Sem um porquê
8 S²⁻
Notas iniciais
Kaoru havia concordado em ajeitar meu cabelo por sair com ela no próximo sábado. Não havia nenhum problema exceto que foi bem estranho Miiko não ter reclamado. Só falou que a cor do meu cabelo tinha ficado bonita e que deveria ir, porque ela já estava pensando em ir visitar uma das irmãs que ela gostava.
– Eu estava pensando em te levar junto, mas tudo bem. Tem certeza que isso não é incesto? – completou naquela hora. Estávamos indo para a escola segunda de manhã, no dia seguinte ao campo de treinamento do exército, mais cedo que da outra vez. Nada de diretoria desta vez.
– Miiko, ela tem um namorado. E também não acredito que faria isso. – revirei os olhos.
– Nunca se sabe...
– Miiko!
– Qual é, eu te falei dos mangás de lésbicas que tão no quarto dela. – Miiko subiu as escadas de dois em dois degraus. Alunos enrolando para voltar para suas salas passavam pelo corredor lentamente, meio que se arrastando como lesmas. Jogue sal neles e os veja voltar correndo para a aula. – E acho que a gente chegou cedo demais... Não subiram ainda.
Bem, alguns perdidos estavam dormindo com os rostos apoiados em estojos zoados pelos colegas e com duas canetas e um cotoco de lápis dentro. Haviam rabiscado o quadro, desfigurando as datas das provas e adicionando alguns “Fulana é uma puta” ou “Sicrana é uma vadia”. Crianças de um segundo ano de Ensino Médio ainda faziam isso na minha turma. Acontece. Tão normal quanto acreditar que feminismo não é necessário. Eu acho. As outras turmas pareciam tão... Civilizadas. Isso desconsiderando que o significado de “civilização” é algo que diz respeito a tipo, um grupo de pessoas organizadas e que não importa como essa organização é.
Sentei-me no meu lugar enquanto Miiko largava sua mochila do lado da sua mesa e se largava também de qualquer jeito na cadeira.
– Sabia que não deveria ter te deixado trocar o horário do despertador. – resmungou. – Perdi dez minutos de sono em uma cama humana confortável.
– Você sabe que uma cama de pregos não é tão ruim também, né? Já teve uma nessas feiras que tem colégio em anos aleatórios...
Miiko grunhiu e acabei rindo. As pessoas foram chegando gradativa e lentamente, cansadas e cheirando a excesso de perfume. Principalmente as garotas que chegavam ainda escovando e prendendo cabelos. Uma das últimas garotas que entrou estava alisando a camiseta e quando levantou o rosto vi que tinha um piercing no lábio tipo o meu. A única diferença é que não era vertical, era na horizontal e, apesar de ser meio estranho à primeira vista, era bem bonito. Só que acho que não dava pra brincar com ele, então não devia ser muito prático. Miiko levantou as sobrancelhas e o professor logo chegou e bateu a porta atrás de si, mandando todos se sentarem.
///
Na quarta-feira almoçamos perto da escola e só voltamos para casa depois das cinco. Eu havia feito Miiko concordar que deveríamos estudar, porque ela não entendia nada do conteúdo de Química e não pensava em tentar entender. Só que em casa ela não faria nada além de mimar Kim e vegetar e não faria nada que não trouxesse benefícios para ela. Então eu dei a ideia de que usássemos o laboratório da escola para estudar e eles milagrosamente deixaram. Bem, na lógica dela ficar em um lugar público comigo era algo benéfico, tipo, esfregar na cara dos outros provavelmente um “ELA É MINHA, TOMEM”. Porém ficamos sozinhas.
– Sabe, eu não sei pra que estudar se eu não penso em fazer faculdade alguma. – Miiko comentou, colocando a chave na porta da sala cheia de vidrarias e produtos químicos.
– Precisa passar de ano se quiser continuar estudando comigo. Não seria muito legal não ter ninguém pra conversar sobre o quão idiota é a nossa turma. – passei por ela quando a porta foi aberta e coloquei minha mochila sobre o primeiro balcão que vi. O laboratório não era pequeno. Tinha pelo menos dois armários com produtos e mais um para os vidros e ferramentas como pipetas, condensadores, béqueres e essas coisas. Balcões com uma pia cada um para pelo menos quarenta alunos sentarem e apenas o professor ficar de pé.
– Eu só preciso passar pela recuperação no final do ano.
– Isso seria passar menos tempo comigo. Miiko, desiste, sua linha de pensamento não vai muito longe desse jeito. Agora, Química. – gesticulei para que ela se sentasse na minha frente.
