Sem um porquê
9 Casos de Família
Notas iniciais
Miiko não voltou para casa no sábado. Nem apareceu domingo de manhã.
– Então ela ficou com a irmã? – perguntou mamãe enquanto lavava a louça do café. Davam nove horas no relógio da parede e Kaoru também já estava de pé, guardando o resto das coisas na geladeira, armário e gavetas. Papai já estava na sala com o Kim, vegetando. Eu estava na cozinha com as outras duas da família.
Tinha “dormido” tarde por ter ficado lendo no meu celular, mesmo estando cansada. Até dei uma olhada nas partituras do piano pra segunda. Organizei meus livros e ainda ajeitei a bagunça da Miiko. Andei o dia inteiro pelo shopping com a minha irmã e ainda estava elétrica. Parecia uma criança em véspera de viagem ou de voltas as aulas, que não consegue dormir e, quando dorme, acorda de quinze em quinze minutos.
– Suas olheiras estão meio feias hoje, sabia? – Kaoru sussurrou em meu ouvido antes de passar para a sala roubar o Kim do papai. Suspirei. Mas é claro que sabia. A primeira coisa que pensei ao me olhar no espelho do banheiro foi “sua cara tá uma merda, é”. Só que nem ferrando passaria maquiagem num domingo de manhã. Mamãe nem tinha perguntado nada também, então tudo bem desde que não virasse o assunto.
Era só mais algo para pensar no quão entediante seria o dia.
/// (Miiko)
Acordar babando no pé de uma criança e com o corpo em cima ou embaixo de mais crianças não é uma boa experiência, acreditem. Ainda mais se forem garotas de dez, onze, nove anos que você não pode nem pensar em fazer alguma coisa com elas de tão puras que parecem ser (só parecem, é pura ilusão). Até um dos meus irmãos estava nessa suruba inocente, com a Mary grudada nele. Nosso pai tinha ido viajar (até ajoelharia nas pedras do quintal para agradecer se não doesse tanto) e tinha largado toda aquela leva de crianças com a minha irmã mais velha. Formada em direito, o orgulho dele com direito a toda aquela ladainha de pai que criou “corretamente” a criança. Morgiana, nos seus 25/6 anos era amada até pelas putas da minha família. Sim, Morgiana com I e se lê Mor-GUI-ana, embora eu prefira a chamar de Morgiana como se escreve mesmo.
Era meio-dia e meia e as garotinhas iam acordando de pouco em pouco. Algumas ainda com cara de quem não dormiu o suficiente e outras já animadas. Tinha no mínimo sete meninas naquele quarto, fora eu e o garoto (adorei como elas simplesmente ignoraram a presença dele). Pelo menos o espaço era maior que o meu... Os cobertores estavam todos espalhados pelo chão e pacotes de chocolate e copos estavam perdidos por aí também. Elas tinham ficado até tipo, duas horas da manhã jogando algo que deveria ser impuro. Algo mais ou menos como “você nunca fez isso? Não vai comer chocolate enquanto não fizer. Já fez? Chocolate pra você!” com coisas como nunca ter vestido o terno do seu pai, jogado Nyan Cat por pelo menos meia hora, bebido um energético ou colocado um sutiã na cabeça.
Meu nariz ainda doía um pouco. Tínhamos saído em três no sábado e fizemos tanta coisa que se eu pensasse demais nisso acabaria voltando a ficar cansada e dormindo de novo. Mary me fez chutar um daqueles troços de pegar pelúcias até ela conseguir a que queria. Espantamos crianças de um parquinho. Elas abraçaram pessoas aleatórias e um garoto deu em cima de mim (ew). Morgiana também seduziu um garçom e ganhamos bolo de graça.
– Ele vai me ligar, aguardem. – ela riu. O sorriso dela me lembrava o da mãe e os olhos escuros também. A única coisa que lembrava o XY que deu seu X pra ela era o cabelo loiro como o meu. Como essa combinação saiu? Não sei, genética e Miiko não se dão bem.
– Aposto metade da minha mesada que ele te chama pra sair na primeira. – Mary bateu na mesa e apontou para Morgiana.
– Sua mesada não é tipo, cinquenta? – perguntei. Minha franja atrapalhava minha visão e tinha glacê nas pontas do meu cabelo. Aquele desgraçado não me dava mais dinheiro por vontade própria então de vez em quando eu fazia uma visita ao escritório dele e falava para a secretária que ele não tinha me pagado ainda. Ela provavelmente contava para ele, mas acho que não faz muita diferença quando você tem dinheiro enchendo banheiras de motéis e tal.
– É o máximo que o papai dá, sabia? Ele pode até ganhar bastante e gostar de sair e gastar dinheiro por aí, mas disse que eu não preciso de mais do que isso porque só tenho dez anos e que não sou a única que ganha só isso lá em casa.
– Então se prepare pra perder vinte e cinco, minha querida. – Morgiana retrucou, apoiando-se na mesa. Me encarou e já mudou de assunto. — Você disse que sua namorada tem vários piercings, certo? Não quer fazer um também?
