Sem Tempo para o Amor

10 Ressaca e Lembranças Vergonhosas


SEM TEMPO PARA O AMOR

CAPÍTULO IX – RESSACA E LEMBRAÇAS VERGONHOSAS

O som de algo se quebrando e um resmungo irritado me faz sobressaltar na cama, mas logo me arrependo de minha ação. O mundo parece girar, minha cabeça está prestes a explodir e meu estômago se revira, pronto para colocar para fora tudo o que comi na noite anterior.

— Oh, droga!

Ouço novamente a voz masculina e uma movimentação próxima de mim. No entanto, nem mesmo me importo em conferir quem é e nem onde estou. Viro-me para o lado e encontro uma lixeira bem no instante em que vomito com intensidade.

Sinto alguém segurando meus cabelos e massageando minhas costas, enquanto continuo a expelir o que parecia ser apenas o suco biliar, já que eu tinha plena certeza de que a última refeição que eu havia realizado tinha sido assim que cheguei ao hotel.

Quando eu finalmente consigo parar de vomitar na lixeira, coloco-a de volta no lugar e tenho vontade de chorar pelas fortes dores de cabeça. Ao me virar para ver quem era a pessoa que havia me ajudado, surpreendo-me ao encontrar Shawn e seus olhos gentis encarando-me com preocupação.

— Eu acho melhor você voltar a se deitar. Você vomitou demais. Eu vou pegar uma toalha molhada para limpar você. Espere um pouco. – Ele pede, ajudando-me a me deitar. Viro meu rosto para encará-lo e assinto. Eu estava tão fraca e com tanta dor que eu havia até mesmo esquecido o meu nome naquele momento.

Ele se atrapalha com os lençóis e travesseiros ao sair da cama e corre até o banheiro do quarto. Escuto suas batidas e resmungo por alguns instantes, mas não demora muito para que ele apareça novamente com uma toalha molhada em mãos.

— Com licença. – Pede Shawn, antes de ajeitar o meu cabelo e começar a limpar minha boca e meu pescoço. – Você consegue limpar o vômito que está em seu vestido? – Nego, balançando a cabeça fracamente. Ele me encara receoso e se aproxima com cautela. – Certo. Eu vou limpar então. Apenas... eu prometo que será rápido.

Com cuidado, ele passa a toalha em meu vestido, sob a mancha de vômito que estava sob meus seios. Ele vai ao banheiro, lava a toalha e mais uma vez passa sobre o vestido para retirar qualquer resquício do cheiro horrível que estava em mim.

— Pronto. – Avisa, dando um fraco sorriso. Seus olhos continuavam a me encarar com preocupação. – Você deve estar morrendo de dor de cabeça. Ainda bem que deixei as aspirinas separadas aqui ontem. – Ele comenta, levantando-se da cama. – Eu apenas vou dar um jeito no... bem, na lixeira. Eu já te dou um remédio para melhorar da ressaca.

Sabendo que eu não o responderia, Shawn se levanta com a toalha e dá a volta na cama para pegar o balde com o meu vômito. Respiro fundo algumas vezes e fecho os olhos, sentindo-me um pouco melhor. Vomitar geralmente me ajudava bastante a melhorar das dores de cabeça pós-bebedeira que eu sempre tinha no dia seguinte.

— Você consegue se levantar? – Questiona Shawn e eu suspiro, voltando a abrir os olhos.

— Acho...

Minha voz falha, então apenas assinto, sentando-me devagar na cama. Shawn me ajuda, arrumando os travesseiros para que eu conseguisse apoiar as costas na cabeceira e ficasse mais confortável. Ele me entrega um copo de água e o comprimido de aspirina. Tomo o remédio e bebo toda a água de uma vez. Eu estava com sede e odiava o gosto do medicamento e do amargo do suco biliar.

— Você quer mais água? – Pergunta Shawn, colocando uma mecha do meu cabelo para trás de minha orelha.

— Sim. Por favor. – Peço, dando um fraco sorriso. Ele assente e coloca mais água em meu copo. Bebo um pouco mais devagar dessa vez e me sinto um pouco melhor. – Obrigada.

— Não foi nada. – Ele responde, correspondendo ao sorriso. Noto que sua camisa branca estava manchada e o encaro com preocupação.

— Ai meu Deus! Eu vomitei em você? Shawn... – Aproximo-me do rapaz, puxando sua camisa para encarar o possível estrago causado por mim.

