Sem as Linhas

5 IV- Lágrimas Sufocantes


Notas iniciais
Hey, pessoal, tudo bem? Então... não deixei vocês na mão, viu? Eu disse que quero terminar logo, por isso TENTAREI postar diariamente, ok? o/ só tenho leitores fantasmas *choooora* ;( beijos, até a próxima e boa leitura :}

O resto da tarde de terça-feira eu me encolhi na cama, camuflada nos edredons. Senti algumas pisadas no chão, um salto agulha castigando o chão cor de madeira.

–Estefani? -Escuto a voz familiar.

–Sim, mãe? -Pergunto assustada por sua tranquilidade nada comum.

–Amanhã de manhã, médico. -Me disse dando um leve tapa em minha coxa, a qual estava sendo coberta pelo edredom.

Eu tentei adivinhar a sua expressão apensas fitando a parede amarela do meu quarto. E, mesmo se eu estivesse encarando-a frente a frente seria incapaz de definir a sua expressão devido à penumbra que o meu quarto carregava.

–Mas, não era hoje? -Perguntei sentindo um alívio por não ter de sair de casa hoje.

–Não, surgiu alguns problemas familiares para o médico e ele teve de adiar a sua consulta.

–Tudo bem, então. — Falei pegando em sua mão que ainda estava sobre a minha coxa.

Então ela levantou-se e colocou a minha mão embaixo do edredom, que por sinal estava quentinho e aconchegante.

Novamente, me peguei dormindo rapidamente.

Dormi até o outro dia de manhã, foi o meu destino.

Minha mãe me acordou gritando em meus ouvidos, tentando ser delicada, mas isso para ela era algo impossível.

Levantei-me, abri a janela e senti a brisa e o sol penetrar em minha pele opaca. Quem visse aquela cena de longe, veria que minha pele reluziu no sol, á ponto de uma dor aguda alcançar os meus olhos.

Entrei no chuveiro e tomei um banho rápido e tentei não pensar no Rui ou pelo menos minha mente não permitiu.

Descendo as escadas da minha casa, senti uma sensação estranha: Me segurei nas paredes e continuei devagar. Uma tontura e um leve fio de suor que começava a se acumular nas minhas têmporas. Chegando no último degrau senti um alívio em meu coração, por finalmente estar no chão, segura.

Levei meu mp4 até o consultório e decidi não tomar café da manhã.

Escutei algumas músicas e meu pensamento, como sempre, voou até Rui, mas logo voltei a mim. Coloquei minha mão sobre o meu peito, do lado esquerdo e pensei o quanto ainda o meu coração iria sofrer com tudo o que estava acontecendo. Nada disso havia necessidade.

Chegamos ao consultório, nem fiz questão de cumprimentar ninguém. Estava carrancuda por vários motivos e mais um médico querendo saber sobre a minha saúde definitivamente era um porre. Eu sentia que estava saudável, mas algo dentro de mim desde a aula de redação havia mudado, eu sabia. Algo estava gritantemente errado.

O consultório tinha ar condicionado, apesar de estar desligado. Estávamos no início de outono e estava fresco ali.

Também quando entramos no consultório, nossa vista dava de cara com a recepcionista que tratou de preencher uma ficha com os meus dados completos, até mesmo meu tipo sanguíneo. Ela estava vestida totalmente de branco, seu cabelo era preso em um coque relaxado, mas charmoso. Sua pele era escura, seus lábios estavam cobertos de um batom claro e seus olhos castanhos, que mais pareciam negros na penumbra, estavam cobertos por rímel.

O consultório tinha quadros distribuídos pelas paredes brancas. Além disso, havia um aquário com diversos peixes ao lado de uma mesa na recepção que tinha revistas de moda, culinária e diversos assuntos.

Logo, estava sendo chamada até a sala do doutor Müller.

Dentro da sala tinha um vidro transparente onde faziam coletas de sangue e outros diversos exames, e na sala onde estávamos tinha uma mesinha com computador onde ele digitava constantemente meus sintomas, fazendo um resumo.

