Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
45 Capítulo quarenta e cinco - Sem mais desculpas para comemorar!
Notas iniciais
I
O YURI CONSEGUIU SE ESTRESSAR MAIS DO QUE se tranquilizar após conversar ao telefone com o seu namorado. Pra começar, ele detestou o tom de voz usado por Benjamin ao descobrir o que ele tinha feito mais cedo naquele mesmo dia.
O menino de olhos verdes não gostou nenhum pouco de o Yuri ter se aberto com a mãe e ter revelado sentir atrações por meninos. Para ele, aquilo logo poderia chegar aos ouvidos da doutora Marisa e, sabia que, se chegasse, de alguma maneira ou de outra, a médica problematizaria a amizade dos dois.
O oriental teve que ser bem franco com o namorado e dizer que não se importava mais com a opinião da família de nenhum deles. Para o garoto, se todos quisessem lhes odiar pelo simples motivo de eles se amarem, que todos fossem para o inferno e se fodessem por lá com quem mais quisesse.
Ben não gostou nenhum pouco da maneira como aquilo tudo saiu da boca do japa. Se importava demais com a reação de Manuel, já que ele e seu pai mantinham uma amizade muito boa.
“–... Você não sabe o que eu quero dizer porque nunca teve a amizade de nenhum dos teus pais. É por isso que parece não ligar para o que penso e sinto em relação a eles”.
O garoto se arrependeu de ter dito aquilo no minuto seguinte e pediu desculpas, mas já era tarde demais. O Yuri só não mandou o namorado à merda por não ter tido tempo suficiente para aquilo.
O oriental preferiu se despedir e desligar o telefone, mesmo com toda a oposição do Ben. Ele recusou as demais chamadas que recebeu do namorado até o horário em que simplesmente apagou no travesseiro da irmã.
A Yumi e o Yuri tiveram uma conversa longa sobre tudo aquilo e chegaram no consenso de que o melhor a se fazer naquela ocasião era dar ao Benjamin o seu próprio tempo em se abrir com os pais.
Na outra manhã, ainda bem cedo, Yuri saiu de casa sem tomar café, para não correr o risco de dar de cara com a mãe na sala de jantar, e foi direto à faculdade – a sua turma teria a última prova de bioquímica do semestre.
Desde que estacionou até entrar na sua sala, o menino não encontrou ninguém conhecido, mas, depois, a primeira pessoa que topou de frente foi a Fernanda. Ela puxou ele de lado para dizer:
— Quero que saiba que fiz de tudo para que isso não se espalhasse por toda a turma. – O oriental arqueou as sobrancelhas, inquieto e confuso. Olhou para o lado e viu vários bolinhos de pessoas, todos lhe encarando e aparentemente falando da mesma coisa. – O Frederico contou para o Ed da nossa turma sobre você e o....
— Benjamin?
— Então era mesmo verdade? – perguntou ela quase em um tom de exclamação. A menina mal podia ficar de pé, que teve que encostar o quadril na carteira de uma colega de sala.
— Você está bem? – indagou a colega ao perceber aquilo.
— Yuri, como? Não me diga mesmo que é gay? E ainda pior, o de olhos verdes também? Como isso foi acontecer?
— Pessoal, vamos se sentar para começar de uma vez a nossa prova e vocês se livrarem da bioquímica o mais rápido possível...
— Ou ir direto pra REC, professora. (REC = recuperação da disciplina)
O japonês ignorou a própria amiga e todo o pessoal da turma, e se dirigiu diretamente a mesma carteira de sempre – na primeira, da fileira da janela. Uma amiga sua deu um “oizinho” tímido para o rapaz, porém foi ignorado por ele.
— Eu não quero mais fazer essa prova, eu quero dar a bunda... – gritou um dos moleques lá do fundão. Yuri já tinha sacado que era o tal do Ed, dedo duro, que tinha puxado a brincadeira.
A professora olhou para eles com censura.
— Que maturidade, garoto! Você está na segunda fase de um curso tão respeitado e ainda agi como se estivesse no segundo ano do primário? Ou melhor, do jardim de infância porque eu tenho uma filha no primário e já me parece mais madura do que você.
Todo mundo da sala, exceto o japa, riu.
— Nossa, professora... Eu só estava brincando – se defendeu o menino de toca vermelha.
— Então deveria estar num circo ao invés da sala de aula.
