Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.

44 Capítulo quarenta e quatro - Vivo além das consequências!


Notas iniciais
Benjamin está lidando com a visita indesejada de alguns familiares bem na semana de seu aniversário e enquanto se recupera, e com a distância do seu namorado. Yuri, por outro lado, também tem que enfrentar os seus desafios em casa - a sorte? É que a Yumi está lá para ajudá-lo. Embarque comigo nesse capítulo emocinante após um longo e INDESEJADO hiatus forçado! Prepare as emoções e dois minutinhos para deixar um comentário. :) "Olá, pessoas lindas, senti muito a falta de todos vocês - me senti horrível por não poder escrever durante as minhas férias de verão, mas a espera com certeza valeu a pena e creio que voltei a ter as mesmas ideias e fonte de inspiração. Obrigado aos novos marujos que embarcaram com a gente nesta reta final de SEM MAIS DESCULPAS. SEM ARREPENDIMENTOS. Como sempre, voltarei a publicar semanalmente. Beijos e abraços! "

BENJAMIN VOLTOU PARA SUA CASA, em Florianópolis, um dia depois daquele domingo. Quando chegou em casa, a alcateia Belucce estava praticamente toda lá – a avó materna, duas irmãs de sua mãe e mais dois primos gêmeos do menino de olhos verdes haviam viajado quilômetros, direto de Joinville, para vê-lo e também aproveitar que o fim de semana do seu aniversário estava próximo para estenderem a estadia pela ilha.

No fim de semana, outros familiares dos seus pais se deslocariam até Florianópolis para a data comemorativa. Benjamin tinha mais outro motivo com isso para não querer nenhuma festa. O menino topou a ideia do seu pai, a de fazerem um churrasco para poucos amigos e para poucos parentes, mesmo com sua mãe a contragosto.

Marisa queria algo maior, uma festa de aniversário para começar, onde pudesse convidar mais familiares. Em quase dezenove anos, a mulher ainda não percebera que seu filho ainda caçula fazia o estilo mais discreto assim com o seu pai ou se fazia de sonsa para não perceber.

A dona Marisa não quis notificar a visita da alcateia Belucce assim que o Benjamin deixou o hospital. Sabia que o caçula não ia gostar nenhum pouco de receber toda aquela galera em casa por sua causa. Quem gostou menos ainda daqueles hóspedes foi Miguel, obrigado pelos seus pais a oferecer seu quarto para eles – os dois quartos de hóspedes nunca foram suficientes para abrigarem mais de três hóspedes por vez.

O menino de olhos verdes foi obrigado a ouvir o mesmo sermão da montanha que ouviu de Marisa, mas, agora, da sua avó e das suas tias – parecia até um sermão padronizado dos Belucce: quanta irresponsabilidade; Quanta loucura; Como teve coragem de acampar com apenas um amigo e sem nenhum guia; Podias ter morrido; Sua mãe sofreu demais; Quando vai crescer, Ben? Graças a Deus você está aqui; O que vai fazer agora para se cuidar?

E tantos outros sermões que ocuparia aqui todo o seu tempo e o meu. Ben se controlou para não tratá-las mal e conseguiu a muito custo – imagine que para o garoto já era difícil controlar as palavras árduas quando ouvia as mesmas coisas dos seus pais, o que dizer de quando isso vinha de outras pessoas?

Naquela mesma semana, Benjamin ligou para os seus amigos mais próximos e fez o convite do seu churrasco no sábado. Antes de ele convidar o Arthur, achou melhor perguntar, antes de tudo, para a ruiva, a fim de averiguar se estaria tudo bem por ela se o amigo viesse a sua festa – ela garantiu que não se importava mais com isso.

O Yuri não acreditou que seu namorado havia voltado atrás e decidido fazer a festa ao receber a notícia por telefone. Ele tinha insistido muito para que o Ben topasse fazer alguma coisa em comemoração ao seu décimo nono aniversário – tudo sem surtir efeito positivo até o dia em que o Belucce deixou o hospital.

—Amor, seria mesmo idiota da sua parte não querer comemorar o seu aniversário. Nesse ponto, eu preciso me render ao que sua mãe disse.

Ah é, seu vendido? E por falar nela, sabia que a Marisa não me autorizou dormir na sua casa nesta sexta-feira?

