Sem as Linhas
15 XIV- Behind Blue Eyes
Notas iniciais
“Vou tentando a cada dia que passa encontrar a fé e a felicidade no lugar certo, mas esta cada vez difícil sem a mão de alguém me guiando”.
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Enquanto estava a caminho da escola naquela manhã, ainda a imagem minha e de Fredi deitados juntos e ele com a mão em minha barriga, me dava arrepios.
Eu não sentia medo do meu amigo, sentia medo de mim mesma.
Não sabia do que era capaz naquele momento e ainda a imagem dos seus lábios acariciando as minhas bochechas em alguns beijos quentes, não saia da minha cabeça.
Consegui fazer as entregas de jornais a tempo e ainda consegui pegar o ultimo ônibus para ir a escola.
Chegando lá, senti um frio percorrer a minha espinha só de pensar em encontrar um par de olhos negros me encarando.
Senti medo mais uma vez naquele dia.
Encostei-me numa parede fria com meu livro favorito em mãos: O Morro dos Ventos Uivantes.
Comecei a ler deliciosamente a página do meu livro, enquanto aguardava o sinal tocar para ir até a sala de aula, mas nada do que eu planejava naquela semana, parecia dar certo, então comecei ouvir alguns alunos cochichando entre si sobre Alex e olhando pra mim e cima a baixo, com cara de ódio.
Que maravilha! Um ótimo jeito de começar o dia...
–Ouvi que o capitão do time de futebol foi suspenso por cinco dias por causa dessa dai... -Disse uma garota loira, que parecia ser bem mais nova que eu, embora tivesse a mesma altura, apontando o queixo em minha direção para a sua amiga ver quem era maluca com o cabelo de duas cores.
Senti os olhares, mas decidi tentar ignorar mergulhando no romance que estava em minhas mãos. Com a cabeça abaixada, em direção ao meu livro, apenas rolava os olhos, com indignação cada vez que sentia os olhares pousando severamente na minha direção.
Mas, apesar disso, preciso agradecer mentalmente por essa semana Alex não conseguir minha cabeça em uma bandeja — sabe-se lá por qual motivo — e me deixar ainda alguns dias pra viver.
Bom, vai ver o cara só e perseguidor mesmo e está jogando comigo.
Mas, que joguinho perigoso... Por que ele não sabe do que eu sou capaz...
Aliás, nem eu mesma sei do que sou capaz.
...
As aulas torturantes, as quais eu só entendia metade das coisas que a professora escrevia na lousa, passaram bem rápido e logo eu estava no meu trabalho de meio período no hotel Milano.
Mas, chegando lá, dona Joanna me mandou embora por que ficou sabendo de tudo através de Fredi.
Escrevi uma nota mental de agradecer ele mais tarde por isso.
Agora, uma pessoa da qual Fredi não poderia se livrar por mim, era Rui.
E, eu queria mesmo era me livrar de todo mundo, porque eu estava farta de tanta coisa e tanta gente, eu só queria um tempo pra mim, pra assimilar tanta coisa, pra acolher o cansaço do meu corpo em uma cama aconchegante.
Senti o celular vibrar no bolso da minha calça no momento que estava preparando-me para dormir.
Deixei tocando ainda por um tempo, decidindo se iria atender ou não, ate que pelo jeito, a ligação caiu.
Mas a pessoa voltou a ligar. Suspirei de raiva.
Pelo jeito, terei que adiar o meu descanso. Lá vamos nos...
Eu sabia que era Rui, só pela insistência da ligação, então estufei o peito de ar e atendi:
–Oi, Rui. Como vai? –Perguntei um pouco cansada de mais pra ouvir suas ladainhas e ter que contar tudo o que aconteceu.
–Oi, Estefani, vou bem e você? –Ele falou com a voz ríspida e, não me dando tempo pra responder, completou – Pelo jeito esta melhor do que eu, é claro, porque eu fiquei preocupado com você e-
–Espera ai, Rui. –Eu dei um grito no telefone e suspirei, revirando os olhos do outro lado – Eu sofri um sequestro de poucas horas, mas não deixa de ser um sequestro, por um cara maluco da minha escola, sofri bullying e você acha que eu estou te traindo? Ah, me poupe um pouco. –Eu disse vomitado as palavras em seus ouvidos.