Todo mundo voltou a rir bem alto e a caçoa-lo. Yuri percebeu que a professora já estava ficando nervosa de verdade.
— E tire agora essa toca ou, se não, nem brincando fará a minha prova. – Ela voltou a distribuir as provas quando o ânimo da turma voltou ao normal.
II
Na casa de Benjamin.
— Bom dia, filho – cumprimentou Manuel ao entrar no quarto do caçula. Ele tinha acordado o menino ao bater na porta antes de anunciar sua entrada.
— Oi, pai. Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele, estranhando o fato do doutor acordá-lo antes de ir trabalhar.
— Na verdade, não... Estou passando para dizer, primeiramente, “bom dia” e, depois, para dar um presentinho pra você na véspera do seu aniversário já que, amanhã cedo, ainda estarei no meu plantão de vinte e quatro horas e não quero ser um dos últimos a cumprimenta-lo.
O homem, de meia idade, vestia roupas sociais: calça e sapatos escuros, camiseta branca com listras azuis, que ornavam com a sua também gravata azul. Ele se sentou ao pé da cama e mesmo por cima do edredom massageava a perna não engessado do menino.
— Poxa, pai... Tu já sabe que não precisa me dar absolutamente nada. Só tenho dado muita dor de cabeça para você e para a mãe.
— Que otário, filho! Eu também já tive dezoito anos, tu sabias?
— Sério? É que, às vezes, os pais já parecem ter nascido adultos e pais.
O doutor, rindo, tirou do bolso direito da sua calça um cartão envelopado.
— Imagina o que possa ser esse cartão, filho?
— Claro que não! Me conta logo pra eu não morrer de ansiedade.
O doutor Manuel deu olhada de esgueira para o filho e sorriu ao dizer:
— É vale intercâmbio com duração de dois meses em Nova Iorque, son. (Son = filho)
— Caralho, é sério mesmo?
— Caralho, é verdade, porra— brincou o médico, sendo degolado pelo abraço do filho. – Eu sei que você sempre quis viajar sozinho por outro país e está foi a oportunidade que eu e sua mãe vimos para que realizasse o seu sonho. O intercâmbio começa uma semana antes do natal e acaba no começo de fevereiro de 2016, daí você vai ter mais três semanas livres para viajar pelos Estados Unidos, de carro, de ônibus ou de avião, tu vais poder escolher o que vai querer fazer.
— Porra, pai, isso é demais! É muito sério, eu nem sei como te agradecer – confessou ele, ainda apertando o peito de Manuel com aquele abraço de urso.
— Acho que pode convidar o japa para ir com você se quiser e os pais dele autorizarem.
Ben encheu os olhos ao imaginar ele e seu namorado por tanto tempo a sós e, ainda por cima, em outro país. Aquilo seria perfeito. Eles não precisariam temer a reação de ninguém ao andarem abraçados, de mãos dadas e se beijando livremente em todos os lugares.
— Eu vou ver com o Yuri se ele topa viajar comigo, pai. Acho que seria muito massa poder aproveitar aquela cidade com o pé no saco, que é o oriental.
— Pé no saco? Sei...
Ben ficou corado naquele minuto e soltou o seu pai, agarrando aquele envelope escrito:
Travel and study a new language while you and your friends enjoy the city which never sleep.
This is yours and it is our pleasure ensure you the best moments!
Lillie Internacional School.
Office from New York.
Tradução livre da frase: Viaje e estude uma nova língua enquanto você e seus amigos aproveitam a cidade que nunca dorme. Isto é seu e é nosso prazer assegurar a você os melhores momentos. Lillie Internacional School. Escritório de Nova Iorque.
— Ah, Ben, antes que eu me esqueça, eu adorei a sua atitude de escolher um curso que realmente queira fazer ao invés daquilo que eu ou sua mãe desejávamos para você e o Mig. Eu acho muito bacana o curso de Direito e sei que vai se destacar na área assim como a mãe do Yuri.
— Poxa, pai, eu peço desculpas por ter escondido de todos a minha primeira opção de curso no vestibular da UFSC deste ano. Eu não havia contado nem para o Yuri e nem para a Báh. Estava esperando a oportunidade certa para fazer isso.
— Eu fico um pouco de cara por não ter me contado antes, mas eu respeito e apoio a sua escolha.
