Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
24 Capítulo vinte e quatro - Você tem que ir mesmo?
Notas iniciais
Depois do dia incrível que Benjamin passou ao lado do seu melhor amigo, ele veio para casa a fim de arrumar as suas últimas malas para a mudança no próximo domingo.
Yuri teve que encorajá-lo a prosseguir com seus sonhos, mesmo que isso significasse um breve afastamento entre eles. Ben se sentiu ainda mais conectado ao japonês após eles fazerem sexo naquele dia. Agora, ele tinha uma ideia de como era se entregar totalmente a alguém e não queria viver quilômetros de distância desse alguém.
Os meninos preferiram se despedir um do outro com um aperto de mão e um abraço ligeiro, tudo para manterem a discrição na frente do condomínio onde o de olhos verdes morava com a família.
Yuri assistiu seu melhor amigo fechar a porta do carro e se afastar rua do condomínio adentro. Não conseguia acreditar que transaram pela primeira vez e por duas vezes; uma de manhã e outra à tarde. E muito menos que Benjamin finalmente havia se declarado para ele.
Queria porque queria conversar com sua irmã. Não esperou nem chegar em casa para fazer aquilo e, então ligou do telefone de bordo do carro. Yumi atendeu após seu celular tocar algumas vezes.
— Oi, meu japinha lindo... — Yuri podia ouvir um som de música ressoando no ambiente em que ela estava.
— Olá, Yuyu, não está em casa?
— Estou, meu amor, eu estou em casa, sim. O Camilo está aqui para jantar comigo, na verdade... neste minuto, ele deu uma saidinha para comprar um vinho para a gente. E tu, moleque, onde está? Consigo ouvir o barulho de motor de carro.
— Fico feliz que vocês reataram o namoro, mas não podia ter me ligado antes para me contar a novi?
— Ai, ai, Yuri... estive muito ocupada durante a semana toda... Provas e mais provas! Chatices e mais chatices! Por que mesmo escolhi fazer medicina?
Ele riu. Estava muito alegre para se zangar com a irmã.
— Deixa eu te contar uma coisa bem rápida, antes que o Camilo volte... O meu Benzinho se declarou para mim hoje. Tu acreditas que ele me disse que me ama assim como o Romeu amava a Julieta?
A menina se derreteu do outro lado da linha. Ela soltou um grito áspero, contudo empolgante. Yumi começou a pular dentro da sua pequena cozinha com um balcão que separava ela da sala de dois ambientes.
— Não acredito! Não creio que ele se declarou dessa maneira tão linda e eu perdi a cena. Que ódio, Yuri Takashi, por que tu mora tão longe, hein, menina? — O irmão riu ao telefone, contendo as lágrimas e sem perder contato visual com os carros em movimento na rodovia. – O Benjamin foi tão romântico assim? Tu que o procurou...? Me conta como foi, porra!
E lá foi o japa todo alegre e irradiante emitindo cada detalhe daquela sexta-feira tão perfeita. Ele só contou sobre o sexo porque foi perguntado e pressionado pela irmã. Não queria ser tão detalhista, porém não quis esconder o fato de que o sexo com outro homem era tão espetacular e ainda mais surpreendente do que o hetero, o qual já conhecia muito bem, obrigado.
Yumi não escondeu o fato de ter ficado surpresa com a atitude corajosa do menino de olhos verdes, e até brincou que queria ser madrinha do casamento deles muito em breve.
— Dois médicos gatos se casando... que coisa mais quiridá do mundo — disse ela ao telefone, sem conter as lágrimas.
— Que exagero, eu e ele somos apenas amigos... Entendeu? Na verdade, temos uma amizade colorida – protestou Yuri, imaginando o casamento com o outro.
Yumi riu.
Passado um bom tempo desde que Benjamin já havia chegado em casa – suficiente para que ele tomasse um banho, comesse um sanduíche prémontado por alguém de dentro geladeira e bebesse dois copos de suco de laranja –, o guri começou a ouvir um escândalo partindo do andar debaixo.
Ben facilmente reconheceu a voz de sua mãe e de seu pai. Um deles gritou:
— Benjamin Belucce Furlanetto, desça aqui agora. — Ele conseguiu entender que pela voz estridente de sua mãe que a coisa era muito séria.
