Sem um porquê
2 A pior resposta possível
Notas iniciais
Ela conhecia muito bem o meu quarto e mesmo assim ficou fuçando nele e derrubando tudo o que tinha pela frente.
– Você comprou o novo Dance Central? Nem me contou... – estreitou o olhar por um momento e logo sorriu, com os olhos brilhando de felicidade. — Vamos jogar?!
– Já passou da uma hora da manhã, então não. Só deita aí na tua cama e me responde: por que você veio pra cá? Tenho certeza que não é por conta do seu pai.
A expressão dela mudou no mesmo segundo de fofinha pra falsa inocente.
– Não posso nem trocar dias sozinha por algo como morar com a minha melhor amiga?
– Nós duas sabemos que não é só isso o que você pensa. – sem perceber, corei.
– Como se você não quisesse! Essa sua cara! – apontou para mim. – Você também!
– Vamos dormir de uma vez ou não? — liguei o meu abajur de flor e levantei para apagar a luz, ao me virar novamente lá estava ela de frente para mim.
– Você mudou de assunto hoje. Amanhã, você não fará isso. – voltou para a cama dela, que uma vez fora de Kaoru (minha irmã mais velha) antes de trocar de quarto, se cobriu e virou para a parede. – Apaga logo essa luz.
– Boa noite pra você também...
E desliguei o abajur.
///
Quase meio-dia e ela ainda não acordou. Fiquei pelo menos uma hora olhando para ela dormindo. Dormia de um jeito normal, mas que ao mesmo tempo não era normal. Babava e jogava o cobertor no chão. Espalhava-se na cama, mas ficava em uma posição razoavelmente fofinha. O problema era que... Ela roncava. Roncava pra caramba. Tanto é que me lembrava uma cafeteira passando o café, e isso me deu fome. Fora isso, Miiko era tão bonitinha dormindo, com a boca levemente aberta com a baba vazando e uma inocência estampada no rosto.
Depois de um tempo, troquei de roupa, arrumei minha parte do quarto, abri as cortinas e a porta, esperei e esperei, mas em dado momento comecei a ficar impaciente. Fui até o outro lado do quarto e chamei-a. Nem se mexeu. Cutuquei. Nada também. Virei-a pra mim e ainda nada. Porra, ela morreu?
– Vamos, Miiko, é sábado, eu vou te levar para comer pizza de noite se tu acord- — ela pulou para cima de mim, me derrubando e caindo sobre mim. Nunca havia pensado no quanto pesava. Podia até ser baixinha, mas ainda tinha um peso questionável. – Ai... A senhorita estava fingindo dormir?
– Acabei de acordar, caramba... – abriu um dos olhos. – Cara, o sol nem nasceu ainda, me deixa dormir... – se ajeitou em meu peito para dormir.
– Como assim? Já passou do meio-dia e você diz que o sol não nasceu ainda? Vamos ver então... Se você levantar eu falo com você hoje.
Então ela levantou o rosto, ficando perto do meu. Mudou sua expressão inocente para cara de pervertida e falou:
– Então você queria conversar comigo sem mudar de assunto?
– Se você for comigo levar o Kim passear mais tarde, tudo bem. – desviei o olhar.
– POSSO IR DE PATINS? – ela levantou em um salto, como se estivesse realmente acordada há horas.
– Com os meus você não vai. – me arrastei para longe dos pés dela e levantei.
– Egoísta. – cruzou os braços e virou a cara.
– Pegue os da Kaoru se quer mesmo. Ela não tá em casa, se a gente voltar cedo ela nem vai perceber.
Kim era o nosso Lulu da Pomerânia, a nossa bolinha de pelos. Eu e minha irmã só o levávamos passear nos finais de semana, enquanto nos dias de semana a gente só brincava com ele em casa (o que não é muito recomendável por conta do tanto de pelos que esse troço solta). Hoje, como era sábado eu e Miiko iríamos levá-lo para passear, já que Kaoru arrastou nossos pais para almoçar fora com a família da amiga dela, eu acho. Isso significa que eles não voltariam até de noite, ficariam tricotando até tarde. Tive que praticamente implorar para ficar em casa, sozinha (quando pedi não sabia que a Miiko viria morar aqui). Sendo assim, pedi a Cafeteira que tirasse aquele pijama azul e colocasse uma roupa decente, porque almoçaríamos fora. Desci para a sala antes dela e fiquei fazendo carinho no Kim por pelo menos uns quarenta minutos para Miiko sair do quarto com um shorts surrado, blusa comprada em convenção de anime e meião... Espera...
