Sem as Linhas
10 IX- St. Hexágono Royal
Notas iniciais
Parei em frente ao prédio e chequei o relógio. Ainda tinha alguns bons minutos.
Decidi parar para observar o local impecável.
Olhei para cima e um grande prédio com as paredes cor de tijolos entrou em meu campo de visão. O jardim era todo coberto por um piso cor de cimento, mas que fazia jus às flores que estavam espalhadas pelo quintal em canteiros circulares. As flores eram amarelas e tinha algumas brancas... Certamente, alguém com muita delicadeza as plantaram ali.
Dei um longo suspiro e entrei no prédio.
Passei por uma porta giratória de vidro e me encaminhei para a recepção.
Todas as mulheres estavam bem uniformizadas e com os olhares impiedosos, analisaram-me de cima a baixo.
Parei em frente ao balcão e esperei alguém me atender.
–Olá, posso lhe ajudar? – Perguntou a secretária que se atendia por Annelise, segundo o seu crachá que estava sobre o seu peito, do lado direito.
–Sim. Eu vim devido a um chamado por e-mail para trabalho. – Disse analisando a sua expressão de surpresa.
–Ah, sim. Preciso de um documento de identificação com foto para verificarmos a nossa lista de recrutamento. – Disse enquanto se abaixava para digitar algo no computador, que ficava dentro do guichê de atendimento.
Enquanto entreguei o meu documento que eu carregava em minhas mãos desde a hora que entrei no prédio, analisei suas unhas bem feitas e imaginei o quanto de seu salário ela não deveria gastar para manter aquela imagem.
–Obrigada. – Disse, largando um leve sorriso e se voltando novamente para mim.
Aproveitei a oportunidade e analisei toda a extensão da sala de recepção.
O chão era de granito preto, o qual eu enxergava o meu reflexo no mesmo. Havia cerca de dez poltronas distribuídas mais para o lado oeste da sala, enquanto o balcão de atendimento ficava no lado leste. Entre essas poltronas, tinha diversas mesinhas com revistas e jornais espalhados.
Atrás dessas poltronas com mesas, havia uma grande janela, de um tamanho bem grande, quase ocupava toda a parede, com vidros transparentes e que levemente estavam abertas, deixando a brisa tomar conta do lugar.
Fiquei encabulada com a minha roupa: ela não estava adequada ao lugar que eu estava.
Eu estava vestindo uma calça preta com alguns botões cor de prata espalhados ao longo de minha coxa esquerda, uma camiseta branca regata e uma jaqueta preta de couro que cobria dos meus ombros e deixava os meus antebraços de fora, dando um ar masculino à minha aparência.
Estava calçando meus tênis preferidos: pretos.
Meu cabelo de duas cores continuava teimando em ser rebelde, então quando me olhei no espelho, decidi somente escorrer os dedos ao longo dos meus fios e não me preocupei.
–Estefani, você pode se encaminhar para o segundo andar, sala 248, por favor. –Disse a moça me entregando o meu documento e me entregando um formulário em uma folha de oficio.
Assenti com a cabeça e passei pela segunda porta giratória naquele dia que dava acesso aos elevadores e as escadas.
Assim que saí da recepção, pude sentir os olhares maliciosos e as risadinhas infames das secretárias.
Bando de babacas... Se soubessem o que vale a pena, de verdade... Aparência não é tudo.
Peguei o elevador e em alguns segundos, estava na sala que a secretária me indicou.
–Olá, tudo bem? –Disse um homem de meia idade, levantando-se para apertar a minha mão assim que me viu parada na soleira da porta, confusa.
–Oi, tudo e com o senhor? – Disse soando agradável. Senti que a conversa ali iria fluir.
–Tudo ótimo, minha querida. – Disse, fazendo sinal para que eu entregasse o formulário em minhas mãos.
–Ah, sim. Aqui está. –Disse entregando-lhe.
–Bom, Estefani, iremos preencher esse formulário juntos. –Disse analisando a ficha e verificando o meu nome impresso.
Assenti com a cabeça e sentei-me em uma poltrona em frente à sua mesa.
–Bom o que eu tenho para lhe oferecer como meio período e como você ainda tem dezesseis anos, são entregas de jornais.
Sorri com a oportunidade que acabara de bater em minha porta.
O trabalho seria simples, fácil e rápido. A única coisa que eu precisava era tirar o pó da minha antiga bicicleta que nesse momento estava dentro da garagem da minha casa e acordar cedo para entregá-los.
–Mas, é claro que aceito. Será o maior prazer. –Disse sorrindo.
–Então, vamos contar com você, Estefani.
–Claro, vamos fazer os procedimentos e poderei começar amanhã, se quiserem.
–Bom, eu só preciso preencher esse formulário e vou lhe explicar como funcionará.
–Tudo bem... –Disse cruzando os tornozelos, sentindo um alívio.
–Bom, vai ser o seguinte... Todos os dias você precisa ir até a nossa central de distribuição... Vou lhe passar depois o local mais próximo da sua residência, mas você tem que passar lá para pegar os jornais por volta das quinze para as cinco/cinco horas da manhã, e o jornal deverá ser todo entregue por todo o seu bairro até às seis e meia. –Tentou me explicar do melhor jeito com gestos.
–Sim, entendi... – Fiz um sinal para que continuasse.
–Seu salário será de R$ 300,00 à R$ 400,00, conforme o seu interesse no trabalho, e quem providenciará o seu veículo, no caso, bicicleta ou ônibus, será você mesmo.
–Tudo bem. – Dei um sorriso tímido.
–É isso... Você só precisa assinar aqui e é isso...