Ah sim, a Ruri tinha virado o assunto da nossa conversa de manhã. Sempre aquela gata girafa. Ela tinha dominado a arte de fazer um delineado perfeito e não precisava fazer nada pra que eu pensasse em estuprá-la. Mas eu não faria isso, é claro. Longe de mim, chamar isso de estupro, já que ela poderia querer isso também. Porque aí seria sexo.
– Eu até pensei. – apontei meu septo. – Mas não tava muito pra sentir dor. Morgiana levantou a sobrancelha e falou alguma coisa que eu nem prestei atenção.
– Te dou bacon depois se você colocar hoje. – Mary me pegou pelo braço. Ela ainda tinha o peito liso de criança. Não que o meu não fosse, mas o dela era quase negativo.
– E eu vou te dar leite de qualquer forma. – cutuquei aquele peito. Ela recuou meio assustada.
– Eu não preciso disso! VOCÊ TAMBÉM NÃO TEM! E tem quinze anos. – mostrou a língua pra mim.
– Um dia, — coloquei minha mão em seu ombro – você vai entender que precisa. Porque é bom. E eu não preciso, porque os da Ruri são bem melhores.
E foi depois disso que eu furei meu septo. Morgiana fingiu ser minha responsável e assim conseguimos. Eu não recomendaria se fosse tão normal quanto a sociedade dita. Sábado à noite comi quantas tiras de bacon eu quisesse. Tão salgadas e gordurosas para se comer sem pensar no amanhã. Quem se importa com o meu colesterol? Bem, a Ruri deve. Quem se importa se eu tiver um ataque do coração? Eu não! Deixe que morra! Bacon é a melhor comida que existe e ninguém deveria pensar o contrário. Eu amo bacon e bacon me ama.
Tinha mais três crianças naquela sala comigo, além da Mary, Morgiana e aquele garoto – vocês sabem, o meu maninho. Elas estavam rabiscando as paredes ao invés das folhas que estavam dispostas pelo chão e tudo o que minha irmã mais velha fazia era apontar os erros. Aí uma delas desistiu e decidiu fazer arte com o meu cabelo.
– Olha! – ela levantou uma mecha do meu cabelo branco que tinha cortado da parte de trás. Era a irmã daquela garota que teve que cortar a franja fora por causa do meu chiclete. Foi um desperdício, agora que paro pra pensar. Chiclete está ficando cara vez mais caro. E aquele ainda estava com gosto.
– Cor bonita, né? – peguei a tesoura sem ponta da mão dela. Daí foi assim que eu cortei metade do meu cabelo fora e joguei como confete na cabeça daquela criança. Na verdade eu acho que foi mais da metade. Bem, tanto faz, pelo menos minha franja já não me incomodaria mais mesmo. Ficou bem curta, como o resto das madeixas. Deixei duas mechas compridas na frente. Ficou tudo torto e só percebi o quão merda tinha ficado domingo depois de me trancar no banheiro. Aquelas crianças tinham começado a ficar irritantes.
Sentada naquele chão gelado esperei Morgiana mandar as pestes embora. Ela parecia muito com a mãe, de várias formas. A calma com todas aquelas meninas e a paciência com os irmãos já bastavam pra me fazer querer que ela sumisse pra sempre. A Ruri também me lembrava a mãe, só que pelo menos ficava quieta e não se parecia nem um pouco fisicamente. O bom daquela casa enorme era que não dava para ouvir muita coisa, diferentemente de onde morávamos em quatro antes do desgraçado se livrar da mulher. Alguém socou a porta.
– Mii? – bateu de novo. – Ei. – e de novo. Chutei a porta.
– Porra, não se pode nem mais se masturbar em paz nessa casa?
– Garotas não são nojentas assim. – Mary respondeu.
Levantei e abri a porta.
– Claro que são, elas só não espalham.
– Você tava chorando.
– Eu espero que você saiba correr. – botei o pé para fora do banheiro e ela recuou. Depois desceu correndo as escadas. Quase a vi caindo e talvez quebrando o pescoço, mas seria muita maldade, então pensei só nela desmaiada. E com alguns hematomas, coisa leve. Não estava com muita vontade de ir realmente atrás dela. Decidi voltar logo para a Ruri.
/// (Ruri)
Miiko voltou no meio da tarde daquele domingo diferente de como tinha saído no sábado. Piercing modelo ferradura no septo, com spikes nas pontas e que ainda era furta-cor. O cabelo também tinha mudado. Franja curta como era quando criança. O resto curto e bagunçado com duas mechas restantes na frente. Já a roupa era a mesma, só que mais desengonçada. Cropped ao contrário, meias mal colocadas e nós nos cadarços do tênis. Levantei quando ela apareceu no quarto, mas ela logo ergueu a mão e jogou a bolsa na cama.
