Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
15 Capítulo quinze - Aguenta coração!
Notas iniciais
— Bárbara Ronsoni, tua vaca, tu me faz a maior falta aqui na ilha. Quando vai parar deste joguinho de ficar longe do Benzinho aqui? – disse Benjamin ao telefone com a melhor amiga. Ele estava deitado na sua cama, se preparando para dormir, depois de uma tarde na companhia de Yuri e Yumi.
— Meu amor, a Báhzinha está morrendo de saudades dos meus olhos verdes favoritos. Eu e o puto do Arthur voltamos para Floripa na terça de manhã. Quero estar aí quando o listão da ACAFE for divulgado.
— Mesmo sabendo que eu não passarei?
— Aí que tu precisaria ainda mais dos meus braços deliciosos — brincou ela, fazendo-o rir. Ao fundo, Ben conseguia ouvir o barulho de algazarra. – Calem a boca, meninos. Não conseguem perceber que estou no telefone? — Benjamin conseguiu ouvir no fundo: vá tomar no seu cu, Báh.
O menino de olhos verdes caiu na gargalhada, ignorando tudo que ela estava dizendo. Ele riu tanto que a mãe do rapaz abriu a porta para checar se o filho havia perdido a sanidade.
— Por que está se matando, seu puto? — perguntou Báh, incomodada. – Não me diga que ouviu os imbecis dos meus primos e do Arthur?
— O que eles estão aprontando na casa dos seus avós às onze e meia da noite? Os velhos não têm regras quanto à baderna?
— Eles estão enchendo o cu de cachaça, jogando truco, comendo churrasco enquanto eu e as outras garotas estamos falando mal deles— confessou ela –, e não estamos na casa dos meus avós. Estamos na casa do meu primo. Tu conhece ele, o Eduardinho.
— Claro que sim! Ele não tinha se separado daquela guria horrorosa?
— Sim, sim. Agora, ele decidiu pegar umas prostitutas na avenida. Mas deixa-os pra lá, me conte tudo de como estava o passeio. Eu queria tanto ter ido com vocês, preciso muito ver a Yu-yu antes de ela voltar pra USP. Será que ela vai querer ficar no meu aniversário?
— Porra, isso eu já não sei. Nem perguntei quando ela volta pra Sampa, mas as aulas dela começam na próxima segunda como as do japa e da Fernanda. Acho que ela deve querer ir embora lá por sexta ou sábado. Amanhã, confirmo com ela e te dou um toque.
— Perfeito, pergunta pra ela e diga que imploro para que fique na minha festa sem graça, não é sempre que a gente completa 2.0.
— Tonga, não é sempre que nós completamos qualquer idade. Elas todas são exclusivas e acho bom a sua festa ser de arromba, caso contrário vou fugir de lá com alguma prima tua.
— Faça isso e juro por todo o meu amor neste mundo que será a última coisa que as pessoas verão você fazer na vida. Mas falando sério agora, a ACM vai tremer com a festa de 2.0 da Bárbara Ronsoni, ainda mais porque os meus pais prometeram deixar o salão a meia-noite e nos deixar curtir a festa só com os jovens até duas, duas e meia. E se quiser, faço uma ponte entre você e a Mariana, a minha prima mestiça de olhos castanhos.
— Aquela que foi convidada para ser modelo no Rio de Janeiro?
— Ela mesma, Ben. Ela terminou um namoro recentemente e está precisando de alguém tão bonito e forte quanto você ou o japa. Mas como ele está enrabichado com a Bruna Santori, não vai rolar.
Benjamin se segurou para não rir. Não queria ser o primeiro a contar a ela sobre a briga do casalzinho. Não seria o fofoqueiro de plantão. Por este motivo, calou-se imediatamente.
— Não precisa fazer ponte porra alguma, se eu conseguir ficar com alguma quiridá na festa será por honra e mérito meu. Beleza?
— Ui, me esqueci de que é um puta menino orgulhoso. Lá em Curitiba, não se preocupou com isso quando o Pedro te apresentou a Sabrina, não é mesmo?
— Até quando vai ficar zoando com a minha cara, Báh? Já jurei de pés juntos que não sabia o que aquele puto estava armando. Só fui na dele e depois me interessei pela guria. Então, não conta como ponte.
