Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
14 Capítulo catorze - Se é o melhor, eu topo!
Notas iniciais
Benjamin acordou com sua mãe lhe chamando perto do meio-dia. Seus amigos já tinham se levantado e tomavam café da manhã lá embaixo com Manuel. O menino de olhos verdes vestiu a primeira coisa que viu em seu armário; um calção de futebol e uma regata.
Quando desceu, viu que eles tomavam café no quintal da casa, perto da piscina. O sol já brilhava e o calor já começava a se tornar sufocante. Ele se perguntava se realmente estavam no fim do inverno ou no começo do verão.
— Pelo que estou vendo aqui, todos dormiram mais do que a cama. – Ben fazia referência ao café da manhã tão tardio.
Ele se sentou ao lado de Yuri, que mastigava um pedaço de melancia. Yumi acenou para Benjamin, que piscou em retribuição.
— A gente só teve a educação de esperá-los acordar – garantiu Marisa, entre risos. – Vocês devem ter se divertido muito em nossa ausência. Estou correta?
Ben ficou intimidado com a pergunta, é claro que ela não fazia nenhuma menção à diversão a sós dos dois amigos. Yuri também estava incomodado com o que aconteceu entre os dois na noite passada.
— Eu fui dormir e estes dois ainda ficaram mais um tempo acordados – comentou Yumi. Ben mordeu seus lábios, envergonhado, como se todos soubessem o que aconteceu ali.
— Tu conseguiu dormir bem naquele quarto de hóspedes? – O menino de olhos verdes fez questão de mudar o assunto.
— É verdade, Yu, me esqueci totalmente de perguntar isso a você – desculpou-se Marisa.
— O quarto era muito confortável. Não passei frio como tu imaginava que passaria.
— Ai que bom, não sabe o quanto me conforta saber disso. E tu, Yuri, o quarto do Miguel é confortável?
— Sem sombra de dúvida, dona Marisa. Obrigado por nos deixar ficar aqui na noite passada.
— Não precisa agradecer, né, bobinho? Os dois já são de casa e sabem muito bem disso. Podem ficar aqui sempre que quiserem.
Marisa e Manuel convidaram o grupo de amigos para almoçar com eles em um restaurante na Praia Brava (um bairro do norte da ilha), mas como Benjamin, Yuri e Yumi queriam ir à Praia Mole, no sul da ilha, rejeitaram o convite sob a promessa de algum dia almoçarem com eles em um restaurante de frutos do mar.
Benjamin seguiu para a casa da família do Yuri em seu carro. Já os dois irmãos foram juntos no carro do japa. Aquele trajeto a sós consigo mesmo foi ótimo para o menino. Sentia sua cabeça no mundo da lua, não queria aceitar que extrapolara dos limites na companhia do Yuri. Como podia aceitar ter ficado com um homem? Estava decidido de que isso nunca mais iria acontecer.
Ele estava começando a considerar a ideia de contar tudo a Bárbara, porém não agora, não enquanto estivesse mergulhado em um oceano de dúvidas e medo. Precisava ter um tempo com seu amigo para discutirem aquilo tudo. Yuri seria a única pessoa a entendê-lo, uma vez que também devia estar perdido e com medo.
Quando chegaram à casa do Yuri, Benjamin pôde estacionar na vaga livre, que pertencia ao pai do japa, dentro da garagem do prédio. Yuri saiu do carro e entrou no elevador sem olhar diretamente para o amigo, mas quando entraram ali, os dois ficaram de frente. O menino de olhos verdes olhava aparentemente perdido para o amigo. O japa sentiu que a confusão que lhe perturbava e que quase não o deixou dormir também assombrava o outro.
— Será que a praia vai estar muito cheia agora de tarde? – perguntou Yumi, entrando no apartamento vazio.
— Floripa é um inferno quando está calor demais, ninguém consegue ficar dentro de casa – comentou Benjamin, atraindo um sorriso de Yuri e de Yumi. – Tomara que o restaurante esteja bem mais vazio, porque estou com fome e esperar horas por uma mesa não seria legal.
— Ben, tu acabou de comer, amigo – disse Yuri, se perdendo dentro dos olhos verdes do garoto. – Desse jeito, vai engordar.
