Semideuses invisíveis
4 As vantagens de ser invisível
Notas iniciais
Parecia que o mundo tinha congelado naquele momento de silêncio. Comecei a repassar mentalmente tudo o que eu dissera, tentando encontrar algo errado até que finalmente o centauro concordou comigo com um aceno de cabeça.
— Vamos conversar sobre isso assim que eu tiver mais informações. – ele disse. – Até lá, você fica aqui.
— Eu nem sou americana, estou aqui como uma turista brasileira, Quíron.
— Podemos resolver isso, a não ser que você queira voltar para seu país, o que eu não recomendo. – ele me garantiu. Eu neguei com a cabeça. – Mais algum problema?
— Tudo o que eu tenho está num hotel.
— Nada que eu não possa providenciar com alguns espíritos da natureza.
— Tudo bem, mas... eu não vou ser... Velha demais aqui?
Ele franziu a testa.
— É algum tipo de piada?
Fiquei quieta. Eu não costumava lembrar como os seres mitológicos podiam ser velhos, então era irônico dizer para um centauro milenar que eu poderia ser considerada velha demais para seu acampamento.
Uma trombeta soou ao fundo.
— Hora do jantar? – arrisquei.
— Sim. Ótimo momento para te apresentarmos aos outros campistas.
Isso me deixou eufórica e desesperada. Eu finalmente estava no acampamento meio sangue, mas PUTA MERDA EU TINHA 25 ANOS e, até onde eu me lembrava, os semideuses do acampamento eram majoritariamente crianças. Eu estava velha demais para brincar de lutinha de espada.
Quíron não falou nada enquanto eu o acompanhada, mas ele estava inquieto e sua cauda balançando denunciava isso. Quíron se aproximou de sua mesa no pavilhão, e parei timidamente ao seu lado, como ele pedira. As coisas com certeza não estavam indo como eu imaginava, mas já era tarde demais para desistir.
Os campistas ficaram em silêncio quando entrei, e eu entendia, pois teria reagido assim se eu fosse uma das crianças dali.
Quíron bateu as patas no chão para chamar a atenção pra si.
— Hoje fizemos uma descoberta inusitada. Luiza foi reclamada por Atena e, ao que tudo indica, ela é o que estamos chamando de semideuses invisíveis: heróis sem cheiro que se apagam no meio dos humanos. Isso os distancia do olhar dos deuses, mas também os mantém seguros dos monstros, e é por isso que Luiza viveu tanto sem nunca pisar num acampamento. Estaremos pesquisando mais detalhes sobre isso, não se sabe muito até agora. Perguntas?
Alguém na mesa de Deméter levantou a mão.
— Não devíamos avisar os romanos?
— Eu certamente manterei Lupa e os pretores informados, mas por enquanto não tem muito para se dizer. – admitiu Quíron.
Ninguém disse mais nada, o que fez meus dedos suarem de ansiedade.
— Bom, se ninguém tem mais nada a dizer, podemos jantar. – Quíron anunciou. Ele lançou um olhar para mim. – Você devia se sentar à mesa de Atena.
— Ah, eu não sei se... – não consegui formular uma desculpa, mas a verdade é que eu tinha passado aquele tempo observando a mesa de Atena e, bom, a maioria era criança. Isso não parecia certo.
— Tudo bem, você já deixou bem claro que é uma das nossas. Pode vir. – um rapaz se levantou da mesa e fez sinal com a mão para que eu me aproximasse.
Não havia nada que eu pudesse fazer além de obedecer, então ignorei meu nervosismo e fui até lá.
— Você é o líder? – perguntei depois de me sentar.
— Sim. Pode me chamar de Richard, ou Rich. – ele abriu um sorriso gentil. Era bem parecido com um filho de Atena comum: pele curtida pelo sol, olhos acinzentados, cabelos de um castanho bem claro, quase loiro.
— Mas... e Annabeth? – perguntei, franzindo a testa.
— Ah, eu acho que ela ainda está em Nova Roma, saiu daqui há alguns anos com o Percy. Você sabe, faculdade e tudo o mais. – explicou.
Eu concordei com a cabeça, tentando não me sentir idiota pela pergunta meio óbvia.
— Quantos anos você tem? – indaguei, querendo mudar de assunto. A barba em seu rosto me dava alguma esperança, mas eu não queria me precipitar.
— 18.
— Graças aos deuses.
Eu ainda seria velha, mas pelo menos eu poderia contar com a ajuda de pessoas quase tão velhas quanto eu.
Os olhos curiosos de várias crianças de Atena me avaliaram como se eu fosse uma mensagem em código. Se eu olhasse para além da minha mesa, veria mais olhos em cima de mim, alguns sussurros e muita preocupação.
— O acampamento pode estar parecendo um pouco estranho pra você, mas isso passa. – Richard prometeu.
Eu concordei com a cabeça e desci os olhos para meu prato vazio. Todo mundo já estava comendo, então tentei pensar na comida como eles ensinam nos livros, e uma pizza surgiu magicamente ali, o que me deixou aliviada; eu não queria ter que perguntar qual era o jeito certo de pegar comida.
Quando todos os campistas se levantaram para fazer suas oferendas, eu também me aproximei do braseiro e ninguém olhou torto, então imaginei que o problema da idade provavelmente devia existir apenas na minha cabeça. Talvez os outros só estivessem curiosos por eu ter trazido um conceito novo de semideus. Na verdade, olhando por esse ângulo, foi bem idiota ter pensado que em algum momento alguém se preocuparia com minha idade.
Joguei a fatia de pizza inteira no fogo. "Obrigada por ter me reclamado, mãe. Me ajude a entender o que eu sou".
Voltei para minha mesa e tentei me enturmar um pouco. Tudo era assustadoramente fiel ao que os livros diziam: a mesa de Ares tinha um prato voando de tempos em tempos, a mesa de Hécate sempre tinha alguma vela que aparecia e desaparecia sozinha, os filhos de Hermes faziam apostas para saber quem iria para enfermaria na próxima aula de arquearia.
Meus meio irmãos tinham várias dúvidas: eu via através da névoa? (já vi coisas esquisitas, mas acho que só me recusei a acreditar ou esqueci. Você começa a ver coisas com mais frequência depois que descobre a verdade DE FATO, sem pensar que é fantasia, provavelmente porque eu cérebro começa a interpretar as coisas do jeito certo). Eu sentia o cheiro dos monstros? (Não, o que é uma pena, porque seria legal inverter essa situação). Eu já sabia que era semideusa? (Eu sempre imaginei e sonhei com isso, mas devia ser porque eu amava os livros do Riordan, nunca apostaria que era real). Eu também tinha sonhos estranhos? (Com frequência, mas eles não tinham nada a ver com os sonhos de semideus, provavelmente porque eu não tinha essa vida. Talvez isso mudasse agora).
Eu não sabia responder a maioria das perguntas deles, o que deixou os outros filhos de Atena bem frustrados. Prometi que explicaria todos os detalhes assim que descobrisse mais coisas, e alguns até se ofereceram para me ajudar nas pesquisas, mas eu tinha a sensação de que teria que fazer a maior parte sozinha.
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