— A mãe e a avó foram as que me pareceram contrárias a minha escolha.
— Tu conheces muito bem a Marisa e sabes que ela adora fazer um drama, ainda mais, agora, que está grávida novamente. Ihhh, eu que tenho que aguentar isso tudo pela terceira vez na minha vida... Você e o seu irmão só me dão buchas pra colocar nos seus devidos lugares. E a sua avó? Essa velha tem sido um problema pra mim desde a primeira vez que dormi com a sua mãe e ela ficou sabendo por uma tia da Marisa, que nos pegou com a boca na botija no quarto dela.
O menino de olhos verdes riu ao perceber o tom irônico na voz do seu pai e não resistiu a graça, embora preferisse ocultar da sua imaginação a parte dos dois transando no quarto da sua mãe. Era por causa dessa próxima relação que mantinham que o de olhos verdes não queria precipitar as coisas e revelar a sua relação com o Yuri.
— Agora, pelo que estou vendo seu irmão está namorando a Ronsoni, não é?
— Hãn? A Bárbara?
— Ah, Ben... não venha com essa! Eu não sou nenhum bobo, não. Eu percebi como anda o climinha entre aqueles dois. Se não for namoro, é uma... como é mesmo que vocês, jovens, dizem hoje em dia? Hmm... uma pegação... um esqueminha de foda.
O menino não teve como não dar risada daquilo, o que só entregou ainda mais a situação do irmão. Manuel, ao contrário da esposa, usava as mesmas brincadeiras e palavrões dos seus filhos para se aproximar dos dois meninos. Marisa, por sua vez, não tolerava aquele tipo de vocabulário dentro de casa e, por conta disso, discutia com o marido toda vez que ouvia-o agindo como seus filhos adolescentes.
— Quem não vai gostar nenhum pouquinho disso será a Marisa que volta e meia sempre se envolve em alguma discussão com a família da Paula. Eles não param de usar a gravidez da menina como desculpa para nos infernizar. Ontem mesmo, o irmão dela disse que vai vir aqui em casa pessoalmente resolver as coisas com o Mig. Ele disse mais, disse que na família dele o cabra é macho ou perde seus bagos.
O doutor Manuel não resistiu e principiou a rir antes de que o filho fizesse o mesmo. Benjamin nunca tinha parado para pensar na tarefa difícil que seu pai tinha, a de manter a família Belucce Furlanetto de pé.
— Você e o seu irmão tentam me esconder as coisas, mas não sei o porquê. Eu não estou aqui para apontar erros, a não ser que o tenha que fazer para seu próprio bem, é claro! Eu não quero ver os meus garotões caindo nos buracos que eu ou sua mãe já caímos. Não sou um pai perfeito, eu sei, mas tenho que dizer que enquanto estiver vivo, estarei bem aqui para ouvir vocês desabafarem.
— Eita, pai. Eu te amo demais e não sabe o bem que nos faz ter a certeza que temos um pai e uma mãe de verdade. – Ben estava com os olhos cheios de lágrimas assim como os verdes de Manuel.
O médico beijou a testa do filho e o pôs sob seu abraço aquecido. Enquanto acariciava os cabelos lisos e já compridos do caçula, ele dizia:
— Já está na hora de alguém dar uma passada na barbearia, hein... Embora eu ame os meus filhos quando estão com as madeixas na altura das orelhas.
Ben soltou um riso abafado, já que seu rosto repousava na barriga, um pouco globosa, do seu pai, e com os olhos fechados se sentia protegido por alguns instantes.
— Benjamin, tu não quer me contar alguma coisa estranha ou que não tem te deixado pra cima ultimamente?
— Hãn? – O menino se afastou abruptamente do pai e aquilo mexeu com o homem de meia idade. – Como assim, pai? Táis tolo¹? (¹. Gíria dos manézinhos da ilha de Floripa – seria algo como: Tá de sacanagem com a minha cara?).
— Filho, eu tenho sentido você meio distante e perdido a meses, só que não tenho certeza sobre o que está te incomodando. Primeiro, eu achava que era algo sobre você a sua amizade com o Yuri – o menino sentiu seu coração disparar e as suas mãos começando a tremer levemente –, depois, achei que era algo sobre a Marisa te obrigar a se matricular e a morar em Blumenau, depois, a morte de um dos seus melhores amigos, agora, tudo se misturou pra mim.