— Conta, sim, senhor! Conta, porque eu estou dizendo que conta. E por falar nele, tem alguma notícia? Já se encontraram depois que chegarem a Floripa?
— Putz, acredita que ainda não? Mas também chegamos ontem, ainda nem tive tempo de desfazer a minha mala quanto mais marcar um bar ou uma baladinha com ele.
— Confesso que fiquei preocupada com ele, ontem, a noite inteira. Fiquei pensando em como um menino jovem e bonito como ele deveria refrear os impulsos para a perdição. Sério mesmo! Ser um quase prostituto tudo bem, agora, ser um drogado? Ah, não, isso é demais até para os padrões de vida que o Pedro leva. Preciso conversar com ele e contar o caso do meu primo que morreu de overdose dez anos atrás. Ele não era velho também, devia ter vinte e quatro anos quando morreu na frente dos pais.
Ben não conseguiu evitar a lembrança de seu amigo lhe empurrando após ficar irritado pelo menino de olhos verdes ter pegado o pacotinho com cocaína. Conseguia até mesmo sentir a queda no chão e o ódio daquele momento.
— Eu me lembro da história do seu primo, me lembro de que a nossa professora do quinto ano usou o exemplo dele para nos explicar os péssimos efeitos da droga sobre o meio social.
— Sim, aquilo foi muito tenso mesmo. Mas tu ainda não me disse como foi a noite com o Yuri e com a Yumi — automaticamente ele quase infartou –, e o passeio de hoje com eles. Ninguém te jogou areia nos olhos hoje, certo? — provocou ela, rindo exageradamente do outro lado.
— Rá, rá, rá... Tu é muito engraçada, menina. É irmã do senhor Bozo, o palhaço feliz?
— Sou irmã do Bozo, aquele que vai lhe dar um tapa na cara.
— Não me diga que já está vazando lá por baixo? Coitado do Arthur para te suportar, falsiane.
— Falsiane é a mãe! Ops, desculpa dona Marisa. Falsiane é este seu olho, porque sei que usa lentes de contato.
— Claro que uso e sempre usei, nunca neguei isso. Vocês que foram ingênuos de acreditar que eles eram reais.
— Benjamin, eu preciso ir. O pessoal já está acabando o jogo de truco e agora será a vez das meninas jogarem. Precisamos mostrar a eles como é que se faz.
— Tu não queria saber como foi a noite e o passeio?
Ela gritou para alguém: se vocês começarem outra rodada, juro que jogo aquelas carnes dentro da piscina, filhos da puta.
— Ain, Benjamin, preciso desligar. Tu me enrolou demais e nem vou conseguir saber dos detalhes. Se não for pra lá, eles vão roubar a vez das garotas. Amigo, eu te amo demais. Estou com saudades e nos vemos na terça-feira, se tudo der certo. Beijo.
— Tchau. Te cuida e ganhe destes bobalhões aí. Te amo. Beijo.
E eles desligaram o telefone, o relógio já marcava meia-noite e quinze. Ele ia puxar papo com Yuri pelo WhatsApp, mas desistiu por ser tão tarde. Além disso, estava muito cansado, precisava dormir.
Benjamin só acordou às duas da tarde do dia seguinte. Segunda-feira de férias era a mesma coisa do que um domingo ou um feriado. Ele mal conseguia permanecer com os olhos abertos quando passou o dedo na tela do seu celular e viu uma notificação em seu whats. Era de Yumi.
Yumi:
Bom dia, menino. Eu e o japa estamos saindo agora para ir à Blumenau visitar uns velhos amigos meus do Colégio Energia, quer vir junto com a gente? Acho que vamos voltar só de madrugada.
Ele baixou os olhos, chateado. Queria ter ido com os dois à Blumenau, isso seria melhor do que ficar sozinho em casa em uma tarde de segunda-feira.
Caralho, ela me enviou essa mensagem às dez da manhã, certeza que já estão até lá. Agora, vou ter que aguentar o meu mau-humor sozinho aqui, nem o trouxa do Miguel está em casa para avacalhar com ele. Eu posso ligar para o Pedro e irmos a um barzinho perto da UFSC. Ah, não! Vai que ele resolve se drogar na minha frente de novo?
