Sem um porquê

3 A garota do cabelo verde


Notas iniciais
Aprendam a descrever coisas com a tia

Um mês foi o tempo em que vivemos na mesma casa, dividimos o mesmo quarto, estudamos na mesma sala de aula e não nos falamos. Na verdade, ela quem estava me ignorando, me evitando. Claro, o que eu falei naquela noite foi como jogar água oxigenada em um corte aberto. Mas com a água oxigenada, se bem cuidado, depois de um tempo o corte sara. Só que o nosso corte não havia sarado ainda. Eu queria falar com ela. Eu a queria falando comigo antes de dormir de novo. E muitas outras coisas, mas principalmente tê-la próxima de mim não apenas de corpo presente.

Eu a via saindo de casa para ir à escola antes de mim. Apressava-me com meus sapatos e saía correndo atrás, implorando que ela me esperasse.

– Como se eu fosse sair andando com uma garota... – Miiko cuspia as palavras e depois apertava o passo. Era tão difícil assim me dar um tempo para falar? Eu precisava falar.

Vê-la andando com esses passos pequenos e pesados me lembrava do dia em que a gente se conheceu, há uns dois anos. O que deixava essa lembrança mais real era que, ela não estava retocando o vermelho do cabelo, estava deixando o vermelho do cabelo desbotar (coisa que nunca ia acontecer já que cores como vermelho e rosa pegam no cabelo e ficam lá para o resto da vida) e platinando todo o cabelo curto. Tecnicamente a gente já era da mesma sala e os professores quase sempre nos colocavam para sentar perto. Teve muitas vezes que eu olhei para o lado e ela já estava me olhando, o que era bem estranho. Então ela desviava a cara e começava a riscar o livro. Ninguém gostava dela na época (na verdade ainda não gostam) e bem, também não ligavam muito para mim. Sabe aquele tipo de aluno que o resto da turma sabe que existe, comenta coisas com ele, apoia ele, mas na verdade não se importa com ele? Então, eu. Eu tinha o cabelo comprido, mas já com as pontas verde-água. Miiko já tinha o cabelo curto e platinado, só não era assimétrico como hoje (nem vermelho).

Estava chovendo bastante naquele dia, disso eu lembro muito bem. O pessoal da sala estava reclamando da chuva por ter caído naquele dia, já que seria dia de piscina. Logo que acabou a aula, as meninas, junto com as das outras turmas, saíram apressadas para pedir permissão para usar a piscina coberta da escola (elas realmente não queriam ficar um dia de calor sem usar um biquíni... Bando de desesperadas).

Primeira coisa que eu amo na minha mãe: se ela fala que algo vai acontecer, aquilo acontece (e não, ela não confia na previsão do tempo). O pai da Miiko é diferente, ele nem se importa com o bem estar da filha (acho que nem deve saber que ela saiu de casa). Enfim, minha mãe me deu um guarda-chuva antes de eu sair de casa naquele dia, logo, eu poderia voltar para casa sem muitos problemas. Já estava saindo do portão da escola quando Miiko, a baixinha do cabelo branco, veio correndo e parou ao meu lado sob o guarda-chuva, já encharcada. Isso me assustou, então eu parei.

– Só continue a andar, garota do cabelo verde. – Foi a primeira coisa que me disse. Caminhava em passos curtos e apressados, que faziam água espirrar nos meus sapatos. Ela olhava para o chão. Confesso que queria ver direito a cara dela, mas de cima assim ficava difícil. Pode-se dizer que a diferença de altura entre nós é de mais ou menos uns quinze centímetros. Eu tenho uns 1,75. Ela tem quase 1,60. Ou eu sou alta demais, ou ela é baixinha demais. A única coisa que eu conseguia ver daquele ângulo era a raiz castanha do cabelo dela.

– Meu nome é Ruri, se quiser saber. – Nem eu entendo como eu consegui tentar puxar assunto com a garota que estava dividindo um guarda-chuva comigo, porque sério, eu tenho problemas com isso.

– Não queria. Eu já sei seu nome, você responde a chamada todo dia. – ela continuava olhando os próprios pés.

– Eu não sei o seu...

– Miiko.

Continuamos em silêncio até eu decidir perguntar onde ela morava, já que faltava uma quadra para chegarmos à minha casa e ela ainda estava lá, olhando para os pés pequenos e apressados. Óbvio que eu não sairia correndo dela, não era nenhum estuprador ou psicopata, então não vi porque não deixar ela ali, mas ela tinha uma casa, que não era perto da minha, por sinal. Eu sempre a via ir para outro lado na saída da escola.