— Eu ficaria menos interessante se isso acontecesse? – brincou Benjamin, recebendo um não com a cabeça como resposta, que o fez rir. Yumi desapareceu no andar de cima.
— Deixa eu me apressar, caso contrário vamos chegar à praia depois do pôr do sol. Fica à vontade, Ben.
Yuri apertou o ombro do amigo e rumou em direção às escadas.
— Está tudo bem entre a gente? – indagou Benjamin, dando alguns passos em direção a ele.
O japa olhou assustado e recuou alguns centímetros, na direção de Benjamin, repousando uma de suas mãos sobre o quadril do menino.
— Está. Não está?
— Ah, acho que... sim?
Yuri deu um abraço no amigo, que automaticamente pôs seus antebraços e mãos contra as costas do japonês, aproximando-o ainda mais.
— Só precisava saber que nada mudou entre nós, já chega de pormos besteiras entre a nossa amizade – confessou Benjamin, para a surpresa de Yuri, que sorriu todo bobo, mesmo sem o outro ver.
— Fica tranquilo!
Benjamin liberou-o do abraço, entretanto Yuri não o largou e, ainda por cima, lhe deu um beijo de língua enquanto afagava sua nuca. Mesmo apavorados e sem entender o que aconteceu entre eles na noite passada, os dois amigos se permitiram entrelaçar os seus corpos e sentir o fulgor de um beijo adolescente.
— Cara, a Yumi está em casa. Tu esqueceu isso?
— Ué, então vamos lá para o meu quarto.
— Bem capaz! Vá logo para lá se trocar, espero vocês aqui.
Yuri puxou Benjamin pela mão e o levou ao quarto. No início, ele tentou refutar e permanecer na sala, contudo segundos depois já estava na onda do japa. O quarto do Yuri ficava do lado oposto ao da irmã. Ele fechou a porta e em seguida trancou-a. O menino de olhos verdes mordia os lábios assustado, só que logo se entregou em outro beijo bem quente.
Os pelos na nuca dos dois se enrijeceram ao mesmo tempo em que suas línguas se tocavam de leve, o que logo avançou para um beijo mais forte. As mãos do Benjamin tremiam, tamanho o nervoso que irrompeu em seu sistema periférico, porém, estavam sobre as nádegas macias do amigo.
Nunca podia imaginar que elas seriam as coisas mais gostosas que já sentira com seu tato. Eram bem carnudas. O seu pênis já roçava a ereção do japa, que, ao mesmo tempo, lambia o lóbulo da sua orelha direita e para não ficar um passo atrás, agarrou a bunda do Benjamin.
Oh, não! Quando pude imaginar que adoraria agarrar a bunda do meu melhor amigo. Será que ele vai... será que ele vai... — Yuri não suportou mais e enfiou as suas mãos dentro do calção e da sunga do amigo, sentindo aquela pele macia e lisa, o contato direto com a bunda do rapaz excedeu as suas expectativas. O volume das nádegas do Benjamin encheram as palmas de suas mãos. Ele não conseguia se segurar e já pensava em dar outro grande passo, estava prestes a descer aquelas peças de roupa e encarar os membros inferiores do amigo. – Como ele teve coragem? Caralho, eu preciso fazer alguma coisa.
— Isto já foi longe demais – protestou Benjamin, tirando as mãos do amigo de sua sunga e depois se afastando. – O que pensa que estava fazendo?
— Calma, eu só pensei que como tu tinha colocado a mão...
—... na tua bunda, tu tinha o direito de pôr as suas dentro da minha sunga? – completou Ben, fazendo o outro se constranger.
— Foi mal, foi mal, foi mal! Nem sei como tive a coragem de fazer isso.
— Tudo bem, japa. Também não precisa ficar tão arrependido – acalmou Ben. – Só que eu prefiro te esperar lá embaixo. Pode ser?
— Pode. Foi mal mesmo.
Yumi demorou ainda mais do que o irmão para aparecer na sala. Yuri e Benjamin conversaram coisas normais, ignorando o que havia acontecido há pouco. O susto que Ben levou ao sentir as mãos do amigo dentro da sua sunga já havia passado. Agora, estava menos preocupado e pensando no quanto aquilo tudo tinha sido errado. Sabia que a culpa também era sua e lidaria com isso na maior calma e maturidade possível.
