Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
12 Capítulo doze - Não somos mais amigos?
Notas iniciais
Os outros dias na casa do amigo foram melhores. Pedro cumpriu com sua promessa e não usou qualquer tipo de drogas. Sabrina não deu folga para Benjamin em nenhum daqueles dias. O rapaz sabia que ela tinha se apaixonado por ele. Ela tentou convencê-lo de se mudar para Curitiba e se matricular em um semiextensivo na capital paranaense. Só que sabia que a Bárbara lhe mataria caso topasse aquilo.
Depois de tanta insistência, Ben prometeu prestar o vestibular na faculdade da garota e, se caso fosse aprovado ali e não na UFSC, sem dúvidas, se mudaria para lá em 2016. O menino de olhos verdes foi obrigado a concordar consigo mesmo que estava começando a ficar interessado pela loira. Pedro ao ouvi-lo confessar aquilo não deu mais trégua e zoou com a cara dele pelo resto da semana.
Ben teve que lidar com a cólera da sua mãe quando ligou na sexta, não havia ligado nenhuma vez para os pais desde que chegou a Curitiba. Soube através dela que a irmã do japa tinha ido visitar os seus pais na noite passada, assim que chegou a Florianópolis, com o irmão. Marisa não escondeu do filho a reação de surpreso do amigo ao saber que estava na casa do Pedro.
Quando o despertador do celular de Benjamin tocou pela terceira vez naquela manhã de sábado, ele resolveu se levantar. Os cabelos loiros da Sabrina estavam sobre o seu peito descoberto. A moça abriu seus olhos azuis e beijou um dos mamilos do rapaz.
– Bom dia, princesa. Teve uma boa noite?
– Sim, Ben. Foi uma noite maravilhosa, mas agora ficarei querendo mais – respondeu com uma voz manhosa. – Você entrou tão rápido na minha vida e agora vai deixar um buraco muito grande nela.
Aquelas palavras cortaram o coração do menino de olhos verdes. Deu alguns beijos repetidos na menina e a abraçou bem forte. Não queria ferir o coração da Sabrina e nem de ninguém mais. Imaginava que terminar um namoro com alguém não devesse ser algo muito fácil de fazer. Esta era a principal razão para que Benjamin nunca assumisse um namoro sério.
– Você não vai ficar pegando as meninas de Floripa, né? Prometa pra mim que voltará para morar aqui no ano que vem. – Ela mantinha suas sobrancelhas levantadas. – Posso ir te visitar no feriadão do sete de setembro?
Benjamin engoliu em seco, quer dizer que ela já estava tomando aquilo como um namoro sério? Agora, podia imaginar como Yuri se sentiu ao saber que a Bruna lhe considerava seu namorado antes mesmo de ele aceitar.
O rapaz não respondeu a pergunta e desviou seus olhos para longe do rosto da loira.
– Me diga, por favor – insistiu ela.
– É... é… seria legal te receber lá em casa. A minha mãe adoraria te conhecer e o meu pai também. Ele é bem maneiro, acho que tu vai gostar. Em setembro, nós já estaremos quase na primavera, então o clima da cidade deverá estar mais agradável para irmos à praia.
O menino sorriu meio sem graça e ela se afundou no peitoral dele. Benjamin mordeu seus lábios de canto e pediu licença para ir ao banheiro. Lá, começou a se encarar no espelho e a soltar palavrões contra si mesmo – tudo porque deixou esta relação incipiente chegar a outro nível.
Meio dia, Benjamin e Pedro já estavam dentro do avião, que faria escala em Porto Alegre antes de voltar para a capital catarinense. Quando estava prestes a embarcar, o rapaz ligou para seus pais e avisou o possível horário em que chegariam a Floripa, isso lá pelas quatro e meia da tarde. Uma vez que para completarem a escala, os dois precisarão esperar uma hora e meia no aeroporto de POA.
Quando Pedro ligou para sua mãe, a mulher só faltou soltar fogos de artifício ao saber que o menino, enfim, estava indo visitá-los. Ben pensou na decepção que ela teria se descobrisse o que Pedro andava aprontando enquanto pensava que o filho estava apenas estudando e curtindo uns rabos de saia aqui e outros acolá.
Benjamin teve que escutar seu amigo contar tudo o que a Patrícia revelou a ele sobre os sentimentos da Sabrina. Nada do que ela mesma já não tenha revelado ao Ben; que estava apaixonada, que transferiria sua faculdade para Floripa ou que faria o vestibular da UFSC no final do ano – tudo para poder ficar ao lado do menino de olhos verdes.