A solução encontrada por ele foi pôr algumas matérias do cursinho em dia, especialmente aquelas da última semana de aulas, a qual aproveitou apenas para vadiar. Para o seu descontentamento, deu prioridade às exatas. De todas elas, física era a que menos gostava e, química, a que mais adorava resolver os exercícios.
Nos problemas que encontrou dificuldade, ele marcou um “JP” para indicar “japa” e um “BH” para Báh. Estes seriam os exercícios que pediria ajuda aos amigos. Bárbara era a rainha da matemática, o que reforçava a sua escolha por arquitetura, já Yuri, sem modéstia parte, mandava muito bem em todas as disciplinas. Só que o menino de olhos verdes gostava de pedir ajuda apenas em física e em química ao universitário.
Quando sua mãe chegou, ficou surpresa e feliz por vê-lo se aplicando aos estudos, mesmo nas férias. Ele pediu um pouco de ajuda para ela em biologia, sobre questões fisiológicas do trato digestivo e do circulatório. Por Marisa, ela ficaria ali por horas ensinando inúmeros detalhes da fisiologia médica, entretanto, o filho queria privacidade para se aprofundar em outros tópicos.
Ele só parou por volta das nove horas da noite, quando foi jantar com os pais. Os dois reclamavam do seu irmão. Pela misericórdia, isso realmente estava acontecendo. Benjamin achava cenas iguais àquelas inusitadas, ou mesmo, quase raras de se ver em casa. Tudo porque ele estava gastando dinheiro demais em seu cartão de débito, dinheiro depositado semanalmente por seus pais a fim de custear os gastos mais básicos dos meninos. Ainda por cima, não deu mais satisfações aos pais desde a primeira noite da sua viagem com a Paula.
Manuel tentava defender o filho contra as ameaças da mulher, que queria vê-lo dentro de um castigo por semanas e sem autorização para dormir na casa da namorada. Já ele dizia que o garoto tinha quase 24 anos e que era inaceitável alguém naquela idade ficar de castigo como se fosse um bebezinho.
Depois da discussão, os três foram assistir um pouco de televisão. Sua mãe estava enraivecida com o esposo e tinha decidido a não trocar palavra alguma com ele até a manhã seguinte. Marisa abraçava o tronco de seu filho quando evitou contato com Manuel, depois de ele ter tentado abraça-la, o que incomodou Benjamin.
— Amanhã sairá o resultado da ACAFE – avisou, olhando para os pais. O seu pai sorriu empolgado. – Mas como já havia dito, tenho certeza que não passarei em nenhuma faculdade por lá. A minha redação foi uma merda, por isso, me desculpe o desgosto.
— Meu amor, a gente estará contigo em todo o tempo que precisar para conseguir a sua vaga. E se por um acaso, tenha escolhido esta profissão para presentear ou a mim ou a seu pai, peço que reconsidere. Precisas fazer aquilo que ama e que quer exercer por toda a vida.
— Ela está certa, filhão. Veja o seu irmão, está fazendo Engenharia Mecânica e nós damos sempre todo o suporte que ele precisa.
— É muito bom ouvir isso. Não sabem o quanto isso significa para mim, mas eu já fiz a minha escolha e quero ser médico, quero poder salvar vidas da morte e ser um grande cirurgião.
Os seus pais quase se derreteram todo ao ouvi-lo afirmar aquilo tudo. Perto da meia-noite, Benjamin foi para a cama. Foi entrar no quarto para o seu celular começar a tocar.
Yuri chamando...
(Aceitar/rejeitar)
— Fala, japa. Tudo beleza, cara?
— Tudo certo, Ben, e por aí?
— Também. Como foi a rápida viagem? Só vi a mensagem quando era tarde demais.
— Nossa, a gente se divertiu muito. Eu e a Yumi queremos te convidar para outra parada, mas tem que ser amanhã.
— Eita, o que querem? Mata logo a minha ansiedade – disse, rindo.
— A Yumi vai cozinhar amanhã no almoço e queremos que venha almoçar aqui em casa. Pode ser? Aí já aproveitamos para conferir o resultado do vestibular todos juntos. Vai lá, diga que sim, Benzinho.
Ele pareceu pensar na proposta antes de responder:
— Mas é claro que eu vou. A Yu cozinha muito bem e estou morrendo de saudades de comer as comidas preparadas por ela. Só me diga o horário que posso ir.
