Sem as Linhas

6 V- Pôr do sol decadente


Notas iniciais
Mais um hoje o/ Por favor, apareçam? :(

Passei mais de quinze minutos chorando. Sentia o meu rosto inchado e vermelho.

O funcionário da escola que cuidava da portaria percebeu a minha presença e tentou descobrir o que havia acontecido comigo para que eu estivesse naquele estado. Senti o seu olhar por cima dos meus ombros até que ele chegou até mim:

–Ei, garota, o que aconteceu? –Disse ele num tom preocupado e chegando-se mais perto, nivelando a nossa altura.

Mas, eu não conseguia dizer nada, estava tudo trancado em minha garganta. Senti como se eu fosse soltar alguma palavra, minha tentativa não teria sucesso algum e só o que sairia seriam murmúrios.

Resolvi então não deixá-lo tão preocupado e levantei-me do chão e dando um breve aceno com a cabeça, indicando que tudo estava bem e eu estava indo embora.

Grande mentira.

Não estava nada bem, mas não estava a fim de revelar tudo a aquele homem, o qual somente está ali pra exercer a sua função como porteiro.

Comecei a andar pelas ruas chutando levemente o ar e o vento levava os meus cabelos vermelhos e com as pontas azuis para o lado, deixando a minha nuca arrepiada. Depois de tanto pensar, principalmente no Fredi, em como tudo Isso seria doloroso demais pra nós, resolvi não contar nada a ele. Simplesmente, seguirei a minha vida e não olharei para trás.

Passando por algumas praças que tinha próximo à escola, me lembrei de quando conheci o Fredi.

*Flashback On*

–Hey! Você pode sair da quadra? Não tá vendo que eu quero jogar basquete com os meus amigos? –Disse ele gritando aos berros na frente da quadra de basquete da escola, já entrando na quadra e no meu campo de visão.

–Só por que você quer Frederico. Não fique achando que porque eu e você estudamos nessa escola juntos desde o pré que você pode vir falando assim como se fosse o meu amigo. –Disse num tom autoritário, esperando que ele se retirasse o mais rápido possível e que me deixasse ali sozinha e em paz jogando tranquilamente.

–Então, eu vou ter que te tirar à força daqui, Estefani? –Disse ele jogando a cabeça para trás e dando uma risada irônica junto com o seu time.

–Nem por cima do meu cadáver, querido — Eu disse em tom irônico, provocando-o.

–Então tá certo, você quer a quadra, mas terá que lutar por ela, ou melhor, jogar para tê-la. – Ele declarou arqueando uma sobrancelha.

–Como assim? – Indaguei semicerrando os olhos tentando adivinhar o seu plano maquiavélico.

–Além de intrusa, você também é burra, então? – Ele disse rindo e o time acompanhou-o mais uma vez. –Finalmente descobri outro talento seu.

–Acho que o burro aqui é você. Você acha que se forma um time com uma pessoa, meu querido? – Foi a minha vez de rir. Fui me aproximando dele e olhando em seus olhos castanhos.

–Não, Estefani. Vamos fazer um mano a mano. Não entendeu ainda? Essa briga é minha e sua e não deles. – Ele disse em tom de escárnio retirando a bola das minhas mãos e me deixando ali perplexa.

Eu não havia pensado nessa possibilidade.

–Tá, então... Quem ganhar fica com a quadra? –Eu perguntei engolindo em seco.

–Sim, mas se eu ganhar nunca mais quero te ver por aqui. –Ele disse e quase vi um esboço de um sorriso em seus lábios

–Como assim, agora estou proibida dentro da escola que eu estou há anos? –Eu disse de boca aberta.

–Isso mesmo. É pegar ou largar, Inue.

Não respondi nada, apenas retirei a bola de suas mãos e fui para o centro do círculo na quadra, pretendendo dar inicio à partida.

–Posso até aceitar isso, mas quem começa o jogo sou eu. Afinal, eu estava aqui antes de você, otário. –Falei dando o primeiro lançamento da bola para cima e dobrando os joelhos com precisão, tentando miseravelmente superar a sua altura de 1,85.

E a bola da vez foi minha.

Assim como a final. Determinando que a quadra fosse a minha.