Senti uma pontada de pena por causa da rispidez das minhas palavras e o poder que elas tinham, mas simplesmente aquilo era demais pra mim. Não conseguia aguentar tanta humilhação em menos de vinte e quatro horas.
–Me desculpe Téfi, e-e-eu não sabia –Disse ele, gaguejando — Eu só estava preocupado, porque a gente marcou de conversar e você não apareceu.
Ah, DROGA! Eu esqueci o Rui completamente ontem a noite. Eu simplesmente estava cansada demais por tudo ter acontecido tão depressa... E, eu nem pensei nele o dia todo...
Ah, Rui... Eu achava que te amava, de verdade... Achei que estava louca por você, mas acho que foi momentâneo demais... Acho que foi impulsivo de mais e agora, olhe só pra nós dois...
Eu até esqueci-me de você... Você que corre atrás de mim.
Eu achava que eu era a boba, eu que sempre te amei, e você nem ligava pra mim e jogava isso na minha cara.
Mas simplesmente acho que agora a situação se inverteu totalmente e eu já nem sei mais o que estou fazendo.
–Rui, eu quero terminar o nosso namoro. –Disse por fim, determinada e esgotada.
Só queria a minha cama e desligar esse telefone maldito. Quem sabe nunca mais olhar na cara do Rui, seria uma boa opção para omitir o ódio que sentia de mim por fazer isso, por desistir desse amor à distância...
–O-o-que? Co-como? –Ele perguntou gaguejando. Mas, a gente mal começou e a gente sempre se dava bem. –Ele disse me fazendo ter um pouco de pena.
–Mas, é exatamente como você falou: Verbo no passado. E, simplesmente não consigo continuar assim, não dá mais Rui. Pra mim chega. –Eu disse rolando os olhos pelo meu quarto e algumas lágrimas ameaçando cair a qualquer momento.
–Mas eu te amo tanto que ate comprei as passagens para te visitar, para nos conhecermos. Não consigo acreditar, eu achei que você me amava, Estefani. -Ele disse, e eu pude ouvir direito a sua voz embargada de um choro profundo, que atingiu meu coração lá no fundo...
–O quê? Você comprou as passagens pra me visitar? –Meu coração deu um pulo.
Talvez lá no fundo ainda haja algum fio, escasso, mas há... Alguma esperança de que eu ainda esteja apaixonada por ele e talvez quando ele chegar, eu tenha certeza do que eu estou sentindo.
–Sim, Estefani. Eu quero pelo menos tentar ficar com você, uma vez, se permitir-me. –Ele disse calmamente, esperando uma resposta afirmativa.
–Quando é o seu voo? –Eu perguntei indecisa.
–Semana que vem, na sexta-feira. O primeiro voo do dia. Chego a Porto Alegre por volta das oito e quinze da manhã. –Ele disse eufórico.
–Tudo bem, Rui. Quem sabe vamos dar uma chance para o destino. –Eu disse dando esperança a ele e a mim mesma. –Mas, eu preciso de um tempo. Você vem pra minha casa na sexta-feira que vem, fica comigo, mas por enquanto eu quero ficar um pouco afastada, preciso de um tempo pra mim mesma, sabe? –Eu disse.
–Eu sei Téfi. Obrigado por dar uma chance a nós. –Ele disse calmamente, mas senti sua voz trêmula.
Um silêncio repentino se instalou no telefone, e eu só ouvia a sua respiração fraca.
Acho que ele estava chorando ou engolindo o choro.
Certamente eu iria desabar no choro também.
–Rui? –Perguntei pra ver se ele ainda estava na linha.
–Eu quero que você toque a nossa música, por favor. –Ele disse, fungando.
Então, confirmei a minha suspeita: Rui estava de fato chorando e isso fazia me sentir péssima, mas precisava esperar até semana que vem para que eu soubesse o que realmente eu estava sentindo.
Eu não podia enganá-lo.
–Claro, só um minuto. –Eu disse levantando-me e apanhando a minha guitarra, somente com o barulho baixinho das cordas e sem o amplificador.
Sentei-me na cama e coloquei o celular no viva-voz, para que eu pudesse ouvi-lo.
Comecei a tocar a música Behind Blue Eyes da banda Limp Bizkit.
But my dreams, they aren't as empty
As my conscience seems to be
I have hours, only lonely
My love is vengeance
That's never free
Enquanto tocava silenciosamente, lembrei-me de todos os nossos momentos vividos até agora.
