Sem volta
1 Primeira Parte
Notas iniciais
O sinal de saída para os alunos do turno da manhã soou há minutos e o colégio foi aos poucos se esvaziando, apesar de alguns estudantes persistirem em ficar nas redondezas da instituição uns minutos adicionais, por qualquer motivo.
Caminhando pelo corredor estreito e comprido, três jovens seguem em seus passos relaxados. Liam, mesmo sendo um garoto reservado e um tanto exigente quando o assunto diz respeito a amizades, terminou tornando-se próximo a Tiago e a César por causa do seu melhor amigo que, ao contrário dele, é mais popular.
− Onde mesmo você falou que ele foi? – pergunta César, o garoto que tem olhos castanhos, mesma cor dos cabelos, dando a entender que não está prestando muita atenção às palavras do outro.
− Ele foi à coordenação, disse que tinha que procurar o professor Edson. Vai tentar entregar o trabalho de matemática... – Liam meneia a cabeça, passa os dedos por seus cabelos claros e dá um meio sorriso. − ... atrasado, como sempre.
O detalhe não dito é que o tal trabalho de matemática só foi concluído com a ajuda dele, já que o seu amigo de anos e colega de classe é realmente um desastre nessa disciplina.
− Você vai esperar por ele? – quem se pronuncia agora é Tiago, o outro loiro, sabendo que eles moram em casas que ficam na mesma direção, ambas próximas à escola, e costumam ir juntos.
− Só um pouco, se ele demorar muito vou-me embora porque estou realmente faminto. – após anunciar sua decisão, ele para de caminhar, ajusta sua mochila pondo-a num só ombro e se reclina à parede, deixando claro que os outros podem seguir seus destinos e ele ficaria ali mais um instante.
Os colegas, assim, fazem menção de se despedir, mas, de repente, César observa, através da porta entreaberta da sala que fica em frente à parede na qual Liam está recostado, a movimentação suspeita de dois garotos.
− Mais que merda é essa? Olha só isso! – fala, achegando-se à porta, abrindo-a mais uns escassos centímetros, cuidando em não fazer barulho e convocando os demais para verem também.
− Caralho! Que nojo! – Tiago ri, sarcástico.
Liam ergue as sobrancelhas, curioso, e se desencosta da parede. Por ser o mais baixo entre eles, é obrigado a ficar na ponta dos pés para olhar por cima dos ombros dos demais e poder igualmente ver a cena que lhes chama a atenção.
Na sala de música, sem se darem conta de que são espionados, estão Murilo e Otávio, abraçados e se beijando com vontade. Eles se encontram ao fundo do recinto, por trás dos instrumentos e em nada se concentram além de apreciar os toques afetuosos um do outro.
César, sorrindo de modo perigoso, enfia a mão no bolso e de lá retira seu celular.
− Droga! Tá descarregado. Me passa o seu. – Ele bufa irritado e cochicha a ordem para Tiago.
− Você não vai fazer o que eu tô pensando, vai? – A pergunta é seguida de boas risadas, enquanto, obediente, lhe entrega o aparelho.
− É claro que eu vou. – dizendo isto, ele aciona a câmera do celular e começa a filmar os meninos, buscando o melhor ângulo a fim de que possam ser identificados claramente. − Vou tornar esse casalzinho bem famoso, todos vão poder apreciar o show de viadagem deles no youtube, no facebook, em todo lugar.
− Só espero que estejam cientes de que isso é ilegal e que eu não tenho nada a ver. – Liam declara de modo categórico, mas dá de ombros, afasta-se deles e volta a se recostar na parede, aparentando total desinteresse.
César e Tiago, entretanto, apenas continuam filmando e rindo até ao momento em que Murilo e Otávio finalmente percebem que foram pegos no flagra. Os pobres rapazes ficam muito constrangidos, assustados, ainda mais quando se dão conta da filmagem, intuindo o mal que lhes seria feito.
− Ei! O que pensam que estão fazendo? Que sacanagem é essa? – Murilo, após recuperar-se do susto, avança furiosamente na direção dos intrusos.
− Murilo, não! Fica calmo. – Otávio, querendo evitar o pior, segura o namorado pelo braço e, suplicante, olha para César, que tem a câmera firme em suas mãos. – Por favor, só apague isso e nos deixe em paz. Não queremos confusão, não precisam fazer isso.
− E quem aqui quer confusão? Por que estão tão ofendidos? Deveriam estar felizes, afinal serão os protagonistas de um filme romântico. – A ironia na voz do garoto é absurda.
Deste modo, os ânimos vão-se acalorando mais e mais. César não cede e permanece ostentando sua expressão de chacota, Tiago o acompanha, sempre rindo, como se estive achando tudo muito divertido, e Liam não faz mais que assistir à cena e mudar a postura de insensível para impaciente.
Minutos transcorrem e as vozes só aumentam de volume a cada segundo.
André, que passava por ali e é amigo de Murilo e Otávio, achega-se para averiguar o que ocorre e também entra no tumulto. Liam, inteligente e observador, entende que não levaria muito tempo para o bate-boca evoluir a socos e pontapés. Sua suposição transforma-se numa certeza ao ver Theo caminhando ao rumo deles.
“Pronto! Agora é que o circo pega fogo.” Pondera o loiro, revirando os olhos e os direcionando para o jovem robusto que, por vontade assumida ou não, costuma causar medo ou empatia a muitos.
Realmente, o próprio Liam não sabe como ele veio a tornar-se o melhor amigo de um indivíduo como esse, visto que possuem personalidades tão distintas. Liam pode ser considerado um tipo de nerd, por ser discreto, muito estudioso, ter pele clara, olhos verdes e ser um menino magro, que só há poucos meses resolveu praticar algum exercício físico no intuito de ganhar massa corporal. Theo, por sua vez, possui cútis menos alva, um porte físico que começa a mostrar o bom resultado das horas diárias dedicadas à malhação e admiráveis olhos castanho-escuros, que conseguem ser mais negros que seus cabelos.