— O quê? – Ele encara a própria camisa. – Isso não foi você, Hillary. Fique calma. Eu apenas sou desastrado demais e acabei tropeçando enquanto trazia a bandeja com seu café da manhã e suas roupas. O resultado foi o seu copo de suco caindo em mim e se quebrando no carpete do quarto.

— Ah... – Sussurro, afastando-se de Shawn. Volto a me sentar com as costas apoiada na cabeceira da cama e olho em volta, surpreendendo-me ao ver que eu não estava no quarto que eu deveria estar dividindo com Sam. – Onde eu estou?

— No meu quarto. – Responde Shawn, mas logo não demora para que ele arregalasse os olhos. – Mas eu juro que não aconteceu nada. Eu apenas te trouxe para cá, porque você dormiu antes de me dizer onde ficava seu quarto e como eu não tinha o número das suas amigas, achei melhor deixar você descansar aqui. Eu dormir no quarto do Clint, então não precisa se preocupar. Sua imagem está à salvo.

Encaro o rapaz por alguns instantes e acabo rindo. Era adorável a preocupação dele em não manchar a minha imagem. Eu nunca imaginei que o rapaz que estava sempre mal-humorado e com respostas ácidas prontas para discutir com Clint fosse ser uma pessoa tão cuidadosa.

— Obrigada, Shawn. – Agradeço e ele assente, sorrindo aliviado. O cientista então se levanta e vai até a bandeja que estava sobre uma mesa que havia no quarto. Surpreendo-me ao ver o tamanho do lugar. Ele era enorme e bastante luxuoso. – Essa é uma suíte presidencial?

— Privilégios de ser amigo de Clint Barton. – Ironiza Shawn, colocando a bandeja ao meu lado. – Para tentar agradar ao Clint, o dono do hotel reservou para ele a melhor suíte. Só que aquele maluco decidiu que tinha que ficar no quarto mais barato para ter certeza da qualidade do investimento que ele ia fazer. Então, eu fiquei hospedado na cobertura e no melhor quarto do Casino Bellagio, enquanto Clint resolveu ficar no “pior” quarto do hotel.

— Clint e suas excentricidades. – Comento, dando uma fraca risada ao lembrar do marido de minha melhor amiga.

— Sim. – Shawn também ri e suspira. – Bom, eu trouxe alguns alimentos mais leves para que você se sinta melhor. Eu me encontrei com Sam no caminho do restaurante e ela me deu algumas roupas para que você pudesse se trocar. Você esqueceu sua bolsa no bar ontem. Por sorte Clint a encontrou e a trouxe de volta. Está tudo em cima da poltrona.

— Obrigada. Eu vou tomar um banho para me livrar desse cheiro terrível, antes de comer. – Respondo e ele assente.

— Tudo bem. Você precisa de mais alguma coisa? – Pergunta Shawn e eu nego, sorrindo agradecida.

— Eu já abusei demais de você. Obrigada. – Agradeço e ele balança a cabeça, como se negasse qualquer agradecimento.

— Não foi nada demais. Eu vou voltar para o quarto de Clint para trocar essa blusa. Se precisar de mim, é só ligar para o quarto número cento e dois. Fique à vontade. No banheiro tem toalhas limpas e todos os produtos de higiene pessoal. Eu tenho quase certeza que tem escovas de dente e creme dental no armário da pia. O frigobar está cheio e pode pedir o que quiser pelo serviço de quarto. Aproveita que está tudo na conta de Clint. – Brinca Shawn e eu dou uma risada anasalada, assentindo.

Ele acena e rapidamente deixa o quarto. Permaneço sentada na cama por alguns instantes, tentando me lembrar do que aconteceu na noite anterior. Mas eu sofro do sério problema de retorno de memória gradativa. Eu nunca me lembro de tudo na mesma hora que eu acordo.

Apesar de sempre recordar tudo o que fiz enquanto estava bêbada, minha memória pode demorar até dois dias para retornar por completo, o que acaba sendo ainda pior. O meu sofrimento e arrependimento se prolonga por ainda mais tempo, conforme as lacunas em branco de meu cérebro vão sendo preenchidas com as minhas atitudes insanas.