– Essa blusa não é minha?!
– É, tem o cheiro do seu perfume. – enfiou a cara dentro da gola de minha blusa de Death Note.
Arrumei ração e água para o Kim, o coloquei no cantinho dele novamente e virei para Miiko.
– É bom que nada aconteça com essa blusa ou você não entra mais no meu quarto.
– Agora é nosso quarto, mas tudo bem, eu vou cuidar.
Colocamos nossos sapatos e saímos. No caminho, discutimos sobre o que faríamos depois do almoço: ler, jogar, dormir ou conversar. Miiko descartou de primeira a opção conversar (provavelmente pensou algo errado, essa conversa seria uma conversa normal). Eu argumentei que já havíamos dormido demais. Então ela disse que não estava com cabeça para ler alguma coisa e interpretar (ela nunca tem).
– Não, eu não quero jogar, cansa e a gente já vai sair mais tarde.
– O jeito como você disse “sair” parece mais que vamos a um encontro. – riu. Cotovelei-a. – Mas é!
– Não foi bem assim!
Miiko continuou falando que foi, e como sei que discutir com ela não leva a lugar nenhum, deixei passar. Almoçamos todo o tipo de massa que tinha no restaurante e na volta, depois de Miiko ter me feito comprar bala, paramos na praça no caminho de casa. Sempre me perguntei como aquela menina não engordava de tanto comer. Tá certo que ela não era magra, era fofinha. Mas também não era gorda, nem pesada.
– Que cara é essa? – estávamos sentadas em um banco sobre um salgueiro. Pelo menos eu estava. Miiko estava jogada no banco com os pés no meu colo.
– A única que eu tenho? – respondi, e ela começou a bater palmas.
– Incrível resposta, bem o que eu queria. – chutou minha perna e eu acabei dando um gritinho, fazendo-a rir. – Você é fresca demais.
Empurrei as pernas dela para o chão, obrigando-a a sentar e levantei.
– O que faremos até esse sol baixar? Ver um filme? – perguntei, ao me virar novamente para ela.
– Makoto Shinkai não, por favor. – olhei para ela com cara de “por que não?”. – É triste! Vamos jogar!
Assim, acabamos voltando pra casa e, depois de muita discussão sobre qual seria, Dance Central ou Just Dance, fiz a Miiko jogar comigo Dance Dance Revolution no meu velho Play Station 2. Se eu não quisesse dançar, poderia jogar no controle. Simples, todas felizes. Menos o Kim, que quase fora chutado pela Miiko no mínimo umas trinta vezes em uma hora.
– Cachorro idiota! Eu vou pisar em você se não sair de perto de mim! – Miiko gritava. Tudo o que eu conseguia fazer era rir do coitado e somente depois de um tempo consegui falar:
– Você vai ter que aprender a conviver com ele, queridinha.
– Prefiro que me chame de amada amiga. – Falou, virando-se para mim assim que a música acabou, rindo.
– É, conseguiu um A de novo... De onde você tira tanta energia, amada amiga?
– Carboidratos são açúcares, fornecem energia. O que a gente comeu hoje no almoço? Massa. Carboidrato. Açúcares! Não acredito que você não sabia disso. – Miiko, mesmo que pegasse as tarefas dos outros, colasse na prova, dormisse na aula, sabia algumas coisas.
– Lá vem você com essas coisas complexas. É sábado! – me levantei para pegar o controle e escolher a próxima música, mas Miiko o pegou antes de mim.
– Eu quero ver você dançando!
– Eu já dancei...
Minha amada amiga fez aquela cara de criança quando quer muito alguma e coisa e eu tive que dançar. Não deu. “Simples, todas felizes”. Só que não. Dançar cansa. Coloquei uma música qualquer e me posicionei no centro do tapete. Miiko não parava de falar coisas como “É muita sedução pra uma pessoa só!” “Dança bem essa gata, viu?” e não consegui levar a dança a sério. Acabei tirando um E. Depois de mais umas três músicas já estávamos jogadas no piso frio da sala, ofegantes.
– Esse jogo... – Miiko fez uma pausa para respirar – Nem cansa tanto!
– Ah não, imagina, tá só morrendo no chão porque não está cansada.
– O jogo não cansa, somos nós que somos frescas assim, hunf. – levantou com muito esforço e foi para a cozinha olhar o relógio. – Ainda são três horas...