Ele considerava aquilo um absurdo, já que ela estava no segundo período de medicina na UP e ficar longe dos pais por alguém que mal conhecia era totalmente insano. Se não pudesse corresponder ao sentimento da garota? Se ela partisse seu coração morando a trezentos quilômetros de casa por culpa dele?
Ao descerem em Porto Alegre, os dois foram comer alguma coisa em um restaurante do aeroporto, e eles encontraram uma velha amiga de infância, a Giselle, aquela mesma que Ben já ficou no passado e que sua amizade jamais voltou a ser a mesma – e olha que ela continuava a morar em Floripa.
A moça nasceu no México, mas seus pais se mudaram para o Brasil quando ela ainda tinha um ano de vida. Seus amigos sempre a acharam muito parecida com a atriz Penélope Cruz. Ela estava acompanhada de um amigo, pelo menos foi assim que o apresentou.
– Sumiste completamente de Floripa, né, Pedro? Perguntei sobre ti estes dias para o japa e também para a Fer. – Benjamin era nascido e criado na ilha da magia e mesmo assim, não tinha um sotaque tão manezinho quanto o da amiga mexicana.
– Faz um tempão que não voltava para lá e agora o Ben me convenceu. Ele passou esta última semana lá em casa. E vocês estão indo aonde?
Giselle estava ignorando totalmente o menino de olhos verdes, era como se ele não estivesse ali. Benjamin já esperava aquela reação, por isso, não trocou uma palavra com ela.
– Eu e o Heitor estamos indo à Argentina. Temos apenas mais uma semana de férias para curtir, então bora lá.
– Tu não vai ao aniversário da Báh? – perguntou Benjamin.
– Claro que vou. Nunca perderia a festa da minha quiridá Báh. Ficaremos lá só até a sexta e o aniver dela será no sábado, né? – O garoto percebeu que ela respondeu aquilo com má disposição. Por este motivo, só assentiu com a cabeça e voltou a comer, olhando as horas no telefone.
– Estás gostando da faculdade e da nova cidade?
– Demais. Curitiba é uma cidade muito fria e com pessoas carrancudas, só que o pessoal da minha faculdade é muito unido. Sinto falta das praias de Floripa e de todos vocês, mas como só passei na UFPR não tive muita escolha.
– E tu, Ben? Estás no cursinho ainda?
Vai se foder, guria. Tu sabe que estou padecendo naquela porra e, agora, vem me perguntar isso? Só pode estar zoando com a minha cara de trouxa.
– Este ano, ele passa. Tenho certeza disso. Ah, talvez Ben se mude para Curitiba, aí vamos poder dividir um apê lá.
Ben olhou de imediato para o amigo. Quando foi que eles acertaram aquilo? Por que se disse alguma coisa ao Pedro, isso só podia ter acontecido quando estava muito bêbado ou enlouquecido. Jamais dividiria um apartamento com o amigo. Ainda mais depois do que descobriu nesta semana.
Pedro fez muitas gracinhas para provocar Benjamin assim que embarcaram no voo para Florianópolis. Ele sabia o que tinha acontecido entre o amigo e a mexicana no ano passado e, por esta única razão, não perderia a oportunidade de uma provocação gratuita.
Assim que o avião começou a sobrevoar a transição do continente para a ilha, Benjamin agradeceu, não aguentava mais estar dentro daquele avião. Depois de posarem, Pedro reconheceu o pai do amigo esperando junto à saída da sala de desembarque.
– Aquele lá é teu pai, Ben – indicou.
Manuel abraçou o filho e depois o outro menino.
– Pedrão, como tu emagreceu, guri? Não me diga que não está comendo mais?
– Lá vem, o doutor Manuel... Toda vez que me vê diz que estou emagrecendo. Agora entrei na academia para ficar mais encorpado assim como o Benjamin.
– Este ano, Benjamin se afastou bastante da musculação, daqui a pouco, ele engorda igual a uma baleia. O bom é que já estamos dentro do oceano.
Os dois riram exceto Benjamin, que fez uma cara horrorosa para o pai e quando estavam entrando no carro, disse:
– Eu faço natação e cuido do que como. Tu sabe bem disso, pai.
– Relaxa, Ben. Seu pai estava só zoando com a sua cara.
