Sem as Linhas
11 X- Um Idiota
Notas iniciais
–E então, como vai desastrada? –Disse ele se aproximando até demais com seu grupinho de amigos – Ops... E estressadinha também, esqueci-me desse apelido. –Disse jogando a cabeça para trás e rindo.
Mas que diabos? Vai ficar lembrando agora do acidente toda vez que me ver?
–Muito bem e você, bipolar? –Disse confiante e cerrando os meus punhos, de raiva.
–Estava melhor antes de ver você... –Disse olhando firmemente em meus olhos. Provocando um amontoado de pessoas ao nosso redor, prevendo uma briga. – Mas você acabou de colocar fim na minha semana, aparecendo por aqui.
–Como assim? Você é dono dessa escola, por acaso? –Disse com muita raiva.
Acho que vou cuspir fogo daqui a pouco e vai ser na cara desse infeliz.
–Quase isso. –Disse por fim, esfregando as duas mãos, uma na outra, para acalmar o frio.
–Dá pra explicar melhor? –Olhei incrédula para os seus movimentos, pousando o olhar em suas roupas.
–É que assim, minha querida... Talvez seu cérebro seja um pouco lento demais para perceber que eu sou capitão do time de futebol da escola. –Disse rindo. Seus amigos o acompanharam.
–Tá e só por isso eu vou te obedecer ou coisa assim? – Agora quem ria era eu. –Me poupe querido...
–Vai, sim. E, se não fizer o que eu mandar, vou te colocar pra fora dessa escola. –Provocou.
–Ah, e como você pretende fazer isso? –Perguntei com raiva.
–Fazendo bullying, te chantageando, te fazendo fazer coisas horríveis. –Disse em tom sério e eu percebi que a brincadeira acabou. Que o tom de sua voz não era mais de escárnio.
Engoli em seco.
Como assim?Eu ainda não estou entendendo.
As pessoas ainda estavam se amontoando ao nosso redor, mas quando eu estava prestes a responder, um homem com poucos cabelos e grisalhos apareceu.
–Springmann, você está querendo mais algumas semanas de detenção? Eu posso arranjar pra você, se quiser... –Disse ele apontando o dedo indicador em direção do Alex.
Espera aí! SPRINGMANN? Eu já ouvi esse nome em algum lugar...
Ah NÃO....! NÃO! MIL VEZES NÃO!
*Flashback on*
Enquanto fazia as entregas de jornal, o mesmo me chamou atenção. Nunca tinha parado para ler um jornal, mas aquele era muito bem organizado. Além de parecer impecável comparando com os outros que eu já tivera em mãos...
Mas o nome do jornal, realmente me incomodava, não sei dizer ao certo, mas achei... Digamos que... Sem criatividade?
Olhei mais uma vez as letras pretas com contornos em dourado: Springmann Noticiário.
Sem dúvida, aquele era um jornal da alta sociedade e considerando o bairro o qual eu morava... Só a minha casa que era a mais humilde mesmo.
Mas, aquele nome SPRINGMANN ficou marcado em mim.
Deixei essa baboseira toda de lado e continuei a minha jornada de entrega, finalizando na última casa do bairro.
*Flashback Off*
Eu não acredito que justo o Alex era um Springmann.
Ele iria me infernizar até conseguir com que eu perdesse o meu precioso emprego.
Mas aquilo não tinha nada a ver com ele, e sim comigo. Se eu perdesse o emprego quem iria passar fome era eu e a minha mãe, não ele.
–Desculpe, senhor Oliveira, tomarei mais cuidado da próxima vez. –Disse ele, dando uma piscadinha para mim, disfarçadamente daquele senhor.
–Bom mesmo. Não é assim que recebemos as pessoas, Springmann. –Disse olhando para mim.
Essa foi a frase que encerrou aquela tortura que sofri no pátio do Hexágono, antes mesmo de iniciar as aulas e o diretor, senhor Oliveira, me encaminhou até a minha sala.
Para a minha felicidade, Alex, é claro,ficou na mesma sala que eu, afinal só existia uma turma de segundo ano no Hexágono.
