Notas iniciais
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Grover bateu os cascos no chão com impaciência, ainda tentando arrumar os cachos para esconder seus chifres.

— Por favor, eu só quero conversar um pouco. – insisti. – Depois você pode voltar a falar com as ninfas ou qualquer coisa assim.

— Shh!! – fez ele, olhando ao redor com os olhos arregalados. – Alguém pode te ouvir. Agora me dá a touca!

— Só se você falar comigo, senão eu vou começar a gritar que vi um sátiro até a névoa perder efeito sobre os mortais! – ameacei.

Ele resmungou alguma coisa baixinho, e eu normalmente me sentiria péssima por incomodar o próprio Grover Underwood dessa forma, mas eu tinha que seguir adiante com meu plano. Era minha única chance.

— Vamos para um lugar com menos gente, pelo menos. – sussurrou ele, e voltou a correr para dentro do parque.

Eu o segui de perto, segurando firmemente sua touca. Grover às vezes me espiava por cima do ombro, contrariado, até que por fim paramos perto de umas árvores onde não passavam tantas pessoas. Ele se virou para mim e começou a farejar o ar ao meu redor.

“É agora”, pensei. “Ele vai dizer algo como ‘uau, como você sobreviveu todos esses anos sem ir para o acampamento? Vamos falar com Quíron imediatamente, você é uma legítima meio sangue!”. Por que não? Se eu tinha encontrado um sátiro de verdade, qualquer coisa era possível depois disso.

— Se você não tivesse o cheiro de uma humana normal, eu teria certeza que você era um monstro. – ele resmungou.

— Ah. – fui tudo o que eu consegui dizer.

Vocês conseguem entender minha frustração, não é? Imagine como é ter certeza de que as histórias de Percy Jackson são reais, mas que você nunca viveu isso só porque é uma humana comum. É ainda mais frustrante do que viver achando que tudo não passa de fantasia, confie em mim.

— Não precisa ficar triste. Você... você até me descobriu! – disse ele, agora tentando me animar. – Nenhum fã chegou tão longe!

— Provavelmente porque ninguém seria estúpido o bastante para roubar a touca de um menino aleijado. – murmurei, devolvendo a touca para ele. – Mas podemos conversar mesmo assim? Tem tanta coisa que eu quero saber!

Grover me olhou com hesitação enquanto recolocava a touca. Ele parecia ter se apiedado um pouco depois da minha reação decepcionada.

— Olha, é melhor você fingir que nada disso aconteceu. – sugeriu ele, após pensar por alguns segundos. – A névoa provavelmente vai alterar suas memórias até que um dia você acredite que isso foi tudo um mal entendido.

— Eu não quero isso. – respondi. – Por favor, são só algumas perguntas. Sabe como é angustiante ser uma mortal que sonha em conhecer esse mundo?

Ele ainda não parecia convencido.

— Eu juro pelo Estige que nunca vou contar pra nenhum outro fã sobre o que aconteceu hoje. – pressionei, e depois franzi a testa. – Um juramento pelo rio Estige também tem validade pros mortais?

— Claro que tem. – afirmou Grover, muito mais relaxado após minha promessa.

Eu sei que todos os outros fãs do planeta estariam muito irritados comigo por fazer esse juramento, e eu também estaria se fosse uma das milhares de pessoas que amam essa saga, mas era um mal necessário e eu sei que você teria prometido a mesma coisa para ter o privilégio de interrogar Grover.

Agora ele parecia mais convencido e se sentou na grama, me convidando a fazer o mesmo. Eu obedeci como uma criança ansiosa esperando os pais começarem a contar uma nova história.

— Eu não posso ficar muito tempo. – advertiu ele. – O que você quer saber?

— O que você estava indo fazer quando me atropelou?

— Coisas de sátiro. – respondeu, constrangido. – Não pense que vou responder tudo, não seja intrometida.

— Ok, desculpa. – eu mal conseguia esconder o sorriso de animação. – Então, quanto dos livros é verdade?

— Quase tudo, até onde eu sei. – ele coçou a barbicha enquanto pensava. – Talvez os últimos livros sejam invenções para vender mais, mas os primeiros são verdade, em geral.

— Então todos aqueles semideuses são reais?

— Ahan.

— E os acampamentos?

— Com certeza.

— Ai meus deuses. – eu sentia que podia desmaiar a qualquer momento. – Eu sempre sonhei em ir para lá.

— Todos os fãs sonham. – concordou Grover. – Mas nem adianta me pedir isso, não posso fazer mortais entrarem no acampamento, mesmo que eles sejam teimosos e ladrões de touca.

— Eu sei. – falei, mas estava tão animada que nem conseguia ficar triste por isso. – E eu posso conhecer algum semideus? Um de verdade?

— Você disse que só ia fazer perguntas, não pedir esse tipo de coisa. – ele se esquivou.

— Algum deles deve morar por aqui. – falei. – Nem vai te custar nada.

— Eu nem devia estar falando com você sobre isso. – ele me lembrou.