Suspiro e sigo para o banheiro. Eu ainda estava um pouco fadigada e mesmo com o trabalho adorável de Shawn, o cheiro forte do vômito continuava impregnando em mim. Mesmo com a aspirina, minha cabeça permanecia dando a impressão de pesar uma tonelada, então tomo um demorado banho, aproveitando para lavar o meu cabelo.

Isso ajudou a tirar mais da ressaca e me ajudou a melhorar da dor de cabeça. Ao retornar para o quarto, volto a me sentar na cama de Shawn e sorrio ao pensar no cuidado que ele teve em trazer o meu café da manhã e de me limpar depois de ter vomitado tanto.

Na bandeja que ele trouxe havia algumas frutas, café, torradas e ovos mexidos. Eu não estava com tanta fome, mas me esforço para comer tudo. Shawn havia se preocupado em trazer meu desjejum, então o mínimo que eu deveria fazer era comer. Além disso, eu sabia que seria bom para recuperar as minhas energias.

Enquanto eu comia, noto que havia um papel em cima do rack ao lado da cama, onde estava uma jarra de água e o meu copo. Curiosa, pego o papel e me surpreendo ao ver que se tratava de um bilhete para mim.

“Hillary,

Eu sei que você deve estar se sentindo confusa e sofrendo com as consequências de se ingerir muito álcool. Eu deixei aspirina e água para ajudar a amenizar a ressaca.

Nesse momento, você está em meu quarto. Eu não sabia em que quarto você estava hospedada e não tinha o contato de suas amigas. Ainda que eu conseguisse falar com elas através de Clint, seria complicado encontrá-las no grandioso cassino. Então achei melhor deixar você descansar.

Desculpa te deixar sozinha, mas achei que fosse melhor não te prejudicar com a minha presença. Você é uma jovem bonita, famosa e solteira. Não quero que acabe prejudicando sua reputação por minha causa. Além disso, eu não estava em meu melhor estado.

Talvez eu devesse ter ficado para cuidar de você, caso você acabasse levantando a noite para vomitar, mas sendo sincero, eu tive alguns problemas no passado que acabaram me deixando mais cauteloso quanto a ir para quartos com garotas bêbadas.

De qualquer forma, se precisar de alguma coisa, você pode me ligar. O número é XXXXX-XXXX. E não se preocupe. Dessa vez, você não fez nada que pudesse prejudicar o seu trabalho.

Atenciosamente,

Shawn.”

Ao terminar de ler o bilhete deixado por Shawn, sinto uma parte das minhas lembranças retornarem a minha mente. Primeiro estávamos no bar do cassino, bebendo e conversando. Essa foi a primeira vez que conseguimos conversar sem que tudo não ficasse um pouco estranho entre nós. Lembro-me então de aceitar sua proposta para cuidar de mim enquanto eu bebia e de como foi divertido conversar com ele.

E como de costume, minha mente fica um caos. Alguns flashes que eu não sei identificar sobre o que se trata. Tem algumas luzes, música alta, pessoas dançando. Tudo é confuso demais para que eu conseguisse entender do que se tratava.

Enquanto eu tentava recordar de mais acontecimentos da noite anterior, ouço o meu celular tocar. Suspiro e ando até a poltrona onde Shawn havia colocado minha bolsa. Procuro pelo aparelho e estremeço ao ver o nome de minha mãe brilhar na tela.

Pondero se deveria atender a ligação ou não. Eu estou de ressaca e sem muito humor para ouvir as reclamações da mulher. No mínimo ela havia descoberto que eu havia viajado por meio de fotos dos paparazzis e brigaria comigo por não ter avisado a ela.

Suspiro aliviada quando o celular para de tocar. No entanto, não demora muito para que o aparelho voltasse a anunciar que eu recebia uma ligação. Bufo e atendo o telefonema de uma vez por todas. Minha mãe não desistiria até que eu a atendesse, então o melhor a fazer era acabar com esse sofrimento de uma vez por todas.

— Alô.

Hillary, sua filha ingrata! Como você ousa viajar sem me avisar? E por que você não atendeu o celular ontem? Tem noção do quão preocupada eu fiquei sem notícias suas? – Minha mãe praticamente berrava no outro lado da linha. Suspiro e afasto o aparelho do meu ouvido. Eu definitivamente ficaria com os tímpanos estourados se.

— Oi mãe. Eu estou bem sim. Obrigada por perguntar. – Ironizo e ouço a mulher arfar, indignada. Nesse momento, percebo que havia cometido o primeiro erro do dia.

