Sem Tempo para o Amor
11 Escolhas Duvidosas

SEM TEMPO PARA O AMOR
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CAPÍTULO X – ESCOLHAS DUVIDOSAS
"Se algo pode dar errado, dará."
Cito a Lei de Murphy para mim mesma enquanto encaro a minha torrada caída com o lado da geleia virada para o chão. As garotas estavam tão fadigadas pela ressaca que nem mesmo notam a minha frustração ao encarar a mancha de geleia de morango em minha blusa branca.
O dia não havia começado tão bem quanto eu gostaria. Depois de passar a primeira noite bebendo como uma louca, acordar de ressacar morrendo de arrependimento e passar o restante do dia participando de atividades intensas para a despedida de solteira memorável de Sam, eu já não tinha mais energia nem mesmo para fazer algo além de choramingar ao ver o estrago que eu havia feito em minha roupa.
Sentada em uma das mesas mais afastadas do restaurante do hotel, Sam, Beth, Carly, Sara, Thea, Nancy, Elena e eu tomávamos nosso café da manhã em completo silêncio. Apesar de não ter ingerido álcool na noite anterior, eu me sentia fisicamente esgotada das loucuras que as primas Barton haviam me feito passar.
Eu havia dito a mim mesma que não beberia mais depois de toda a vergonha que passei na frente de Shawn, então tudo o que eu fazia toda vez que alguém me oferecia álcool era fugir para o mais longe possível. Eu não suportaria causar mais uma humilhação a minha imagem e sabia que diferente do dia anterior, eu não tinha ninguém de confiança para garantir que eu não faria nenhuma loucura que eu pudesse me arrepender depois.
E falando no cientista, eu não tinha o visto mais depois dele ter me ajudado em seu quarto na manhã seguinte a minha conduta vergonhosa. Por causa das atividades da despedida de solteira de Sam, eu não tive tempo nem mesmo para respirar. O meu celular passou a maior parte do tempo descarregado e eu não o encontro no hotel desde antes de ontem.
Hoje será a nossa última noite em Las Vegas e eu esperava ter uma chance de me desculpar pessoalmente com o rapaz por todos os problemas que eu causei a ele estando embriagada, que não foram poucos. A essa altura, todas as minhas memórias já haviam retornado para a minha mente, causando ainda mais constrangimento e arrependimentos.
Suspiro, recolhendo a torrada do chão e a coloco sobre o prato. Eu havia desistido de comer. Nada estava acontecendo como eu gostaria desde que eu acordei e isso estava começando a me deixar extremamente frustrada.
Eu acordei morrendo de dor em meu pescoço depois de ter dormido de mal jeito, tropecei na bagunça de Sam e o resultado foi bater meu cotovelo na parede. Quase chorei de tanta dor e quando fui tomar banho, o chuveiro estava queimado, então fui obrigada a tomar banho na água gelada.
Recebi um soco no seio, quando tentei acordar Sam e dessa vez eu realmente chorei. Descemos para tomar o café da manhã e o garçom trouxe o meu pedido errado. Sam estava mal-humorada por ter sido acordada e estar de ressaca, então passou pelo menos vinte minutos discutindo com o garçom para ele trocar a minha comida e trazer o pedido correto, ainda que eu tivesse dito que estava tudo bem.
Tive que esperar mais trinta minutos até que minhas torradas, ovos e suco viessem. Infelizmente, a minha onda de azar se manifestou mais uma vez e minha última torrada com geleia acabou indo ao chão, deixando uma mancha que dificilmente sairia da minha blusa.
Hoje definitivamente era um daqueles dias em que a gente não deveria sair da cama, porque qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível. Suspiro e encaro as garotas.
Já se passava das duas horas da tarde, mas por termos chegado sete horas da manhã no hotel, nenhuma de nós se importou em estar tomando café da manhã no horário em que deveríamos estar almoçando.
— Eu vou voltar a dormir. – Aviso, pegando minha pequena mochila e meu celular que estava em cima da mesa.
— O quê? Mas e o spa? – Pergunta Carly, parecendo ofendida por minha decisão de hibernar a tarde toda. – Você não estava com dor no pescoço?
— Ainda estou, mas eu prefiro dormir. – Respondo, dando de ombros.
— A Hills é o tipo de pessoa que está sempre dormindo. – Comenta Sara, dando um fraco sorriso. Ela também estava sofrendo com a ressaca. – E tiver algum lugar para ela encostar a cabeça, ela vai dormir. É melhor deixar ela ir.
— Eu também amo dormir, mas estamos em Las Vegas! – Argumenta Sam, encarando-me frustrada. – Precisa aproveitar para se divertir ao máximo antes de voltar para a sua rotina maluca.
— Ei, aquela não é a Hills? – Pergunta Nancy, apontando para a televisão.
Todas nós nos viramos para encarar a tela da televisão próxima a nós e me surpreendo ao ver que eu estava sendo notícia de algum programa. Leio a chamada da reportagem e arfo com o que vejo.
“Hillary Leblanc pode estar com um novo affair”.
— Garçom, poderia aumentar o volume da televisão? – Pede Elena, preocupada com o que a mídia havia inventado dessa vez.
O garçom que havia nos atendido aumenta o volume, assim como solicitado, e eu volta a me sentar, sentindo que eu não gostaria nada do que ouviria da repórter diria a meu respeito. Suspiro e Sam coloca a mão sobre em meu ombro em um sinal de apoio.
“Conhecida por estampar os catálogos da Burberry, a modelo internacional, Hillary Leblanc, foi vista em um cassino luxuoso acompanhada de um homem misterioso.
Nós acompanhamos a estrela das passarelas e conseguimos fotos exclusivas da musa deixando a suíte de maior luxo do hotel, depois do rapaz misterioso ter aparecido com um super café da manhã para a musa.