– Tu e o japa continuam a competir pelo clube?
Ben olhou seu amigo através do retrovisor do carro e respondeu:
– A Báh também continua. Em novembro, vamos competir na intraestadual catarinense lá em Joinville. Vou voltar a pegar firme nos treinos a partir do próximo fim de semana.
– Me avisa quando for que irei assisti-los.
– Desculpa atrapalhar o papo de vocês, mas preciso saber se tu vai lá para casa ou quer que eu te leve para a casa dos teus pais?
– Não, não... Preciso ir à casa dos meus pais. A minha mãe está superansiosa para me ver.
Quando Benjamin entrou em casa, sua mãe correu para agarrá-lo. Quem visse a cena pensaria que os dois não se encontravam há anos. Miguel não estava em casa. Marisa disse ao filho que ele estava viajando com a Paula para Balneário Camboriú.
Pelo jeito todos os seus amigos que estudam na UFSC estavam aproveitando para viajar naquela última semana de férias que estava para começar. Ben foi obrigado a contar aos seus pais tudo sobre a viagem durante o café da tarde. Só ocultou o fato de Pedro estar consumindo cocaína.
Marisa vibrou ao saber que o filho tinha arrumado uma menina para amar, claro que ela exagerou. Ele caiu na besteira de dizer o quanto a Sabrina sofreu com a sua partida. Ela garantiu que se a moça viesse visitá-lo em Setembro, poderia ficar no quarto de hóspedes sem problemas.
No momento em que Ben se preparava para sair da mesa, sua mãe o golpeou com seu anúncio:
– O Yuri e a Yumi virão jantar aqui nesta noite.
O menino de olhos verdes ficou paralisado junto à mesa, sem dizer nada. Achava que o japa só tinha aceitado o convite por estar pensando que ele continuava em Curitiba, mas quando soubesse que o rapaz já tinha retornado, não viria mais.
– Eles vieram aqui ontem como te disse mais cedo ao telefone. Yuri entregou a Yumi o meu convite para que ela viesse me visitar quando passasse em Florianópolis e ela veio mesmo. Achei isto muito generoso da parte deles. Hmm... Acredita que ela me confessou que escolheu a carreira de médica para poder seguir os meus passos? Que eu sou um espelho de dignidade a ela?
Ben riu nervosamente. Não sabia como se comportar.
– E claro que perguntaram de ti e do teu irmão. Como sabia que estaria aqui hoje à noite, os convidei para se juntarem a nós em um delicioso jantar. Também mandei convidar a namorada dele e os pais dos dois.
O quê? A namorada dele? Tu nem conhece a menina. Que porra, mãe!
– E ele aceitou?
– Ué, eles dois, sim. O Yuri me disse que a namorada estaria em um casamento ou algo do tipo, não me recordo mais, e seus pais estão novamente viajando para Europa. Só aqueles dois coitados ficam aqui no Brasil enquanto a Nara e o Yuri-pai viajam por todo o mundo.
– Não seja mentirosa, Marisa – atrapalhou Manuel. – Ele nos disse que a Nara lhes convidou para viajarem juntos, mas o japa não aceitou porque queria resolver um problema aqui. E a Yumi disse que tinha feito planos para ficar com o irmão.
– Eu sei disso, pai – garantiu Marisa –, mas eles sempre viajam enquanto seus filhos ficam se matando na faculdade. Este final de ano, vamos ter que tirar férias do hospital e pegar os nossos filhos para passar o natal e o ano novo quem sabe nos Estados Unidos?
– Isto vai ser difícil se depender da minha tabela de plantões.
– Não quero saber, sua família tem que vir em primeiro plano sempre, Manuel...
– Chega de brigar por causa de uma viagem. Me diga qual é o horário que eles vão chegar porque talvez não estarei em casa.
– Mas o quê? Aonde tu vai hoje à noite?
– Mãe, eu tinha combinado de sair com o Pedro e mais alguns amigos – mentiu descaradamente.
– Tu ficou uma semana inteira com ele e agora vai trocar um jantar com tua família e teus melhores amigos de infância? Mas só sobre meu cadáver.
– Benjamin, tua mãe está certa. Quero falar a sós contigo lá no teu quarto. Agora! – ordenou. Isso fez o coração do menino congelar. O que seu pai queria conversar a sós?
