidade, Quíron? O que temos aqui não será mais tão vantajoso. Em segundo lugar, pressupor a evolução dos heróis é também pressupor que os monstros poderiam talvez evoluir. Claro, é só uma hipótese, já que eles não são uma espécie que se perpétua como outros seres vivos, mas, se existe essa possibilidade, precisamos pensar a respeito. O que podemos esperar deles? Será que nossas barreiras seriam o suficiente para esses novos monstros? E se eles se adaptarem e se tornarem capazes de detectar até esses semideuses invisíveis? Por fim, eu me pergunto como vamos encontrar esses outros semideuses e trazer para cá. Mesmo que eles não corram perigo agora, podem correr no futuro se os monstros evoluírem ou descobrirem um jeito de achar esses heróis, e eles vão precisar de treinamento. Podemos estar perdendo uma quantidade enorme de semideuses que poderiam ter ajudado nas últimas guerras. Quem pode garantir que a proporção de semideuses invisíveis não é maior que a dos heróis que conhecemos?

Quíron ficou em silêncio por mais alguns segundos, e eu soube que o impressionara de alguma forma.

Notas finais
GABBY MEISTER é uma escritora nacional tentando ganhar espaço no ramo da arte. Se você está curtindo essa fanfic, não deixe de acompanhá-la em suas redes sociais e apoiar seu trabalho. Ajude o pequeno artista! Insta/Twitter: @MeisterGabby Facebook: /meistergabby Blog: gabbymeister.blogspot.com