− O que diabos está acontecendo aqui? – A voz sonora, nítida e arrogante do moreno se destaca.
− Theo, meu amigão! Que bom que você chegou para me ajudar nesse impasse... − César convoca o garoto que é apenas dois centímetros mais alto que ele para participar da discussão e exibe uma atitude ridiculamente cerimonial. − Veja se não tenho razão. Esses dois aqui... – aponta com o celular para Murilo e Otávio. – resolveram trocar beijinhos em plena luz do dia, na sala de música da nossa escola, não se importando em serem vistos por quem quer que seguisse por este corredor. E agora que eu tenho em mãos o registro do que houve, que quero expor o amor deles e torná-los conhecidos na internet, estão rejeitando a fama.
Mais uma vez, Murilo tenta soltar-se dos braços do namorado para arremessar-se contra seus algozes, completamente indignado. Otávio, no entanto, ainda o prende a si, entendendo que lutar configura-se a última opção, pois o risco de apenas saírem mais humilhados e machucados é enorme. Tal pensamento é partilhado por André, que se esforça para ser diplomático e fazer emergir, em meio ao conflito instalado, algum senso de solidariedade.
− Escutem! Se vocês fizerem uma coisa dessas irão arruinar a vida dos meus amigos, principalmente a do Otávio, porque os pais dele ainda não sabem que ele é homossexual. Por favor, pensem bem no que estão fazendo, apaguem essa gravação!
Desdenhando a súplica de André e o transtorno emocional dos namorados, Theo volta-se apenas para César.
− Posso ver? – faz a pergunta com naturalidade.
Sorrindo maldosamente, César entrega o telefone ao moreno e este, ante todos os olhos postos sobre si, facilmente passa os dedos na tela e exclui o vídeo, sem ao menos dar-se ao trabalho de lhe assistir, devolvendo o aparelho, logo em seguida.
César, incrédulo, mas imediatamente exaltado, toma o celular em mãos e passa a mexer nas teclas digitais em busca da filmagem, gesto obviamente inútil.
− Você... Você apagou o vídeo, seu imbecil!
− Sim, apaguei e você pode me agradecer depois.
− Te agradecer? – César tem agora os olhos saltados por conta da raiva.
− Eu livrei os seus pais de um processo de indenização, afinal, invasão de privacidade é crime.
Tiago interrompe o riso, os demais garotos mostram-se surpresos, nada esboçando de reação, e Liam igualmente parece estar em transe de tão embasbacado.
− E é você quem vem me dar lição de moral? O cara que, na semana passada, quebrou o nariz de um garoto na presença de muitos estudantes e com certeza ainda o ameaçou para que ele ficasse em silêncio, porque o coitado nunca te acusou! – César faz questão de relembrar a selvageria cometida pelo moreno.
Theo empertiga-se, mostrando que esse assunto o incomoda, mas ele fica calado. Então, César dá um passo e se põe na sua frente. A tensão entre eles é palpável.
− Agora você quer nos convencer de que se importa com as regras? Tá certo, mas cuidado, Theo, ou as pessoas podem achar que você baixou a guarda, que não é o valentão que todos pensam.
− Tá a fim de me encarar, César? Não tenho medo algum, se quiser brigar, eu tô aqui, pode vir, aliás, podem vir os dois. – O moreno contrai o maxilar e os músculos do pescoço, olhando também para Tiago, com expressão confiante e intimidadora.
− Fica tranquilo, amigão... – César impõe um sorriso de escárnio, ao passo que não foge ao olhar petulante do outro. – você sabe que minha melhor arma não são os punhos.
Há uma clara ameaça naquelas palavras e Theo capta a mensagem, ele conhece os métodos sujos de César, que ele gosta de provocar, de atormentar seus inimigos, descobrindo seus pontos fracos e os expondo em boatos maldosos.
Em seguida, César direciona-se para Tiago, faz um sinal de cabeça e ambos saem sem olharem para trás. Ao vê-los sumindo de suas vistas, André, Otávio e Murilo finalmente respiram aliviados.
− Muito abrigado pelo que você fez, cara, foi uma atitude bem legal, valeu mesmo. – André é o primeiro a se pronunciar.
− É... Obrigado. – agradece também Murilo, meio sem jeito.
− Olha, eu sei que parece exagero, mas você realmente nos salvou de uma séria encrenca, por isso seremos eternamente gratos e se um dia precisar da nossa ajuda é só pedir. – Otávio é o mais efusivo e fala de modo gentil, enquanto sorri para Theo.
− Não precisam me agradecer, fiz apenas o que achei correto. – replica, com voz enfastiada, mas não agressiva.
O moreno, na verdade, parece distraído, sua mente vagueia para onde ninguém sabe. Logo, os três garotos não puxam mais conversa e optam também por irem embora, deixando Theo e Liam sozinhos, entregues a um clima estranho.
− Dá pra você me explicar o que houve aqui, ou melhor, pode me situar porque eu tô bem perdido. – Liam novamente se afasta da parede e descruza os braços, olhando diretamente para Theo.
− O quê? Acha justo o que eles pretendiam fazer com aqueles garotos? – o moreno solta, sentindo sua impaciência aumentar.
− Não, não acho, tanto é que eu deixei claro que não iria participar daquilo, mas eu estou surpreso é com você, eu te conheço há anos, já te vi bancar o babaca inconsequente várias vezes e nunca imaginei que você seria capaz de se preocupar com qualquer pessoa além de si mesmo, confesso que o seu repentino gesto altruísta me espantou.