O menino seguiu seu pai escada acima em direção ao seu quarto e depois que a porta foi fechada, Manuel o fez sentar de frente para ele. Benjamin puxou a cadeira junto à mesinha do computador enquanto seu pai estava na cama.
– Já queria falar contigo sobre isso há alguns dias, mas de agora não pode passar. Pode ser sincero com teu pai. Nunca te julgarei ou a qualquer outra pessoa.
Ben franziu a testa e sentiu seu estômago pegar fogo.
– Por que tu e o Yuri não estão mais tão próximos quanto antes? A nova namorada dele tem alguma coisa a ver com essa história? Ela tem ciúmes da velha amizade de vocês?
Ele não acreditou que seu pai estava lhe perguntando aquelas coisas. O que podia dizer sem que soasse como um mentiroso? Mesmo sem escolher ao certo as palavras, decidiu responder para que seu pai não desconfiasse de nada.
– Bem capaz. Quero dizer, na verdade ela é bem ciumenta, sim. Mas eu nunca troquei nenhuma palavra com a guria. Acho que a vi só uma vez na vida. Eu e o japa brigamos uns dias atrás e nos afastamos um pouco. Acho que ainda nos consideramos bons amigos, às vezes, as pessoas não se sentem mais à vontade com umas com as outras. Entende, pai?
– Claro que sim, filho. Benjamin, vocês cresceram grudados. Ele passou no vestibular antes de ti, fez novos amigos, frequenta novas baladas e agora está namorando uma menina ciumenta. É normal que se sinta chateado e um pouco nervoso com isso. Algumas vezes, para não perder um bom amigo, fazemos sacrifícios.
Benjamin não desviou seus olhos do pai nem sequer por um segundo. Aquela conversa veio em uma boa hora e era melhor conversar com seu pai do que com sua mãe.
– Não precisa ficar com medo de perder esta amizade. Como sei que ela é verdadeira, tu mesmo morando lá em Curitiba, como disse que poderá fazer caso não passe aqui, nada poderá pôr um fim nela. Logo será a tua vez de desfrutar de novidades inimagináveis, conhecer pessoas incríveis e se apaixonar por alguém. Mas até lá, tu precisa se mostrar do lado do japa, afinal ele está passando por tudo isso no momento. Consegue me entender?
Manuel pegou na perna do seu filho. O menino estava sem reação e pensando nas palavras que escutou
– Entendo, sim, pai. Tu me disse tudo que precisava ouvir. Eu amo a minha amizade com o japa. Assim como não conseguiria viver sem ser amigo da Bárbara e do Arthur, não conseguiria viver sem a dele.
Os dois se abraçaram muito forte, Benjamin precisou conter as lágrimas e assim que seu pai se retirou do quarto, ele começou a chorar. Ele pegou o celular e ligou para a Bárbara.
A ruiva ficou arrasada por saber que Pedro estava metido com drogas e imensuravelmente feliz ao ouvi-lo dizer sobre a Sabrina. Pelo contrário do que imaginava, ela o incentivou a fazer um semiextensivo lá em Curitiba a fim de aproveitar a chance que a vida estava lhe dando para ser feliz.
Ela prometeu que iria visitá-lo na metade da semana, porque agora estava viajando para Foz do Iguaçu. Depois de meia hora de conversa, desligaram.
A mãe do Benjamin pediu para que ele fosse à Trattoria Campione, uma adega e restaurante finíssimo, ali mesmo no Jurerê Internacional, a fim de pegar as duas garrafas de vinho que seu pai encomendou na semana passada. O lugar só abria de noite, por isso saiu às 21:00.
Enquanto isso, sua mãe terminava de preparar o jantar. Ela estava fazendo lagosta, camarão, salada, espaguete à Carbonara (um prato bem italiano para agradar ao marido) e na sobremesa, serviria fondue de chocolate com morangos.
Como o jantar seria mais chique do que Benjamin esperava, antes de sair de casa voltou ao quarto para vestir outras roupas. Trocou a camiseta preta por uma camisa social de seda amarela listrada, o calção por uma calça Saruel jeans branca e o chinelo Havaianas por um sapatênis de camurça. Ele penteou seu topete repicado sem o fixador de cabelo e saiu de casa.
Enquanto dirigia pelas ruas, lembrava-se da conversa com o pai. Realmente tudo aquilo fazia mesmo sentido. A sua sorte era que poderia fazer alguma coisa diferente para mudar a situação dos dois amigos, já que o japa estava vindo jantar na sua casa daqui a pouco. Seus pais talvez tenham feito aquele convite de propósito, o menino sabia que eles faziam mesmo questão de que os dois continuassem a serem amigos.