O japa suspirou ao telefone, o que Benjamin interpretou como uma revolta do namorado.

— Como assim? Pô, eu já tinha feito tantos planos para eu e você...

— É? Que tipo de planos, meu putinho?

O outro deu risada com aquele vocativo.

— Então, meu putinho, seria uma surpresa, mas como não poderá mais vir, tu só vais ficar com isso na curiosidade.

Eita, porra! Eu vou dar o meu jeito aqui. Tenho certeza que se eu insistir pro meu pai, a Dra. Marisa cede e eu poderei passar uma noite gostosa com o meu namorado. Lembra-se de que ainda estou todo quebrado, né?

— Não vou exigir muito de você. Eu posso comer este rabinho de ladinho e nem mexer um músculo da sua perna ou peito – provocou o oriental, rindo.

Ben sentiu o seu pênis começar a inchar dentro da cueca e quase cedeu ao impulso de pôr uma mão dentro do calção frouxo.

— Que delícia, seu safadinho! Quero saber o que mais tu pretende fazer comigo na sexta.

O Yuri se empolgou com aquilo que era apenas uma provocação boba.

— Eu vou querer chupar todo o seu cuzinho apertado, isso antes mesmo de te comer de ladinho. Tô louco para gozar dentro da bunda antes de pararmos de transar.

— Caralho, que gostoso, cara – respondeu com a respiração ofegante. Não havia resistido e, agora, tinha começado a se masturbar. – Eu estou com saudade de sentir o seu cacete duro dentro de mim, sabia?

— Sério? Porra, Benjamin... assim vou me sujar todo aqui. E de me comer, não está com saudade, não?

Ben soltou um grunhido ao ouvir aquilo.

— Tá falando sério? Eu não vejo a hora de comer esse rabinho aí. Ontem mesmo, eu estava batendo uma punheta no banho e pensando nessa coisa perfeitamente esculpida na academia.

Yuri não aguentou e começou a rir daquilo. Nem mesmo o Ben deixou para lá e riu também das suas próprias palavras.

— Então trate de convencer os meus sogros de permitirem que venha posar aqui em casa para pormos tudo isso em prática.

— Se por um acaso, tu viesse pelo menos me visitar, dava para eu tirar uma casquinha do seu corpinho – falou Ben, simulando uma voz magoada.

— Ah, meu gatinho, eu já te disse o motivo para não ter ido te ver na sua casa nesses últimos três dias desde o domingo...

— Já sei, já sei! Quer dar uma disfarçada naquele nosso gafe na frente de toda a minha família no hospital, mas eu te falei que isso é ridículo, Yuri. Nenhum dos meus pais percebeu qualquer coisa; a Yu só disse aquilo porque ela sabe da gente e percebeu que quase nos beijamos no nosso encontro.

— Não sei, não! Agora, que a sua avó e as suas tias estão passando alguns dias aí com vocês, eu só iria atrapalhar e podíamos levantar mais suspeitas do nosso caso.

Caso porra nenhum! Nosso NA-MO-RO. O.K.?

O oriental demorou a perceber que tinha falado uma merda.

— Meu gatinho, eu não quis diminuir o que temos. Eu falei sem pensar. – Riu, constrangido.

— O.K, O.K, japinha. Não posso lhe forçar a me visitar, se não quer.

— Tá certo, meu amor, eu prometo que vou visitá-lo entre quinta e sexta, O.K.?

Você sabe que amanhã já é quinta-feira, certo? É melhor não prometer algo que não vai poder cumprir.

— Claro que eu sei.

Não, Yuri, é melhor deixar pra vir aqui só no sábado mesmo junto com todos os outros. A Bárbara ficou de me visitar amanhã à tarde, então deixa pra lá, O.K.?

— Não sei por que você começou a me tratar assim.

Nada a ver, Yuri. Eu só acho melhor não vir mesmo se está com medo de ficarmos sozinhos e desconfiarem do nosso lance.

O oriental sabia que o namorado estava daquela maneira por causa do seu erro de agora a pouco.

— Benjamin Belucce Furlanetto, você sabe que por mim a gente já contava tudo para as nossas famílias. Mas aquele dia no hospital, tu me proibiu de falar para a minha mãe sobre a gente. Acho que só estou te obedecendo.