− Eu sei que já cometi muitos erros, Liam. Sei também que, até bem pouco tempo, eu dei motivos suficientes para ser mesmo considerado um idiota egoísta, mas será que você não pode supor que eu esteja apenas querendo mudar? As pessoas mudam, mudam o tempo todo. – articula mostrando-se bastante agitado.
− Ok, ok. Quer mesmo mudar, Theo? Ótimo, mude. – Outra vez, Liam ajusta a mochila no ombro e depois ri de um pensamento que lhe passa na mente. – Só que agora você vai ter que ficar preparado porque o César, com certeza, vai espalhar pra todo mundo que você se tornou um defensor de maricas e, pior, pode ser que ele diga que você é igual a eles.
− E se eu for?
− Ra-ra-ra, tô morrendo de rir da sua piada. – mas, depressa, o loiro fica preocupado com o rumo da conversa.
− Por acaso, você tá me vendo rir também?
− Como? É sério isso? Theo... Você é gay?
− Quer saber? Que se dane! Eu tô cansado dessa merda toda. Sim, Liam, eu sou!
De fato, Theo, por impulso e ira, termina confessando o que mantinha em segredo há um bom tempo. Contudo, imediatamente se dá conta do ato precipitado e se arrepende, sobretudo, ao ver Liam ser dominado outra vez pelo pasmo, que agora é bem maior.
O loiro simplesmente meneia a cabeça em sinal de negação, vira as costas para Theo e, depois de alguns passos ligeiros, inicia uma corrida para longe do amigo, sem dizer mais nada.
− Liam... Liam! – Ainda tenta chamá-lo de volta, porém, é tarde, Liam já se encontra muito distante.
✻∞✻
Nos dias seguintes, o loiro permanece ignorando, de propósito, aquele que se fez seu amigo há cinco anos, desde quando começaram a estudar juntos. Uma semana inteira se passa sem que Liam atenda às suas chamadas de celular, responda às mensagens ou manifeste qualquer interesse em conversar sobre o ocorrido. Até muda o trajeto de ida e volta da escola para não ter que encontrar o moreno pelo caminho. Na sala de aula, apenas se senta na cadeira, que inclusive fica ao lado da de Theo, e simula uma calmaria insensível que é contestada apenas pela movimentação da caneta a bater no caderno freneticamente, enquanto seus olhos não se desgrudam um segundo do quadro de acrílico ou do professor.
Theo, por sua vez, mesmo se sentindo confuso, magoado, prefere não forçar as coisas, pois intui que o loiro esteja apenas com dificuldade de assimilar o que hoje sabe. Mas, embora o moreno ainda tente agir como o usual, algo mais sério lhe acontece, o que na verdade já era previsto. Agora é alvo de uma intriga conspiratória, não importa aonde vá, surpreende alunos lhe olhando atravessado com expressão de troça e quando escuta alguém lhe chamar pelas costas de “herói gay”, nem precisa de esforço mental para saber que o causador da fofoca é César.
O limite da sua paciência, porém, é testado quando ele surpreende Sylvia, a garota com quem namorou por quase um ano, cochichando e rindo com suas amigas ao vê-lo passar. Para piorar a situação, ao atravessar o pátio do colégio, ele avista o fofoqueiro gargalhando e lhe apontando o dedo, enquanto segue em conversa animada com Tiago e outros rapazes. Os olhos de César cruzam-se com os do moreno e este já se mostra transtornado pela fúria, caminhando em sua direção de punhos cerrados e com uma expressão assassina.
Liam, que se encontra sentado num banco lendo um livro, ao perceber o que está prestes a acontecer, levanta-se num sobressalto e caminha acelerado sem pensar em mais nada além de impedir que Theo cometa a barbaridade da qual certamente iria arrepender-se depois. Contudo, não é Liam quem chega logo à dianteira do moreno e sim André, o amigo do casal de gays.
− Não faça isso, Theo, só irá piorar as coisas. – O rapaz de pele clara e cabelos castanhos como seus olhos, fala em tom ajuizado e firme.
− E quem é você pra se importar com isso? – questiona, ainda mostrando todo o seu aborrecimento.
− Eu sou alguém que já passou pelo que você está passando agora.
Theo prontamente detém os passos e fica olhando, intrigado, para o garoto. Todavia, antes de o moreno abrir a boca novamente e soltar outra grosseria, André lhe entrega um pedaço de papel, nele há anotado o seu número de telefone, contato de e-mail e de redes sociais.
− Não precisa se sentir sozinho se não quiser. – Após anunciar isto, recua e anda em direção à sua sala de aula.
Liam, ao observar André fazer o que ele mesmo estava disposto, interrompe a marcha veloz e experimenta um sentimento muito incômodo, que prefere desconsiderar, então, ele apenas muda a orientação e também vai para a sua sala.
O intervalo tinha acabado.
✻∞✻
Os dias passam e as coisas entre Liam e Theo permanecem no mesmo estado de mudez e distanciamento. Às vezes, o moreno tem a nítida sensação de que é observado pelo loiro e de que o seu olhar entrega a vontade de voltar a ser seu amigo, mas o orgulho agora não está somente do lado de Liam, ele se apossa também de Theo.
O moreno sem dúvida não é mais o mesmo. Teve sua imagem arruinada e transformada abruptamente. O rapaz que era popular entre as meninas, devido ao charme e beleza física, e imitado pelos garotos, por sua personalidade destemida, passou a evitar notoriedade, a selecionar as amizades e desprezar os falatórios maldosos, até porque ninguém, além de César, teve coragem de fustigá-lo cara a cara, o que denuncia, no fim das contas, que sua presença imponente ainda acarreta certo temor.
Uma amizade imprevista entre ele e André é iniciada. Eles já mantêm uma regular comunicação por telefone ou nos chats disponíveis nas redes sociais e até podem ser vistos, não raras vezes, juntos e conversando nos espaços do colégio.