Só que, eu não queria que aquilo acabasse. Eu queria alguém como ele na minha vida. Queria de vez em quando jogar, queria ter aquele sentimento de novo, só que sem competição, somente a amizade.

Pensando nisso, que eu disse, determinada, olhando em seus olhos, novamente:

–Você não gostaria de, de repente, dividir a quadra comigo? – Falei prevendo a sua risada.

O time todo havia ido embora no momento em que Fredi perdeu o jogo. Ele estava tão frustrado por perder para uma garota que mandou-os irem embora. Assim, eles o fizeram.

–Como pretende fazer isso, garota? –Ele disse num tom de voz quase que brincalhão.

Acho que ele sentia o mesmo.

–Eu gostaria de ser a sua amiga. –Eu disse dando a mão para ele apertar.

Senti que a raiva havia se dissipado entre nós.

–É pegar ou largar, Castro. –Eu larguei, fazendo a revanche de palavras.

Foi quando senti os seus braços largos me rodearem em um abraço apertado. Foi algo tão repentino que eu não tive nem tempo de me preparar. Meu rosto ficou grudado entre seu ombro esquerdo e sua cabeça que pressionava a minha, com força. Fazendo-me sentir toda a imensidão do seu corpo colado ao meu. Foi a melhor sensação que eu já tive e eu estava necessitada em senti-la, aqui, em meu peito.

Meu coração sofreu várias palpitações e eu acho que ele percebeu isso.

*Flashback Off*

E, foi assim que comecei minha amizade com Fredi. Algo que nasceu de um jeito tão brusco, mas algo que agora é um sentimento tão delicado dentro do meu peito, que nada poderia destruir. E eu não desejava isso.

Saí dos meus devaneios no momento em que senti o meu celular vibrar em meu bolso.

Peguei o aparelho e com dificuldade, devido às lágrimas que estavam brotadas em meus olhos, li a mensagem de Fredi:

“Téfi, onde você está? Já passa das seis horas da tarde e você ainda não falou comigo hoje. Vem aqui no morro perto da minha casa, queria conversar contigo. Beijos.”

Fechei o aparelho e olhei onde eu estava... Para chegar até o morro onde Fredi queria me encontrar faltava apenas uns dois quilômetros. Poderia ir de a pé até lá.

Chegando lá, vi o Fredi sentado de costas para mim. Ele sentiu o meu olhar sobre suas costas e virou o seu pescoço para mim. Dando tapinhas ao lugar ao seu lado, na grama, eu me aproximei e sentei ao seu lado, olhando para o horizonte que estava prestes a se formar.

–Eu sei que você nunca viu um pôr do sol, então... Eu estou te dando esse presente. –Ele disse invadindo o meu olhar. Senti-me nua com o seu olhar. Ele estava despindo o meu coração e isso era realmente constrangedor.

Não sabia o que responder, então eu decidi simplesmente dizer:

–Obrigado, Fredi – Sorri para ele, tentando descobrir que rumo àquela conversa iria tomar.

–Eu não aguento mais, Estefani. – Ele disse continuando com aquele olhar que me constrangia até o meu último fio de cabelo.

–O que aconteceu? – Tentei soar com a voz calma e por um instante breve tentei me desvencilhar daquele olhar.

–Eu preciso dizer que eu estou apaixonado por você. – Ele disse me invadindo com uma onda de doçura que me levava à loucura.

Uma loucura incerta. Uma loucura que me deixava fora do lugar.

Uma loucura que não me deixava ser louca. Uma loucura que me trazia para a realidade e fazia o meu coração doer.

–E-eu acho que você está confundindo as coisas. – Eu disse, gaguejando, sentindo-me uma tola, quando senti um pequeno agito em meu estomago.

Ao mesmo passo que eu disse, me pus de pé e marchei até o final do morro. Deixando para trás um Fredi triste e magoado, algo que cortava o meu coração, mas eu não podia o deixar fazer isso, estragar essa amizade.

Deixei para trás o pôr do sol que eu sequer vi. Definitivamente, esse era um pôr do sol decadente.

Eu deveria jogar limpo com ele desde o inicio, e o meu coração não era dele, era do Rui.

Notas finais
Espero que gostem! beijos *-*