É... mas não é por isso que o cara que amo tem que ficar longe de mim. Estou com essa porra de gesso na minha perna e os meus pais estão monitorando a cada centímetro longe da cama, então sem chances de eu poder ir te visitar. Na verdade, nem carro eu tenho mais.

O Yuri pediu desculpas e os dois conversaram numa boa por mais alguns minutos antes de o Ben ter que desligar para jantar com a família. O casal deixou combinado de que se o menino de olhos verdes não pudesse posar na casa do japa, quem viria dormir ali seria o Takashi.

Yuri acordou com o primeiro som do seu despertador como já era de costume nos seus melhores dias. Se levantou, tomou uma ducha, escovou os dentes, se arrumou despojadamente e se encontrou com sua mãe e irmã à mesa do café da manhã.

A senhora que era empregada da família acabava de servir à mesa pães quentinhos recém-comprados da padaria da esquina. O menino atacou-os prontamente.

— A quanto tempo não vejo a sua cara, Yuri – comentou Nara, servindo-se de suco de laranja. Os seus estreitos olhos pareciam fitas endurecidas sobre o caçula.

— Pois é, mãe. Você chegou terça de madrugada de Brasília e, ontem, saí mais cedo para correr pela Beira-Mar com uma amiga antes de ir à UFSC.

Yumi revirava os olhos para o irmão enquanto tinham aquela conversa enfadonha.

— É uma pena não ver com mais frequência os meus filhos. Ainda mais com a Yumi desistindo do seu futuro e o meu filho se envolvendo em sequestros relâmpagos.

— Não vai começar de novo, né, mãe? – protestou a japonesa, dirigindo seu olhar descontente diretamente a sua mãe. – Eu tenho que dizer quantas vezes que não abandonei a porra da faculdade? Só preferi trancar um semestre para ficar mais perto do meu irmão e ajuda-lo após o seu acidente.

— Que boca suja, mocinha! Ainda bem que não desistiu dessa carreira brilhante, não é? Seria uma loucura até para a senhorita abandonar da medicina já chegando ao quarto ano do curso.

— Pra mim já chega! Vou sair de casa antes que eu perca o meu ânimo e olha que tenho muitas coisas para fazer nesse dia – vociferou Yu, ameaçando se levantar da mesa.

— Não podemos ter um momento de diálogo nessa mesa sem brigar?

— Se talvez, você fosse uma mãe mais presente em nossas vidas, quem sabe?

Yuri olhou rapidamente para a sua irmã. Nunca tinha a visto tão transtornada e dizendo tudo que eles de fato concordavam às cegas.

— Eu tenho sido uma mãe de verdade para vocês. Cadê o seu pai? Cadê o Yuri Takashi? Acho que ele preferiu abandoná-los e iniciar uma nova família sem vocês dois.

— Mãe, você tem que ver a situação através de um ângulo mais amplo. Quem ele abandonou foi a senhora. Ela preferiu uma mulher mais bonita, mais jovem, mais fértil, com um ânimo muito melhor a você – agrediu Yuri, se arrependendo no minuto seguinte do que havia soltado.

A mulher começou a chorar como eles nunca tinham visto antes. Ela parecia uma mulher fraca, do tipo que se magoava por tudo e por qualquer dificuldade. Com certeza não era essa a imagem que os dois irmãos pintaram por toda a vida da sua mãe.

— Me desculpe, por favor! Eu não quis te ferir, só quis nos defender – implorou Yuri, tentando uma aproximação.

— Saia daqui os dois. Eu quero ficar sozinha.

A Yumi friamente fez um gesto com a cabeça para indicar a saída. Mas antes de ele sair, o japonês olhou para trás e soltou:

— Mãe, eu sou gay.

Sua irmã quase cambaleou com o susto após ouvir a confissão do menino. Nara interrompeu o choro imediatamente – parecia atônita e esbranquiçada, ainda mais do que já costumava ser.

— Quê? Como assim, és gay? Sabe bem o que está saindo da sua boca?

Yuri suspirou fortemente e respondeu:

— Sim, eu sou gay. Eu estou namorando um garoto a pouco tempo. Não quero mais que isso seja um segredo.

— O quê, Yuri? Achas que vou aceitar um filho gay em minha casa? Que vou sustentar um?