− Então foi por isso que você veio com aquele papo de “Não precisa se sentir sozinho se não quiser”? – Theo desvia os olhos da quadra esportiva, onde alguns estudantes estão a jogar vôlei, e os lança sobre o rapaz no banco ao lado.
− Sim, mas eu juro que escutei sem querer. Só que depois do que eu ouvi, senti vontade de me aproximar e te ajudar de alguma forma. Eu sei que essas coisas não são fáceis, principalmente no começo. – André se mostra um pouco envergonhado.
Ele está assumindo que, no dia da confusão em que César fez a tal filmagem polêmica, escutou acidentalmente a conversa entre Theo e Liam, pois quando ele e o casal de amigos já iam embora, no meio do trajeto, Otávio percebeu que tinha esquecido seu material de estudo na sala de música. Com receio de os amigos se meterem em novo problema, André ofereceu-se para voltar e buscar o material. E ao notar a aparente discussão entre Theo e o loiro, ele não pensou muito, apenas se escondeu e ficou esperando os rapazes liberarem o corredor. Portanto, mesmo sem intenção, André escutou o moreno revelar sobre sua homossexualidade, bem como viu Liam sair correndo, rejeitando a confissão do amigo.
− Liam é um garoto legal e muito inteligente, aliás, ele é o cara mais inteligente que eu conheço e eu não sei exatamente por que ele tá agindo dessa forma, mas... – Theo fica inquieto e afasta os olhos. – Olha, André, na verdade, eu prefiro deixar isso quieto, não quero tocar nesse assunto, por enquanto.
− Não, tudo bem. Tá tranquilo. – André dá um riso forçado. – Mas e os seus pais, eles já sabem?
− Não... e eu confesso que não sei como será quando descobrirem, só rezo que o meu pai não queira me expulsar de casa. – suspira fatigado.
− Puxa, Theo, que barra pesada, hein! Bom, mas você deve pensar pelo lado positivo, pode ser que as coisas não sejam tão ruins. Quem sabe eles prefiram se comportar como os meus.
− Hum... E como é a convivência na sua casa? – Theo toma a liberdade de fazer a pergunta, pois o próprio André igualmente lhe contou que é gay e que os pais dele têm conhecimento disso.
− O meu pai mal fala comigo, mas não me ofende mais, como fazia antes. Para a minha mãe eu não sou gay, estou somente passando por uma fase e o meu irmão cansou de representar o homofóbico terrorista e agora me trata como um desconhecido.
− Ah, tá. E esse é o lado positivo, né. – libera um riso irônico.
Theo e André, assim, continuam conversando amistosamente e o moreno reflete que, de algum modo, esse rapaz educado e gentil tem conseguido confortá-lo, fazendo-o abrir a mente e enxergar as coisas por um aspecto mais ameno.
Todavia, quando Theo parecia ter-se esquecido das outras preocupações de sua vida, eis que recebe o último resultado de sua prova de matemática e se dá conta de que o seu rendimento, que já não era bom, despencou drasticamente. Ele fica muito aborrecido, sente-se pressionado, pois o vestibular está próximo e ele pretende seguir a área de engenharia. Portanto, teria que dar um jeito de superar sua dificuldade nesta matéria ou certamente não obteria a desejada aprovação.
Após buscar na mente inúmeras soluções possíveis, ele olha para o lado, enxerga Liam meditativo enquanto copia as anotações do quadro e compreende que será necessário abafar o orgulho para empreender o que imediatamente formulou. Ele pega o celular e digita rapidamente a mensagem: “Preciso falar com vc. Posso te esperar na saída? É importante”.
Segundos depois, Liam percebe o celular, que está em cima da carteira ao lado do caderno, vibrar e acender a luz da tela. Ele o apanha e lê o que há escrito. Seus olhos voltam-se um momento para Theo. O loiro, na realidade, está bastante surpreso, já que há quase um mês o moreno parecia ter desistido de tentar recuperar qualquer contato com ele.
O moreno, por sua vez, fica numa aflição tremenda, achando que Liam agiria como das demais ocasiões em que ele tentou lhe enviar mensagens, que apenas se faria de desentendido, ignorando-o severamente. Entretanto, o loiro envia resposta positiva num mero “Ok”, também por mensagem, e é o suficiente para Theo não conseguir ocultar o sorriso de satisfação.
No fim das aulas, Liam surpreende mais uma vez, pois após guardar seu material de estudo na mochila e colocá-la no ombro, ele se levanta e olha abertamente para Theo.
− Nós podemos conversar no caminho de casa. Vamos? – convida, ainda simulando desafetação.
Theo apenas balança a cabeça aprovando a sugestão, ergue-se da cadeira e o segue.
Deste modo, Liam volta a adotar o trajeto de costume, ou seja, a mesma avenida que também conduz à casa de Theo. Como tantas vezes fizeram antes, eles vão caminhando lado a lado. Entretanto, neste momento a tensão está no ar e o silêncio é torturante, este sendo cortado apenas quando já estão bem longe da escola.
− Então? O que você quer falar comigo? – Liam pergunta, parando de caminhar, pois haviam chegado à esquina da rua da sua casa.
Há algum nervosismo e traços de expectativa em sua voz, embora o loiro tente disfarçar.
− É que... – Theo também descontinua os passos e enfia uma das mãos no bolso, enquanto a outra aperta firmemente a alça grossa da mochila, sinal de ansiedade. –... as minhas notas em matemática estão cada vez mais baixas...
− Espera aí! Você me chamou pra falar sobre suas notas de matemática? Esse é o assunto importante? – interpela o outro, erguendo as sobrancelhas e exibindo certo pasmo.
− Bom, é sim... Mas... E sobre o que você achou que fosse? – fica confuso, não entende a reação adversa do loiro.