Pronto, estou fodido e enterrado. De alguma maneira, eles descobriram que eu amo o Yuri e que dei a minha bunda para ele hoje. Droga! Droga! Porra! Pensa, Ben! Pensa em como vai explicar esta fita.
Quando estava na metade da escada, viu seu irmão jogado no sofá com as mãos no rosto. O seu pai estava de pé para ele com os braços dobrados e olhava-o irado. Já Marisa estava sentada no ombro da poltrona perto da entrada da cozinha com uma perna dobrada sobre a outra.
— Desde quando tu estás sabendo que o Miguel será pai? – berrou Marisa sem olhar para o filho mais velho e preparada para agredir os dois descendentes com as almofadas da poltrona.
Benjamin sentiu um alívio tão grande, que eu mal poderia explicá-lo a vocês.
— Não me lembro... não sei... talvez a menos de uma semana... o que isso importa?
— Vá se foder, Benjamin – disparou a mulher zangada. Todos daquela casa sabiam que para ela abrir a boca e deixar palavrões saírem era um sinal de que estava revoltada. – Como tem coragem de me perguntar uma merda sem tamanho? Eu não admito segredos dentro desta casa e vocês dois sabem muito bem disso.
— Calma, Marisa – pediu o pai. Ele se mantinha controlado mesmo preocupado como ela.
— Não me peça calma, por favor, amor... eu não consigo ficar tranquila diante de uma situação tão horrorosa quanto essa. Meus dois filhos mentindo para mim e dentro da nossa casa.
— Eitá, mãe, que ridícula está sendo – retrucou Benjamin, mal podendo medir o peso de suas palavras.
Manoel olhou severamente para o caçula e berrou:
— Quê? Que disseste a tua mãe? Estás louco, menino?
— Me desculpa, mas não estive mentindo, não. Apenas guardei um segredo igual fariam se fosse um irmão de vocês. Inclusive, mãe, quando a tia Roberta engravidou na adolescência, tu escondeu da vovó e vovô por meses...
Marisa se sentiu afrontada, porém rebaixou os olhos, constrangida.
— Eu tive que descobrir através da mãe da Paula. A mulher me ligou possessa hoje à tarde no meu consultório e gritando um bocado, me chamou de mãe irresponsável, que não soube dar limite ao Mi, que agora a filhinha dela de apenas dezenove anos está grávida, que a família Belucce Furlanetto é uma desonra e que acabou com os sonhos dela e do esposo para a filha.
— Que, tu conseguiu escutar tudo isso numa boa? – perguntou Ben, revoltado.
Miguel olhou, de repente, para o irmão. Ele estava nervoso demais e por conta disso estava com todo o rosto vermelho.
— Se fosse no meu consultório teria retrucado. Teria dito: uma vergonha é a senhora ter uma filha que abre as pernas à vontade e que não usa camisinha para dar a buceta para o meu filho. Ao contrário de você, tive dois filhos homens, graças a Deus, eles não precisam de tantos arreios.
Marisa olhou quase fulminantemente para o marido. Parecia que Manoel estava dando razão a inconsequência do filho primogênito.
— Cala-se, Manoel. Quer dar razão ao seu filho pegador e agora futuro papai da ilha? É mesmo isso que estou entendendo? – Benjamin viu seu pai disfarçar um sorriso e piscar para Ben rapidamente. – E agora, Miguel? Que fará? Não está se sentindo culpado?
— Culpado coisa nenhuma, aconteceu... A Paula está grávida e não há nada que possamos fazer a não ser o aborto.
— Que aborto, seu imbecil? Que absurdo está falando, seu filho de uma puta? – urrou Manoel, perdendo a calma. Não bateu no filho por causa da pequena distância entre eles.
O menino de olhos verdes também ficou perplexo com aquilo.
— Estragou com sua juventude e principalmente com a da menina, que terá que carregar por nove meses um bebê dentro do bucho. A faculdade dela será adiada após o nascimento da criança. A criança não foi planejada, mas não tem culpa das filhas da putagens dos seus pais relapsos.
Aquela discussão só terminou quando já era passado da meia-noite. Benjamin não pôde sair de lá até seus pais obrigarem o filho de vinte e três anos a se trancar no quarto.
No momento em que Ben retornou ao quarto, viu a notificação de duas chamadas perdidas do Yuri. Colocou no chão as suas duas malas abertas que estavam sobre a cama, pegou seu celular e retornou a ligação.