E, então a voz foi ficando trêmula, foi ficando cada vez mais fraca.
No one knows what its like
To be mistreated
To be defeated
Behind blue eyes
No one knows how to say
That they're sorry
And don't worry
I am not telling lies…
E, nessa parte meu coração se desmanchou.
Lembrei-me dos poemas que fiz a ele, das diversas músicas inacabadas.
Dos dias em que quis ficar sem os dedos para não tocar mais guitarra, por causa dele, pois sempre que a tocava, seus olhos vinham em minha mente.
Por quê? Porque tão longe...?
O pensamento me deixava louca. E, então assim que os dois desabaram chorando, cada um de um lado do telefone, desligamos sem nenhuma palavra.
Apenas aquelas da música que nos diziam tudo e nos faziam recordar de tudo o que havíamos sonhado e planejado para quando nos víssemos a primeira vez em carne e osso e, agora meio que tudo estava destruído entre nós.
A não ser que, quando ele vir, meus sentimentos mudarem, mas isso, só o tempo irá dizer.
Quando me livrei das lágrimas que ensopavam o meu travesseiro, pude dormir sossegada.
...
A semana toda passou como um borrão e eu mal pude ver as horas passando.
Acordei sábado com uma louca dor de cabeça, afinal estava na semana de provas da escola e sabia que alguns bons cadernos e horas de estudo na minha mesinha do quarto, aguardavam-me.
Mas, nem liguei.
Acordei calmamente, colocando os pensamentos em ordem e quando desci para tomar alguma coisa para beneficiar o meu estomago que estava me xingando por ter deixá-lo tanto tempo sem comida, não vi minha mãe.
Subi novamente as escadas e fui até o seu quarto onde a encontrei dormindo calmamente.
Suspirei de alivio: Finalmente minha mãe estava descansando e não rodeada na cama ou mesa com papéis e projetos.
Rolei os olhos por seu rosto e fui para o meu quarto. Olhei as horas no meu telefone em cima da cabeceira e avistei onze horas da manhã.
Então, decidi fazer a higiene matinal, colocar uma roupa mais descontraída e pegar alguns cadernos e livros pra colocar a matéria em dia.
Toda vez que algum pensamento me lembrava de Fredi, Rui ou Alex, empurrava-o pra longe de mim, não dando chance a ele.
Quando estava focada nos estudos, minha mãe apareceu na porta do quarto dando-me bom dia e depositando um beijo na minha bochecha.
–E, então, o que está fazendo, garota? –Disse minha mãe espiando em meus cadernos, imaginando que eu estava compondo alguma música.
–Estudando, mãe. –Revirei os olhos em sua direção e pude ver os seus lábios se curvando para um sorriso.
–Então, eu vou fazer um almoço pra nós duas, bem suculento. O que acha? –Ela disse afagando a minha cabeça e indo em direção da porta.
–Sim. –Assenti com um sorriso no rosto — O que pretende? –Perguntei.
–Seu prato preferido. –Ela disse, largando um sorriso.
–Sushi? –Perguntei sorrindo.
–Sim, querida. –Ela disse.
–Então, não pretende colocar fogo na casa hoje? –Eu perguntei, com tom de escárnio na voz.
–Não. –Ela riu. –Vou encomendar. –Ela disse, saindo do quarto e pude ouvir seus passos largos descendo as escadas.
...
Assim que terminamos de almoçar, subi novamente para terminar os meus estudos até o final da tarde, pois pretendia ter algumas horas de lazer de noite e, minha mãe decidiu ir se arrumar, pois suas colegas de trabalho chamaram-na para sair em uma choperia no centro da cidade.
Assim que a vi entrando em seu quarto para se arrumar, decidi ir até lá e falar um pouco com ela.
–Mãe, tem certeza que vai sair com suas amigas? –Eu perguntei rindo.
–Mas, claro! Qual é a mulher que não gosta de se juntar com outras para falar mal do chefe e beber cerveja? –Ela lançou uma pergunta retórica, mas eu não conhecia a sensação, embora não tinha o que reclamar da dona Joanna e do jornal Springmann.
Springmann...
Lutei contra o pensamento de novo e falei:
–Ah, sim... Mas, eu só acho que não precisa se fantasiar tanto para beber cerveja. Sabe um vestido básico e os cabelos em um coque relaxado, bastam. –Eu disse, sorrindo pra ela.
–Você acha? –Ela perguntou se analisando pela milionésima vez no espelho.
