Sem as Linhas
18 XVII- Vodca, Algodão doce e um coração vazio
Notas iniciais
~POV Estefani~
Aquele beijo me consumia profundamente.
Ele tinha uma intensidade tão grande quanto minha vontade de continuar beijando aqueles lábios carnudos e rosados.
Minha vontade interior de gritar era muito grande e ela vinha na minha garganta a cada segundo.
Eu queria gritar pra mim mesma de que estava cometendo um erro imperdoável, algo que traia a mim, meu melhor amigo e principalmente, aos meus princípios, afinal de contas eu estava me metendo em um terreno muito perigoso: Meu sequestrador e eu era o alvo constante dele. Mas ao mesmo tempo eu queria gritar de felicidade, porque o meu desejo, desde o dia em que conheci Alex, acabara de se consumir e os meus pulmões protestavam por ar.
De jeito nenhum eu queria me desgrudar dele, mas o grito de Fredi acordou-me dos meus devaneios e isso me atingiu da pior forma.
Assim, eu cometi o maior erro da minha vida na frente do meu melhor amigo.
O amigo que, acima de tudo me amava, e agora eu pisei nele e nos seus sentimentos da forma mais cruel possível.
–Estefani! –Ele gritou na soleira da porta da sala de jantar, de onde acabara de sair e mesmo na penumbra da rua, somente iluminada pela luz do poste, eu pude ver os seus olhos cheios de raiva e dor.
E a música continuava a tocar, enfatizando o cenário que acabara de se formar em minha frente.
–Fredi! –Eu gritei de volta, empurrando Alex para longe de mim.
O mesmo deu um passo para trás e ficou observando eu e Fredi.
–O que você está fazendo, Estefani? –Ele gritou mais alto e com algumas lágrimas nos olhos, a ponto de desmoronar, e mesmo assim aproximava-se de mim mais ainda, para confirmar quem eu estava beijando: Alex.
Eu não respondi a sua pergunta, porque no momento em que ele confirmou tudo e sua face desmoronou, ele cuspiu:
–Estefani, você some da minha frente, se possível, pra sempre, porque eu te quero o mais longe possível! A única coisa que você sabe fazer e muito bem é pisar nos meus sentimentos, é me fazer de bobo. –Ele gritava.
Alex permaneceu calado, observando.
–E-E-Eu... Perdoe-me... –Eu disse olhando em seus olhos.
–O que é agora? –Ele gritou mais ainda. –Você vai fingir que se importa com alguma coisa que eu sinto? Você nunca sequer disse que me ama! –Ele disse e as lágrimas quentes cortavam o seu rosto e o meu coração.
–Eu não vou negar Fredi: Eu beijei sim o Alex, mais foi um momento de impulso, você tem que entender. –Eu disse. –Eu falei pra você que eu não queria confundir as coisas entre nós e olha o que você está fazendo: Está estragando uma amizade por egoísmo. –Eu disse com a voz um pouco alterada e olhando pra ele.
–Egoísmo, Estefani? –Ele perguntou de forma irônica, rindo. –Eu não sou egoísta é que você nunca amou ninguém de verdade! Você tem o coração vazio! Dane-se que você ama o Rui ou o Alex: Do que adianta? –Ele continuava gritando — O Rui mora em outro estado, então você nunca sequer o tocou e o Alex é só um garoto mimado que acha que o mundo todo está na mão dele... E eu ainda te salvei aquele dia... Eu deveria ter te deixado nas mãos dele, você teria gostado bem mais, não é mesmo? –Ele disse olhando em meus olhos.
–Não acredito no que você está dizendo... –Eu disse e algumas lágrimas desciam das minhas pálpebras. –Eu não tenho culpa de não poder corresponder os seus sentimentos, porque eu sempre te vi como um amigo! E, eu mesma não conheço os meus sentimentos por ninguém, nisso você está certo, mas eu aos poucos vou conhecendo-os, é o que eu pretendo fazer... –Eu disse, agora com um tom de voz menos alterado.
Assim que terminei de falar me virei para o lado oposto de sua face e passei as minhas mãos trêmulas pelo meu rosto, limpando o resto das lágrimas: Eu estava farta de tudo aquilo, principalmente do Alex.
Fredi se aproximou de mim, eu sabia pelos seus passos pesados na grama do jardim, mas eu continuava de costas pra ele, ignorando sua face e os seus sentimentos.