Suspirei, concordando com a cabeça. Se eu quisesse mais respostas, não poderia ser tão teimosa. Grover estava sendo legal e não era bom estragar isso. Por outro lado, aquela breve conversa me fez perceber que eu não tinha nada para perguntar. Se os livros eram reais, eu teoricamente já sabia tudo, talvez até melhor do que ele. O máximo que Grover podia fazer por mim agora era servir como prova de que essas coisas não eram fantasia, e ainda assim essa verdade precisaria morrer comigo. Eu estava quase pedindo desculpa e dizendo que ele podia ir embora quando uma pergunta óbvia martelou na minha cabeça.

— Se é tudo verdade, então quem o Riordan é?

— Ah, ele é só um humano. Cara gente boa, ele até me deu uma lata uma vez.

— Então como ele...?

— Ele via através da névoa, sabe? Um dia acabou vendo o acampamento no lugar da plantação de morango e não saiu dali até que alguém viesse explicar aquilo, ficou dias parado na fronteira. – explicou Grover.

— Não posso criticar.

— No fim, Quíron gostou dele, acho que porque os dois eram professores. Eu não sei bem o que eles conversaram, mas no fim rolou um acordo para que o Riordan pudesse escrever essa história se agisse como se tudo fosse ficção. Ninguém imaginou que ia fazer tanto sucesso, mas isso não virou um problema tão grande pra gente.

— Como ele ficou sabendo da versão do Percy?

— Ele pediu pro Quíron indicar algum herói que pudesse contar boas histórias, e Percy topou ser esse cara. Ele gravou várias fitas pro Riordan e aí foi só escrever tudo.

Foi a primeira vez na vida em que eu senti inveja do Riordan. Eu daria qualquer coisa para ter vivido essa experiência.

— Deve ter sido incrível. – suspirei, sonhando acordada.

Grover soltou um balido indignado.

— A gente quase morreu várias vezes!

— Sim, eu sei. Desculpe. – respondi, embora isso obviamente não me desanimasse. – Você não tem mais nada aí? Alguma arma especial do acampamento, uma flauta de bambu, nadinha?

— Os mortais não podem ficar mexendo nessas coisas. – ele se levantou. – E eu preciso ir embora agora.

— Eu sei, eu sei. Calma. – pedi, levantando também. – Por favor, só me mostra qualquer coisinha que você tiver. Eu jurei que não ia contar, não foi?

Grover suspirou. Talvez ele tivesse discutido em outra ocasião, mas devia estar realmente atarefado com suas coisas de sátiro, porque espiou ao redor e cada uma de suas mãos puxou algo de sua calça.

— Aqui, eu uso isso só por precaução. – disse baixinho, embora não houvesse ninguém por perto num raio de pelo menos dez metros. – Olhe rápido.

Eu abri um sorriso enorme. A flauta de bambu era delicada e cheirava a capim, mas a primeira coisa que eu peguei foi a pequena faca que ele segurava na outra mão. A lâmina poderia facilmente ter sido retirada de um canivete, me fazendo pensar que Grover devia usá-la só em último caso mesmo.

— É bronze celestial de verdade. – comentei, maravilhada.

Ele concordou com a cabeça, ainda olhando ao redor com nervosismo.

— Beleza, agora me devolve. – pediu.

Eu assenti, sentindo a frieza do metal divino uma última vez antes de entregar a Grover, mas a lâmina estava tão afiada que senti uma fisgada no dedo.

— Opa. – falei, devolvendo a faquinha enquanto chupava o sangue do ferimento. – Isso deve ser realmente ótimo parar matar monstros.

Ele arregalou os olhos com uma expressão tão confusa que nem parecia mais preocupado em pegar sua arma de volta.

— O que foi? – perguntei, franzindo a testa.

— Você se cortou com a faca. – disse ele, quase balindo de novo.

— Não foi nada, mal dá pra sentir. – respondi.

— Não, esse não é o problema. – seus olhos continuavam arregalados. – Ela é de bronze celestial, não pode ferir mortais.

— Eu sei, mas...

A voz morreu na minha garganta conforme meu cérebro entendia o que isso significava, mas meu lado racional se recusava a acreditar. Eu tentava pensar em qualquer explicação para o sangue que escorria pelo meu dedo.

— Mas... eu não sou um monstro. – falei, a voz fraca.

— Não. – concordou Grover. – Você cheira como uma mortal comum, mas não pode ser mortal.

Meu coração estava tão acelerado que eu podia senti-lo nas pontas dos pés. Não importava o que eu era, porque aquele minúsculo corte no meu dedo era sinal de que eu de alguma forma fazia parte daquele mundo.

Era o dia mais feliz da minha vida, mas eu nunca me sentira tão confusa. Aquilo era a realização de um sonho, mas não fazia o menor sentido. O que eu era?

Notas finais
GABBY MEISTER é uma escritora nacional tentando ganhar espaço no ramo da arte. Se você está curtindo essa fanfic, não deixe de acompanhá-la em suas redes sociais e apoiar seu trabalho. Ajude o pequeno artista! Insta/Twitter: @MeisterGabby Facebook: /meistergabby Blog: gabbymeister.blogspot.com