Depois, foram para a praia no carro do Benjamin. Pegaram um pouco de trânsito perto da ponte, na entrada da ilha, junto da rodoviária. Depois de dez minutos ali, conseguiram avançar. Como sempre, Benjamin odiava aquilo e reclamou para os amigos. Yumi garantiu que ele nunca se daria bem na grande São Paulo.
A menina escolheu um restaurante para almoçarem perto da Praia Mole. O restaurante estava lotado e tiveram que esperar uns vinte minutos para conseguirem uma mesa.
— Agora, sim, o Ben enlouquece de vez – brincou Yumi.
— Ele fica bonitinho zangado – provocou Yuri, recebendo um soco do amigo em seu peito.
Após o almoço, foram direto para a praia. O lugar não estava tão lotado como os três pensavam que estaria. Benjamin tirou só a camiseta e ficou de calção de basquete e chinelos. Yuri ficou só de sunga azul e chinelos. Yumi exibiu seu corpo através de um biquíni amarelo, não do tipo cavadinho.
Eles tentaram convencer o amigo de tirar o calção e ficar só de sunga, porém, por um motivo que Ben considerava óbvio não tirou. O japa abriu o guarda-sol e Yumi posicionou as três cadeiras de praia na areia.
— Yu, tu pode passar protetor em mim? – perguntou Ben, ficando de costas para a cadeira da menina e de frente para Yuri, que sorriu constrangido.
— A Bruna não te ligou mais depois de ontem?
Yuri se deitou na cadeira, cortando contato visual com os dois. Yumi percebeu que a sua pergunta havia deixado o irmão incomodado. Benjamin também percebeu que o rapaz não estava a fim de falar sobre ela.
— O que é que tem ela?
— Idiota, tu é surdo ou o quê? Perguntei se ela não te ligou depois de rejeitar sair com ela.
O menino de olhos verdes continuava a encará-lo enquanto Yumi massageava seus ombros com o protetor. O japa estava com os olhos fechados e os lábios cerrados. Seu abdômen sarado levantava e descia à medida que seu diafragma se contraía e relaxava, tirando o foco de Benjamin. Estranhamente aquilo excitou o menino.
Foi justamente por isso que ele preferiu continuar de calção. Não correria o risco de ficar de barraca armada diante de toda praia. O rapaz fechou os olhos enquanto ajeitava o volume dentro da sunga – só que Yuri percebeu aquilo e sentiu calafrios percorrerem todo o seu sistema nervoso.
— Eu e ela brigamos naquele mesmo telefonema. A Bruna me pediu para esquecê-la.
— Quê? É sério isso? – Benjamin não escondeu a reação de surpreso. Será que foi só por isso que o japonês teve coragem de ficar com ele?
— Ela é muito infantil. Já brigamos um par de vezes só porque não topei de fazer o que ela queria. Porém confesso que é até um alívio se eu pensar por esse lado.
— Mas namorar é assim mesmo, quem poderia garantir sempre um mar de rosas? – questionou Benjamin, após a Yumi terminar de passar o protetor.
— Olha só quem fala, o Ben... Ele nunca namorou sério na vida, só é de ficar aqui e ficar ali, e já está me dando conselhos.
Benjamin corou instantaneamente. Mordeu os lábios irritado e encostou a cabeça e as costas na cadeira.
— Oh, foi mal, Ben... – desculpou-se tentando tocar no braço do amigo, mas este jogou para longe suas mãos.
— Ah, meninos, não briguem! Vocês estão brigando muito e a Yu não curte isso. Então, vamos apertar as mãozinhas antes que eu jogue areia em vocês. – Ela disse aquilo entre risos.
Benjamin sorriu para a menina e depois comentou:
— O seu irmão é muito idiota de vez em sempre, mas no fundo caí de amores por mim e não sabe confessar. – Depois de soltar aquilo em tom de brincadeira, Benjamin percebeu o tamanho da idiotice que acabou de dizer.
— Os olhos verdes está certo! – concordou Yuri, beijando a bochecha do amigo, que corou em seguida.
Ben ficou ainda mais constrangido, mas provocou, então mereceu levar na mesma moeda. Yumi se matava de rir. Yuri sorria para o amigo, que lhe mostrou o dedo do meio.