“– Pai, tu tens toda a razão, eu tenho algo que estava com muito medo te contar... eu descobri a pouco tempo que sou gay e que amo o meu melhor amigo, que eu amo o Yuri e que preciso dele para ser feliz”, isso foi o que ele pensou ao invés de falar.
O menino continuava calado e isso intrigava o pai que ansiava entender a situação embaraçosa do filho. Ele queria que seja lá o que fosse, que ele se abrisse agora e que acabasse com as suas dúvidas de uma vez.
— Eu te amo, menino... e quero sempre que conte com meu amor para superar qualquer dificuldade mesmo que eu precise de algum tempo para pôr as ideias em ordem. Queria que, pelo menos, se sentisse à vontade com a Bárbara, o Yuri ou quem sabe com o Joshua e se abrisse com algum deles para não sofrer nada sozinho, o que seria bem pior na minha opinião. Não precisamos passar por nada, sozinhos, neste mundo, nada mesmo, meu amor. Veja só, o Yuri tem a Yumi. A Bárbara tem a Fernanda e você.
O garoto queria chorar e pôr tudo para fora de uma vez por todas, mas ao invés disso:
— Ok, pai. Se eu tiver alguma coisa que esteja me incomodando, vou procurar algum dos meus amigos. Juro que não vou querer sofrer tudo calado e muito menos cometer um suicídio por exemplo.
— Nem fale sobre suicídio... Porque eu já perdi uma namorada no tempo da faculdade após ela se suicidar. Eu levei anos até superar aquela fase e encontrar a sua mãe. Não sei o que faria se tu ou o Miguel caíssem nessa bobeira, provavelmente, iria logo atrás.
A conversa foi interrompida quando a porta do quarto do Ben foi batida e aberta em seguida. Era a sua tia, que ficou horrorizada ao interromper o pai e seu filho num diálogo. A mulher não tinha a menor ideia de que o cunhado ainda estava em casa...
— Me desculpe, Manuel. Eu juro que não tinha a menor ideia de que ainda estivesse aqui. A minha mãe me garantiu de pés juntos que viu você sair pela porta da cozinha logo após a Marisa ir dar aula na UFSC.
— Não precisa se desculpar, não, Isadora. Eu já estou bem atrasado para ir ao hospital, se eu demorasse mais dez minutos já chegaria atrasado para a minha primeira cirurgia do dia. – Manuel olhou para o relógio de pulso e levou um baita susto ao ver que já se passava das nove e meia. – Depois, podemos conversar mais um pouquinho, meu garotão. Como só vamos nos ver amanhã, lá pelas duas horas, no seu churrasco de aniversário: Parabéns, feliz aniversário. Eu te amo pra valer e quero que Deus lhe dê muitos anos de vida e cheios de conquistas belíssimas.
Isadora se emocionou ao ver o Manuel abraçando seu filho e, novamente, beijando sua testa e acariciando os seus cabelos castanhos claro.
— Tchau, Isadora – despediu-se Manuel, passando pela porta entreaberta do quarto.
Benjamin se levantou para lavar os olhos e o rosto, ambos estavam vermelhos como um morango. A tia do rapaz disse que tinha vindo pedir para ele descer e tomar o seu café da manhã porque ela e sua irmã logo lavariam as louças e recolheriam a mesa.
Já quando estava sozinho, tomando o seu banho de chuveiro, o menino de olhos verdes viu o tamanho da burrice ao ter perdido aquela perfeita oportunidade de se abrir com o pai e deixar todo aquele medo para o passado. Talvez devesse ter agido por impulso assim como fez o Yuri no café da manhã com sua mãe no dia de ontem.
E por pensar no namorado, ele ainda queria pedir desculpas por ter sido um ogro ao telefone no outro dia. Sabia que para o Yuri recusar mais de cinco chamadas suas, esse era um sério motivo de preocupação. Temia que o oriental lhe ignorasse assim como fez na manhã do velório do Pedro.
III
Assim que terminou a prova de bioquímica, quase perto do meio dia, Yuri desceu as escadas do centro de estudos da sua faculdade como um gavião em caça e a sua mira era uma pessoa em específico.
Assim que visualizou a sua caça, no estacionamento da faculdade, ele acelerou o passo, dando uma corrida no trajeto final para então...