No mesmo segundo em que Ben entrou na Trattoria, viu de longe o desgraçado do Frederico com seus pais. Se ele não estive naquele lugar, sem dúvidas, intimidaria o traiçoeiro. Deu as costas assim que o loiro lhe avistou. O sommelier atendeu ao jovem e o levou a adega para pegar as duas garrafas de vinho. Quando Benjamin saía da Trattoria, viu o loiro esperando por ele perto da saída, mas do lado de fora. Tentou ignorá-lo, mas em vão.
– Ué, Benjamin, é assim que tratas um velho amigo?
– Um velho amigo, porque amigos não jogam areia para cegar os amigos.
– Tu precisa reconhecer que não fui apenas eu que errei. Tu também me bateu, velho. Não quero ficar sem falar contigo. Tu é um dos meus melhores amigos.
– Frederico, não tô a fim de confusão aqui. Vou embora antes que a gente faça burrada e estrague a sua noite com seus pais e a minha com os meus.
Fred abriu os braços, como se dissesse que não estava lhe impedindo de seguir.
– E, o que tu tentou fazer com o japa foi malandragem. Dois bombadinhos para bater em um japonês? – disse Benjamin, caminhando em direção ao seu carro.
– Cara, ele veio encrencar com a gente. Não tenho culpa de ele ter me intimidado enquanto saía de boas da academia. Acho que manquei contigo, mas tu também mancou comigo. Porra, Ben!
– Falou, cara. – O menino de olhos verdes ignorou o outro, entrou no carro e saiu sem olhar para o loiro.
Esta noite promete. Encontrar este filho da puta e ainda ter que lidar com um amigo que nem deve estar querendo ver a minha cara, não é sorte. Porra, Benjamin... tu não se dá bem mesmo nesta vida.
Reconheceu o carro do japa assim que estacionou na rua dentro do seu condomínio. Respirou fundo e pegou o pacote com os vinhos. Antes de abrir a porta de casa, ajeitou seu topete – ele tinha se desajeitado com o vento que entrou pela janela aberta do seu carro enquanto dirigia.
Todas as luzes do andar debaixo estavam acessas e ele pôde ouvir o barulho de pessoas conversando, vindo do píer da casa.
– Ben! – gritou Yumi, se levantando e correndo na direção do amigo. Ela correu mesmo vestindo um curto vestido vermelho, que dava na altura das suas coxas grossas. Os dois se abraçaram e se beijaram no rosto. – Tu está mais gato ainda, Ben. Olhe só estes seus braços, estão enormes em vista de antes.
Ele sorriu para a menina e deu outro beijo nela.
– E nem preciso falar de ti, né, Yu? Além de linda, sempre inteligente.
Yuri se aproximou dos dois. Ben percebeu que ele estava muito envergonhado e estendeu uma mão para cumprimentá-lo. O menino de olhos verdes apertou a mão do japa e disse:
– E aí?
Yuri apenas sorriu e balançou a cabeça, querendo dizer que estava bem. Yumi franziu a testa. Ela sabia que os dois estavam brigados, só não sabia o motivo. Antes de ela dizer qualquer coisa, Marisa se aproximou.
– Havia muitas pessoas lá, filho? – perguntou, recolhendo as sacolas de papel com as garrafas.
– Não. Foi bem rápido.
Antes do jantar, Benjamin, Yumi e Yuri estavam sentados à mesa vazia. A menina contava todas as suas novidades ao amigo – inclusive que terminara seu namoro. Ben percebeu que ela ficou chateada ao falar daquilo, por isso imaginou que quem acabou o namoro não foi ela.
Ben e Yuri trocaram meia palavra em tempos, em tempos. Mas nada que qualquer desconhecido não perguntaria a outro.
Logo o jantar foi servido.
Yuri estava muito mal com a situação dos dois. Só estava comendo por educação e devido a todo o trabalho dos pais do amigo em preparar tudo aquilo, contudo seu apetite fora prejudicado pelo climão chato.
– Ben já contou a vocês a novidade? – perguntou Marisa. – Ele está meio que namorando a distância agora.
– Wow, Benjamin. Que maravilha! – comemorou Yumi.