— Não acho que vai aceitar assim como não aceita o fato da Yumi namorar um garoto negro e pobre, uma vez que és tão porca e preconceituosa. O que fez para obter aquele diploma estampado no seu escritório? Furtou ele ou o quê? Não sabe o quanto isso tudo é horrível e criminoso em nossos dias? Quantas pessoas morrem nas ruas por causa de gentinha igual a você?

A mulher cerrava os lábios com muita força e estreitava seus olhos com ódio ao ouvir todas aquelas coisas.

— O que é? Vocês dois se levantaram nesta manhã, decididos a me afrontarem ou foi o quê?

— Não é bom ouvir a verdade, não é mesmo, Nara? – atacou Yumi, abraçando o seu irmão. Ele já começava a demonstrar traços de alguém arrependido pela confissão.

— Já sabias que seu irmão é gay, Yumi?

— Mas é claro que sim e há meses, minha querida. Nós dois confiamos inteiramente um no outro. Imagina só se ele me deixaria escapar uma coisa dessas?

— Minha mãe do céu, o que vão dizer da nossa família? Primeiro, o pai de vocês me trai há anos e, depois, o meu único filho homem se torna gay. Como assim? Eu vou enfartar de uma vez, mas isso é muito melhor do que ter que ver todos falando da nossa família pelas costas.

A Yumi abraçou o seu irmão com muita força após ela dizer tudo aquilo. O menino começou a chorar. Sentia-se muito mal e aliviado ao mesmo tempo. Sabia que era melhor enfrentar todas as pessoas a ter que deixar o seu amor pelo seu melhor amigo morrer.

— Eu odeio vocês dois. Maldito foi o dia em que abri as minhas pernas para parir os dois. Sabe de uma coisa, vou embora para o Japão. Já tinha uma proposta de emprego por lá há semanas e posso ir tranquilamente agora que não tenho nenhum filho nas minhas costas.

— Que coisa horrível é tudo isso que está falando, mãe – confessou Yumi, irada.

— Quer ir? Que vá de uma vez. É por falta de adeus? Adeus! Só se esqueça de que tem duas pessoas aqui que mesmo com toda a sua ausência sempre te amou – disparou Yuri.

A mulher jogou a jarra de suco de vidro contra o espelho do outro lado da sala de jantar – espatifando tudo em centenas de pedaços. A empregada entrou toda alvoraçada pela porta e se deparou com a cena dos três orientais.

— Akiu, acredita que estou sendo expulsa da minha própria casa pelos dois? – gritou a mulher como em um desespero.

— Não se faça de cínica. A senhora disse que vai embora daqui para o Japão só para fugir da reação de todo mundo ao saber que seu filho é gay – protestou Yuri, dando um soco com o punho fechado na mesa.

— Já chega, japa! Deixa essa louca pra lá e vamos sair daqui agora pelo amor de Deus.

Os dois deixaram o apartamento sem olharem para trás. Já no elevador, Yuri voltou a se desmontar em prantos, mas foi amparado pela sua irmã que há muitos anos já protagonizava o papel da sua mãe.

— Eu já prometi que nunca vou abandonar você, Yuri. Eu estou muito orgulhosa com a sua coragem em se abrir com aquela mulher. Já somos de maior e podemos escolher como sermos felizes sem fazer mal a ninguém.

À tarde, Benjamin ouviu sua tia bater na porta e anunciar a chegada da Bárbara. O menino de olhos verdes até o momento não fazia nenhuma ideia do que estava acontecendo na casa do seu namorado. A ruiva entrou com seus cabelos cortados na altura dos ombros – um novo corte percebido rapidamente pelo seu amigo.

— Fiu, fiu...! Eu acho que vi uma gatinha – brincou ele assim que abraçou-a ainda na porta do seu quarto.

Thank you, my beloved friend (Obrigada, meu querido amigo). Vejo que já está bom para ficar de pé e andar pelo quarto.

— E por falar nele, não aguento mais ficar preso o dia inteiro aqui dentro. Vamos até a pracinha do condomínio, o que me diz?

— Ah, pode ser! O dia está meio fechado para chuva, só que vai ser legal ficarmos em um lugar mais arejado já que a sua casa está lotada de gente – comentou ela, rindo em seguida.