Também nessa sala tinha uma espécie de maca bem confortável onde me sentei e ele me fez alguns exames básicos.

Vi uma máquina onde faziam exames. Ele logo trouxe uma agulha e retirou algumas gotículas do meu sangue.

Quando saímos de lá, cerca de uma hora depois, decidi não pronunciar nenhuma palavra no carro. Apesar de estarmos tão perto, senti que minha mãe estava longe o suficiente para que eu não comentasse com ela o meu estado emocional atual. Sentia-me destruída. A beira de um abismo interior.

Eu trabalhava em um hotel como recepcionista, isso quer dizer que o trabalho é mais que a sua própria vida. O jeito de não perder o meu emprego de meio período era apresentar os atestados que o médico Sr. Müller me providenciou.

Esse era o único trabalho que eu havia conseguido com o currículo que eu tenho. É... ter dezesseis anos era uma droga. Ainda mais com todos esses problemas que eu tenho e com a "família" que eu tenho.

Meu pai morreu quando eu tinha onze anos, uma dor insuperável.

Minha irmã mais velha de vinte e dois anos morava na Espanha desde a morte de meu pai.

Chegando em casa e deixando para trás todo o drama da minha vida, fui novamente para a internet. Sem encontrar quem eu queria, saí fora.

Ouço minha mãe gritar o meu nome.

–Quê, mãe? -Falei com desânimo só de pensar em descer as escadas da nossa casa.

–Corra aqui, preciso conversar com você.

Corri com a velocidade que o meu corpo permitiu.

–O que foi agora? Outro médico? — Falei com uma repentina irritação por não conseguir ter um minuto para mim mesma e conseguir pensar em tudo o que estava acontecendo.

–É sério. Preciso falar com você. — Falou parando de mexer na pilha de papéis que a rodeava e fitando os meus olhos constantemente.

–Fale. Estou aberta e plena, como você pode ver. — Falei rolando os olhos e bufando, impaciente.

–Você terá de sair da escola, Estefani. — Falou levantando-se e batendo o pé direito, esperando a minha reação.

–O QUE?! -Senti uma revolta borbulhando em meu estômago. Senti que havia necessidade de descarregar a minha raiva em algo maciço, sentia a gana tomando conta do meu ser totalmente fora de controle.

–Lamento, mas a escola mandou uma carta solicitando a expulsão por falta de pagamento das mensalidades. Eu estou passando por um momento difícil e quero a sua ajuda. Espero a sua cooperação, por favor, filha. — Ela me olhou com os olhos suplicantes.

Lágrimas gordas se formavam em meus olhos, não demorando muito, eu enxergava tudo borrado e ouvia a mim mesma, sentindo-me uma tola com a voz embargada:

–Não consigo acreditar.

Estava tão chocada que quase não ouvi mais nada o que ela estava dizendo.

Decidi parar de ouvir no momento que ela fez a revelação.

Sentindo um nó na garganta sufocante, peguei meus tênis desordenadamente que estava do lado da escada e saí como uma descontrolada, porta à fora.

Não sentia raiva da minha mãe, afinal ela não tem culpa alguma. Enfim, eu tinha que aceitar os fatos e ajudá-la.

Chorei e corri muito. Corri tanto que permiti que o vento secasse as minhas lágrimas e tentasse levar consigo a minha tristeza.

Parei, enfim no portão da escola, com um fôlego curto e repetitivo de respirações constantes.

Sentei-me do lado de fora, encostada no muro, apoiando minha cabeça entre as pernas e chorei.

Chorei como nunca. Agarrei-me à triste realidade da minha vida, a partir de agora e desdenhei-me a chorar estridentemente.

Esperei por aquele momento, por muito tempo naquela semana e finalmente encontrei um bom motivo para colocar tudo para fora. Senti que meu coração estava sujo e ingrato assim como uma sarjeta num dia de chuva. A água que desce do céu acaba por lavar a sarjeta suja. As lágrimas, por sua vez, acabam por limpar esse coração imundo, o qual habita o meu peito.