– Não é verdade, Yu. A mãe está exagerando. Eu só tive um lance com uma menina bem querida lá em Curitiba.
Ben viu a cara que o japa fez ao escutar aquilo. Ele já não estava todo contente e ao ouvir o que Marisa disse, piorou. Ficou desorientado e perdido naquela mesa repleta de gostosuras.
– Não venha me dizer que não significou nada. Tu está convencido a prestar a Universidade Positivo só pra poder ficar perto da Sabrina, e ela até vai viajar para cá agora no feriadão de setembro. Isso não parece um exagero da minha parte.
Benjamin não conseguiu ficar sem ver o amigo, que estava incomodado com algo. Parecia estar com pulgas dentro da sua camisa social. Mordia os lábios e tentava fugir do olhar do amigo.
– É, sabe de uma coisa, isso é verdade. Ela insistiu para que eu mudasse para lá e fizesse um semiextensivo. – Benjamin fez aquilo só para provar seu amigo. Queria que o Yuri ficasse como ele ficou ao saber que estava namorando a Bruna Santori.
– Eitá, quer dizer que já arrumou a sua futura mulher, Benjamin? – brincou Yu, sorrindo, contente. – E por que ela não vem para cá?
– Calma, Yu. Ela também faz medicina lá em Curitiba e outra, estamos nos conhecendo melhor. A Sabrina quer se transferir para cá, caso eu não passe por lá. Só que não quero que ela faça isso por mim. Vai que não dá certo depois de alguns meses?
– Mas e a UFSC? – Yuri quebrou o silêncio. – Ela sempre foi teu verdadeiro sonho e agora por causa de uma namorada vai mudá-lo?
– Talvez, não queira ficar mais aqui. Talvez, eu queira crescer longe dos meus pais.
– Epá, epá...! Quer dizer que está louco para viver longe da mamãe e do papai? – questionou Manuel, fingindo estar bravo.
– Ah, sei lá, pai. Acho bom morar longe de casa para evoluirmos, tu não concorda, Yu? Tu mora há vários anos longe de casa.
– No começo tudo é mais difícil, sim. A gente chora, pensa que não vai suportar tanta pressão do cursinho e depois da faculdade, e também por estar tão longe da família. Só que logo a gente faz novos amigos, conhece pessoas interessantes, acostuma com as tarefas diárias de casa. Só que meu sonho, Ben, sempre foi estudar medicina na USP. Agora tu e o japa sempre quiseram estudar na UFSC. Acho que os sonhos veem em primeiro lugar.
– Yumi está completamente certa quanto a isso, filho.
Benjamin olhou da mãe para o amigo do outro lado da mesa e assentiu com a cabeça.
– Se não passar aqui neste ano e for aprovado por lá, infelizmente, terei que mudar de sonho.
– E se isso for mesmo necessário, eu e sua mãe ficaremos com o coração apertado, mas apoiaremos seu projeto ao longo de toda a faculdade. – Benjamin sentiu a voz de seu pai ficar chateada. Nem tinha nada definido e eles já estavam sofrendo com uma possível partida.
Depois mudaram de assunto, agora a Yumi fazia perguntas bem específicas sobre o que estava vendo na faculdade com os pais de Benjamin. Ele e Yuri fingiam estar se importando com aquele assunto.
Quando Marisa foi retirar os pratos da mesa, derrubou sem querer a taça cheia de vinho do Yuri sobre a camisa branca do rapaz.
– Ai, querido... – disse aflita, vendo o estrago que causara –, me perdoe. Prometo que comprarei uma camisa tão linda quanto esta para ti na segunda-feira. Como pude ser tão desastrada?
– Não se preocupe, dona Marisa. Eu nem gostava tanto da camisa. Não precisa me pagar nada. Ele tentava se secar com o pano de prato cedido por ela após o pequeno acidente.
– Vou comprar, sim. Esta sua deve ter custado uma nota aos seus pais. Benjamin, leve Yuri lá pra cima e empreste alguma camisa sua.
Ben arregalou os olhos. Olhou para o japa com os lábios nervosos e se levantou.
– Pode ir com ele. Vista alguma coisa que lhe agrade e prometo que na segunda te dou outra camisa.
Não tenho como fugir agora de ficar a sós com ele. Acho que não estou pronto para pedir desculpas por ter sido, mais uma vez, um grande idiota. Que droga! Que droga, Benjamin Belucce Furlanetto!
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