— Meninos, eu preciso confessar algo para vocês. Escondi dos dois durante o nosso almoço. – Benjamin e Yuri se olharam assustados. Pensaram por um instante que ela confessaria que tinha visto a pegação entre eles na noite passada. – O Camilo me ligou hoje enquanto estava me trocando para vir à praia. Ele me pediu para conversarmos quando estiver de volta a Sampa. Me parecia arrependido e disse que me amava demais, que queria passar uma borracha em todas as merdas que ele fez.
— E tu, Yu? – perguntou Benjamin.
— Ah, eu estou muito confusa. Amo ele demais e estou sofrendo muito enquanto estamos afastados um do outro.
— Yu, estás se esquecendo de que eu tive que ir a São Paulo só para consolá-la por causa deste imbecil? Eu não quero ter que ir lá só para quebrar a cara dele. Não vou tolerar que ele faça a minha irmã de palhaça.
A voz de Yuri mudou completamente, Benjamin só tinha o visto falar tão sério quando ele foi assaltado na Beira-mar norte dois anos atrás.
— Ah, japa... eu sei disso tudo – já começava a ficar em lágrimas –, mas eu amo ele. Amo demais. – Benjamin abraçou a amiga e, depois, Yuri também foi até a cadeira da irmã para abraça-la. – Não sei o que vou fazer. Eu estou perdida. Estou completamente perdida.
Eu sei bem o que quer dizer com isso, Yumi. Também estou perdido e o pior, que acho que estou me apaixonando pelo seu irmão. Um homem e meu melhor amigo, mas por quê? Porra! Não admita essa merda nunca mais, Benjamin Furlanetto.
— Eu vou sempre te apoiar, Yumi, porque te amo e tu além de minha irmã é minha melhor amiga. Só não quero te ver chorando pelos cantos, afinal, mora longe de todos nós e como poderei te consolar a distância?
Yuri abraçou ainda mais forte a irmã e começou a distribuir um monte de beijos em sua testa e bochechas. Benjamin achou aquela cena muito linda. Não tinha toda esta ligação com Miguel, mas sabia que poderia contar com seu irmão caso sofresse uma desilusão amorosa. Tinha certeza que essa ligação surgiu por eles não terem todo apoio e amizade dos pais. Isso era um jeito de poderem se proteger.
— Benjamin, confesse que o japa age como se fosse mais velho do que eu. Eu que deveria cuidar desse menino lindinho... – provocou ela, apertando as bochechas de Yuri.
— Mas eu concordo com ele nesta questão.
— Muito obrigado, meu gatinho – agradeceu ela, abraçando Benjamin e tentando enxugar as lágrimas. – Não sei o que seria da minha vida sem vocês dois. Amo demais cada um de vocês. Agora, que tal cairmos na água? Já esperamos um bom tempo depois de comer.
Os dois assentiram com a cabeça, e a menina saiu em disparato. Ela começou a gritar quando pôs suas pernas na água por estar muito gelada. Ben sorriu para o amigo, piscou e deu um tapa na sua orelha, e correu em direção a Yumi, que já ganhara coragem suficiente para dar o seu primeiro mergulho.
Logo atrás, veio Yuri pulando igual a um doido desesperado. Estava realmente feliz por dividir aquela tarde com as duas pessoas que mais amava na vida. Quando alcançou os dois, pulou sobre os ombros de Benjamin, ficando lá até o amigo perder o equilíbrio, caindo ambos na água.
— Tu me aguenta sobre seus ombros, Ben?
— Yu, aguentei o cavalo do seu irmão, por que acha que não conseguiria?
O japa deu um tapa na orelha do menino de olhos verdes e chacoalhou os ombros dele, depois deu um tapinha nas suas nádegas por debaixo da água (isso sempre fizeram, só que as coisas não estavam como sempre, não é mesmo?). Aquilo tirou o menino do sério, que mostrou os dedos do meio das suas duas mãos ao mesmo tempo.
— Japa, então, me ajude a subir nos ombros dele – ordenou ela, mordendo os lábios nervosamente. Tinha medo de passar a última semana de férias toda arranhada e se arrependendo por ter proposto aquele absurdo.
— Ai! Cuidado com o meu quadril – chorou Ben, depois de ela ter pisado na região para subir ainda mais em suas costas. Yuri começou a rir tanto, que quase acabou com o equilíbrio de sua irmã. Ela se apoiava nas mãos do japa.