— Vá se foder, Benjamin. Não precisamos combinar horas alguma, pode aparecer agora, sete horas, dez horas ou meio-dia. Tu que decida a hora que vai chegar, mas não se atrase muito para evitar perder o almoço.
— Okay, japa, okay. Obrigado pelo convite, a gente se fala amanhã cedo.
— Boa noite, Benzinho. Tenha bons sonhos.
Antes de adormecer, Benjamin ficou se lembrando das coisas que tinha conversado com Yuri na tarde passada. Se pegou rindo ao lembrar da audácia do amigo em agarrar suas nádegas desprotegidas e de como aquilo lhe apavorou. Não sabia explicar o motivo por ter gostado tanto daquela pegação sob o teto do japa, mas, agora, concordava com o que decidiram no final daquela tarde.
Seu despertador tocou exatamente às 10h da manhã, conforme havia ajustado o aplicativo do celular. Da cama foi direto para o chuveiro, a água estava pouco aquecida, já imaginava que aquilo significava que em breve ficaria na mão. Depois, se vestiu com um short de pano quadriculado, uma camiseta branca da Nike e seus chinelos dedo. Penteou o cabelo, deixando uma pequena franja e já foi disparando em direção à garagem.
Foi surpreendido ao abrir a porta, um vento gelado estava acompanhado de uma forte chuva. Ótimo, foi obrigado a subir e a trocar de roupas. Florianópolis já estava segurando um bom tempo há semanas, era de se imaginar que, algum dia ou outro, o frio do inverno e a chuva forte viriam.
Desta vez, vestiu uma calça jeans, azul clara, da Levis, ficou com a mesma camiseta, colocou um casaco moletom verde escuro e um tênis branco da Nike.
Esta seria a primeira vez que o novo motorista dirigiria em um dia de chuva, a princípio estava um pouco preocupado, entretanto ao pegar a rodovia SC401, se tranquilizou.
Pegou um congestionamento aqui e outro acolá, mas nada muito demorado ou que pudesse tirar suspiros desanimados do menino. Ao ligar o rádio, a primeira notícia que ouviu foi:
“Hoje sai o listão com os aprovados da ACAFE, são mais de mil vagas espalhadas em quinze universidades ingressantes ao sistema de avaliação comum. A nossa expectativa é que os melhores classificados sejam novamente os candidatos à medicina. Não temos dúvidas que os futuros calouros devem estar muito ansiosos para este dia. Os candidatos aprovados têm de sexta-feira até terça-feira da semana que vem para efetivar a sua matrícula nas respectivas instituições onde foram aprovados”.
O coração de Benjamin disparou ao ouvir o pronunciamento do coordenador geral da ACAFE. Até o momento, não estava ansioso pelo resultado, mas, agora por diante, seria difícil segurar o medo de não ter sido aprovado em mais um vestibular de medicina.
Para que Benjamin conseguisse entrar com seu carro no prédio do Yuri, precisou primeiro ligar no telefone fixo do amigo e pedir para que Yumi ligasse na portaria, autorizando o novo porteiro do prédio a liberar a entrada do visitante. Antes do Ben entrar, o cara pediu desculpas pelo inconveniente.
Quando o rapaz desceu do carro, se tocou que tinha vindo com as mãos abanando. Pronto, agora, tinha outro motivo para ficar constrangido. Ao apertar a campainha, Yuri abriu a porta sem camisa e usando apenas um calção de futebol, curtíssimo por sinal. Não demorou a esboçar seu lindo sorriso e abraçar o amigo, só que fez isso muito brevemente.
— Acho que só você está no verão, hein – afirmou Benjamin, entrando no apartamento. – Lá fora está um frio da porra, além de estar chovendo um monte.
— Ben, eu e a Yumi estamos na cozinha, lá está muito abafado, por isso precisei tirar a minha camiseta, só que se estiver incomodado, posso vestir alguma regata.
O menino de olhos verdes mal pôde ouvir o que ele estava dizendo, o som estava tocando algumas músicas diretamente do Ipod da Yu em um volume razoável. Agora, estava tocando Chandelier, da cantora Sia. Ben fez um sinal negativo com a cabeça enquanto dizia:
— Japa, tu está na sua própria casa, não vou dizer o que pode ou não fazer aqui. Relaxa, fique como bem quiser. Não me importo nem um pouco, é sério mesmo. – Inclusive, Benjamin também tirou o casaco, permanecendo apenas de calça e camiseta, é claro.