Não teste a minha paciência, Hillary Beaumont Leblanc! Você pode ser adulta, mas eu ainda sou a sua mãe. Quer ficar sem seus dentes? Porque eu juro que eu sou capaz de pegar o primeiro voo que tiver de Seattle para Las Vegas só para isso. — Esbraveja a mulher e eu me encolho, sabendo que minha mãe era louca o bastante para fazer isso.

— Desculpa, mãe. – Sussurro, envergonhada. Relembro então que ela sabia exatamente onde eu estava, o que era estranho, já que mesmo que os paparazzis soubessem que eu estava viajando, dificilmente eles descobririam o meu destino. A CIA era sempre muito cuidadosa em proteger a localização de seus agentes fora do trabalho social, justamente para que tivéssemos liberdade para participar das missões. – Mas, mãe, como você sabe que eu estou em Las Vegas?

Por você é que não foi, não é? Eu juro que eu não sei mais o que eu faço com você, Hillary. Quantas vezes eu já disse que é a sua obrigação me informar quando e para onde você vai viajar? E se acontecer alguma coisa com você? Como é que eu vou saber por onde é que eu vou começar a procurar você? O que é que eu vou dizer para a polícia? Que eu não sei nem mesmo se a minha própria filha estava no país? – E lá vamos nós com o exagero da minha mãe. – Se não fosse por Dakota, era possível que nunca descobrisse sobre essa sua fuga para Las Vegas! Custava me mandar uma mensagem para me avisar, Hillary?

— Mãe, eu já tenho vinte e seis anos. Eu posso muito bem... – E aqui foi o meu segundo erro do dia.

Você pode ter cem anos, que ainda me deve satisfação, Hillary! Acha que só porque você tem vinte e seis anos que deixou de ser minha filha? – Minha mãe estava furiosa. A cada palavra sua voz parecia ficar mais alta e intimidante. – E eu espero de verdade que você esteja bem longe do álcool! Não se esqueça o que aconteceu todas as vezes que você viajou com os amigos e resolveu que era uma boa ideia beber.

— Por Deus, mãe. Não precisa jogar na minha cara tudo o que eu já fiz de errado na vida. – Reclamo, tentando mudar de assunto. Eu me sentia culpada por ter bebido, mas não queria ter que ouvir mais repreensões de Natalie Beaumont. Se ela descobrisse que eu exagerei na bebida mais uma vez, era capaz de ficar horas gritando em meu ouvido sobre responsabilidade e os efeitos no corpo.

É claro que eu preciso. Porque parece que você tem amnésia! Você não é mais criança, Hillary. Eu não estou mais perto de você para acobertar os seus erros. Você agora é uma modelo internacional. Mais do que mulheres comuns, você precisa ter cuidado com as suas ações. Além disso, eu já falei para você parar de beber. A longo prazo, a ingestão de álcool pode causar câncer da mama, câncer oral, doenças cardíacas, derrames, cirrose hepática, perda de memória e diminuição da fertilidade. Infertilidade, Hillary! Você já tem vinte e seis anos. Quando é que você vai me dar um neto? Você não vai ser jovem para sempre. Está querendo ser mãe avó? É isso? Quanto mais velha você fica, mais difícil é para engravidar. Além disso, quem é que vai cuidar de você quando estiver velha e com Alzheimer? – Dramatiza minha mãe e eu suspiro, pedindo um pouco mais de paciência para lidar com a mulher.

— Mãe, eu já te falei que não sei nem mesmo se quero ser mãe algum dia. Por que ao invés de ficar me cobrando, você não espera pelo Joe e o Jake? Eles também são seus filhos e já estão com quase dezoito anos. Você só precisa esperar um pouco e terá os seus tão sonhados netos. – Resmungo irritada. Eu odiava toda essa cobrança por filhos.

— Porque eu vou ter que depender de noras. E se elas não me deixarem ver meus netos? E se elas não me deixarem educar as crianças? Se elas implicarem comigo, podem muito bem levar meus netos para longe de mim. Com você é muito mais fácil. Você é minha filha. Posso brigar com você, puxar sua orelha se for necessário e ter certeza de que meus netos estão sendo bem-criados. Além disso, minha mãe sempre dizia que os filhos da minha filha meus netos são, os do meu filho serão ou não. — Responde minha mãe, como se eu tivesse falado a coisa mais absurda do mundo. – E você já está passando da hora de ter um marido, Hillary. Na sua idade, eu já tinha você e estava me preparando para ter os gêmeos. Você só trabalha e trabalha. Você nunca me apresentou nenhum namorado depois do desgraçado que eu não quero nem falar o nome.