— Sabe que horas são? Já é meia-noite e meia... como consegue ligar para a casa de um menino de família a essas horas? — brincou Yuri ao atender a ligação.
— Vá se foder, japa. Não sabe a treta que estava rolando aqui em casa há horas.
— Que treta? Não me diga.... não me diga que eles...
— Não, não... ainda não! Pode relaxar, ninguém descobriu nada e nem há motivos para isso também. O Miguel engravidou a Paula e a mãe complexada da garota ligou para a minha soltando os cães e xingando toda a minha família horrorosa – terminou, rindo exageradamente.
— Porra, que foda mesmo! Força pro Miguel e pra Paula. Se eu ainda tivesse namorando a Bruna certamente já saberia disso.
— Quê? Namorando aquela piranha gente boa? Conte-me mais sobre isso, seu puto do caralho.
Yuri riu por provocá-lo.
— Está com ciuminhos de mim, é isso mesmo, produção? O meu gatinho está com ciúmes? Queria estar aí para lhe dar um beijo na boca, meu gatinho delicioso. Estou morrendo de saudades de ti. Não há ninguém melhor neste world do que tu.
— Vá se foder, Yuri. Tu é mesmo um tamanho idiota, porra, como tu é um imbecil, cara. Mas confesso que uns beijinhos bem gostosos não seriam nada mal após uma treta daquele tamanho. Por que me ligou?
— Ué, o porquê eu já disse: estou com saudades de ti desde a hora de te deixei em casa. E também queria dizer o quanto te amo e o quanto sentirei a sua falta quando se mudar para Blumenau.
— Porra, não dificulte o que já está sendo muito difícil pra mim.
— Já sei o que vou fazer, vou ficar esta semana inteirinha contigo na sua nova casa para ajudá-lo a se sentir em casa.
— Claro... e depois que for embora, ficarei na bad de novo. Caso eu não esteja enganado, a dona Nara e o senhor Yuri matariam certo alguém com aquela espada de samurai que fica no escritório deles. O que me deixaria muito triste e me levaria a pular da Hercílio Luz (**ponte que liga o continente à ilha, mas que está desativada).
Os dois ficaram ao telefone por mais meia hora, nem pareceram preocupados se alguém ouvisse aquele papo todo sobre o amor deles. Antes de desligarem, Ben convidou o outro para vir jantar na sua casa na outra noite – Marisa decidiu fazer um jantar como despedida do caçula.
— Parte dois—
Quando Benjamin acordou já estava atrasado para o treino de natação. Saiu de casa correndo, nem penteou os cabelos e nem vestiu roupas legais. Mesmo sabendo que seu pai ainda não havia liberado o seu carro para saídas, Ben pegou a chave e se mandou dali com o automóvel.
Para seu azar, o trânsito estava caótico naquela manhã chuvosa de sábado. Levou vinte minutos a mais do que levaria para chegar ao clube na região leste da ilha. Estacionou perto do carro da sua treinadora, respirou fundo porque sabia que levaria uma grande mijada.
— Olá, Benjamin, tudo bem, meu querido? – cumprimentou a treinadora ao vê-lo saindo do vestiário e caminhando em direção às piscinas aquecidas. Ben estranhou o sorriso de Júlia, jurava que a mãe da Bárbara lhe mataria por ter chegado uma hora após o início do treino.
— Está tudo bem com a tua mãe, Báh? – perguntou o menino ao entrar na piscina e abraçá-la. Yuri de repente emergiu de um mergulho, sorriu para o amigo com um largo sorriso esbranquiçado.
A ruiva riu e assentiu com a cabeça.
— Acho que tu teve sorte mesmo.
— E aí, Ben deizz— brincou Yuri ao abraçá-lo, contento-se para não dar um beijo naqueles lábios carnudos. O que Benjamin sentiu através do forte abraço do amigo. Um abraço dominador: sem escapatórias.
Então o treino se reiniciou. Cada um dos atletas seguiu as instruções da sua treinadora. Benjamin demorou mais para chegar ali do que para acabar o treino.
— Garotos, espere um pouco aqui – pediu Júlia saindo em direção aos corredores do barracão.