Estávamos no meio do ano e para mim estava difícil acompanhar todo o conteúdo da escola, pois estava se misturando com todo o conteúdo que eu havia aprendido esse ano no União...
Mas que tédio...
As aulas passaram rápido demais. No intervalo eu fui para a biblioteca e fiquei olhando a precariedade de livros que tinha naquela escola pública e pior ainda: Não tinha NINGUÉM na biblioteca, exceto eu e a bibliotecária.
Depois das aulas terminarem, por volta de quinze pra uma da tarde, me encaminhei para a parada de ônibus. Naquela manhã não vi mais Alex, somente os seus amigos. Ele deve ter ido catar coquinho.
Fiquei esperando o ônibus na parada de ônibus que era na frente da escola.
De repente meu chão estava ficando distante e eu não conseguia sentir mais nada além de tontura e um suor que estava começando a escorrer sobre minha testa.
Vi algumas garotas e uns garotos... Tentei erguer o braço para pedir ajuda, mas no momento eu não consegui falar nada, nem um fiapo de voz saiu de minhas cordas vocais.
O que está acontecendo comigo? Por favor, alguém me ajude, não consigo me sustentar nas minhas próprias pernas.
Minhas pernas me traíram severamente e eu caí com tudo na pedra fria da calçada.
~POV Fredi~
–Alô? –Disse, ofegante, acabando de sair de um jogo de basquete.
–Oi, Fredi. É o Rafael. –Disse a voz masculina.
–E aí, Rafa, tudo bem? – Eu disse animado por falar com o meu amigo.
Rafael havia saído do União há um pouco mais de dez meses... Tinha ido para a escola St. Hexágono Royal.
No dia em que conheci Estefani, Rafael estava no meu time e ele estava estranho no telefone.
–Tudo bem cara, só não sei se com sua amiga, está... –Disse ele.
–Quem, cara? –Eu perguntei estranhando.
–A Estefani, Frederico. –Disse ele em tom de desespero.
–Como assim, onde ela está? E, Porque ela está com você? – Eu comecei a correr para fora do vestiário, saindo da escola, rumo não sei aonde, esperando a resposta dele.
–Ela apareceu hoje lá na minha escola, de uniforme e tudo e agora ela está caída na calçada, na frente da escola, mas como ela é nova, ninguém esta ajudando ela. –Disse ele aos berros.
–Tá, faz o seguinte, fica aí com ela que eu já estou indo. –Eu disse fazendo sinal para um táxi parar.
–Quer o endereço? –Perguntou ele.
–Claro, fala. –Eu disse com pressa.
Entrei no mesmo e dei o endereço que Rafael havia me passado.
Depois de alguns bons vinte minutos de espera, perguntei para o motorista:
–Dá pro senhor ir mais rápido?
–Estou tentando, mas o trânsito está feio. –Ele disse me encarando pelo retrovisor.
Assim que ele respondeu, olhei para a janela e o colégio o qual Rafael estava estudando entrou em meu campo de visão.
–Faz o seguinte, para aqui mesmo que eu vou descer. –Eu disse, pegando a minha carteira.
–Tudo bem. – Ele disse zerando o taxímetro.
–Olha me desculpe lhe deixar nesse trânsito, mas tem alguém muito importante me esperando. –Eu disse e fui abrindo a porta do carro, me colocando para fora, em meio aos carros.
–Tudo bem. E o troco? –Disse o homem gritando, enquanto minha mente gritava pela Estefani.
–Pode ficar. –Eu disse, correndo assim que avistei Rafael e a Estefani em seus braços, ainda na calçada fria.
Assim que minhas pernas os alcançaram, demorei a chegar até eles devido ao burburinho que aquele povo fazia.
Eu pedia licença, mas ninguém parecia me ouvir.
–Rafa, muito obrigado, mesmo por ter me ligado. –Eu falei ainda ofegante e chegando perto dela, ainda ao chão.
–Que isso, cara. Eu sei tudo o que você sente por ela... E não iria deixar ela sozinha num momento desses. –Ele disse colocando a mão sobre o meu ombro, levantando-se.
–Você fez algo para ela acordar? –Eu perguntei com os olhos marejados.