Assinei os papéis, lendo o que havia neles. Assim que terminei, ele se colocou de pé.
–Estefani, você não sabe o quanto estou feliz de tê-la como entregadora... Estávamos há muito tempo procurando, até que você apareceu... E, você, só tem dezesseis anos, não é... Nossa isso é muito raro... Esse interesse. –Disse ele enquanto apoiava as mãos em sua cintura e olhava para o meu rosto.
No mesmo instante em que ele me elogiou, minhas bochechas coraram de vergonha.
–A-ah, obrigado – disse, gaguejando e estendi a minha mão a ele.
–De nada... A propósito, sou Pedro. Editor-chefe do jornal. –Disse sorrindo.
–Prazer, Pedro. –Disse saindo da bolha invisível que havia se formado entre nós.
–Bom você começa segunda-feira, pode ser? –Indagou-me na soleira da porta.
–Sim, sim. Isso é ótimo para mim.
...
Assim que saí do elevador, de volta à recepção, lancei um olhar de demônio em direção à Annelise e à outra mulher a qual eu não sabia o nome... Acho que as duas perceberam, pois no momento que passei por ali, as duas sequer falaram algo.
Saí da companhia de jornais e ergui as mãos para o céu. Finalmente! Consegui! Era tudo o que precisava para ajudar a minha mãe, além de claro, ir para um colégio público com o nome de St. Hexágono Royal.
...
O resto da semana se passou como um borrão e eu nem vi o tempo passar me afundando em livros e música durante o final de semana, exceto no domingo de noite, onde em algum lugar de mim, havia uma inquietação e uma agitação no estomago, por saber que amanhã eu seria jogada no meio de uma selva novinha em folha: Hexágono.
Rui havia me ligado há uma hora me desejando boa sorte e fazendo o seu papel como o namorado perfeito. Estava tudo ótimo, até agora.
Agora aqueles pensamentos de Fredi em relação a mim me atormentavam e a possibilidade de não ser bem aceita na nova escola me deixavam amedrontada.
Desci as escadas e fui até a sala, onde minha mãe olhava televisão, dando altas gargalhadas com um programa de humor.
Decidi não parar para conversar, apenas observar de longe a minha mãe feliz e sorridente.
Quando contei a minha noticia do emprego ela ficou tão orgulhosa de mim, mas a verdade é que eu é que tinha mais orgulho dela ainda, porque além de ela ter que cuidar de todas as dívidas sozinha, ainda tem todo o seu senso de humor extraordinário... Digo isso porque quando meu pai morreu deixou conosco uma dívida tremenda de tanto apostar em cavalos, sendo que até hoje, após cinco anos de sua morte, ainda estamos sofrendo as consequências de seus jogos.
Saí dos meus devaneios quando senti que o sono já se aproximava e decidi ir tomar um pouco de água.
Depois de subir de novo as escadas, escovei os dentes e fui dormir, deixando com que a brisa da noite que entrava pela minha janela, me carregasse em um profundo sono.
...
Assim que o despertador tocou, tive vontade de matar quem inventou o tempo e xinguei sua família até sua quarta geração.
Tomei um banho morno para espantar o sono, tomei um copo de leite e peguei a bicicleta que ontem à tarde eu tinha arrumado, checando o relógio e avistando quase cinco horas da manhã.
Pedalei atentamente, mesmo com sono até a distribuidora e peguei os jornais, colocando-os numa mochila que estava sobre as minhas costas.
Assim que terminei todas as entregas rapidamente, cheguei em casa e subi para o meu quarto me arrumar.
Coloquei a camiseta do uniforme e a calça, calcei meus tênis pretos preferidos.
Passei uma escova nos meus cabelos, que hoje estavam menos rebeldes devido ao banho tomado algum tempo atrás e rímel para realçar os meus olhos verdes.
Desci as escadas e reparei que já estava podre de cansada e hoje de tarde ainda iria levar bronca da dona do hotel por ter faltado tantos dias seguidos sem justificativa...
Só espero não perder o meu emprego de carteira assinada.
Tomei um copo de leite com alguns biscoitos, peguei minha mochila em cima do balcão que separava a cozinha da sala e já ouvindo lá de cima os barulhos que a minha mãe fazia, gritei:
–Tchau, mãe, estou indo. –Esperei alguma resposta olhando para cima.
–Tchau minha filha, boa sorte.
–Obrigada. – Gritei de volta.
Assim virei às costas e bati a porta atrás de mim, sentindo já o sol que estava nascendo em meus olhos, queimando-os.
Olhei o meu celular e o mesmo indicava que era quase sete horas da manhã.
O bom da minha nova escola é que não era tão longe, por isso que aceitei o emprego de entregadora de jornais... Se fosse na escola antiga, esse trabalho estaria descartado porque demora muito tempo para chegar até lá.
Não demorou muito e eu coloquei os pés no ônibus da linha 1140 e fui para o acento no fundo do ônibus.
Coloquei meus fones de ouvido e comecei a ouvir um rock bem leve, já me sentindo amordaçada de sono, mas assim que estava começando a cochilar, cheguei à escola, cerca de vinte minutos depois.
Fui como sempre, a última a sair do ônibus.
Caminhei para dentro da escola, onde não era coberto por nenhum teto de concreto e parei.
Enchendo os meus pulmões de ar e soltando lentamente, olhei para cima, onde tinha uma placa onde dizia: St. Hexágono Royal.
Gelei...
Senti um olhar sobre mim.
Algo estava MUITO errado e eu estava ferrada.
Olhei para frente e Alex me encarava com um sorrisinho irônico.
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