— Me diga, Benjamin: está preparado para a sua mudança de amanhã? Animado com o início de suas aulas, gatinho?
O japa mordeu os lábios, nervoso.
— Báh, eu ainda nem fechei as minhas malas, então o que dizer sobre a minha disposição para a mudança e para o início das aulas?
— A sua mãe ligou para minha mãe ontem à noite nos convidando para um simples jantar que ela quer fazer para você hoje.
Ben arregalou os olhos.
— Uou, nem sabia que ela estava convidando mais pessoas. Pensei que fosse apenas a minha família e o Yuri.
A garota deu um soco no peito do rapaz e jogou água com as mãos na cara dele.
— Uou digo eu. Se não faz questão da gente lá, não vou, seu puto do caralho.
— Epá, não disse isso, minha ruivinha linda. Eu só fiquei surpreso mesmo, mas adoraria tê-los em minha quase ex-casa – confessou ele, ficando vermelho e abraçando a amiga.
Bárbara fechou ainda mais a cara e olhou para o japa. Ele ria.
— Mas de todo modo minha mãe não vai mesmo. Os meus pais têm o jantar romântico de aniversário de casamento deles hoje à noite. Eu e o puto do Arthur que pensávamos em aparecer por lá.
— Não apenas pensavam, vocês vã, é claro! Para já com isso, ruiva – concluiu Benjamin, tentando beijar as bochechas da garota.
— Vamos lá, garotos... – ordenou Júlia ao voltar.
— Aonde vamos? – perguntou Benjamin, seguindo seus amigos para fora da piscina. Eles pegaram suas toalhas e foram atrás da treinadora enquanto se secavam pelo caminho.
O menino de olhos verdes arregalou os olhos, surpreso, quando entrou em um pequeno salão. Havia um pequeno bolo confeitado no centro da mesa, vários docinhos e algumas garrafas de refrigerante. Além disso, tinha um pequeno banner na parede de fundo, onde estava escrito:
Parabéns, Benjamin Belucce Furlanetto. A partir de agora os seus sonhos já começam a se tornar realidade. Toda Floripa Power Energy deseja um caminho de sucesso e grandes realizações!
Tinha umas dez pessoas da equipe do clube presentes no salão e eles começaram a cumprimentar o menino assim que chegou. Ben não tinha contato direto com quase nenhum, mas sabia da sua existência.
— Agora entendi todo o bom humor da Júlia nesta manhã – sussurrou Benjamin ao abraçar o japa. O menino apenas sorriu e piscou para ele.
Após a pequena surpresa, os três amigos de infância foram para um restaurante no continente. A chuva não tinha dado trégua até aquela hora. Yuri não estava aguentando ficar tanto tempo sem beijar o menino de olhos verdes – foi obrigado a se contentar com um rápido beijo no vestiário enquanto se vestiam.
Ben aproveitou para atualizar a melhor amiga sobre a gravidez da sua cunhada. A Bárbara ficou chocada que aqueles cabeças ocas, como ela mesmo os nomeou, não se cuidaram. A menina garantiu que ela se protegia toda vez que transava com o Arthur.
— Imagina só uma guria de dezenove anos, que ainda nem saiu do nível médio, ser chamada de mamãe? – comentou ela em meio a conversa.
Outro tópico do almoço foi a reconciliação de Yumi com seu ex-namorado. Yuri lhes disse como a irmã estava feliz novamente, mas deixou claro que se Camilo a magoasse, ele iria até São Paulo para resolver as coisas.
O resto da tarde pareceu voar, os três se encontraram com Arthur no Shopping Iguatemi.
Benjamin foi para casa quando Marisa lhe ligou, cobrando notícias de onde estava.
A atmosfera na casa do menino de olhos verdes continuava pesada. Marisa contou ao Ben sobre a conversa que teve naquela tarde com a Paula, o Miguel, e a mãe da garota. O menino achou normal que seu irmão recebesse uma intimação da sogra para se casar com a grávida.
A mãe dos meninos não gostou da ideia de ter que casar o seu filho de vinte e três anos. Ela era a favor de contribuírem na educação da criança, mas considerava arcaico o casamento por causa daquelas razões.
Benjamin estava vestindo uma camiseta branca justa quando alguém bateu na porta do seu quarto.
— Pode entrar – permitiu.
Ben sorriu de orelha a orelha.