– Eu vou ficar na sua casa até a chuva passar. – respondeu baixinho. E então, fez uma coisa que até hoje não acredito que fez. Miiko não é dessas coisas, acredito que nunca foi. Levantou a cabeça, me olhou com aqueles olhos grandes e cintilantes e pediu: – Eu posso, não é? — Seu rosto era como o de uma criança. Era limpo, com algumas marcas de catapora e gordinho, mas muito, muito fofinho. Os cílios, longos e escuros. O nariz, curtinho e arrebitado. A boca curvada nos cantos, como se fosse normal.

– Ah... S-sim sim.

Em casa, naquele dia, minha mãe ficou muito feliz porque eu havia levado uma “amiga” para casa e encheu Miiko de comida. Minha “amiga” parecia nunca ter visto um cachorro, ficou brincando com Kim até a hora que foi para sua casa. Mamãe insistiu para que ela voltasse outro dia, e ela assentiu, dizendo que “claro”, voltaria sim, havia adorado o jantar da nossa casa (embora Kaoru tivesse tentado ignorar ela). Levei-a até o portão e antes de ir, ela segurou a minha mão esquerda e a apertou contra as dela, sem olhar diretamente para mim. Suas mãos eram quentinhas e macias. E então, a partir daí, todo dia me alcançava para ir à minha casa. Mamãe estava muito feliz. Era bem legal ter alguém para conversar, alguém que não fosse a Kaoru. Mas o estranho era que, na escola, quando eu ia falar com Miiko, ela não respondia. Parecia até ter vergonha. Só depois de um tempo conseguiu falar um pouco comigo na sala de aula. Aí, dois anos depois, ela passa a morar comigo.

Voltando, nesse meio tempo que ela ficou sem falar comigo por causa daquela noite, acabei me furando mais duas vezes. Um piercing na sobrancelha direita e um piercing chamado vertical labret, feito na parte central do lábio inferior, verticalmente. Bem, basicamente é isso. Quando falei para minha mãe me levar fazer, ela me chamou de masoquista, brincando. Mas é, mesmo com tudo aquilo de anestesia e essas coisas, furos ainda doem. Minha boca ficou doída e inchada por mais ou menos umas duas semanas, porém na hora doeu menos do que eu havia pensado que doeria.

Na noite do dia que eu o fiz, mamãe não fez o jantar, já que papai e Kaoru não estariam em casa. Então eu estava deitada com meus óculos enormes apoiados quase na ponta do nariz lendo um shoujo da Kaoru tentando ignorar a dor e a fome, quando Miiko entrou com o cabelo completamente platinado (um milagre aconteceu ali, acreditem) no quarto sem olhar para mim, segurando uma bandeja com dois pedaços de bolo de laranja e dois copos de suco de uva. Só depois de colocar a bandeja sobre a mesinha que quase nunca fica no centro do quarto é que me viu. Sua expressão mudou rapidamente de insegura e ansiosa para uma de raiva.

– Miiko? – ajeitei meus óculos para cima, fechei o mangá e me sentei. Ela parecia estar se segurando muito para não gritar. Cerrou os punhos.

– Eu venho aqui... Pronta para conversar e talvez pedir desculpas... E você me vem com esse negócio na boca! – Miiko apontou para o próprio lábio. Eu ainda não havia entendido o que tinha a ver o meu vertical labret com ela vir falar comigo. Ela pareceu ter percebido. – Claro que você não ia entender.

Ela me empurrou, fazendo-me deitar novamente e ficou sobre mim. Uma de suas pernas entre as minhas e a outra apoiada no chão. Uma de suas mãos quentes segurava meu rosto e o próprio rosto fofinho dela estava muito perto. Sua boca pequena e curvada nos cantos a alguns centímetros da minha com um piercing.

– Eu não posso fazer muita coisa com sua boca inchada, sua anta. – foi o que disse antes de aproximar mais sua boca da minha e tocá-la levemente. Seus lábios eram quentinhos como suas mãos. Depois disso, recuou e foi para a própria cama. Eu fiquei lá, deitada, sem saber como reagir, por um bom tempo. Não foi exatamente um beijo. Não foi um. Eu acho. Miiko? Sei lá. Ela havia pegado o bolo e o comia furiosamente, virada para a parede cheia de anotações. Acabou e praticamente jogou o prato e o copo no chão, ainda virada para o outro lado. Eu não sabia o que doía mais: meu lábio ou ter feito a Miiko ficar pior (mal sabia eu que ela estava sorrindo). Somente depois de uma meia hora em estado vegetativo que consegui sair de lá e ir conversar com a mamãe na cozinha.

– Fizeram as pazes? — Ela virou para mim enquanto lavava a fôrma do bolo, com aquela expressão tranquila de sempre. Fiz que não. – Então, o que é?

– Ela não gostou do meu piercing, eu acho. – mamãe não falou nada. Eu ainda não havia entendido direito o que Miiko fizera. – Mãe... tem como fazer cookies agora? Eu tinha prometido há algum tempo que ia dar cookies para a Miiko, já que daquela vez eu acabei comendo sozinha.