– Estava pensando em cortar meu cabelo e pegar uma das tintas da sua irmã... Acha que uma mecha roxa ficaria legal? – Miiko perguntou, pegando uma mecha do cabelo e fazendo uma trancinha.
– Miiko. Foco. Não é a química do cabelo.
– Tá, tá. Eu preferia estar pipetando ácido... Me diz um aí. Um forte.
– Sulfúrico?
– Preferia estar pipetando ácido sulfúrico continuamente e por muito tempo com a boca a ter que continuar estudando isso.
– Acho que nenhuma neutralização iria te ajudar se você desistisse no meio do caminh- Isso nem é conteúdo desse ano!
– Então um ácido fraco? Aquele H₂S...
– Sulfídrico?
– Isso! – Miiko fez um coração com as mãos. – S dois.
– Menos. Ânions não são positivos, você sabe.
– Pessimista!
– É o que acontece já que o hidrogênio é positivo e a senhorita deveria saber disso.
Miiko grunhiu, como se doesse, e enterrou a cara na mochila. Sorri.
– Eu te pago uma pizza sexta à noite, pode ser? De bacon. – logo que falei, a garota levantou o rosto. – E aí você vai poder ir feliz ver a sua irmã.
– Só ir, porque né...
– Agora, química!
///
Quinta-feira Miiko pegou uma boa parte da prova de química do garoto que sentava do lado dela. Diz ela que não tinha certeza das respostas que tinha colocado, então pensou em tirar as dúvidas olhando a prova do coleguinha do lado. Bem, eu não gosto muito disso, mas ninguém viu (e se viu não falou nada) então tanto faz. E então na sexta avisamos logo cedo a mamãe que queríamos pizza para a janta e ela ficou meio que feliz demais. Disse que não queria mesmo cozinhar algo para a janta, por isso quando falamos que ela não precisaria o fazer, ficou toda feliz e também disse que ela e o papai iriam comer num restaurante, sobrando assim, só as três adolescentes em casa. Achei que Kaoru fosse sair com o namorado, mas não nos largou sozinhas com a pizza.
– Vocês brigaram ou o que? – Miiko perguntou à minha irmã, pegando um dos pedaços da pizza com a mão. – Vocês tão sempre meio grudadinhos e melosos. – Eu estava esperando que ela tocasse no assunto do incesto, mas felizmente ela não comentou sobre isso.
Kaoru a encarou.
– Você deveria me agradecer ao invés de se intrometer na minha vida pessoal, eu quem paguei essa massa pra você. – ela cortava um dos pedaços ao meio. Tinha prendido os cabelos não mais desbotados em uma trança (muito bem feita pra quem ficaria em casa numa sexta à noite, por sinal) e vestia o que deveria ser seu pijama favorito. Era branco e de alças, com uma estampa de flores. Miiko também estava com seu pijama favorito: uma blusa velha laranja minha que ficava enorme nela e a bermuda realmente de pijama estampada com quebra-nozes.
– Não deixar sobras já não é o suficiente pra você? – perguntou. Kaoru revirou os olhos.
Depois de comer, Kaoru me disse que deveríamos ver um filme e eu fiquei tipo “por que não?”, então passamos para a sala. Minha maninha estava quase deitando no mesmo sofá que eu, só que uma Miiko pulou por cima do braço do sofá e quase me fez vomitar todo a pizza. Se ajeitou ao meu lado e mostrou a língua para Kaoru.
– Quantos anos você tem mesmo? – minha irmã perguntou.
– Quinze e não se meta na minha vida pessoal. – Miiko respondeu, mas tudo o que eu ouvi estava mais para “sai daqui e me deixa pegar minha namorada em paz”. Kaoru estava quase sentando no outro sofá quando seu celular tocou. Diz ela que era mamãe avisando que ela e o papai dormiriam na casa da vovó porque ela não estava se sentindo muito bem.
– Cuide bem das suas irmãzinhas, vai ser divertido pra vocês! – Kaoru desdenhou. Levantou Kim e foi emburrada em direção às escadas. Pisando pesado, continuou: – Divirtam-se.
Miiko deitou em cima de mim, com a cara nos meus peitos.
– Com prazer. – falou, sorrindo pra mim. Tenho certeza de que corei pra caralho e agradeci muito quando vi que Kaoru já tinha subido. Miiko se esticou e beijou meu pescoço. – Mas não sei, não é melhor a gente dormir mesmo? – Subiu para a minha boca.
– Hm... Aha- É! – consegui falar depois de um tempinho. Miiko ainda estava em cima de mim, então estava meio difícil de encontrar algum resto de concentração. Mas realmente dormimos depois disso.