O menino concordou e, sem demorar nada, calçou o seu chinelo e rumou escada abaixo.

— Benjamin, aonde tu estás indo, meu querido? – indagou Madalena, a avó materna do menino. Ela tinha uma altura aproximada da sua filha do meio, Marisa, cabelos pintados de loiro, olhos azuis iguais aos da doutora e uma pele muito bem hidratada. A velha podia ser chamada de uma senhora enxuta.

Madalena brincava com seus dois netos gêmeos de cinco anos no tapete da sala, entre o sofá e a lareira da casa – sim, aquele mesmo lugar onde Ben e Yuri protagonizaram o seu primeiro momento de verdadeira entrega.

— Vó, eu e a Bárbara vamos dar uma volta pelo condomínio. Daqui a pouco, a gente volta para tomar café da tarde junto com você e as tias.

— Ela é tão linda! Ela é sua namorada, Ben? – perguntou Helena, a irmã mais nova de sua mãe e que, a propósito, era o xerox escrito e desenhado da Marisa.

Toda vez que o menino de olhos verdes olhava para a tia, o seu cérebro demorava poucos segundos a interpretar que aquela na verdade não era a sua mãe tamanha semelhança.

— Ela é só uma amiga do Benjamin, tia – intrometeu-se Miguel da mesa do píer. O irmão do rapaz jogava um jogo de tabuleiro com suas duas tias.

A ruiva ficou corada no mesmo instante. O seu rubor se assemelhava e muito ao seus cabelos Chanel. Benjamin puxou a menina em direção a porta de saída e soltou, muito bravo:

— Meu, a semana inteira, elas ficam no meu pé. Quando não são as três é o meu pai ou a minha mãe que fica me pentelhando: Aonde vai? Cuidado com a escada. Você não pode exagerar com os movimentos. Olha só o gesso!

A Báh começou a rir para o descontentamento do seu melhor amigo.

— Eu achei fofo todo esse cuidado na verdade. Se estivéssemos no cursinho, sabe bem que eu faria o mesmo, Ben.

— E eu não sei? – Começou a rir e abraçar a amiga com uma mão, depois, voltaram a caminhar. Ele estava fazendo uso de um par de muletas de ferro que o seu pai comprou ainda no aeroporto do Rio Grande. – O único que não me pentelha é o Mig, aliás, o cara se tornou um brotherzão do dia para a noite como se ele fosse a Yumi e eu o japinha. Juro que estou estranhando isso.

— Ah, é? – desconversou ela, tímida. – Mas isso não é bom?

— Sei lá. Eu acho isso muito louco na real – respondeu, começando a rir.

— E por falar no seu japinha, como o menino está? Nós dois não vamos mais juntos à academia desde antes de tudo o que aconteceu contigo e com ele em Criciúma.

— Falei com aquele puto ontem e me pareceu muito bem. Aliás, a gente meio que discutiu porque ele está evitando em me visitar por causa da merda da reação da minha família após darmos aquela bandeirada no hospital.

A moça riu quase que para si enquanto destrancava o pequeno portão que dava acesso ao parquinho infantil do condomínio dele. O lugar estava desabitado, parecendo com um parque mal assombrado.

— Condomínio de pessoa rica é outro nível, né? Os pais não deixam as pobres crianças a interagirem com as outras com receio de que elas sejam ainda mais ricas.

Benjamin riu da brincadeira da ruiva e se sentou no pequeno balanço, estendendo sua perna engessada para conseguir se acomodar naquela pequena distância do chão.

— É melhor para gente, já que dá para nós brincarmos aqui como duas crianças levadas.

— Levadas? Fale por si só, meu bem. – Ela estampou um lindo sorriso. – Deixa eu tirar uma fotinha de você sentado numa balança menor do que a minha perna e, ainda por cima, com a perna toda engessada. Isso é muito mais do que engraçado, Ben...

— Vá se foder, ruiva!

E não demorou para ela tirar seu celular do bolso e a tirar uma foto do menino.

— Olha só a sua cara de boboca, olhos verdes – provocou a garota, mostrando a foto a uma certa distância para que ele não a deletasse.

— Me deixa ver essa queimaceira de mais perto – pediu ele, esticando a mão para pegar o celular.

— Sai fora! Você tem olhos na mão também?