O visitante acompanhou o amigo até a cozinha, que por sinal era gigantesca, ainda maior do que na casa do Benjamin. No meio da cozinha, acima do balcão de centro havia um lustre gigantesco de porcelana e cristal. Yumi estava no fogão, mas se retirou por alguns segundos para dar um beijo e um abraço no amigo.
— Vejo que todos aqui estão morrendo de calor, hein. E eu lá fora passando o mó frio pra chegar aqui. Quanta ousadia – provocou Benjamin. Yumi estava usando um Cropped de renda amarelo e um micro short branco vintage.
— Sério? Nossa, nem tinha me dado conta de que está frio lá fora. O ar-condicionado ficou ligado desde ontem, por isso nem reparei. Como você está, Benjamin? Ansioso para o grande resultado?
Yuri estava do lado do amigo e sorria igual a um pateta. Yumi não pôde esperar a resposta para voltar ao fogão, o refogado de camarão com vinho rosé já começava a disparar todos os sentidos dos três.
— Uou, Yu. O cheiro está muito bom. Me desculpem, mas não trouxe nada comigo. Se quiserem posso sair rapidinho e comprar alguma coisa.
— Vá se foder, Belucce. Que tipo de anfitriões seríamos, caso permitíssemos trazer alguma coisa? Vá pra lá com o japa e quando tiver tudo okay por aqui, eu chamo vocês.
Benjamin e Yuri foram para a sala, o primeiro se lembrou por acaso do beijo que deram naquele lugar há dois dias. Ele ainda conseguia sentir os lábios quentes e finos do outro em contato com os seus. Se perguntava o porquê de estar tão pilhado mesmo decidindo ignorar a estranha atração pelo melhor amigo.
— Quando seus pais voltam de viagem?
— Boa pergunta, Ben, boa pergunta. A última vez que falei com eles, acho que foi no dia em que chegamos a Floripa. Minto. Foi no dia seguinte, ou seja, já faz quase uma semana.
Yuri parecia nem se importar.
— Tá muito nervoso para ver o resultado?
— Não estava até ouvir o coordenador da ACAFE se pronunciar a respeito do resultado na rádio enquanto vinha para cá. Agora, quero muito confirmar que rodei em mais um vestibular. Nem sei o motivo para estar me enganando de que conseguirei.
— Poxa, Ben, se ficar torcendo contra si mesmo, é óbvio que não vai conseguir passar – protestou Yuri, pondo uma mão sobre a coxa esquerda do amigo a fim de tranquilizá-lo, só que Benjamin por impulso se afastou.
— Obrigado, japa, vou ter um pouco de esperanças. Quero dizer, pelo menos, até conferir o listão de aprovados.
Yuri se chateou pelo o que o amigo tinha feito; fugir daquela maneira não era certo. Só tinha posto uma mão sobre a coxa dele, qual a malícia desse gesto? Será que todo o contato que, por ventura, trocassem dali em diante seria considerado um ato subversivo?
— É assim que se fala, ano passado, não passei na primeira chamada da UNISUL através da ACAFE, tu se lembra? Eu só fui passar na quarta chamada, lá em setembro – comentou Yuri, rindo da própria desgraça.
— Em consideração ficou com o primeiro geral de medicina na UNIVILLE também pela ACAFE no vestibular do final de ano.
— Affs, Ben. Eu queria dizer com isso que tu também pode não passar hoje, mas não significa que não vai conseguir nas próximas chamadas. E para qual universidade prestou?
— FURB.
— Caralho, na FURB? Tu sabe que ela fica em Blumenau, certo? Há cento e cinquenta quilômetros de Florianópolis.
Benjamin sorriu maliciosamente e torceu os lábios.
— Sei sim. Foi justamente lá que tu estava com a Yumi ontem, não foi?
— Cara, foi. Mas... mas, vai ter coragem de sair daqui se passar lá?
— Primeiro, eu preciso passar para pensar a respeito, seu puto. Só que sim, eu iria para lá de boa. Ainda começaria a minha faculdade neste segundo semestre. Me formaria um semestre apenas depois de você e da Fernanda. Me formaria, inclusive, no mesmo período do que o precoce.