— Seu filho da puta, infeliz... achou mesmo que eu iria deixar baixo a sua fofoca e brincadeirinha na hora da prova?
Antes do Edghar poder retrucar qualquer coisa, o rapaz levou um soco nos lábios vindo com a força de um dos punhos cerrados do japonês. O Ed cambaleou contra o capô do seu próprio automóvel e para cima de uma amiga e de dois amigos que antes da abordagem do japa conversavam normalmente com ele.
Dois desses amigos do rapaz, que também eram da sala do Yuri, partiram para cima do menino. Um deles acertou um soco no meio do estômago do japa enquanto o outro deu um chute na sua cara após se abaixar para proteger a barriga.
Muito sangue escorreu pelo recém quebrado nariz do Yuri. Mas quem disse que o oriental deixou baixo? Ele se levantou e deu outro soco no Edghar, já que considerava aquele a sua única vítima. O seu soco atingiu bem a região do pescoço do moleque, que começou a ficar com dificuldade para respirar e uma dor lazarenta.
— Pare, Yuri – berrou a Fernanda ao vir correndo de onde estava com seu novo namorado, um calouro da sala do Joshua. Por sorte, o próprio Precoce estava com ela e avançou contra os dois amigos covarde do Edghar.
— Seus filhos da puta, por que não batem em mim também? – O menino estava possesso, que acabou jogando sua mala contra eles e acertando o rosto da garota que estava com eles.
Enquanto isso, a Fernanda abraçava o Yuri e tentava ver os danos no seu nariz como se já tivesse estudado tudo sobre alguma lesão mecânica na face mesmo estando apenas na segunda fase de medicina.
O segurança de patrimônio da UFSC, que estava fazendo a sua ronda perto dos carros, veio correndo em direção a eles, assoprando um alarme de apito, totalmente desengonçado.
— Parem já onde estão, seus pivetes... – um dos agressores de Yuri conseguiu sair correndo enquanto o homem pôs contra o carro o Edghar, a sua amiga, que se recuperava após ter sido atingida pela bolsa do seu calouro, o outro amigo do Ed, o namorado da Fernanda, a própria menina, o Yuri e o Joshua.
Nesse momento, a namorada do Precoce se aproximou. Ela também viu de longe aquela agressão, mas ao contrário da Fernanda e dos outros dois meninos, a Melanie não saiu correndo em direção ao estacionamento.
— Caralho, este japonês do caralho vem me agredir e você ainda quer nos prender por isso?
— Pivete, não quero saber das suas desculpas ou de qualquer outro de vocês. Vocês vão poder explicar disso tudo para o diretor do CCS (Centro de Ciência da Saúde), só que enquanto outros colegas meus não vêm aqui para me dar um reforço até a direção, vocês vão permanecer aqui. E aquele outro pivete que escapou vai ser punido, afinal temos câmeras por toda a UFSC e saberemos quem ele era e se era aluno da universidade ou não.
— O que você estava pensando, Yuri? – brigou Fernanda, usando a sua blusa de manga longa para estancar o sangramento nasal do amigo. Ela realmente estava furiosa, que nem se quer pensou em xingar o Edghar também.
— Eu quero que diga pro filho da puta do Fred, que a corda que está no pescoço dele vai ser puxada em breve. Não tenho medo daquele loiro dos infernos. Quero quebrar a cara dele novamente assim como já fiz um tempinho atrás – ameaçou o japa.
A Fernanda começou a rir do nada, chamando a atenção das outras pessoas.
— Do que está achando graça, Fer? – perguntou Joshua, abraçando a garota.
— É que... É que... – E ela não parava de rir. – Este puto do caralho me deixou nervosa pra valer e nunca fico tão séria na vida, e pra piorar, vamos ser, no mínimo, suspensos no fim de um semestre.
O namorado da loira se rachou depois daquilo.
— Pare com este drama todo, Fernanda. Que a gente sabe que você e o japa têm as melhores notas da sala e que com certeza já foram aprovados na maioria das matérias – cutucou Melanie, sendo fuzilada com os olhos da garota.
— Ainda não me disse o que estava pensando ao fazer toda essa merda, Yuri – voltou a Fer, toda séria.
O garoto revirou os olhos, recusando-se a responder qualquer coisa. O Yuri perguntava-se se todos aqueles ali, Joshua, Melanie e o namorado da Fer já sabiam que ele estava apaixonado por um homem.