− Deixa pra lá, esquece. – respira fundo e retoma a clássica postura indiferente. – Pode continuar.
Mas Theo gasta uns segundos olhando para o loiro, como se quisesse decifrá-lo através de sua máscara de apatia, até reassumir sua fala.
− O fato é que eu preciso não apenas de melhorar as minhas notas em matemática, mas tenho que enfiar essa droga de matéria na cabeça de uma vez por todas pra eu conseguir ser aprovado e me dar bem na área profissional que eu escolhi.
− E? – O loiro o incentiva a prosseguir, ainda impondo cara de tédio.
− Liam, você sempre me salvou com os trabalhos e eu sei que você domina essa disciplina de modo incrível. Então, eu pensei em te pedir ajuda, sabe, com umas aulas particulares. É claro que não estou falando de simples ajuda, você pode estipular o preço que quiser e eu pago na boa. E aí, o que você me diz?
Theo força-se a olhar para o loiro, buscando demonstrar controle de si e tranquilidade, ao passo que aguarda uma resposta. Contudo, Liam permanece quieto por quase um minuto, analisando a proposta que lhe foi feita. Após isso, ele se rende, suspira, põe as íris esverdeadas sobre Theo e resolve tratar a questão como simples negócio.
− Ok, eu topo. – Sua voz adquire tom de seriedade. − Posso te dar as aulas que você me pede, no prazo de duas semanas, três no máximo, uma hora todos os dias, menos sábados e domingos, começando às quinze horas e terminando às dezesseis. Vou passar tarefas básicas, corrigi-las e te dar as dicas que eu puder. Acredito que seja o suficiente pra você depois continuar os seus estudos por conta própria. E é bom que tenha entendido o que eu disse porque eu não vou repetir.
− Claro, tudo bem, eu acho que entendi sim. Puxa! Liam, eu sabia que podia contar com você. – Theo sorri, sem se importar em mostrar o quão aliviado está. − Mas quando a gente pode começar?
− Por mim, não há problema em começarmos na próxima segunda-feira. – ele fala lembrando que hoje é sexta-feira, início do fim de semana. − Isso é tudo por enquanto, acho que estamos acertados. Então, até logo. Tchau!
Liam sente-se afetado pela demonstração de alegria do moreno, porém, disfarça, ao passo que afugenta seus olhos dos dele e acomoda melhor a mochila no ombro a fim de reiniciar sua marcha adentrando pela rua estreita, repleta de casas por ambos os lados.
− Você não disse quanto vai cobrar pelas aulas! – fala alto, pois começa a vê-lo afastar-se.
− Posso estipular o preço que eu quiser e você me pagará na boa, lembra? – Ele recorda a fala do outro em tom igualmente altivo, sem deixar de caminhar, sorrindo de lado e dando por encerrada a conversa.
Ao reconhecer que Liam está sendo irônico, Theo fica mais exultante, pois sabe que isso é um indício de que o loiro ainda o vê como amigo, apesar de estar tratando-o com desprezo nesses dias.
Ele acredita que, embora a revelação da sua homossexualidade resulte em uma mudança inevitável no convívio deles, não há por que achar isso tão ruim, afinal, essa alteração é algo previsível, bem como é esperado que ela não chegue a prejudicar seriamente nem a causar um real conflito entre eles.
Portanto, depois de refletir mais um pouco, de ver o loiro abrir o portão e entrar no oitavo domicílio à direita, o moreno também decide voltar a caminhar e ir para sua casa, que fica apenas a três ruas de distância dali.
✻∞✻
O fim de semana decorre sem transtornos e logo dá lugar a uma ensolarada segunda-feira. Pela manhã, na escola, Theo não demora em perceber que o comportamento de Liam está positiva e sutilmente alterado. Ele já o cumprimenta e se mostra mais aberto ao diálogo.
De fato, o próprio loiro, durante o intervalo, ao observar o moreno num dos assentos da arquibancada da quadra esportiva, não vê problema em lhe fazer companhia, por isso decide aproximar-se, mas antes de fazê-lo, algo o trava em sua ação. Outra vez é André que toma a sua frente e aparece para sentar-se ao lado de Theo. Portanto, novamente o loiro se encontra experimentando um sentimento intruso e embaraçoso, sobretudo por observar que Theo e André parecem bastante descontraídos na presença um do outro, como se já fossem muito achegados. E, mais uma vez, ele se recusa a refletir sobre isso. Somente desiste de ir ter com o moreno e troca o caminho.
Horas depois, quando retine o sinal de saída, ele simplesmente organiza seu material o mais rápido possível para ir embora.
− Ei, Liam. Eu também já estou indo. – Theo chama-o e insinua um pedido para que o loiro o espere.
− Eu tô com pressa, Theo. – põe a mochila nas costas, mostra impaciência.
− Está bem. Nos vemos mais tarde, então? – para de arrumar suas coisas e o olha receosamente.
− Sim, como o combinado. – dizendo isto, o loiro apressa-se rumo à porta, deixando a sala.
✻∞✻
À tarde, no horário acertado, Liam, trajando-se sem a formalidade exigida na escola, apenas tênis, bermuda e camisa polo vermelha e branca, bate à porta de Theo, que o atende com o máximo de simpatia e educação, igualmente vestido de modo jovial, com sandálias simples, shorts jeans e blusa regata de cor branca.
Ele o faz entrar e fica olhando-o e buscando disfarçar a tensão, o nervosismo, que na verdade também domina o loiro, embora ele tente aparentar a habitual impassibilidade, até porque não é sua primeira vez ali, ao contrário, já esteve nesta residência algumas vezes, inclusive para pernoitar. A questão é que antes eles estavam na condição de simples amigos, não havia o clima estranho que agora os perturba por conta da confissão de Theo.