– Eu não quero encostar em você assim, espera. – disse, pegando um pijama e indo pro banheiro. Dava pra ver que o cabelo dela fora cortado sem compromisso algum.
Voltou meia hora depois de cara limpa e descalça, sorrindo.
– Então você tomou coragem? – cutuquei o nariz dela. Ela havia se jogado na minha cama, ao meu lado. A camisa tinha subido e dava para ver a barriga clara e marcada dela.
– Doeu. Como você consegue? – sentou de frente pra mim.
– Agora você precisa cuidar disso direitinho por pelo menos uns quatro meses... Que foi? – Miiko tinha chegado mais perto e me encarava.
– Last night, damn, you were in my sex dreams, Ruri? – perguntou. Aqueles olhos verdes cintilantes me encaravam de perto. Dei um pulo quando ela colocou as mãos nos meus peitos. – Eu sei que é difícil dormir sem pensar em mim, mas você deveria tentar.
– Não é bem assim...
– Não vai perguntar nada? – estava em cima de mim.
– Se deu bem com as crianças?
– Juro que não abusei de nenhuma. – suas mãos haviam descido para as minhas coxas e passeavam por elas.
– Mas vai abusar de mim se continuar assim...
– Só seria se você não quisesse também. – beijou meu pescoço e murmurou: — e você quer. – subiu para minha boca. Um beijo lento e com gosto de canela.
Foram vários alternados com comentários sobre nossos sábados. Ela havia saído com as irmãs, se enchido de bacon e dormido no meio de crianças de dez anos. Disse também sobre uma suspeita de incesto na família dela, pra variar. Depois de um tempo ouvi Kaoru voltando da casa do namorado, mas estava tão bom ali com a Miiko que ignorei. Seus dedos estavam enroscados no meu cabelo e minhas mãos me davam a impressão de que a cintura dela era menor do que na verdade era.
– Vocês não sabem fechar a porta? – era a voz da Kaoru. Empurrei Miiko para o lado corando pra caramba. Sim, ela sabia, mas ainda assim... – Pelo menos não é o papai vendo vocês sem camiseta. – minha irmã já tinha virado e ido para o próprio quarto.
– Sem...? – olhei para baixo. É, estava de sutiã. Miiko ria. Peguei logo minha camiseta do chão e coloquei. – Não é engraçado!
– Você parece um pimentão, sabia? Um vermelho, claro.
– Pelo menos não é verde nem amarelo que nem hematomas velhos. – torci o nariz.
– Sangue?
– Sangue é tão escuro...
– Um arranhão, então. – Miiko pegou sua camiseta. – Quer fazer o que? Já que parece que não vamos continuar aquilo.
Olhei pela janela. Ainda tinha sol, com umas nuvens passeando por aí.
– Acho que umas fotos...
– Flores, gatos e arbustos?
– Kim também, tá?
/// (Miiko)
Ruri tinha uma daquelas câmeras pretas e grandes e quase profissionais. Presente de quinze anos do pais divos dela. Tirava fotos até dos meus creppers e meias. Não julgo, pois eram lindos mesmo. Meu senso de moda é o melhor. Acabamos num parque e vários gatinhos pararam no cartão de memória da câmera da minha namorada. Além do cachorro dela, claro. Aquele pequeno do pelo branco... Eu poderia pintar de laranja. É, é uma boa ideia. Mas não deixariam usar as minhas tinturas, então é uma merda ter que gastar meu sofrido dinheiro.
– Vamos, foco... – Ruri disse pra si mesma. Parecia ter problemas com a câmera pesada dela, enquanto eu brincava com o Kim. Eu acho que ela tentava tirar foto de umas folhas secas. E meu senhor, como ela era gata. Tinha as coisas da câmera numa mochilinha, que provavelmente tinha as coisas que ela sempre levava por aí: guarda-chuva, celular e coisas do Kim. Talvez tivesse uma necessaire também. E um caderninho de anotações. Estava tão concentrada que nem viu uma garota da nossa sala passando e esbarrou com ela. – D-Desculpa!
Ficou vermelha como sempre e levantou as sobrancelhas ao virar e perceber que era a do piercing dela só que ao contrário. Ela era mais alta que eu, o que era uma bosta. Quase do tamanho da Ruri. E bonitinha, eu diria.
– Tudo bem. – a moça sorriu. Pelo menos não carregava nenhum livro pra derrubar e acabar naquele clichêzinho de filme americano. Ela acenou pra mim e continuou a andar.
Ruri ainda estava travada, como sempre, mas depois de um tempinho soltou a respiração e voltou a tirar suas fotos. Normalmente encolhia os ombros pra fazer isso. Talvez quisesse todo dia ser menor. Ela tinha que se abaixar um pouco de vez em quando pra passar por portas. Não que eu risse, mas era engraçado. Pelo menos não cresce mais muito... TIPO EU, que vou continuar baixinha pra sempre. Injusto isso, realmente. Mas cara, ela era a mais gata entre as gurias que eu já tinha pegado.
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