O japonês parecia desapontado. Logo, sua irmã lhes chamou para irem almoçar. A garota preparou além do refogado de camarão com vinho rosé, purê de batata e salada de tomate com quiabo.
— Caramba, Yumi, adorei o camarão e o purê. Tu não devia ter escolhido medicina e sim, gastronomia. Aproveitasse que seus pais amam a Europa para tu se especializar em Paris ou região.
— Eu já tinha pensado nisso em meu primeiro período da faculdade – afirmou entre risos –, porém não tive coragem de abandonar o curso, justamente na USP São Paulo, para me aventurar na Europa.
— Ela começou um curso de gastronomia ofertado pela nutrição da própria USP no começo do semestre.
— Pelo jeito já tem feito muita diferença, Yu.
A menina sorriu toda boba e mandou beijos para ele do outro lado da mesa. Algum tempo depois, Benjamin recebeu uma ligação da Bárbara querendo saber onde ele estava e após dizer, a ruiva entrou em parafuso e falou que ela e o Arthur iriam direto para lá em meia-hora. Queriam estar do lado do Ben quando o listão fosse divulgado no site da ACAFE.
O garoto de cabelos castanho claro estava muito preocupado por tantos amigos estarem querendo se juntar para confirmar o seu fracasso. Não saberia fugir de tantos olhares ao mesmo tempo quando checasse o site. Há cinco minutos, eles entraram no site pelo notebook do japa e estava escrito a seguinte informação:
Senhores candidatos, informamos que a lista com os aprovados será divulgada até o fim da tarde hoje, 04 de agosto de 2015.
Atenciosamente, ACAFE.
— Eles fazem isso só para trollarem os corações aflitos dos seus vestibulandos. Nunca vou entender o motivo para tanta enrolação— disparou Yuri, extremamente ansioso.
Estava com muito medo de que o melhor amigo estivesse certo e não alcançasse sua aprovação neste vestibular. Por outro lado, sabia que era melhor isso do que se afastarem, porém não queria vê-lo sofrer como aconteceu no ano passado e no dia do resultado da UFSC.
Mais um tempo depois, Bárbara e Arthur chegaram ao apartamento do Yuri. Ela quase teve um ataque do coração ao ver a irmã do japa. As duas se abraçaram até que os meninos ameaçaram jogar água fria para separá-las. Bárbara também deu um abraço bem gostoso em Benjamin.
— Que linda que tu tá, Yu-yu. Muito linda!
— Ain, fofa, tu que continua gostosa e poderosa, hein. E agora está namorando o Arthurzão? Que fofos!
Arthur ficou constrangido, mas abraçou a namorada quando Yumi lhes chamou de fofos. Bem no fundo, Yumi ficou com um pouquinho de inveja por se lembrar do seu ex-namorado.
Quando era pontualmente 17 horas, Yumi interrompeu a conversa do grupo para gritar:
— Saiu o resultado...! Aguenta coração...!
Benjamin fechou os olhos e sentiu o peito acelerar, seus músculos se contraírem, as mãos tremerem e a garganta secar. Ninguém ousou passar por cima do amigo e abrir a lista de aprovados da FURB. Embora, tenha sido a vontade da Bárbara.
— Tu está se sentindo bem, Belucce? – perguntou Yumi, tentando sentir os batimentos cardíacos do menino através do tato. – Olhe para mim, lindinho. – Ele abriu os olhos. – Não fique com medo. Seja qual for o resultado, tu já é um campeão por ter tentado de novo.
Ele pôs o notebook do amigo em seu colo. Os quatro amigos correram para trás do sofá para conseguirem ver a lista junto com ele. Benjamin puxou a respiração e clicou em: aprovados em 2015/2.
Abriu-se uma página em pdf com os nomes dos aprovados em ordem alfabética de curso. Cada centímetro da tela que o scroll deslocava para baixo, seus pelos dos braços se enrijeciam desordenadamente.
“J... K… L… M… MEDICINA…”
Colocação — Nome dos Aprovados
01º Michele Cavalcante Mello
02º Fábio Costa Zummermann
03º Benjamin Belucce Furlanetto
(...)
— Eu passei… eu passei… Porra! Eu… – Benjamin disparou a urrar enquanto pulava do sofá, jogando o notebook para o lado, e sem conter toda alegria que invadiu seu peito. – Ahh...! Não acredito, não acredito!