— Tu já chegou? – indagou ele, surpreso ao ver o rosto do oriental mais lindo entrar em seu quarto.
Yuri sorriu e fechou a porta em seguida.
— O seu pai mandou que eu subisse para te apressar. Eu trouxe um vinhozinho da adega do meu pai – disse, rindo em seguida. – E claro, o Sr. Yuri não sabe de nada.
— Centenas de anos como seu amigo e ainda não pus na minha cabeça que seu pai tem o mesmo nome do que você.
— E o meu avô também... por isso, sou o Yuri Takashi Neto... Isso só prova a falta de criatividade dos Takashis.
— Seu filho será o Yuri bisneto?
— Isso vai depender de você, meu gatinho. Vai querer colocar o meu nome em nosso filho?
Benjamin puxou o amigo pelo colarinho e deu-lhe um beijo reprimido por horas. Automaticamente sua mão deslizou pelas costas do japa e foi repousar naqueles glúteos malhados. Yuri, por sua vez, não se conteve e pôs sua mão diretamente sobre o pênis semiereto do Ben, a fim de apalpá-lo por sobre o short.
— Tu é rápido, hein? – provocou Benjamin.
Os rapazes controlaram seus ânimos e deixaram de se apalpar, apenas continuaram a se beijar. Ben tinha pressionado a bunda de Yuri contra a cômoda próxima da porta, que tão de repente se abriu.
— Hãn...?! Desculpa – pediu Arthur ao vê-los se beijando.
— Thur, me deixe explicar – disse Benjamin, indo atrás do amigo que já estava fechando novamente a porta.
O menino de olhos verdes estava em rubor vivo ao mesmo tempo em que Yuri sentia seu coração prestes a ter um infarto.
— Que aconteceu? – perguntou Bárbara, que vinha logo atrás do namorado. A ruiva percebeu a reação estranha de Arthur e os olhos arregalados do melhor amigo na porta.
— Nada. Eu só não sabia que o Ben e o Yuri estavam ocupados consertando o notebook. Também imagina, fui entrando como se estivesse em casa.
— Que trouxa, Thur – emendou Bárbara.
Ele sorriu constrangido e Ben fez o mesmo, coçando a nuca. Sabia que eles não tinham se cuidado, qualquer um poderia ter lhes visto em meio aos beijos, imagina só se fosse um dos seus pais ou o próprio Miguel?
— Que lindo essa camiseta, Benzinho – comentou Bárbara abraçando o amigo em choque.
— É... é... nova! – informou ele, sentindo sua musculatura das pernas tremendo como palitos no vento.
— Oi, Báh – cumprimentou Yuri, aparecendo atrás do Ben. Não sabia onde enfiar a cara por tanta vergonha que sentia do Arthur, que estava parado ao lado da namorada com os olhos para o chão.
— De boas, japa querido.
— Meninos, o jantar já está servido, então, por favor, desçam – gritou Marisa no pé das escadas.
Benjamin veio na frente com sua amiga entrelaçada em seu braço direito.
— Thur, deixa eu te explicar o que acabou de ver – disse Yuri, em rubor vivo. O outro parecia ignorar aquele beijo, não conseguia acreditar que seus dois amigos de infância podiam ser gays, ainda mais depois de comer tantas meninas por aí.
— Cara, tu não precisa explicar porra alguma para mim. Não tem mesmo que fazer isso, a vida é sua e sabe bem o que faz dela. – A voz do carioca estava rouca e trêmula, devido à vergonha de ter presenciado aquilo.
O jantar foi servido na mesa que ficava no píer da casa com vista para a piscina e para o jardim, ambos clareados por jatos de luzes azuis. A chuva continuava a cair lá fora – por isso Manoel resolveu acender a lareira.
Miguel tinha ido jantar na casa da Paula para conversar com seu sogro, o que só fez após uma superpressão por parte do seu pai. Manoel perguntou ao filho se ele era homem para engravidar uma mulher, mas não era homem para enfrentar um senhor da quase terceira idade.
Arthur não conseguia olhar para os dois amigos, toda vez que alguém fazia alguma brincadeira relacionada à ida de Benjamin para a faculdade, o menino ria todo encabulado.
Yuri e Ben também estavam sem graça, fato ignorado pelos demais na mesa para a sorte dos três.
