Sem as Linhas
19 XVIII- "Talvez eu esteja presa aos seus olhos..."
Notas iniciais
~POV Estefani~
Enquanto ainda continuávamos caminhando em silêncio, sem rumo, muitas perguntas se formulavam em minha mente e eu queria libertá-las a qualquer momento.
Eu ainda continuava em seu colo, mas já me sentia totalmente bem.
–Pode me soltar agora, Alex. –Eu disse enquanto ainda aspirava mais um pouco de seu perfume, perto de sua clavícula.
Sem dizer alguma palavra, apenas me soltou e colocou — me no chão de forma delicada e cuidadosa.
Eu estava com muito frio, então apenas andei ao seu lado nas calçadas de algumas ruas que eu desconhecia, com as mãos nos bolsos.
Dentre as coisas que eu pensava, me perguntava se tudo o que ele havia feito por mim hoje era um pedido de desculpas por tudo o que ele me fez passar na estação de trem. Mas ao invés de perguntar, calei-me até que outra pergunta veio até meus lábios.
–Então, porque eu? –Questionei olhando em sua face e observando os meros detalhes da mesma.
–Por que você, o que? –Ele jogou.
–O beijo... –Fui direta com as palavras.
–Eu não sei te responder, agora. –Ele disse olhando em meus olhos.
Eu fiquei com raiva de sua resposta e eu apenas saí caminhando em sua frente, com passos largos e firmes. Queria descarregar a minha frustração em algo.
–Hey! –O ouvi gritando atrás de mim, à poucos centímetros.
Não respondi, ignorei.
–HEY! –Ele gritou mais alto ainda.
Ignorei de novo.
Vá se ferrar, garoto diabólico.
E, então eu ouvi os seus passos rápidos e senti suas mãos sobre os meus ombros, virando-me para ele. Fazendo-me encarar os seus perigosos e intrigantes olhos negros, que por sinal, ficavam lindos com essa luz da lua iluminando-os.
–Eu te chamei você não ouviu, não? –Ele sussurrou fitando os meus olhos.
–Se os seus latidos você chama de “chamar alguém”, então eu acho que ouvi, sim. –Eu respondi, com raiva, mas ao mesmo tempo com humor nos olhos.
–O que? –Ele perguntou surpreso por minha audácia nas palavras.
Desvencilhei-me de suas mãos nos meus ombros e continuei a minha caminhada sem destino.
–Pode me conceder a honra de lhe deixar acompanhá-la? –Ele disse com escárnio na voz.
–Como você pode falar essas palavras difíceis quando está podre de bêbado? E, o pior, dirigir? –Eu perguntei olhando em seus olhos, por mais uma vez naquela noite.
Talvez eu esteja presa aos seus olhos...
–Como você sabe que eu bebi? –Ele perguntou, constrangido.
–O beijo... –Eu lembrei-o, mas não olhei em sua face nesse momento.
–Bom, eu estava dirigindo o carro do meu amigo. –Ele disse respondendo à outra pergunta.
–Pior ainda. –Eu disse.
–Tá, mas você é a minha mãe, agora? –Ele perguntou rindo ironicamente.
Pensei em dizer que era apenas preocupação, por ele estar bêbado, mas espera aí...
PREOCUPAÇÃO?
Poxa, ele não se preocupou quando fez aquele absurdo comigo. Mas, no final, eu acho que é preocupação misturado com curiosidade e implicância.
Mas eu queria saber o que ele achou do beijo...
Queria saber se ele sentiu o mesmo...
Afastei esses pensamentos humilhantes e não respondi.
Meus devaneios tiveram fim quando ele me interrompeu com sua voz grave:
–Chegamos.
Parei, olhei para sua face.
Seu queixo apontou para frente, em direção do palácio em que estávamos.
–Onde estamos? –Olhei para sua face, com os olhos arregalados.
–Na minha casa. –Ele disse simplesmente tranquilo. Como se aquilo fosse totalmente normal. Um garoto da minha idade morando em uma casa que, aproximadamente valia uns cinco bilhões de reais.
Engoli em seco e virei o rosto para observar toda aquela imensidão e riqueza tão óbvia em frete aos meus olhos.
O pátio era grande, com um gramado tão verde que chegava a ser escuro.
Tinha diversas mesas e cadeiras brancas, num estilo praiano e tranquilo. Mas a casa era a que mais chamava a atenção.
Era como se fosse um prédio: Alta, comprida verticalmente pra cima, de cor pêssego e diversas luzes espalhadas por volta dela.
As flores e o jardim deixavam a casa mais linda ainda. Tinha poucas janelas na casa. O lugar tinha diversos cômodos envoltos por vidros, então janelas eram desnecessárias.
Alex foi andando na frente, se identificando na portaria da casa e entrou comigo lá dentro.
Ele me estendeu a mão.
–Segure a minha mão. –Ele disse, percebendo o meu olhar duvidoso sobre aquilo.
–Eu não sei se devo. –Disse receosa.
Quando pensei que ele estava prestes a recolher a mão e colocá-la no bolso, ele pegou rapidamente a minha e colocou sobre a mão dele.
–Assim está bem melhor. –Ele ressaltou. –Agora, vamos. –Ele disse puxando-me para dentro do palácio.
Tanto por fora quanto por dentro a casa era incrível: Tinha diversos quadros e tapeçarias.
A adega era repleta de vinhos franceses, portugueses, italianos.
Tinha uma estante com diversos livros da literatura clássica Brasileira e Inglesa.
A riqueza ali era visível.
Estava embasbacada com tantas coisas em minha visão.
–Mas, qual o objetivo de me trazer para a sua casa? –Eu perguntei, despreocupadamente, de pé, ao lado da estante e olhando em seu rosto.