–Não, nem deu tempo... E, outra... Olha a galera que está ao nosso redor. –Ele disse rolando os olhos pelas pessoas.
–Tudo bem, eu vou levá-la para casa. –Eu disse me colocando de pé e envolvendo o corpo de Estefani sobre o meu, carregando-a.
–Tudo bem, Fredi. Precisa de ajuda? –Ele perguntou olhando em meus olhos.
–Não, cara. Prefiro levar ela sozinha, se é que me entende. –Ele disse abrindo um leve sorriso.
–Tudo bem. –Ele disse dando de ombros e abrindo espaço entre aquelas pessoas para que eu e ela pudéssemos passar.
–Mas, não tenho como te agradecer. –Eu disse muito agradecido por tudo o que ele fez.
–Essas coisas a gente nem precisa agradecer. –Ele disse se afastando de nós, indo para a outra parada de ônibus.
Ainda virei para trás para observar os seus ombros e agradecê-lo mentalmente mais uma vez, antes de pela segunda vez naquele dia pegar um táxi, só que agora era com destino à casa de Estefani.
Dei o endereço ao taxista e me sentei. Ele me ajudou a colocar Estefani no banco de trás, com a sua cabeça sobre o meu colo, parecia que aquele momento se repetia e eu me lembrei do dia em que ela desmaiou na escola.
Ela também ficou com a cabeça sobre o meu colo, como agora.
Só que naquela época eu achava que ela era apaixonada por mim.
Ó... Doce ilusão...
E, mais uma vez, aquele buraco negro que a Estefani fez no meu peito, se abriu.
Ô, minha linda, o que você anda fazendo sozinha nessa escola desconhecida, sem amigos, sem mim? Senti a tua falta...
Sinto meu coração se quebrar em pedaços.
Algumas lágrimas ameaçaram de cair, mas segurei-as. Estefani precisava mais de mim.
O taxi parou em frente à sua casa e eu tratei de pagar o motorista antes de tirar ela de dentro do carro.
Peguei as chaves da casa em sua bolsa e abri as portas, subindo com seu corpo para o seu quarto.
Coloquei-a sobre a cama e tapei-a com a velha manta xadrez que eu tão bem conhecia.
Estefani amava aquela manta que a avó dela lhe deu... Sempre que víamos filmes de terror, ela se agarrava em mim e nessa manta. Que tempo bom... Sinto saudades de seus gritos de medo, do seu perfume nos abraços apertados que dávamos um no outro. Sinto saudades até mesmo do seu choro, mesmo que eu odeie quando ela chora, porque meu coração apaga junto com as suas lágrimas.
E, principalmente, tenho saudades do seu sorriso, aquele que sempre iluminou a minha vida, desde o dia em que a conheci no jardim de infância.
Eu e Estefani estudamos no União desde pequenos, no jardim de infância, juntos e desde então eu criei uma paixão muito forte por ela. No início achei bobagem, mas mesmo depois de virar adolescente, essa chama nunca se apagou.
Quando tivemos o nosso momento, no dia em que brigamos pela quadra de basquete, foi o melhor dia da minha vida, pois pude ficar perto de quem eu gostava...
Só que acabei me iludindo demais achando que ela sentia o mesmo que eu, mesmo ela me falando de Rui, mesmo me contando os seus papos com ele no site de relacionamento.
Mesmo que algo dentro de mim sentia-se desmoronando, continuei cultivando esse sentimento por ela e quando finalmente decidi revelar a ela, a mesma já não gostava de mim. Acho que passou o tempo... Se eu tivesse falado isso antes para ela, acho que ela teria me correspondido, mas eu deixei o Rui tomar conta de sua mente e até mesmo de seu coração.
Mas algo que sempre me orgulho é que, mesmo ela pisando nos meus sentimentos tolos, eu continuei sempre aqui, por ela.
Porque eu acho que mesmo que passe mais de anos, não vou conseguir de deixar amá-la. Esse sentimento é mais forte que eu.
Saí dos meus devaneios quando percebi dentro da bolsa dela uma vibração.
Abri o celular e vi o nome “Rui” piscando.