— Meu coração! Acho que esta seria uma péssima hora para descobrir que sofro do coração – disse ela, quando se sentou nos ombros do Ben. – Nunca imaginei que isto seria tão apavorante.
— Japa, para com isso – gritou Benjamin entre risos, enquanto o amigo fazia cócegas em seu abdômen a fim de derrubá-los. – Yumi, seu irmão... – risos –, seu maldito irmão...
— Para, Yuri. Se eu cair daqui, juro te mato afogado – berrou ela, percebendo que ele não havia parado com as cócegas.
Os três foram arremessados longe, mas não se machucaram. Uma onda não notada acabou de quebrar sobre eles. Depois de passado o susto, eles emergiram na superfície rindo ainda mais.
— Tu viu só? Ficamos nestas cócegas por causa do japa e acabamos levando uma pancada violenta do mar – disse Ben, sem parar de rir.
— Ben, me diga: tu considera o mar mais traiçoeiro do que o Frederico ou o Fred consegue ser ainda mais traiçoeiro do que o mar? – provocou Yuri, controlando o riso.
— Porra, é claro que o Fred. O mar nos dá uns coices de vez em quando, mas não joga areia em nossos olhos.
Yuri e Benjamin riram, deixando Yumi a ver navios.
— Ainda bem, não é mesmo?
— Que vocês querem dizer com isso?
E Benjamin contou toda a história da briga com Fred, e Yuri contou a ela o que aconteceu na saída da academia. Ela confessou que nunca simpatizara muito com a cara do loiro e nem com a cara da Fernanda. Só Ben não compreendeu como o nome da Fer foi parar no meio da conversa.
— Vamos apostar cinquenta reais para ver quem chega primeiro àquela boia dos bombeiros? – sugeriu Yuri, indicando uma pequena boia com lanterna que flutuava há uns seis metros de onde estavam, no sentido mar adentro.
— É claro que os dois levarão a melhor. Eu não pratico natação desde que entrei no cursinho. – protestou ela. – Isso seria nada justo com uma dama.
— Deixamos você sair com uma vantagem de dois metros. Que me diz?
Yumi estreitou ainda mais os olhos e torceu os lábios, pensativa.
— Perfeito, Bem. Então eu saio com uma vantagem de três metros.
— Quê? Ele não disse três metros – reclamou Yuri.
— Está fechado, japa. Ela saia na nossa frente com uma larga vantagem e vamos ver se consegue chegar antes de nós.
— Beleza – concordou, vencido.
— Mas se quiser, posso te dar um metro de vantagem também – provocou Belucce.
— Vá se foder, filho da puta. Nunca precisaria de vantagens para ganhar de você. Entendeu?
— Isso é o que veremos, seu puto – terminou ele, rindo. – Pode começar, Yumi. A raia é toda sua, digo, o mar é todo seu.
Ela não contou nem até três, saiu em alta velocidade.
— Esta japa está de brincadeira com a nossa cara, né? Onde é que ela nunca mais treinou?
— Acho melhor nadarmos.
Logo, os dois amigos estavam na perseguição de Yumi. Benjamin preferiu nadar no estilo crawl, enquanto Yuri, borboleta. Para o azar dos dois, ela foi a grande vencedora. Benjamin chegou em segundo lugar e o outro, em último.
— Trapaceira, a gente confiou em ti – começou Benjamin.
— Ah, eu nunca mais nadei na vida... Isso não é justo com uma lady. — Yuri imitou sarcasticamente a voz da irmã.
Ela não se controlou e começou a tirar com a cara dos dois.
— Não menti quando disse que não praticava natação desde que comecei no Hexag, contudo, convenhamos que isso não significa que eu não tenha nadado na praia ou na piscina de alguns amigos uma vez e outra.
— Sacana! É isso que você é – provocou Yuri.
— Não reclama demais, japa, porque tu perdeu de mim, seu puto do caralho. Já sabíamos que sou um melhor nadador do que tu.
Ben e Yumi começaram a rir da cara do menino.
— HA... HA… HA... És muito convencido, meu amigo. Demais!
Benjamin nadou até o seu lado e entrelaçou os seus pés na coxa do outro e seus braços no tronco de Yuri, fazendo com que ele tivesse dificuldades para se manter na superfície.