— Só no cu mesmo, sua vaca – brincou o menino, levando os dois a gargalharem.

De repente, o pequeno portão do parquinho foi aberto e três crianças entraram com seus brinquedos.

— Eita, olha só o que dá comemorar antes do tempo, Benjamin.

O menino continuou a rir exageradamente. Uma das crianças olhou para eles e perguntou:

— Seu namorado tem alguma doença mental?

— Doença mental, seus pivetes – repetiu Benjamin, sem parar de rir e achando ainda mais graça.

— Vá se foder, moleque – xingou Bárbara, fazendo uma careta estranha para eles.

— Vamos sair daqui, Júlio – pediu outra das crianças antes de eles se retirarem.

— Nossa, Bárbara, assim que você quer ser pediatra? – caçoou Ben.

— Ah, sim, com certeza! E eu vou ensinar como todos os pais devem cuidar dos seus filhos com meu exemplo, é claro...

The best mother ever (A melhor mãe de sempre).

A menina mostrou o dedo do meio para ele, logo, abraçando o amigo pelo colarinho.

— Eu te amo demais, Benjamin.

— Eita, de repente, ficou sentimental – provocou ele. – Eu também te amo, Bárbara Ronsoni – declarou ele após ver que ela não estava brincando e após ela não soltá-lo mais.

— Se lembra que eu disse que tinha um segredo pra te revelar hoje à tarde e que por isso viria?

— Sim, Báh, mas não precisa de motivos para me visitar ao contrário do meu namorado.

Ela apenas sorriu e se sentou no outro balanço vazio.

— Então, eu preciso me abrir de uma vez, caso contrário, vou acabar perdendo a coragem.

— Já sei, você acabou se descobrindo como lésbica? – Brincou ele para quebrar o gelo, mas ela continuou meio séria.

— Eu adoraria que fosse isso. – Ela riu pateticamente caindo no truque de seu amigo.

Benjamin sorriu e afastou uma mecha de cabelo da sua amiga, que cobria um dos seus olhos.

— Tá! Eu prometo que agora vou ouvi-la e, pelo amor de Deus, diga já de uma vez, não queira cozinhar o meu estômago dentro de uma panela de pressão.

— Eu já esqueci o Arthur porque até conheci um novo garoto. – Benjamin torceu os lábios e arqueou as sobrancelhas. – A verdade, a verdade é que... eu já conhecia esse menino, só que nunca tive olhos de mulher para ele.

— Me conta uma novidade, por favor – brincou ele. Ele quis fazer menção ao lance que começou do nada entre a Bárbara e o Arthur tantos anos depois de se tornarem amigos.

— Você prometeu me escutar, Benjamin – vociferou ela, sisuda. O menino recuou como uma criança após ser chamado a atenção por seus pais. – E você conhece ele muito, mais muito, muito bem...

— Não sendo o Yuri ou, pior ainda, o desgraçado do Frederico...

Ela sorriu, encabulada.

— É claro que não é nenhum desses dois.

— Então toureira, chega de rodeios e diga logo quem é o sortudo que levou o coração da Ronsoni.

— É o Miguel – anunciou ela, apertando os olhos e os lábios, esperando pelo pior em seguida.

— O Mig? O meu Miguel?

— Sim, o seu Miguel – ela concordou, rindo. – Eu e o seu irmão estamos namorando há pelo menos uma semana e meia.

Benjamin escondeu seu rosto entre suas mãos e começou a rir como um louco. Não podia acreditar que aquilo poderia ser real. A Bárbara, tão centrada e responsável, namorando o Miguel Belucce Furlanetto, um inconsequente e avassalador.

— Está falando mesmo a verdade, Bárbara?

— Sim, amigo.

— Como você foi se apaixonar justamente pelo Mig? Sabe que ele é um safado, que acabou de terminar o namoro com sua namorada de anos e que por um acaso está grávida de quatro meses?

A ruiva engoliu em seco. Ouvir aquilo a fez se sentir péssima e como se estivesse roubando alguém de outro alguém.

— Eu e ele ficamos numa festa que eu fui logo depois que eu e você paramos de nos falar. Ele me convidou para o cinema e para um jantar alguns dias mais tarde. Desde lá, estamos juntos e, na semana passada, o Miguel me pediu em namoro e eu aceitei. Confesso que já estou caidinha por ele, bem diferente de como foi com o Arthur.