— Então, Báh, eu bem que tentei fazer um jantar maior, com muitos convidados, porém conhece seu amigo, né, não me deixou convidar mais amigos dele e nem mesmo os nossos familiares.
— Mãe, eu já disse que não seria legal ter uma festa de despedida. Já está sendo bastante difícil me afastar de todos de uma vez só. Imagine se mais pessoas estivessem aqui como não seria devastador.
Ninguém disse mais nada a respeito disso, todos achavam difícil a partida do Ben.
— A que horas tu pretende se mudar, Benjamin?
Bárbara perguntou, sentindo um nó se instaurar na garganta. A ruiva não estava mais conseguindo se enganar que a partida do melhor amigo não estava mexendo com seus sentimentos.
— A gente vai sair depois das duas da tarde. O pai ir dirigindo seu carro para dar uma carona para a mãe na volta, já que ela vai junto comigo no meu.
—Tu já conheceu alguém da tua turma? – Bárbara estava curiosa para saber.
— Não. Eu só entrei no grupo do whats da turma com os veteranos e vi que eles iam juntos à balada hoje à noite e, amanhã, pretendem fazer um churras pra turma, mas é claro que não vou conseguir ir a nenhum dos dois. O jeito é esperar até segunda-feira mesmo.
Yuri olhou para Bárbara com a mesma expressão de ciúmes da garota. Arthur continuava com os olhos baixos.
— Vocês terão tempo suficiente para se conhecer, filho – comentou Manoel, cortando um pedaço da costela. – Seis anos de convívio são muitos anos para serem vividos, mas passam tão depressa, filho.
— Tomara! Tomara mesmo! – soltou Benjamin, apertando a mão do Yuri por debaixo da mesa. O japonês não quis saber daquele contato e afastou suas mãos tão depressa que o menino de olhos verdes ficou irritado e olhou para ele com uma cara feia.
Ben sabia que aquilo foi devido ao que aconteceu mais cedo. O oriental estava se preparando para que todos os seus amigos soubessem daquele beijo. Ele não sabia como lidaria com o julgamento de todos a sua volta.
O dono da casa também compartilhava da mesma preocupação, ainda mais por saber que o carioca namorava a sua melhor amiga. Bárbara Ronsoni seria a primeira pessoa a saber o que estava rolando entre os dois apaixonados.
— Vocês querem ir até lá para conhecer a casa do Benjamin e a faculdade? – convidou Marisa, sorrindo para os amigos do filho.
— A gente não pode amanhã porque a Bárbara tem um chá de bebê para ir de tarde – respondeu Arthur, armado tão depressa. – Mas tenho certeza que o japa adoraria acompanhá-los, não é mesmo, Yuri?
Ben e Yuri se sentiram atingidos. O oriental disse entre um riso forçado:
— Quem dera, só que vou almoçar com a minha família na casa de uma prima lá em Criciúma.
O menino de olhos verdes encarou estarrecido o namorado da Bárbara. Como puderam se descuidar daquela maneira tão estúpida?
“Pai, mãe e Bárbara, eu e o japa estamos apaixonados um pelo outro e não ligamos se vão gostar ou não. Eu dei a minha bunda pela primeira vez e juro que adorei. Pretendo fazer isso muitas e muitas vezes ainda.”
Imaginar aquela situação amedrontou o menino de cabelos castanhos claros, ainda não estava preparado para assumir uma relação homoafetiva com o melhor amigo. Não oficialmente, pelo menos.
Ele conseguiu imaginar a reação devastadora que o pequeno discurso traria à noite; Bárbara perplexa por saber que seu ex-crush era bissexual, Manoel envergonhado por ter um filho que gostou de queimar a rosca e uma Marisa endiabrada, cheia de ódio, que a uma altura daquelas já estaria jogando objetos pesados no filho e na sua paixão jovial.
Embora tudo aquilo lhe desse medo, Benjamin tinha mais medo de perder o amor do seu japonês favorito. Estava apaixonado demais para voltar atrás e desistir de ficarem juntos. Inclusive, já pensava em pedir o outro em namoro em breve – até comprar um par de alianças passou pela sua cabeça, mas tinha medo de estar indo com muita sede ao pote.
E como explicaria a todos a sua volta o surgimento de uma aliança de compromisso? Quem apresentaria no almoço de domingo da família?
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