– Claro, claro. – ela disse com um sorriso. Ajudei-a com a massa. Em dado momento ela soltou um “ela gosta muito de você, sabe” e percebi que podia conversar sobre tudo com a mamãe. Segunda coisa que eu amo nela: ela é muito calma com tudo. Gosta de conversar, te questionar e acreditar que isso te ajuda de alguma forma. Ela não é uma daquelas mães “conservadoras” (embora o papai seja um pai daqueles, se ela consegue convencer ele dá tudo certo). Se a filha quer fazer alguma coisa, deixe que faça. Se a filha não quer fazer a faculdade que você sonha para ela, deixe-a ir para uma que ela quer. Se a filha não gosta de garotos, qual o problema? Ela realmente não se importa, desde que façamos aquilo que nos agrada. Colocamos os cookies para assar. – Vocês se entendem, vai dar tudo certo, ok?

Assenti. Mamãe estava sempre certa.

///

Mais tarde naquela mesma noite levei os cookies e um copo de leite para Miiko, que ainda estava virada para a parede. Coloquei o prato do lado dela, sentando-me no canto da cama.

– Lembra dos cookies que você queria? – Ela me olhou, ainda furiosa. Sorri, o que foi bom, porque ela sorriu de volta, mesmo que tenha sido um pouco depois. Me dei a liberdade de falar. – Eu preciso de você, Miiko. Desculpa.

– Então você entendeu? – ela levantou as sobrancelhas, parecendo quase feliz.

– Hã...

Miiko revirou os olhos e pegou um cookie do prato.

– Sabia que não.

– Nós duas sabemos muito bem que eu sou lerda em entender algumas coisas, então você tem que ter paciência. Ou pode me explicar.

– Você não gosta de mim do jeito que eu gosto de você.

– Claro que go... – Ah. Eu deveria começar a pensar antes de responder as pessoas.

Miiko levantou a sobrancelha esquerda, como se dissesse “e agora?”.

– Ok, não. Mas de acordo com a Kaoru, eu prefiro garotas.

– Você está usando algo que sua irmã disse para se explicar. O que você acha?

Eu não sei o que acho disso. Talvez seja verdade. Garotos nunca me chamaram a atenção. Eles poderiam até chamar a atenção por serem “bonitinhos”, mas nada que eu gostasse realmente. A Miiko era linda. Baixinha e fofinha. Rosto de criança. Olhos brilhantes. Peito quase liso. Ombros pequenos. Pés que calçavam numeração 34. Com a personalidade de uma peste. Era teimosa, rebelde, pervertida, um pouco animada demais e perdia a calma muito facilmente. Sem falar na falsa que conseguia ser às vezes. Podia não saber de nada, não fazer uma coisa que prestasse, mas ainda assim eu gostava dela. Ela era bem diferente de mim, mesmo que tivéssemos muitas coisas em comum. Depois de ficar uns bons minutos olhando para o rosto fofinho de Miiko, entendi.

– Eu... acho que gosto de você do jeito que você gosta de mim.

– Falaremos sobre isso de novo quando você tiver certeza. – sorriu maliciosamente chegando mais perto. — Olhe só, gosto tanto de você que não vou te estuprar.

– Eu realmente não confio nisso. – ri. Estávamos conversando de novo.

– Sua mãe me disse que esse ano, se eu quiser, posso viajar com vocês nas férias de verão. É claro que eu vou.

– Você sabe que a gente vai para um chalé no meio do mato ficar fazendo nada e lutando contra mosquitos e insetos não identificados o dia todo, não sabe?

– Mas eu vou estar com você, não tem problema.

– E o seu pai?

Miiko parou de sorrir.

– Ele não precisa saber. Agora eu moro aqui. – então mudou de assunto: – A Tia Mãe me disse que todo ano eles vão fazer uma trilha de noite e você fica em casa. Que feio, que feio. Com medo de escuro, Dona Ruri?

– N-Não é isso!

– É sim!

– Ficar no chalé longe de mais bichos é muito mais seguro do que andar por aí sem ver o chão onde pisa.

Miiko apontou com um cookie para mim.

– Esse ano você vai comigo. – Tentei falar um não, mas Miiko colocou aquele cookie na minha boca. – Eu quero muito que esse seu novo furo cicatrize logo, não dá pra fazer nada com ele assim.

Assenti. O sono estava chegando, então eu não estava ouvindo ela direito. Bocejei. Miiko se esticou e me deu um beijo na bochecha, um beijo de boa noite como o que a minha mãe me dava quando eu era menor. Lembro-me de toda noite pedir para ela deitar comigo e pedir mais beijos. Sorri e vi Miiko sorrir de volta.

– Vai lá, sonhe comigo. – foi o que disse antes de pegar o prato e o copo, colocar na mesinha e me levar até a minha cama.