De certa forma, o japa ficou envergonhado com a situação. Uma coisa era a Bárbara e a Yumi saberem da sua relação com o Benjamin, outra, bem diferente, era todos os seus amigos de infância saberem daquilo. E, claro, que sabia que quem surtaria ainda mais com a situação seria o Ben, que ainda era o mais fechado dos dois.
IV
Benjamin dormiria até bem mais tarde, na manhã seguinte, do que conseguiu dormir se a sua mãe, avó e tias não entrassem do nada em seu quarto cantando parabéns e trazendo um bolo de panificadora com algumas velas acessas nas mãos.
— Feliz aniversário, meu filho... – gritava Marisa enquanto Ben balbuciava algumas coisas ao ser agarrado por ela e a se sentar à forças na cama e, para piorar, um dos seus priminhos gêmeos pulou sobre a sua perna engessada – o que levou ele a xingar um monte. – Espero que a sua vida seja repleta de felicidade, de conquistas, de muito amor ao lado de sua futura esposa.
Calma! Calma! Calma! Futura esposa, mãe? Ah, vá se foder, né! Eu agradeço as palavras, porém podia ter cortar essa única parte, não é mesmo?
— Obrigado, pessoal... Obrigado... agora, me deem de presente mais algumas horas de sono? – pediu sem notar a agressividade em sua voz.
— Mas meu neto, já se passa das onze horas da manhã... Eu e sua mãe já fomos ao mercado para comprar todas as carnes e bebidas para o seu churrasco. Daqui a pouquinho, você vai começar a receber os seus avós paterno e toda o resto da família do seu pai e da nossa.
— Além é dos seus próprios amigos – emendou Marisa, forçando um sorriso, já que sabia que aquilo não era o que ele desejava: receber tantos familiares, só que ela exagerou na hora de fazer o convite e chamou muito mais do que a metade da família Belucce e da, Furlanetto.
— Pegue esse pedaço de bolo, meu amor – disse a Isadora após cortar um pedaço do bolo de chocolate e, praticamente, obrigar seu sobrinho a comê-lo.
— Filho, eu tenho um presente para você... – revelou Marisa, exibindo um envelope retangular, imenso, nas mãos.
— Ai, ai, ai... O que será? O que será? – provocou a outra tia do de olhos verdes.
Ele mordeu os lábios e levantou as sobrancelhas. Estava um pouco nervoso, embora pelo tamanho do envelope já conseguia suspeitar de era...
— Um carro? – gritou Ben ao abrir o envelope e ver uma chave de papel imensa escrita: Parabéns por seu dia e como prova do meu amor imenso, eu concedo seu desejo: seu primeiro carro. Papai e mamãe. Essa era uma frase padronizada pela concessionária. – É sério isso, mãe? Caralho! Você e o pai são demais mesmo.
— Olha a boca, menino – advertiu a avó com a testa franzida.
— Filho, na verdade, este se trata apenas de um presente meu para você. O seu pai foi quem comprou o pacote do intercâmbio. Quero que saiba que por rigorosa e chata que posso ser, às vezes, (– Sempre), eu amo você e os seus irmãos.
Ela abraçou o filho com carinho, e o menino abraçou-a com o mesmo carinho e atenção.
— Poxa, eu também te amo... Mesmo que nem sempre demonstre isso, mas, poxa... Tu és a minha mãe e não estaria aqui sem a tua ajuda. – Eles riram daquilo. O menino só conseguia dizer aquelas palavras e, olha que para dizer um te amo, ele se esforçou bastante.
O telefone do Benjamin começou a tocar no meio daquela conversa toda, era o seu pai ligando... Foi aí, que o rapaz percebeu na tela do telefone algumas chamadas perdidas do seu melhor amigo. Ele já tinha recebido os “meus parabéns” pelo telefone do namorado assim que viraram a noite passada conversando.
O Yuri contou tudinho sobre o que tinha acontecido naquela sexta-feira. O que deixou o Benjamin furioso como o japa já sabia que aconteceria, mas o que deixou o Furlanetto com mais raiva foi o fato de o namorado enfrentar todo aquele preconceito sozinho.
Uma coisa deixaria o menino encabulado naquela data tão especial, e seria ter que receber todos os melhores amigos na sua casa, fingindo de que nenhum deles sabia qualquer coisa a respeito do seu namoro com o Yuri.