– A gente podia fazer um lanche e depois descansar e só então sair, que tal? – me arrastei para o sofá.
– Comer o que? Eu quero brigadeiro!
– Tem bolo em algum lugar aí. Brigadeiro eu posso fazer de noite, se a senhorita quer tanto assim.
Ela ficou um pouco decepcionada, mas aceitou mesmo assim. Comemos o bolo de laranja com a cobertura de chocolate da minha mãe e ficamos vendo TV (mais exatamente trocando de canal a cada minuto para ver se aparecia algo que prestasse) por um bom tempo. Kim, a nossa bolinha de pelos, ficava deitado sobre Miiko como se ela fosse o próprio sofá. Ela parecia nem se incomodar com ele lá, soltando pelos e se esfregando nela. Lá por volta das cinco horas, subi para pegar os patins e as coisas do Kim pra gente sair e quando voltei Miiko tinha jogado ele no chão.
– Não faz essa cara de brava! Eu queria levantar e ele não saía de cima de mim. – ficou de pé sobre o sofá e pulou para o outro lado. Veio até mim, pegou os patins da Kaoru e foi colocá-los. Eles só serviam pois serem velhos, da época que minha irmã era baixinha assim, logo, não tinha os pés enormes como hoje em dia. Por que eles estão guardados? Nem me pergunte.
– Você só precisava colocar ele para o lado e sair. Talvez ele te seguisse, mas é normal, já que ele gosta bastante de você.
– Ele é pesado.
– Violenta...
///
Kim andava de um jeito desajeitado, parando de vez em quando. Miiko se animava com tudo o que via e não parava de falar. Pulava de vez em quando da calçada para rua e quase caiu umas cinco vezes. Virava para trás e ficava conversando comigo. Eu falava que ela ainda ia cair e ela respondia com um “Que nada! Acha que eu não sei andar de patins?”. Bem, eu acho, porque você caiu. Já estávamos voltando para casa quando ela se estatelou no chão e machucou o joelho. Olhou para o joelho sangrando, um machucado de nada. Olhou para mim. Fez aquela cara de “por favor, me ajuda”.
– Eu avisei... – levantei-a e ela se agarrou no meu braço, para se certificar de que não ia cair de novo, talvez. Se não foi isso ela só queria apertar meu braço contra os peitos dela (não que ela tivesse tanto, mas mesmo assim). – Não consegue mais andar sozinha, é?
– Você devia agradecer por não te fazer me carregar. — Apertou mais meu braço esquerdo. Kim estava praticamente me puxando e assim fomos o resto do caminho. Em casa, peguei no quarto dos meus pais a cesta de remédios e procurei por uma água oxigenada e coisas para fazer um curativo.
Voltei para sala, onde Miiko estava sentada no sofá com a perna sobre a mesinha de centro, encarando o joelho. Virou para mim e praticamente entrou em desespero.
– Miiko? Tudo bem?
– ISSO NÃO! VAI ARDER! EU NÃO QUERO!
– Ah, que triste. Não é você quem escolhe isso. – peguei a perna dela e virei a água sobre o machucado.
– SUA MÃE VAI BRIGAR COM VOCÊ! VOCÊ VAI VER! – tentou jogar uma almofada em mim, mas errou feio.
– Isso é o de menos. – terminei de fazer o curativo e tirei a perna dela de cima da mesa. – Já pode andar normalmente, ok?
Ela ficou me fitando por um tempo e depois disse:
– Eu preciso de um abraço. – subiu no sofá e pulou no meu pescoço. Bem... Obviamente nós caímos. O pior, em uma posição muito estranha. Não, pior ainda, meus pais chegaram nesse momento. Kaoru, minha irmã nada inconveniente, entrou antes deles na casa (não sei se deveria ficar feliz ou triste com isso) e parou perto de nós duas no chão. Jogou os longos cabelos pintados de roxo com raiz já da cor natural, castanho, para trás, estreitou os olhos verde mar e puxou Miiko para o outro lado da sala. Nossa mãe entrou com um sorriso no rosto, mas quando nos viu, uma em cada canto da sala ficou confusa.
– Vocês brigaram? – inclinou a cabeça.
Olhei para Miiko. Miiko olhou para mim. Kaoru pigarreou do lado de Miiko.
– Nós temos um convidado, levantem logo.