− Onde iremos estudar? – Liam pergunta, olhando para os lados da casa e constatando o que já supunha, estão a sós.
− Bom, eu penso que é melhor ficarmos no meu quarto. Estamos no verão, o calor irá nos atrapalhar. Nas salas não tem ar-condicionado, nos quartos sim. Mas podemos ficar onde você achar melhor, o que sugere? – pergunta, querendo que Liam sinta-se à vontade para escolher o que lhe for mais conveniente.
− Então vamos pro seu quarto mesmo. – Por fim, anuncia dando de ombros, como se não fosse nada de importante, mas sem fixar os olhos em Theo.
Eles seguem pelos recintos até adentrar pelo quarto, um local razoavelmente amplo e arejado, contendo poucos móveis, porém, não tão organizado, como qualquer quarto de um jovem comum.
− Eu coloquei outra cadeira aqui pra você. – Theo fala apontando para o segundo assento posto em frente à escrivaninha amadeirada.
− Hum... tá bem. – senta-se. – Eu trouxe uns exercícios que quero que você tente resolver para eu ter uma melhor noção do grau da sua dificuldade.
Liam não perde tempo em se mostrar empenhado, voltado totalmente à tarefa de ministrar a aula particular de matemática. Retira da pasta que traz consigo uns papéis e os entrega ao moreno, que também se vê incentivado a concentrar-se unicamente na atividade proposta.
Assim, embora paire no ar uma inconveniente atmosfera de constrangimento e confusão emocional mesclada a uma sensação esquisita de vergonha, como se não fossem os amigos que estudassem juntos e se conhecessem há anos, a primeira aula acontece. E ela se inicia e termina sem que nenhum dos dois fale mais que o básico relativo ao ensino de matemática.
✻∞✻
Quatro dias se passam e o quinto, outra sexta-feira, surge prognosticando que este seria um dia tão repleto de novas possibilidades quanto os anteriores. Um bizarro e mudo acordo é estabelecido entre Theo e Liam. Durante as aulas particulares, eles se comportam de um jeito, mas na escola o relacionamento é completamente diferente.
De fato, a convivência deles ao longo das lições exclusivas de matemática vai gradativamente adquirindo ares de retorno à boa amizade, pois já conversam de modo descontraído, espontâneo, apesar de evitarem tocar no assunto espinhoso, ou seja, sobre a homossexualidade do moreno. Na escola, porém, o código é outro. O diálogo deles fica praticamente restrito ao espaço da sala de aula, pois nos intervalos e nas saídas, Liam inventa qualquer desculpa para manter-se afastado de Theo, que não contesta, mas também não compreende esta dúbia circunstância. Na verdade, eles terminam por instalarem-se em círculos de amizades específicos e que tempos atrás nunca teriam imaginado que neles estariam. Theo fica cada vez mais próximo de André e já se permite também conviver amigavelmente com Murilo e Otávio, resolvendo por fim ignorar o que possam comentar a respeito de tal coexistência.
Liam, no entanto, passa a nutrir uma regular conversação com o Tiago, que não mais anda na companhia desagradável de César. Os dois haviam rompido a amizade porque o outro loiro começou o namoro com a Bianca, uma menina da sua turma, que lhe abriu os olhos fazendo-o ver o quão prejudicial era a parceria dele com o garoto fofoqueiro e encrenqueiro. Em razão disso, Liam, que anteriormente tinha dúvidas sobre o caráter de Tiago, vê, neste momento, surgir um bom rapaz que estava somente se deixando levar pela influência negativa de César.
Assim, a aproximação entre os loiros ocorre naturalmente. Por conseguinte, Tiago e Bianca tornam-se seus amigos e o apresentam também à Melissa, colega de classe deles, que se une ao grupo e logo a seguir insinua-se para Liam, deixando evidente que deseja ser mais que amiga do jovem branquinho e de belos olhos verdes. Contudo, o loiro, como estratégia de defesa ao assédio velado, mas constante, finge-se de desentendido.
✻∞✻
Na tarde desta sexta-feira, Liam e Theo dão continuidade às aulas particulares de matemática.
Pouco mais de meia hora depois, Theo esfrega os olhos com as costas das mãos, boceja e estica toda a musculatura definida, espreguiçando-se com gosto. Em seguida, põe o lápis sobre o caderno aberto, repleto de rascunhos, cálculos e anotações diversas, levanta-se da cadeira e, impaciente, solta um tipo de brado queixoso.
− Putz! Que saco! Isso cansa, viu. – declara afoitamente. – Quer saber? Vou buscar um lanche, você quer também, não é?
− Não, não quero e você não está com fome de verdade, tá enrolando a aula de novo. – Liam movimenta o assento giratório e fica de frente para o moreno, repreendendo-o com o olhar firme. – Você para pra beber água, pra ir ao banheiro, porque diz que está cansado ou por qualquer motivo tolo, mas a verdade é que você só tá enrolando!
− Não exagera, Liam. Poxa! Você é mesmo um filho da mãe nerd, CDF! Hoje é sexta-feira! Dá um desconto. – bufa e, rendido, volta a se sentar. – Eu não enrolo desse jeito não. Eu já melhorei bastante, consigo memorizar algumas fórmulas e não tô mais errando tanto como antes, tudo porque tenho me esforçado de verdade. Por causa dessa droga de matemática eu nem tenho mais vida social, sabia?
− Nossa! E você ainda me chama de exagerado. O que posso dizer? Bem-vindo ao clube, babaca! − Não consegue prender o riso e Theo acaba rindo junto, sobretudo porque há tempos não escutava o riso sincero de Liam e isso o alegra muito.
− Eu me recuso a virar um nerd como você! Juro que se não tiver um pouco de diversão neste fim de semana eu me mato. – anuncia em tom ainda descontraído.