Ele correu desorientado e pulando para longe dos quatro amigos emocionados. Logo, eles correram atrás do rapaz para abraçá-lo e parabenizá-lo. Primeiro foi Arthur que levantou Benjamin a partir de suas coxas, depois, Bárbara e Yuri pularam em cima dos dois.
— Caralho! Tu passou, cara...! Tu merece demais esta vitória – gritava e chorava Bárbara. – Eu te amo, Benjamin Belucce Furlanetto!
— Parabéns, Ben! Eu te disse que ia passar, eu te disse – berrava Yuri, abraçando o amigo sem dó. Os dois começaram a chorar no ombro um do outro. As mãos de Benjamin roçavam a nuca do melhor amigo. – És muito foda, meu irmão. És muito foda! Eu te amo, cara! Eu te amo, porra...! Tu conseguiu...!
— Não acredito! Eu não consigo acreditar que eu passei... – Benjamin chorava muito e já desfalecia no chão. – Isto tudo é bom demais! Eu passei em medicina, porra!
Yumi se ajoelhou para abraçar o menino sentado de lado, por cima das suas coxas. Yuri estava, em um canto da sala, chorando abraçado a Bárbara. A ruiva também não se conteve e chorava muito. Ver a emoção tomar conta do amigo de infância foi incontrolável.
— E passou em terceiro lugar dentro dos quarenta aprovados na primeira chamada da FURB – gritou Arthur, de olho na tela do notebook.
— É sério isso? – perguntou Benjamin, se levantando e indo conferir. – Caralho, eu passei em terceiro lugar – gritou, após checar o listão de aprovados. Novamente, começou a chorar.
Yuri estourou um champanhe e começou a jogá-lo em cima do rapaz, que abriu a boca poder beber direto da garrafa, sem se importar na sujeira que estava fazendo no chão da sala. Os outros começaram a gritar:
Benjamin... mito! Benjamin... fodástico! Benjamin... o cara!
O japa deu outro abraço no amigo, beijando sua bochecha rosada e, depois, pegou-o no colo e começou a pular. O menino de olhos verdes não conseguia parar de rir e comemorar. Bárbara já estava tirando várias fotos para postar em seu Facebook e Instagram.
Não demorou nem dez minutos para eles estarem lá embaixo, na Beira-mar, em frente ao prédio do Yuri , brincando com o aprovado – quebrando ovos, pintando com tinta Guache, jogando farinha e pó de café . Além disso, bebiam champanhe e não conseguiam controlar a algazarra. O porteiro pediu para que eles não ficassem na frente do prédio, caso contrário, o síndico chamaria a polícia.
Eles só atravessaram a rua e continuaram a zoar todo o amigo. O telefone do Ben tocou e era sua mãe, estava com a voz bem emocionada.
— Eu acabei de ver, meu futuro doutor. Terceiro lugar? Terceiro lugar? Eu não acredito! Teu pai não pôde te ligar porque acabou de entrar no centro cirúrgico, mas ele mandou dizer que está muito orgulhoso. Na verdade, nós estamos muito orgulhosos, meu amor. Parabéns! Parabéns!
A doutora Marisa começou a chorar do outro lado da linha e foi amparada por uma amiga. Elas estavam no Hospital Universitário da UFSC, no meio do refeitório dos internos e médicos.
— Muito obrigado, mãe.
— Quando chegar lá em casa a gente comemora, tá bom? Onde estás agora, meu amor?
— Tô aqui na Beira-mar, bem na frente do apê do Yuri, com ele e com todo o resto da galera. Mais tarde a gente se fala, mãe. Te amo. Beijos.
— Ain, que lindo! Ela deve estar superorgulhosa do filhão – disse Yumi, quebrando mais um ovo na testa do amigo. – Espera aqui, porque o Arthur e o Yuri foram comprar mais algumas dúzias de ovos e café.
— Que tal rasparmos o teu cabelo, Benzinho?
— Vá se foder, Báh. No meu cabelo ninguém toca, entendeu? Ninguém vai raspar nada. Se quiser raspar alguma coisa, então, raspe os pelos do meu saco.
As duas não se seguraram e caíram na gargalhada. Algumas pessoas que passavam pelo calçadão paravam para perguntar onde ele havia sido aprovado e para parabenizá-lo pela aprovação merecida.
Fale com o autor