Minha mãe estava se referindo ao odioso Claude Dupont. O francês e eu estudamos juntos e namoramos quando tínhamos quinze anos. Na época, eu morava em Paris com meu pai.

Eu terminei com ele antes de completarmos um ano de namoro. Ele era muito ciumento e controlador. Claude queria controlar as roupas que eu usava, as pessoas com quem eu conversava. Eu não podia ter amigos homens, tudo que eu fosse fazer eu tinha que ter alguma permissão dele ou era motivos para discussões terríveis.

E então veio a parte de invasão de privacidade. Ele vivia mexendo nas minhas redes sociais e interferia até mesmo o meu contato com a minha mãe. As chantagens emocionais passaram a se tornar cada vez mais frequentes, manipulando-me para fazer com que eu me sentisse culpada pelas atitudes dele. Por muito pouco não desenvolvi distúrbios alimentares e depressão por causa da pressão que ele colocava sobre mim. Foi um relacionamento que cobrou muito de mim.

Se não fosse pela minha mãe, eu provavelmente nunca teria tido coragem para terminar com Claude. No entanto, o desgraçado nunca aceitou a separação. Durante muito tempo ele me perseguiu e fez da minha vida um inferno. Por causa dele, eu tive que trocar o número de celular e por puro desespero, acabei aceitando ir morar em Seattle com a minha mãe apenas para fugir dele.

Mesmo que tenham se passado anos, eu ainda me sinto muito insegura para me envolver de forma amorosa com alguém. Freddie foi o responsável por me fazer acreditar que nem todos os homens são babacas como Claude, mas isso não significa que eu não tenha me tornado muito mais fechada para o amor.

Eu voltei a me encontrar com ele no ano passado, quando fui visitar a clínica psiquiatra de meu pai. E foi como se todos os traumas tivessem retornado a minha mente. Felizmente pude acabar com ele, enquanto ajudava Sam e Freddie a fugirem de lá, mas isso não foi o bastante para me fazer esquecer por completo tudo o que ele me fez.

Pensar em Claude sempre fazia eu me sentir mal e frustrada. Por que eu deixei que ele me controlasse tanto? Por que permitir que ele me tratasse tão mal? Por que eu me apaixonei por ele? Por que me entreguei tanto para alguém tão babaca quanto ele?

Encaro o bilhete em minhas mãos e sinto vontade de chorar. Shawn jamais seria alguém tão cretino quanto Claude. E de repente, lembranças da noite anterior passam a retornar a minha mente. Relembro de estar dançando, enquanto eu o olhava, de deslizar minhas mãos pelo seu peitoral firme e de sentir seu delicioso perfume. E então eu estou beijando Shawn e pedindo para que ele se soltasse e aproveitasse a noite.

Hills, você ainda está aí? Filha? – O chamado de minha mãe, faz com que eu me lembrasse que ainda estava em ligação com ela.

— Sim, mãe. Eu estou aqui. – Respondo, atordoada.

Você está bem, querida? Ficou calada por tanto tempo e parece nervosa. – Comenta minha mãe com preocupação. Ela sabia que eu ainda tinha dificuldade para lidar com as lembranças envolvendo Claude.

— Eu estou bem, mãe. Mas preciso desligar agora. Eu tenho que procurar Sam e as outras meninas. Falo com você depois. – Aviso, apressada.

Mas, filha...

— Tchau, mãe. Beijos. Eu te amo. – Despeço-me e encerro a ligação antes que ela me respondesse.

Deixo o celular de lado e me jogo na cama, levando minhas mãos a boca, sem acreditar nas lembranças que a minha mente me trazia.

— Por Deus! O que foi que eu fiz? Eu basicamente me joguei em cima de Shawn. O que ele deve estar pensando de mim agora? Por que você tem que ser tão estúpida bêbada, Hillary? – Sussurro, sentindo vontade de chorar de tanta vergonha. Pego um dos inúmeros travesseiros na cama e o esmago contra o meu rosto.

Eu queria cavar um buraco e sumir para sempre da face da Terra. Além de ter feito Shawn ficar de olho em mim, eu ainda o obriguei a dançar comigo, o beijei e disse coisas extremamente vergonhosas. Ele deve estar pensando que eu sou uma oferecida que vai para cama com qualquer homem.