− Bom, mas acho que não irá precisar chegar a tal ponto. Tá lembrando que a festa de aniversário do Gabriel é amanhã à noite? – pergunta naturalmente, mas, ao ver o riso de Theo sumir, ele também muda a expressão e fica sério.
Gabriel é um rapaz bastante popular no colégio e que costuma promover festas grandiosas, mas privativas. Há bem pouco tempo, Theo, que possuía as mesmas qualificações, sempre esteve presente em todo o evento festivo promovido por ele. Entretanto, depois que César disseminou o falatório maldoso que fez com que o moreno modificasse sua postura, tornando-o mais reservado, sua ausência de notoriedade trouxe-lhe o preço.
− Eu não fui convidado. – diz, com ar de desdenho. – Você foi?
− Na verdade, eu fui convidado por tabela. O Gabriel deu o convite para o Tiago, com direito a levar até quatro pessoas. Ele vai com a Bianca e me chamou pra eu acompanhar a Melissa.
À mente de Theo ressurge a imagem da garota de cabelos compridos praticamente se jogando nos braços de Liam enquanto caminham pelo pátio da escola.
− Hum... Você tá com sorte, Liam, ela é bonita. – fala, evitando demonstrar qualquer emoção.
− Eu poderia dizer o mesmo a você porque o André também é. – A voz do loiro é absurdamente calma.
− O quê? – Theo fica imediatamente estupefato. – Olha, eu e o André somos amigos... Mas, caramba! Eu não acredito que você está abordando esse assunto com essa naturalidade toda depois do que fez. Aliás, eu vou aproveitar a ocasião pra pedir que você explique por que me virou as costas, saiu correndo, me deixou com cara de idiota quando eu confessei que era gay, me ignorou por vários dias e agora fala disso como se não fosse nada de mais.
Como Theo foi-se enervando a cada palavra dita, o loiro sentiu-se igualmente agitado.
− Como eu deveria agir, hein? Eu fiquei confuso. De repente, o meu melhor amigo explode e me fala que é gay e eu percebo que nem sei quem ele é na realidade. Eu acho que não te conheço como achei que conhecia, Theo, e pra mim isso tem sido complicado. Mas eu tô tentando encarar naturalmente, embora ainda seja difícil de engolir.
− O problema é esse, é você achar que não me conhece? – apruma-se na cadeira, depois estreita os olhos, fixando-os sobre Liam. – Então façamos o seguinte: pergunte o que quiser saber sobre mim e eu te respondo.
− Isso é sério? E eu posso perguntar qualquer coisa mesmo? – desafia-o, com algum sarcasmo na voz.
− Eu já disse, pergunte o que quiser.
− Ok. – Liam acomoda a coluna no encosto do assento e volta a lhe olhar. – Quantos garotos você já namorou?
− Nunca namorei, apenas fiquei com alguns.
− Ficou tipo só beijar ou... mais que isso? – começa a aprofundar o interrogatório, mesmo se sentindo envergonhado.
− Se está falando de sexo, a resposta é sim. – Theo busca expressar-se de forma mais direta e firme possível, apesar de seu coração estar terrivelmente acelerado.
− Já esteve com algum menino da escola?
Neste momento, a tensão domina o ambiente e os olhares fogem.
− Sim, mas apenas com um aluno de lá.
− Quem é esse aluno? Por acaso eu o conheço?
− Você se lembra do Eduardo? – pronuncia o nome com evidente desprezo.
− O Eduardo? Aquele menino que você agrediu e que pediu mudança para o turno da tarde?
A ansiedade cresce e Liam já não consegue manter a clássica postura impassível.
− Esse mesmo. – Theo confirma, sentindo-se desconfortável por estar suscitando esse assunto maçante.
− Eu lembro também que você não quis me falar o que aconteceu, disse apenas que era um acerto de contas, uma questão sua. – Liam percebe os sinais de incômodo do moreno, mas opta por desconsiderá-los e insistir em saber mais. – Por que você ficou tão bravo a ponto de quebrar o nariz daquele garoto? O que houve de verdade entre vocês?
− Essa é a questão, não houve nada de verdade entre mim e ele. –suspira, aborrecido. – Nós nos encontramos casualmente em uma noite que eu estava num clube noturno com dois amigos da academia. Ele se aproximou, conversamos um pouco, rolou um clima, ficamos e ponto. Eu deixei bem claro que não tinha interesse em nada além daquilo e achei que ele tivesse entendido. No dia seguinte, na escola, ele veio me procurar, insistiu num papo idiota, ameaçou contar pra todos o que havia acontecido na noite passada, eu perdi a paciência de vez... e fiz o que fiz.
A esta altura do diálogo, Liam parece completamente atônito. Ele se levanta, respira fundo e tenta conciliar as ideias.
− Ok, eu acho que já chega, Theo, essa conversa tá indo longe demais. – afirma, em tom grave, ao passo que se ocupa em organizar os papéis da sua pasta, dando a entender que está encerrando a aula de hoje e o assunto indiscreto.
Theo ergue-se da cadeira e se põe ao lado dele.
− Você queria saber, por isso fez as perguntas, eu só fui sincero e respondi. Então agora eu te pergunto: quem está fazendo essa conversa ir longe demais sou eu ou é você?
− Você tem razão, eu fiquei curioso, te fiz falar e acabei ouvindo até o que não deveria. – O nervosismo cresce no loiro e ele deixa cair a pasta, que se abre e espalha as folhas pelo piso de cerâmica. – Droga!
− Como assim você ficou curioso? − Theo segura-o pelo braço e detém seus movimentos, exigindo-lhe atenção.
− Ficando, oras! A curiosidade é um traço comum a todos os seres humanos normais. − puxa soltando o braço que Theo prendia e começa a recolher os papéis, repondo-os na pasta. Em seguida, verifica a hora no celular. − Olha, o meu tempo aqui já venceu há quase vinte minutos.