–Você não merecia essa festa, Estefani. –Ele disse com a voz embargada. Os sentimentos feridos.
Perdoe-me... Mas, eu sempre soube que eu era a vadia intragável.
Ele continuava fitando as minhas costas, virei um pouco à cabeça, de modo para escutar ele melhor:
–Eu sei o que você merece, agora. –Ele disse, sussurrando.
Alex continuava observando em silêncio.
Eu virei para encarar Fredi, de perto.
–E, então... O que eu mereço Fredi? –Eu perguntei encarando Fredi, despindo-o com o meu olhar, do mesmo modo que ele fez comigo no dia em que ele disse que estava apaixonado por mim.
No momento em que o encarei, senti a pressão dos seus dedos em meu rosto, de forma que deixou o lugar formigando constantemente.
Não acredito que fez isso... Não acredito!
Não acredito... Não acredito...
O tapa de Fredi em mim doeu muito mais em meu coração do que de fato em meu rosto.
Eu só fiquei de joelhos no chão com a mão em meu rosto e as lágrimas quentes escorrendo do meu rosto, e nem vi quando e como a briga entre Alex e Fredi começou.
–Eu disse pra você que isso não estava acabado e que o troco viria, filho da mãe! –Disse Alex gritando para Fredi enquanto esmurrava violentamente a cara do meu melhor amigo.
Mas, eu estava tão em choque que nem sabia direito o que eu estava fazendo.
Acho que de fato, naquele momento, eu pensava que Frederico merecia e muito aquilo.
Enquanto olhava a briga de longe, ainda em estado de choque, vi Fredi reagir e agora dar diversos socos e pontapés em Alex.
Eu não quero enxergar essa realidade aqui, na minha frente...
Eu só quero esquecer isso, simplesmente...
De repente, deitar nessa calçada fria seria a melhor opção pra mim, enquanto eles estão ali se soqueando.
Desejava constantemente deitar a minha cabeça na pedra fria e relenta da rua...
Então, de joelhos, apenas olhei novamente para aquele céu, o qual pingava estrelas gordas e brilhosas... O brilho que eu tanto sonhei, agora tão perto de mim...
Olhei novamente para o céu, olhei para os dois, com os rostos roxos e com sangue... Os lábios doces de vodca do Alex já eram uma lembrança dolorosa e feliz...
Tentei gritar para eles me ouvirem, pedir ajuda, mas nem um fiapo de voz saiu de mim.
Senti pena dos dois e aquela cena toda em câmera lenta ainda pairava sobre os meus olhos naquela noite gélida e brilhante... Senti meus olhos rodarem, o chão estava distante... Mesmo de joelhos, senti que minhas mãos não alcançavam o chão para me apoiar, então simplesmente, deixei o meu corpo cair sobre a calçada, em agonia.
~POV Alex~
Simplesmente não aguentei aquele infeliz do Fredi bater na minha garota. Na MINHA Estefani...
E, fala sério! Ele gosta dela então?
Ah, que ótimo, uma bela vingança!
Eu transpirava raiva e só o que eu poderia fazer por ela, era quebrá-lo no meio.
Mas, ao mesmo tempo em que eu estava ali, os dois se soqueando, constantemente... Estanhei que Estefani ficou sem reação e a mesma nem gritou... Senti que algo estava estranho, mas Fredi não parava um minuto de me atingir no rosto, o que de fato atrapalhava a minha visão e eu não conseguia paralisar o olhar para que eu pudesse focar na Estefani.
Eu tentei dar uma série de socos nele, para que eu pudesse observá-la, mas não conseguia mirar direito e só o que eu conseguia eram socos fracos e desviados de sua face rígida.
Tentei chamá-la, mas não tive resposta.
Aos poucos um burburinho se aproximou de nós e pude desviar o olhar para ver que tinha uma boa quantidade de adolescentes ao redor de nós ao lado direito, e uma Estefani caída na calçada ao lado esquerdo, um pouco longe de todos.
Com certeza, depois dessa noite eu iria me afogar em uma garrafa de vinho caro da adega da minha casa. Afinal, o que esse doente desse Frederico tem na cabeça? Merda? Fala sério... Ele ficou cego de raiva.