— Vamos te dar licença para falar com seu pai – informou Marisa, se retirando do quarto junto com todo o resto do pessoal.
“– Happy Birthday to you... happy Birthday to my son... happy birthday, little Ben...” — O seu pai cantou todo desafinado, mas o gesto encheu o menino de alegria.
— Orra, pai, muuuuuuuito obrigado pela ligação e pela cantoria. Se estiver me ligando de dentro da sala de cirurgia, tenho certeza que o coração do seu paciente já voltou a bater sozinho tamanha frequência desordenada da sua voz.
O homem do outro lado da linha disparou a rir e contou a piada para alguns colegas seus do centro cirúrgico, que também acharam graça do que o aniversariante dissera.
— Tu és mesmo um palhaço, né, filhão? Vou te contar, hein... Não respeita seu pai de meia idade mesmo – brincou Manuel, rindo ainda mais em seguida.
Ben ouviu uma porta se fechar lá onde seu pai estava, achou que provavelmente, ele tinha ido para um lugar mais reservado.
— Eu te amo demais, Benjamin Furlanetto Belucce... Eu te amo demais! Muito obrigado por simplesmente ter vindo com tudo para este meu mundo e da Marisa. Hoje, faz dezenove anos que eu também estava dentro de uma sala de cirurgia e fui avisado de que meu caçula tinha nascido com quase três quilos e cem gramas, com o pipi pequeno e com bolinhas estratosféricas dentro daquele saquinho esbugalhado, com olhos grandes pra aquele cabecinha e verdes – eu e sua mãe apostávamos que nasceria com olhos azuis assim como os dela e os do Mig, mas, graças a Deus, puxou os meus, seu malandrinho.
Benjamin tinha percebido pela mudança de tom que seu pai estava chorando ao dizer todas aquelas palavras. Ele também não resistiu à emoção e começou a chorar. Até tinha deixado de lado o prato com o pedaço de bolo que estava comendo enquanto conversavam.
— Tenho certeza que quando estava para vir ao mundo, pedistes a Deus: – hei, eu quero ser um gatão como o meu pai e o meu irmão. – Ele fungou forte do outro lado da linha, e aquilo cortou o coração do Benjamin. – Estou ligando agora porque vamos entrar em uma cirurgia de emergência numa paciente idosa que está com embolismo cerebral após ter infartado. Por isso, não tenho a mínima ideia se vou chegar a tempo para comer alguma carne com você e o seu pessoal.
— Pode relaxar, doutor Manuel, a gente vai levar a festa até altas horas da madrugada.
— Se a dona Marisa não empatar o teu lado, é claro! – brincou Manuel, rindo e fazendo o Ben também rir.
— Assim é que eu gosto: ver a dona Marisa toda nervosa – brincou o de olhos verdes.
— Olha, olha, moleque... Ela é a minha companheira há vinte e cinco anos e, ainda por cima, está carregando no seu ventre o meu filho ou a minha primeira filha... Não vai infartar ela, hein.
— Quem sabe tem mais sorte e recebe um par de gêmeos?
— Sai fora, pelo amor de tudo nesta vida... Já não estou mais conseguindo sustentar dois marmanjos, imagine só, mais um casal? Eita— brincou o médico.
Os dois gargalharam mais um pouco.
— Filhão, agora, eu preciso desligar, tá?
— Tá bom, pai – concordou, se levantando e indo em direção ao seu armário de cuecas limpas.
— Não se esqueça de que o papai te ama.
— Ah, só deixa eu te dizer mais uma coisa, por favor, pai.
— Mas é claro. Pode dizer, filhão. O que foi?
— É sobre o que me disse ontem à tarde, eu realmente preciso te revelar uma coisa que tenho escondido há alguns meses de você e da mamãe.
— Ah é? — perguntou Manuel, fazendo uma breve pausa para respirar. – Vamos lá, coragem... e me diga...
— É... pai... – pausa –, eu.. eu... – pausa acompanhada de uma respiração forçada. – Pai... eu quero que saiba que algo mudou na minha vida... e aconteceu de repente... hmmm... – Ele engolia a sua saliva com dificuldade como se tivessem trancado a sua garganta.
— Vamos lá, Ben... O que precisa me contar? O que mudou recentemente? Não me deixe ainda mais preocupado.
(...)
Fale com o autor