Theo permanece olhando para o loiro, com uma expressão muito reflexiva.
− Liam, já que eu me dispus a me abrir e ser honesto, a única coisa que eu peço em troca é que você me responda uma simples pergunta. – Por fim, decide falar novamente.
− Que pergunta? – indaga, sentindo o corpo tremer por conta do nervosismo.
− Você é hétero mesmo?
− Que pergunta é essa? É claro que eu sou. – Liam replica, sem conseguir pôr os olhos no moreno.
Theo, assim, apenas respira fundo e não insiste mais.
E o loiro vai embora outra vez, deixando em Theo o inevitável sentimento de frustração e impotência.
✻∞✻
No dia seguinte, sábado à noite, o moreno liga para André, decidido a ir para a festa do Gabriel de qualquer jeito. Ele tenciona, inclusive, levar consigo também o Murilo e o Otávio, pois já os vê como bons amigos e ótimas companhias.
− Theo, como é que nós vamos pra essa festa se nem fomos convidados?— O rapaz do outro lado do aparelho telefônico argumenta.
− André, cara, vai por mim, isso é só detalhe bobo. Acha que nós seremos os únicos penetras lá? Eu te garanto que não, já estive em muitas festas parecidas. Entrar na casa vai ser moleza e ninguém vai nos incomodar. – há confiança na voz do moreno.
− Hum! Bom, se você garante tudo bem. Mas agora teremos que convencer o Murilo e o Otávio de que não haverá realmente nada para nos preocuparmos, sabe como eles são medrosos.
E assim é feito, André liga para Otávio e Theo, para Murilo. Ambos convencem os namorados a também participarem da festa para a qual não receberam convites, mas que promete momentos de muita diversão, música boa e bebidas grátis.
Por mera conveniência, entendem que seria melhor irem em carros separados, já que as residências de Murilo, Otávio e André encontram-se em sítios muito distantes da região em que Theo habita e o moreno prefere não correr o risco de tornar-se o passageiro inoportuno quando chegasse a hora de voltar.
Todos se encontrariam na casa de André e de lá partiriam para a festa, pois somente Theo conhece o local onde se dará o evento.
Interessante é que o moreno, ao contrário de Murilo, não atingiu ainda a idade mínima para ter acesso à carteira de motorista, porém, ele dirige desde os dezesseis anos, quando consegue persuadir o pai a deixá-lo. Assim, não teria grandes dificuldades em seguir com o plano pré-estabelecido.
✻∞✻
Deste modo, na hora marcada, Theo passa na casa de André, que já está à sua espera juntamente com Otávio e Murilo. Os namorados vão juntos num carro, Theo e André, em outro, guiando na frente para nortear o caminho que deveriam seguir.
Minutos depois, chegam à frente de uma enorme e muito luxuosa habitação, repleta de carros por todos os lados da vizinhança. Há dois homens que atuam como seguranças e assim que Theo os observa, fica contente por perceber que são uns conhecidos seus, pois os viu em ocasiões anteriores.
Como o esperado, eles não encontram empecilho para adentrar pelos portões da residência, basta o moreno conversar um pouco com os homens, dar-lhes umas notas em dinheiro e estes os recepcionarem como se fossem meros convidados, tal como os que ali estão.
No interior da casa em si, o ambiente está adaptado para ficar semelhante a uma boate. A iluminação normal foi substituída por jogos de luzes multicoloridas que tremulam e piscam ao ritmo da música eletrônica. As bebidas e os aperitivos diversos estão liberados, sendo servidos a todo o momento. Como a festa havia começado há quase duas horas, já é possível ver alguns alterados pela bebida alcoólica, dançando freneticamente ou falando alto, e casais se agarrando pelos espaços que lhes convém. Enfim, há jovens por onde se olhe, o que é perfeito para Theo, André, Murilo e Otávio, que logo percebem que de fato podem mesclar-se aos demais e aproveitar a festa sem receio algum.
Os namorados rápido entram no clima festivo, André também, mas Theo apenas disfarça porque na verdade não está tão descontraído como se supõe que deveria. Afinal, o moreno caprichou no visual escolhido, está muito bonito vestindo uma camisa preta, com detalhes cinza na gola e nas mangas meio longas, uma calça jeans escura e sapatênis marrons.
− Tá procurando alguém, Theo? – André pergunta, ao vê-lo lançar os olhos ao redor.
− O garçom, é claro. – fala, dando um sorriso forçado e erguendo a taça de vidro. – A minha bebida acabou e, pelo que vejo, a sua também. Eu vou buscar mais.
Dito isto, ele caminha atravessando algumas pessoas até topar com um dos rapazes que andam pra lá e pra cá com as bandejas contendo os drinks variados. Pega um copo para si e outro para André, mas quando o garçom passa, ele o vê. Liam também se surpreende muito ao notar o moreno.
− Theo? O que você está fazendo aqui? – inquire, aproximando-se.
− Não é óbvio? O mesmo que você. – Theo brinca com as palavras, enquanto analisa o loiro de cima a baixo.
Liam está muito elegante, trajando uma blusa verde-musgo, cheia de botões e detalhes nas costuras, um jeans claro e tênis estilosos, um composto harmônico que enfatiza sua pele alva e seus olhos esverdeados.
− Mas você me disse que não foi convidado. – Também não disfarça o olhar analítico sobre Theo.
− E daí? Olhe ao redor, quem se importa? – solta um belo sorriso, mas este murcha assim que a Melissa aparece do nada e se põe ao lado do loiro.
Em seguida, é a vez de Liam ter o humor afetado quando André, que já se encontra alegrinho por conta dos drinks seguidos, vem por trás do moreno e lhe passa um braço pelos ombros, com a maior naturalidade do mundo.
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