E depois de tudo o que ele passou comigo, Shawn ainda cuidou de mim essa manhã. Ele se preocupou em trazer café da manhã, me ajudou quando eu estava vomitando e ainda me limpou. E eu agi como se nada tivesse acontecido. Por que eu tinha que ser tão estúpida?

Meu celular passa a tocar mais uma vez, enquanto eu enfrentava a minha crise de consciência. Encaro a tela e vejo que se tratava de Sam. Ela provavelmente queria saber se eu estava bem e me relembrar da programação de sua despedida de solteira. Respiro fundo algumas vezes, tentando controlar as minhas emoções e atendo a ligação.

Hills?

— Oi Sammy. – Respondo, tentando soar o mais calma possível. – Já tomou café da manhã?

Café da manhã? Hills, já são duas horas da tarde. – Revela Sam, surpreendendo-me ainda mais. Afasto o celular para confirmar o horário e arfo ao ver que ela estava certa. – Eu passei pelo Shawn agora a pouco e ele me disse que você já tinha acordado e que tinha vomitado um pouco. Você está bem?

— Você encontrou o Shawn? – Sussurro e mordo meu lábio inferior com preocupação. – Ele por acaso parecia me odiar?

O quê? Não! Por quê? — Indaga a garota com curiosidade. – Você fez alguma coisa para ele te odiar?

— Talvez. – Murmuro, sentindo-me culpada.

Como assim “talvez”? O que você fez? – Questiona a loira, parecendo preocupada.

— O que eu sempre faço quando eu bebo. Muita merda! – Choramingo e Sam gargalha, divertindo-se com a situação. – Não ri! Eu estou no meio de uma crise aqui. Preciso de ajuda.

Hills, você está em Las Vegas. Todos que veem para cá fazem merda. Não se preocupe tanto. Eu tenho certeza de que o Shawn não te odeia. Precisava ver o cuidado dele, me perguntando se você tinha alergia a alguma coisa, enquanto pegava seu café da manhã. Se ele te odiasse realmente, duvido muito que ele estaria preocupado com isso. Na verdade, eu acho que ele gosta muito de você. — Comenta Sam, maliciosa.

— Não seja idiota. – Resmungo, impaciente. – Como é que eu vou encará-lo depois de tudo o que eu fiz para ele? Eu estou com tanta vergonha, que acho que nunca mais vou ser capaz de olhar nos olhos dele.

Acho que você está exagerando. – Retruca Sam. Ouço as vozes das outras garotas ao fundo, apressando a noiva e gritando para que eu me apressasse. – Escuta, as meninas estão dizendo que estamos atrasadas para os compromissos do dia. Nós iremos passear pela cidade e participar de umas festas com uma equipe especializada em despedidas de solteiro. Acha que você consegue participar ou a ressaca está ruim demais para você conseguir sair da cama?

— Eu estou bem. Posso participar das atividades. – Garanto, suspirando frustrada. – Na verdade, é até melhor. Só assim eu vou conseguir distrair um pouco a minha mente e ainda vou conseguir absorver melhor a situação para conseguir me desculpar apropriadamente com Shawn.

Tudo bem. Estamos te esperando no nosso quarto. É bom que você pode nos contar o que fez de tão grave com o Shawn a ponto dele te odiar. – Responde Sam e posso ouvir os risinhos de todas as garotas. Ignoro, porque eu sabia que não adiantaria nada retrucar.

— Certo. Eu chego em poucos minutos. – Informo e encerro a ligação.

Encaro o quarto e suspiro. Eu não podia deixar o quarto bagunçado do jeito que estava. Então, torcendo para que Shawn não voltasse antes, arrumo toda a bagunça que fiz no quarto e escrevo um bilhete agradecendo tudo o que ele tinha feito e informando que quando estivesse tempo em meio a despedida de solteira de Sam, eu ligaria para ele para comermos alguma coisa e eu me desculpar formalmente pelo que fiz.

Eu ainda não estava pronta para encará-lo, então respiro mais aliviada quando deixo o quarto e consigo retornar para o quarto em que estou dividindo com Sam sem esbarrar com o cientista. O que eu não esperava é que esse foi o meu terceiro erro do dia e o pontapé inicial da confusão que minha vida estava prestes a se tornar.