–Nenhum. –Ele disse enquanto pegava duas garrafas de água no frigobar na sala e voltava pra onde estávamos: A copa da casa. –Você quer? –Ele apontou para a garrafa de água em suas mãos.
–Sim, por favor. –Eu disse chegando mais perto dele para pegar a garrafa.
No momento em que me aproximava, ele sentou-se numa poltrona próxima de uma televisão de plasma.
Ele me observava, lentamente. A garrafa de água continuava em suas mãos, de forma convidativa.
No momento em que cheguei perto dele e observava de cima os seus cabelos e traços peculiares, ele puxou o meu braço rapidamente, pra perto dele.
Desse modo, não tive escolha a não ser cair por cima dele.
–O que você está fazendo? –Eu perguntei, enquanto tentava me recompor.
Ele não respondeu e também não me deixou sair dali.
Meu queixo estava em seu ombro e minhas pernas por cima de seu colo.
Dando-me por vencida, por sua recusa de não deixar-me sair daquela situação, decidi então me confortar melhor em seu colo: Sentei-me em sua coxa esquerda e coloquei as minhas pernas sobre o seu colo, deixando os meus tornozelos caírem sobre o braço da poltrona e os meus braços envolveram o seu corpo.
Ele se abraçou em meu corpo e repousou a cabeça um pouco abaixo da minha, perto do meu pescoço.
Permanecemos em silêncio por um tempo, naquela mesma situação.
Mas, finalmente o frio que eu sentia no meu corpo e aqui dentro de mim, passou.
–Sabe às vezes eu só queria ser compreendido e ter esse momento com alguém. –Ele disse.
Eu me afastei do seu calor e olhei em seus olhos. Os mesmos jorravam tristeza e quase expulsavam lágrimas.
Acariciei o seu rosto macio por um momento e pousei os meus dedos um pouco abaixo de seus olhos, para que interrompesse as lágrimas que estavam prestes a cair.
Com as costas das minhas mãos passei lentamente as mesmas em suas maçãs do rosto.
Peguei uma mecha de seu cabelo e apertei lentamente, para sentir a textura dos fios em meus dedos.
Cada movimento que eu fazia, olhava fundo em seus olhos, e a essas alturas não me importava mais se me perdia ou não na imensidão daqueles olhos negros.
Ele chegou mais perto do meu rosto e eu quase podia me enxergar dentro de suas pupilas.
Quando finalmente, tomei coragem e encostei, mais uma vez naquele dia, os meus lábios nos seus.
O seu gosto selvagem e perigoso voltou a me invadir e atormentar.
Eu fui cedendo, lentamente... E, aos poucos suas estavam em minhas costas e as minhas estavam em sua nuca, afundando-me mais naquele beijo e em meio àquela confusão de fios de cabelo que eu tanto adorava ver.
Quando me dei conta do que estava fazendo, na casa bilionária de um homem que eu mal conhecia, falei rapidamente, pulando pra fora de seu colo:
–É melhor eu ir indo. –Eu disse indo em direção da porta e virando para trás para dar um aceno rápido e para ver a expressão nos olhos dele.
–Fica mais... –Ele suplicou.
–Não... Eu preciso ir. –Disse atordoada, já saindo, fechando a porta que nos interligava, de algum jeito.
Quando passei pelos portões, minha pele já estava ficando arrepiada de frio, mesmo que o casaco do Alex tivesse ficado comigo.
DROGA! O casaco...
Pensei em devolver na segunda-feira na escola... Mas, ficaria muito óbvio para quem visse que nós tivéssemos tido alguma espécie de contato fora da escola, então eu decidi voltar para entregar o casaco a ele.
Quando entrei na copa novamente, Alex ainda estava sentado na poltrona, mas agora ele assistia televisão e tomava um bom copo de vinho.
Quando ele notou a minha presença, perguntou:
–Decidiu aceitar a minha proposta? –Piscou para mim.
–Não... Na verdade, eu vim devolver o casaco pra você... –Eu disse estendendo o casaco na direção dele.
–Pode deixar aí em cima da mesa de vidro. –Ele disse, fazendo pouco caso da minha presença.
Senti uma pontada de dor, bem na pontinha do peito.
Uma mínima dorzinha.
–Tudo bem. –Eu disse largando o casaco e fui em direção da porta novamente, só que agora, sem olhar pra trás.
Encaminhei-me para os portões de novo e sentia muito frio.
Esfregava constantemente meus braços para que eu pudesse aliviar o ar gélido que penetrava em minha pele de forma imperdoável.
À medida que ia me aproximando da saída, ficava mais nervosa em estar ali, na casa dele.
Mas quando estava já quase saindo do portão, um Audi Preto entrava. Os vidros eram tão pretos que não dava para enxergar quem estava do outro lado.
Mas a pessoa arrogante se encarregou de parar o carro, baixar o vidro e me encarar.
Engoli em seco e apenas encarei de volta, mas tentei não ser rude com meu olhar, e muito menos intimidadora.
–E, você quem é? –Disse a mulher.
–Eu, hum... Sou uma amiga do Alex. –Eu disse encarando os meus próprios pés nervosamente.
–Amiga? –Ela perguntou, rindo ironicamente.
–Boa noite, pra vocês. –Eu disse baixando a cabeça e seguindo o meu caminho em frente.
Ela não disse mais nada, mas senti o seu olhar sobre os meus ombros.
Acho que eu já não sei em que lugar eu estou pisando, mas com certeza é bem perigoso.
Acho que o olhar intimidador e rude daquela mulher não vai sair tão cedo da minha cabeça.
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