— Não chora! Cuticuti... O papai está aqui para lhe ensinar a nadar – caçoou Benjamin, fazendo com que Yumi chorasse de tanto rir.
De repente, o pênis do japa começou a roçar as pernas do amigo, que sentiu seu coração disparar de um jeito e o volume crescer dentro do seu próprio calção. Os dois estavam de pau duro na cara da irmã de um deles. O menino de olhos verdes sentiu o desejo de agarrar seu amigo ali mesmo e a começar a beijar aqueles finos lábios.
— Que tal voltarmos à areia? Estou sentindo que logo terei câimbras e isso não seria muito legal aqui dentro.
Ben, um pouco constrangido, soltou o amigo e topou a proposta de Yumi para voltarem. O japa viu os dois saírem na sua frente e fechou os olhos, tentando conter toda a adrenalina que percorria o seu sistema. Porém, logo, se lembrou do que aconteceu mais cedo entre eles e como o menino de olhos verdes fugiu do quarto.
Até o exato momento, ele queria entender porque surtou de excitação e enfiou suas mãos sob a sunga do amigo, acabando com o clima de beijos e contatos quentes. Sentia-se culpado por ter agido igual a um tarado louco por sexo. Nunca pusera um dedo sobre as nádegas de outro homem, porém sabia que aquela experiência superou qualquer outra coisa que já fizera até hoje.
Não podia aceitar que os dois estavam levando aquela forte amizade para outro caminho. Precisava conversar com Benjamin o mais rápido possível a fim de esclarecerem algumas coisas.
Já na areia, os três se secavam com suas toalhas. A praia havia lotado um pouco mais desde que entraram na água. Ben e Yuri agiam como se nada houvesse acontecido lá dentro do mar.
— Estou com muita fome, o que me dizem de procurarmos alguma coisa para comer nas barraquinhas do outro lado da praia? – perguntou Yumi, se levantando.
— Eu estou faminto, mas agora estou muito cansado. Podem ir vocês dois que eu espero aqui – respondeu Benjamin.
— Também não estou a fim de caminhar até lá.
— Seus dois gordos e preguiçosos. Eu vou comprar alguma coisa para a gente comer e beber. Já volto!
— Yu, tu é A... guria. – Ela mostrou o dedo do meio para Ben, pegou sua bolsa de praia e os deixou a sós.
Nenhum deles disse qualquer palavra até verem Yumi a uns dez metros. Benjamin brincava com a garrafa vazia de água em seu colo e Yuri encarava-o de esgueira, tomando coragem suficiente para perguntar:
— Ben, o que está acontecendo comigo e com você?
— Hãn... Como? – No início, realmente não entendeu o que ele queria dizer.
— Ah, tu sabe... Tipo, o que são todas estas coisas que estamos sentindo um pelo outro?
— Que porra é esta que está dizendo? Como assim sentindo um pelo outro?
— Cara, tu sabe bem o que quero dizer, a gente ficou na noite passada e hoje lá em casa quase passamos dos limites. E o que dizer de termos ficado de pau duro enquanto você me abraçava dentro do mar?
Benjamin deixou a garrafinha cair no chão, tamanho o nervoso. Puxou profundamente o ar como se toda a sua vida dependesse unicamente daquele esforço.
— A gente cedeu o momento à carne e ficamos. Yuri, eu também fiquei durante todas aquelas semanas tentando encontrar uma razão para isso. Só sei que não podemos aceitar. Nós gostamos de comer é buceta. Estamos confusos e sei lá o porquê de estarmos sentindo tesão um pelo outro.
— Esta é a palavra certa: tesão. Estamos sentindo tesão quando nos tocamos ou quando pensamos alguma coisa em que o outro esteja muito próximo. Estou brigando direto com a Bruna por sua causa...
— Quê?
— Calma, me deixa explicar. Quando ficamos aqueles dias sem nos falar, entrei em neura e descontava todo o meu estresse nela ou em pessoas próximas. Até descontei na coitada da Yu dias atrás. Estou mesmo lutando para compreender tudo isso.
Benjamin se sentou de frente para o amigo, apoiando seus cotovelos sobre suas coxas cobertas pela toalha. Teve que olhar dentro dos olhos do amigo. Sentia que Yuri também estava prestes a chorar.