— CARALHO, Bárbara! Justamente o Miguel? Jantar? Caralho, bem que eu notei como ele te tratou superbem lá no hospital quando apareceu para me visitar. Tenho certeza de que foi ideia dele você ter me procurado para fazer as pazes, não foi?

— Juro que não! Sabe o quanto és importante na minha vida, menino. Sabes que senti muito a sua falta da mesma maneira como tu sentiu a minha, não sabe?

— Desculpa, é que eu pensei...

— Pensou que eu me aproveitaria daquela oportunidade tão frágil para ganhar o coração do meu cunhado?

— Bem capaz! Eu-eu-eu confesso que continuo sem palavras e sem poder acreditar que isso possa ser verdade.

A menina riu e começou a segurar na mão do amigo.

— Será que pode nos aceitar? Pra mim a sua amizade é mais importante do que tudo, inclusive, mais importante do que esse novo amor na minha vida. Se quiser, termino com o Miggy.

Ele disse entre risos:

— Que fofo, os dois até já têm um apelido carinhoso.

A Bárbara deu um soco no gesso do garoto, que gemeu.

— Me perdoe! – disse, rindo. – Você sabe como me deixar sem jeito, garoto. Vai se foder!

— Báh, mas falando sério: eu não preciso aceitar nada. Você é minha melhor amiga e quero a sua felicidade e aquele cara é o meu irmão e quero a felicidade dele. Só estou meio assim, receoso por conta de conhecer o jeito do Mig. Sabe o quanto ele é mulherengo, mentiroso e, às vezes, muito canalha. Já vi ele magoando muitas meninas e odiaria ter que se matar com meu irmão, mas se ele magoar a você, juro que terei que intervir.

— Ah, eu sei de tudo isso. Inclusive sei que ele será papai em breve e que não leva o mínimo jeito para isso, só que eu acabei me apaixonando por ele. Nunca tinha visto o quanto o menino de olhos azuis é gatinho, fofinho e muito gatinho... – Os dois terminaram rindo.

— Sim, eu sei que ele é gatinho, gatinho e mais um pouco gatinho. Isso faz parte do nosso DNA – brincou ele, rindo.

— Isso eu e o Yuri temos que concordar, olhos verdes.

— Você não contou nada sobre eu e o Yuri, não, né? Contou?

— Mas é claro que não! Eu nunca faria isso com vocês. O Miggy não sabe de nada e nunca saberá de uma só palavra através da minha boca.

— Até porque a sua boca já está ocupada com outra coisa do Miggy – Ben provocou, recebendo um olhar de censura da garota.

— Que nojo, Benjamin! Que nojo!

— Nojo? Logo, logo, você vai cair de boca no pau dele que eu sei. – Só depois de pronunciar aquelas palavras, o garoto percebeu o quanto era estranho falar sobre a genitália do seu irmão mais velho.

A ruiva não conseguiu mais se segurar e começou a rir, bofeteando o corpo do amigo. O que evoluiu para cócegas ali mesmo no balanço.

— Mas me diga só mais uma coisa.

— Olha lá, hein!

— Tu já pensou como será a reação do Arthur ao descobrir do seu namoro com o meu irmão? Será que ele não vai ficar muito chateado?

— Sei não, Ben... O Thur já estava ficando com uma menina da sala do Precoce desde antes de eu aceitar o pedido do seu Miguel.

— Já chega de dizer: seu Miguel. Eu estava apenas se assegurando de que era realmente o meu irmão, sua palhaça.

E os dois voltaram a rir. De repente, começou a garoar e eles tiveram que apressar os passos em direção à casa da família Belucce Furlanetto. No meio do caminho, o telefone da Bárbara tocou.

— Alô!

— Bárbara, espere a gente voltar lá para dentro, se não teu celular vai estragar, quíridá.

— É pra você! É o seu amorzinho.

O menino de olhos verdes deu um largo sorriso e atendeu a chamada.

Notas finais
Vai lá aguardo a sua review após sairmos desse hiatus chato pra caraii... Novamente, me perdoem por ele! Tenho certeza que se chegaram aqui é porque ele acabou definitivamente. >.