– Qual o problema se a gente ficar as... – Kaoru a puxou pelo braço bruscamente, tanto é que a garotinha de 15 anos fez uma careta de dor, coisa que quase nunca acontece. Levantei-me em seguida, peguei as almofadas do chão e as coloquei sobre o sofá de novo. O homem da casa, Papai, entrou um tempo depois conversando com um moleque. Os dois riam. O garoto não era muito alto, nem magrelo. Cabelos com de mel e olhos castanhos. Parecia normal demais para a Kaoru.
– Então, garotão, essa é a casa de sua namorada!– apontou na minha direção. — Esta é Ruri, a irmã dela. Suponho que você já tenha ouvido falar dela. – o garoto assentiu com um sorrisinho no rosto e acenou para mim como se dissesse “Oi, legal te conhecer”. Comecei a falar um oi, mas fui interrompida pelo estalo de um tapa. Kaoru havia batido na Miiko, que agora estava sentada sobre as pernas, escondendo a cara entre o chão e os braços.
– Que é? – Perguntou, percebendo que todos, eu, nossos pais e seu namorado a encaravam. Bem, pelo menos a família dela estava tentando entender o motivo. Seu suposto namorado estava com aquela cara de como quem diz “foi inevitável, não é? Nem foi nada.”.
– Já vai passar! – Nossa mãe disse ao forçar um riso.
– É, é! – O pai completou.
– Argh, eu nem bati forte. – Kaoru saiu de perto da frágil garota de 15 anos no chão e foi para o sofá. – Eu estou com fome, mãe.
– Ah, sim! Sim! – qualquer um, acredito eu, poderia perceber que estava nervosa.
Ajudei Miiko a se levantar e ela continuou escondendo a cara, só que dessa vez no meu peito. Papai fez um sinal para que eu a tirasse dali. Kaoru conversava com os dois no sofá, mas não olhava para eles. Ela me seguiu com o olhar até virar o corredor do segundo andar em direção ao meu quarto. Miiko se escondeu debaixo do cobertor junto com o meu travesseiro (ela teve o trabalho de pegá-lo antes de ir para a cama dela). Tranquei a porta, e sentei na minha cama.
– Acho que a gente não vai poder ir comer pizza hoje...
– É.
– O jantar vai demorar, eu acho...
– É.
– Por que ela te bateu? — Silêncio. – Bom saber...
– Eu só tinha começado a falar que não tinham me apresentado.
– Então a senhorita está se escondendo aí por quê?
– Nada.
– Eu sei que você está abraçando meu travesseiro.
– Eu não vejo nenhum problema com isso.
Depois disso eu acabei deitando sobre roupas jogadas na cama e dormindo. Só me lembro de ter uma garota de 15 com cabelos platinados me sacudindo para acordar e me chamando pra descer, que a Tia Mãe dela havia avisado que o jantar estava pronto. Incrível como era ela que parecia não querer sair mais do quarto antes, e agora eu quem queria ficar na cama. Ela teve que me jogar da cama, me arrastar pela perna direita pelo quarto até eu desistir de ficar lá. Já estavam todos na mesa da sala de jantar quando finalmente saímos do quarto. Até a comida estava esfriando. Os dois lugares de frente para Kaoru e seu namorado estavam vazios. Miiko sussurrou alguma coisa, mas eu não ouvi. Sentei-me de frente para minha irmã e Miiko ao meu lado. O povo começou a jogar conversa fora durante a janta. Sobre coisas como o preço da carne, o preço das tintas fantasia e que jogo passaria na TV mais tarde. E então, a conversa mudou de rumo.
– Aaah, agora que a Kaoru tem um namorado, daqui uns dias chega a vez da nossa pequena Ruri... – Papai disse dramaticamente.
– Será que ela já tem algum em mente? – A Tia Mãe deu uma piscadela para mim.
– Acho que ela prefere garotas, mamãe. – Kaoru olhava diretamente para mim com um olhar malicioso. Assim como todos lá, esperava uma resposta. Que não poderia ser pior. Com um riso forçado comecei a falar. Me arrependi por um bom tempo por ter feito isso.
– Como se eu fosse namorar uma garo...
Não.
– Obrigada pela comida. – Miiko havia posicionado os talheres e estava se levantando, cobrindo o rosto com o cabelo.
Kaoru fingia espanto.
Papai e mamãe pareciam confusos.
E, agora, a já quebrada garota de 15 anos de cabelos platinados corria para fora de casa.
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