— A gente tem agido como bichas. Acho que se não pararmos de fazer estas coisas todas, vamos acabar virando dois idiotas. Precisamos voltar a viver como antes. Eu podia te ver pelado diante dos meus olhos, mas não ficava de pau duro e tu a mesma coisa.
— Além que começamos a brigar demais depois que eu bebi demais naquela festa da automação e tu me levou para casa. Benjamin, eu estou tão confuso quanto tu – Yuri começou a chorar, mas o outro preferiu manter a distância.
— Nem me fale, japa. Pensei em conversar com meu pai alguns dias atrás.
O japa arregalou os olhos e limpou as próprias lágrimas.
— Sobre o que aconteceu entre a gente? Tu tá louco? Nunca mais conseguiria olhar na cara do doutor Manuel ou de qualquer outra pessoa da tua família. Te imploro para que nunca faça isso.
— Calma, eu só pensei em conversar com ele. O meu pai tem feito um monte de perguntas, acredito que no fundo desconfie de alguma coisa, mas só acho. Ele nunca me disse nada ou perguntou a respeito.
— E a Báh? Não contou a ela, contou?
O menino de olhos verdes suspirou irritado.
— Yuri, tu acha que sou tão louco de contar aos outros algo que nem eu sei explicar?
— Ainda bem que estamos tendo está conversa hoje e aqui.
— Só que logo a Yu vai voltar e não conseguiremos descobrir o que foi tudo isso.
Yuri levou as mãos à cabeça, estava totalmente preocupado e perdido.
— A única coisa que eu sei é que quando fizemos tudo aquilo; foi como se eu estivesse com uma menina e não beijando e agarrando o meu melhor amigo.
— Que porra, japa! Que merda estamos fazendo?
— Mas prefiro passar por toda esta confusão a ter que ficar longe do meu amigo de infância. Tenho vários amigos, entretanto, preciso partilhar contigo as minhas conquistas e fracassos. Tu sempre esteve ao meu lado e, agora, como poderia simplesmente fazer de conta que nunca fomos grandes amigos?
— Mais do que grandes amigos, somos como irmãos. Agora, sabe como me senti quando me ignorou na sua última semana de aulas. Fiquei muito chateado por ter saído lá de casa após aquele beijo sem entendermos o que tinha acontecido. Por esta razão me vinguei de ti na festa dos teus veteranos.
— Eu sei. A gente falou sobre isso naquela noite. Só que o que fizemos ontem e hoje ultrapassou aquele beijinho sem sentido. Eu me perdi em seus braços como se estivesse com a Bruna.
Benjamin balançou a cabeça em discordância e girou os olhos para cima. Yuri mordeu os lábios e fechou o semblante, incomodado.
— Vamos prometer pelo bem da nossa amizade que nunca mais ficaremos atraídos um pelo outro, nem que o mundo vire de cabeça para baixo ou se perdemos a memória. Agiremos como se nada tivesse acontecido e vamos voltar a ser totalmente héteros, porque sei que não sou gay, afinal, não me imagino transando com um homem e nunca senti atração por nenhum.
— Quer dizer que nunca sentiu nenhuma atração por outro cara além de mim. Querendo ou não, eu despertei isso em você – disse, convencido. Benjamin odiou admitir que sim, mas admitiu a contragosto. – Não há maneiras alguma de esquecermos o que fizemos, mas podemos assumir uma nova conduta. Uma que valha mais do que qualquer desejo carnal. Tu é o meu melhor amigo e só o verei dessa maneira de agora por diante.
— Eu concordo totalmente com você. Novamente bons e apenas amigos?
— Sim, com certeza!
Os dois deram um aperto de mão, selando aquele compromisso. Depois de mais uns dez minutos, Yumi voltou com três pastéis de frango e Catupiry, e mais três cocas. Os três ficaram ali para ver o pôr do sol. Yuri e Benjamin pareciam presentes, mas só os dois sabiam o que se passava dentro de suas cabeças.
Já dentro do carro, Benjamin olhava através do retrovisor interno do carro o rosto de Yuri, que parecia chateado. Ben quis acreditar que ele estava chateado por eles não terem chegado às respostas que tanto queriam alcançar. Talvez, fosse mesmo necessário lidar com aquelas perguntas em luto.
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