Saí do quarto, fechando a porta, desci as escadas em direção da sala e atendi:
–Oi Rui, tudo bem, cara? – Eu disse num tom agradável.
–Oi, quem está falando? –Perguntou ele.
–O Fredi, Rui. –Eu disse, estranhando a sua frieza.
–Tudo bem, nada. O que você tá fazendo com a minha namorada? –Ele perguntou exasperado do outro lado.
–Como assim, namorada? –Eu perguntei sentindo minhas mãos tremerem e meu estomago fazer voltas.
–Ué? Ela não é a sua melhor amiga? Ela não te contou? –Ele disse, rindo.
–Não, ela não me contou. Faz tempo que ela não fala direito comigo. –Eu disse sentindo uma raiva e o punho esquerdo cerrando-se.
–Fredi? –Ouvi a voz de Estefani e sinto os meus olhos ficarem carregados de lágrimas.
–Oi, Téfi... Você acordou? Fique aí que eu já estou subindo.
–Com quem você está falando, Fredi? –Perguntou ela com a voz sonolenta.
–Saia daí, agora Frederico. –Ordenou Rui.
–Eu não vou sair Rui. Enquanto você está sabe-se lá o que fazendo aí em São Paulo, ela está aqui sofrendo, doente e sem ajuda. E, o único que está aqui para oferecer ajuda, adivinha? É... Eu mesmo. Seu ingrato, se você a amasse mesmo, estaria me agradecendo e não me mandando sair daqui agora. –Eu disse e desliguei o telefone.
Subi as escadas, fui para o seu quarto onde a mesma estava de pé ao lado da cama e encontrei uma Estefani meio descabelada, mas linda como sempre. Com aqueles olhos verdes saindo faíscas.
–Eu estava falando com o Rui, Téfi. –Eu disse, observando-a.
–E, você falou assim com ele? Desse jeito? – Ela disse com os olhos raivosos, nunca a vi daquele jeito comigo. –E ainda colocou o nosso amor à prova? –Ela falou com a voz trêmula.
–Como assim... Eu te salvo e ainda você faz isso comigo? Você pisa de uma maneira nos meus sentimentos, que não tem explicação, Estefani. –Eu disse com os olhos ameaçados a expulsarem lágrimas a qualquer momento. –E que história é essa de ir para um novo colégio e nem falar comigo, ein? –Perguntei, encarando-a.
–Eu fiz isso pra te proteger, Fredi, mas acho que eu deveria ter te machucado mais ainda. –Ela começou a gritar enquanto falava e chorava ao mesmo tempo. Tudo parecia muito intenso. — Me desculpe se eu não posso corresponder aos teus sentimentos, eu me culpei muitas noites por isso, mas eu devo levar a minha vida pra frente, conforme os meus sentimentos. –Ela disse olhando-me no fundo dos olhos.
–Você é muito egoísta, Estefani. Olhe o que está fazendo, não enxerga um palmo na frente dos seus olhos. Eu te ajudei, você caiu na calçada fria e eu vim do União para te ajudar... –Eu disse sentindo as lágrimas desabarem de vez, lavando o meu rosto.
–Vá embora, Fredi, Por favor! –Ela gritou apontando para a porta do seu quarto. – Vai, porque eu não quero olhar pra sua cara mais nenhum minuto! –Ela disse com as lágrimas ensopando suas delicadas bochechas rosadas.
–Eu vou fazer isso, mas quem realmente está sempre do teu lado, sou eu Estefani. Você precisa enxergar isso. –Eu disse dando as costas a ela fechando a porta entre nós.
Desci as escadas furiosamente, precisava descarregar a raiva, a tristeza e a frustração em algo...
Só eu sou o idiota mesmo de pensar que fazendo tudo isso, ela olharia pra mim...
IDIOTA, MIL VEZES IDIOTA!
Bati a porta da casa fazendo um estrondo enorme e fui caminhando pela calçada, sem rumo.
Meu coração estava em pedaços. Sou muito idiota mesmo. Um babaca completo por amar uma mulher que nunca será capaz de olhar para mim com o mesmo sentimento.
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