–Viu? Por isso que eu acho que você vai sair com um cara. –Eu disse, dando as cartas.
–De fato, há um cara em que estou interessada, mas ele não vai sair comigo hoje. –Ela disse olhando pra mim através do meu reflexo em seu espelho. –Quer dizer, talvez mais tarde ele me leve no cinema ou algo do tipo. –Ela falou corando levemente.
–Poxa, mãe, demorou! –Eu disse rindo e erguendo as mãos para o teto. –Podia ter me falado antes, eu te ajudava! –Eu disse rindo e indo abraçá-la.
–Desculpe-me minha filha, achei que você não iria aceitar. –Ela disse beijando minha face mais uma vez naquele dia.
–Mãe... Papai morreu há cinco anos... E, o que está feito, não há volta... –Eu disse olhando em seus olhos e o mesmo tom de verde presente em meus olhos, estava nos olhos dela, mas eles estavam marejados, assim como os meus. –E, eu sei que talvez nunca você o esqueça, mas não pode ficar só trabalhando, sem nenhuma vida. Sem nenhuma história pra contar. Você precisa viver. –Eu disse me afastando um pouco, e, sentando na cama, decidi contar a ela sobre o Rui.
–Você tem razão, minha filha. Jamais o esquecerei, mas preciso viver. E, é exatamente isso que eu estou fazendo agora. –Ela disse sorrindo e olhando o seu reflexo no espelho.
–Mãe... Eu preciso te contar uma coisa. –Eu disse encarando os meus próprios pés.
–Fala filha. –Ela disse virando-se pra mim, com as mãos apoiadas na cintura.
–Um garoto vai passar o fim de semana aqui em casa e, ele vem na próxima sexta-feira. –Eu larguei a bomba. –Chega aqui por volta das oito e quinze da manhã, de avião. –Eu disse analisando a sua expressão.
–Meu Deus! Que maravilha, minha filha! Então, você está namorando também? –Ela disse, sorrindo.
–Na verdade, estava até ontem... –Eu disse, decidindo não encarar o seu rosto e mexer em alguma cutícula minha lembrando-me de Rui. – Aí, eu pedi um tempo pra mim mesma, porque estou confusa, e decidi deixar ele vir pra dar uma chance à nós, porque ele é de São Paulo. –Eu disse, agora encarando a sua face.
–Hum... Um paulista... Que maravilha... –Minha mãe disse sorrindo e checando as horas no relógio. –Minha filha, pode trazê-lo, ele será bem vindo aqui. –Ela disse vindo em minha direção pra me abraçar.
–Tudo bem, então. Obrigado, mãe. –Eu disse retribuindo o abraço, agarrando-a fortemente entre os meus braços.
–Eu preciso ir agora, Estefani. –Ela disse indo em direção da porta do quarto, enquanto calçava as sandálias cor de prata.
Segui seus passos até o andar de baixo.
–Você está linda, mãe. –Eu disse analisando o seu corpo de cima a baixo.
–Obrigado, meu amor. –Ela disse dando mais um beijo em minhas bochechas. –Você pode sair ou fazer o que quiser. Contanto que me deixe um bilhete ou um sms. Se, eu não voltar hoje, eu te mando uma mensagem no celular. –Ela disse sorrindo.
–Tudo bem, mãe. Divirta-se e boa sorte! –Eu disse dando um aceno com a mão, enquanto ela fechava a porta da frente de nossa casa.
Assim que voltei para os meus estudos, pedindo mentalmente para que agora eu conseguisse resolver uma função exponencial, senti meu celular vibrar no bolso do casaco vermelho de moletom que eu estava usando, devido ao frio.
–Alô? –Eu disse, sem vontade.
–Oi Téfi, é o Fredi. –Disse ele.
Engoli em seco, lembrando-me do nosso último encontro: Beijos na bochecha, noite juntos, mãos acariciando a minha barriga, sua respiração na minha nuca.
–Oi, Fredi. Tudo bem? –Eu disse, sentindo minhas bochechas ferverem de vergonha.
–Tudo e com você? –Ele perguntou.
–Tudo bem. Posso saber o motivo da ligação? –Eu perguntei, estremecendo até o meu último fio de cabelo.
–Eu preciso te levar a um lugar hoje à noite. –Ele disse, senti a tensão em sua voz, embora parecer ter um fio de humor lá no fundo...
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