Como dormimos no sofá, fomos acordadas meio cedo pelo papai. Quer dizer, eu acordei ainda no sofá, Miiko estava no tapete no meio de almofadas e com Kim nas costas. Então Kaoru já estava de pé.
– Tira ele daqui... – Miiko resmungou em meio aos cabelos brancos. Levantei e levei a nossa bolinha de pelos pro cantinho dela e Miiko sentou, esfregando os olhos.
– Bom dia! – papai falou todo animado. Olhou para mim e disse: – Sua vó está melhor, filha! E nem foi parar no hospital!
– EU OUVI, SENHOR ARTHUR! – mamãe gritou da cozinha. Papai fez uma cara de “opa” e foi para a cozinha, nos mandando arrumar a sala.
Miiko jogou as almofadas no sofá menor e foi olhar o relógio.
– São tipo, oito e meia... – disse. Virou meio emburrada e subiu as escadas. Depois de uns minutos ela bateu a porta do banheiro.
Subi para o quarto e deitei na minha cama. Não havíamos dormido tão tarde, mas eu ainda estava com sono. Se não tivéssemos dormido até faria sentido, mas tínhamos. Não havíamos feito nada. Quando estava quase pegando no sono novamente Miiko entrou no quarto.
– Queria dormir também... – comentou. Sentei, me espreguiçando. Ela procurava e jogava coisas dentro de uma bolsa. Estava com um shorts jeans de cintura alta clarinho e um top cropped preto soltinho com uma escrita em branco dizendo “i don’t care”. Não aparecia muita pele, mesmo que ele fosse meio curto demais. Rosto limpo e cabelo branco devidamente ajeitado. Meias cinza acima dos joelhos e tênis surrado.
– Sério que já vai sair?
– Quero ver se consigo derrubar aquela criança da cama. Tu sabe né, crianças geralmente madrugam pra ver desenhos e essas coisas.
– Vai ficar com qual delas?
– Sabe aquela menina da coruja de pelúcia que me chamou de Mii? Então, a Mary. Ela é bem legal pra uma criança de dez anos.
– Bem legal pra uma criança de dez anos. Achei que ela tivesse nove.
– Ela realmente tinha quando a gente foi lá. O aniversário dela foi ontem, só que ela disse que ia passar o dia com a mãe dela por aí e me convidou pra ir hoje conversar com ela. – Miiko se inclinou e beijou minha bochecha. – A gente se vê de noite, eu acho.
– Vai dormir lá?
– Não sei, talvez eu me meta na festinha do pijama dela. – sorriu. Depois que ela saiu do quarto, ouvi-a dando tchau para meus pais e a porta fechando sozinha.
De tarde, antes de sairmos, Kaoru me fez trocar de roupa e vestir um vestido, que era de um tecido alaranjado bem leve. Ela vestia uma calça jeans e uma blusa azul de cetim.
– Como eu pensava, você fica bem mais bonita de vestido! – Kaoru comentou, enquanto passeávamos pelo shopping. Já tínhamos comprados sucos e doces, também ido na parte dos jogos. – Já percebeu quanta gente tá olhando pra você?
– Meu cabelo é azul, Kaoru. O seu é lilás. Acha que eles não iam olhar? – encolhi. Mesmo que gostasse de ter cabelo colorido e tal, não gostava muito de ter gente encarando. Às vezes eram olhares ignoráveis, mas quando as pessoas começavam a comentar na sua frente era desconfortável.
– Tá, tá. O que eu quero mesmo saber é: por que vocês não contaram ainda pro papai que tão juntas? Pra mãe não porque eu acho que ela já percebeu.
– Não contaram...? – demorei um pouco para me dar conta de que ela falava de mim e de Miiko e, quando entendi, vi que Kaoru sorria. – Ah... Não sei.
– Não gosto de vocês juntas, mas o pai também não vai te matar, sabia?
– Eu sei...
Aí Kaoru me abraçou e logo que me largou disse, já mudando de assunto:
– Eu quero sorvete! Quer também? A gente pode dar uma passada no cinema também se você quiser. Mas não escolha um romance, por favor.
Assenti rindo com ela. Tinha esquecido como era divertido sair com a minha irmã. Ela faria qualquer coisa que eu quisesse e me levaria pra todo lugar que desse. Além de fazer tudo isso sorrindo e fazendo comentários engraçados. Se Miiko estivesse ali, tenho certeza de que estaria falando “ISSO É INCESTO, VOCÊS VÃO SE PEGAR E EU NÃO QUERO FICAR DE VELA”. Então, se sair com a sua irmã e ser próxima dela significasse incesto, Kaoru e eu já estaríamos casadas há muito tempo.
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