Eu me levantei do chão e me afastei um pouco de Fredi e pude o ver vindo atrás de mim para me esmurrar mais um pouco... Assim que me pus de pé, ele já estava perto o suficiente para me socar mais, mas eu acabei por sacudi-lo e as palavras que cuspi foram tão rápidas que eu mal pude controlá-las:
–Desgraçado! O que você tem nessa sua cabeça? Não está vendo que a garota que você tanto diz que ama está caída ali no chão?! –Eu gritei o mais alto que eu pude e a atenção de todos foi parar numa Estefani caída na calçada, desamparada.
Senti pena.
Pena da minha garota com o cabelo de duas cores... A minha garota com os olhos cor de esmeralda, mas que ultimamente estavam tão sem brilho que me tiravam o sono...
Quando falei, Fredi ainda ficou parado me observando, enquanto isso minhas pernas ganharam vida própria e eu corri até ela.
Coloquei sua cabeça sobre minha coxa, e comecei a chamar por seu nome.
Por favor, acorde.
Por favor, eu preciso dos seus olhos para continuar a viver.
Em um ato de desespero e súplica para que ela acordasse, peguei-a no colo e a levei para o banco em que a encontrei quando cheguei aqui, perto de onde nos beijamos.
Fredi veio correndo até mim e me perguntou:
–Tem algo que eu possa fazer para ajudar? –Ele disse me olhando.
–Sim. Vá lá dentro e veja se tem um pano e mergulhe esse pano no álcool. –Eu disse determinado.
Fredi assentiu sem dizer uma palavra e eu pude observar o seu rosto ensanguentado.
Fiz um estrago grande em sua face.
Olhei minhas mãos, estavam roxas. Toquei o meu rosto e o mesmo estava dolorido.
–Pessoal, está tudo bem. Estefani apenas teve uma queda de pressão. Podem voltar para a festa, curtir. Logo mais ela estará lá também. –Eu disse gritando para que todos pudessem ouvir.
Assim que tranquilizei todo mundo e eles se retiraram, Fredi ainda não tinha trazido o pano com álcool.
Afaguei os cabelos coloridos da minha garota... Sua pele era extremamente branca, seu corpo pequeno e fino... Ela estava deitada sobre o banco frio... Sua pele estava gelada, devido à noite que caía sobre nós.
Tirei meu casaco e coloquei sobre o seu corpo. O céu, a lua, as estrelas e os meus olhos testemunhavam o meu ato.
Afaguei mais um pouco os seus cabelos e quando Fredi se aproximou com o pano que eu pedi, não demorei a aproximá-lo de Estefani.
Assim que, levemente encostei o pano em seu nariz, ela rapidamente acordou ainda meio tonta... Fiquei segurando os seus ombros para que ela pudesse se apoiar.
–Eu acho que não tenho mais nada pra fazer aqui. –Eu disse, olhando para os dois, assim que Estefani estabilizou a respiração.
O silêncio reinou e eu os dei às costas.
–Alex... –Ouvi a voz de Estefani me chamar e eu girei os calcanhares, buscando o seu olhar.
Assim que a encarei, ela falou:
–Por favor, me leva pra casa? –Ela perguntou com os olhos suplicantes em minha direção.
Frederico continuava abaixado ao lado do banco o qual ela estava sentada e ele sentiu o meu olhar sobre ele.
–Mas eu estou aqui. –Frederico disse a ela.
–Você me mandou sumir pra sempre da sua frente, então eu estou começando agora. -Ela disse com os olhos umedecidos.
Ele não respondeu, apenas observou quando eu me aproximei dela e a peguei no colo.
Bom, pelo menos Frederico ficou com a festa e os convidados.
Estefani envolveu os seus braços envolta do meu pescoço, enquanto eu colocava o braço esquerdo em suas costas e o direito por baixo de suas coxas, buscando equilibrá-la em meu colo.
Ela permanecia em silêncio enquanto eu sentia o seu perfume doce, exalando de seu pescoço. O mesmo dava-me uma vontade louca de abraçá-la e de tê-la mais para perto de mim.
O cheiro de algodão-doce dela me deixava louco.
Fui caminhando com ela em meu colo pelas ruas geladas, sem rumo.
Acho que nós dois só queríamos ficar em silêncio.
E, então eu vi escorrer de seu rosto algumas lágrimas quentes...
Eu só pude confortá-la da forma mais simples que encontrei: Afagando o seu rosto com os meus dedos gelados.
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