Ao que tudo indica, esse homem não é famoso. Então fica a pergunta no ar. Hillary está mesmo namorando ou isso foi apenas uma noite interessante em Las Vegas? Lembrando que a modelo já se envolveu com o publicitário Steve Rogers no ano passado. Acham que a fila andou para a musa? Ainda não sabermos a resposta, mas continuaremos de olho e traremos de maneira exclusiva para vocês assim que descobrirmos quem é esse jovem misterioso que pode ter conquistado o coração da modelo.”
— Não acredito. – Sussurra Beth, surpresa. – Descobriram do seu envolvimento com o Shawn.
— Eles até mesmo tem fotos. – Comenta Carly, alternando seu olhar entre a televisão e eu.
— Como eles conseguiram essas fotos? – Questiona Sara, encarando-me com preocupação.
Eu entendia a surpresa de Sara. Nós, agentes da CIA, fomos treinados para ter certeza de que não estamos sendo seguidos ou observados. Nossos sentidos são estimulados para se tornarem muito mais aguçados ao ponto de nada passar despercebido por nós.
— Bom, pelo menos eles ainda não reconheceram o Shawn. Seria ainda mais caótico que se eles descobrirem que ele é a mesma pessoa que você salvou de ser atropelado. – Comenta Thea, mas isso não faz com que eu me sinta melhor. Na verdade, esse pensamento torna o meu sentimento de culpa ainda mais intenso.
— Você está bem, Hills? – Questiona Nancy, colocando a mão sobre a minha. Nesse instante, meu celular passa a tocar.
— Sim. Eu só... – Atordoada, tento pegar o celular, mas acabo deixando-o cair no chão.
No mesmo instante, um homem, que conversava com uma mulher que imaginei ser a sua acompanhante, acaba chutando o aparelho, que se choca contra a parede com brutalidade. E é claro que para completar o meu dia de azar, o aparelho fica completamente destruído pelo impacto.
— O quê? – Sussurra o homem, surpreso. Ele então me encara. – Ei, você não é aquela modelo famosa. Como é o nome mesmo?
— Hillary Leblanc. – Responde a mulher que estava ao lado dele de maneira animada.
— Isso! – Exclama o homem que parecia ter uns quarenta anos. – Sinto muito pelo seu celular.
— Será que podemos tirar uma foto com você? – Questiona a mulher, pegando o celular dela.
Merda!
— Não. Ela não pode. – Responde Sam, levantando-se. Ela se coloca ao meu lado e encara o casal de forma intimidadora. – Hillary está de férias e se vocês postarem foto dela, ela não vai conseguir descansar. Então, sinto muito, mas vocês não podem tirar fotos dela.
Sam e o casal passam a discutir sobre como as celebridades e os fãs deveriam se comportar. As outras garotas também entram na discussão, tornando o ambiente ainda mais caótico. No entanto, eu estava tão frustrada pelo meu erro de não ter notado a presença de um paparazzi quando deixei o quarto de Shawn pela manhã.
Suspiro com frustração e me aproximo do meu celular destruído. Com certeza, a ligação se tratava de Natasha, Dakota ou minha mãe após verem a reportagem. Mais uma vez, eu estava sendo alvo da mídia, quando eu havia prometido para a S.H.I.E.L.D que eu não voltaria a me envolver em problemas e nem a me destacar mais do que o necessário.
Ignoro a confusão que se desenvolvia e deixo o restaurante do hotel, com minha bolsa de alcinha no ombro e o celular destruído em mãos. Eu precisava pensar em uma solução para a loucura que eu havia me metido. Se fosse em outro momento, eu não estaria preocupada. Esse tipo de notícia não fica em alta por muito mais do que dois dias. No entanto, a situação muda por completo quando eu havia feito algo que as pessoas não esperam de uma modelo internacional.
Eu tinha me jogado contra um caminhão para salvar a vida de Shawn. Não que eu tenha me arrependido de ter feito o que eu fiz. Se fosse preciso, eu faria de novo sem pensar duas vezes. Mas o acidente tornou a minha carreira de modelo muito mais popular do que era seguro para manter a minha identidade como agente da CIA.
E não era apenas isso. Clint e Natasha já comentaram comigo algumas vezes sobre os abusos da mídia para descobrir mais sobre Shawn. O rapaz estava constantemente sendo perseguido, atrapalhando seu trabalho e os seus quase inexistentes momentos de descanso.
Se a imprensa descobrir que o homem misterioso que supostamente tinha dormido e que apareceu na televisão é o mesmo que eu salvei do atropelamento, a vida dele será ainda mais prejudicada por minha causa. Não posso permitir que isso aconteça.
— Hills! Ei, Hills!
O chamado de uma voz masculina conhecida por mim me faz ignorar o elevador que tinha chegado ao meu andar e me viro para trás. Surpreendo-me ao ver que os gritos vinham do bar que ficava de frente ao restaurante e que se tratava do marido de minha melhor amiga. Sorrio e me aproximo. Eu apenas não esperava encontrar Shawn sentado ao seu lado, com o corpo jogado sobre o balcão do bar com uma expressão desolada, enquanto abraça uma garrafa de vodca e encara o copo com a bebida. Ele parecia estar destruído.
— Oi Clint. – Cumprimento o homem com um abraço apertado. Sorrio quando recebo um beijo paternal na testa assim que nos separamos. – Eu já estava com saudades de você. Naty e Shawn me disseram que você estava por aqui, mas já estava começando a ficar chateada por não ter esbarrado com você nenhuma vez desde que cheguei.
— Eu também já estava começando a ficar triste por não ter tido a oportunidade de te encontrar por aqui. Parece que você continua popular demais. – Comenta o homem, sorrindo com humor. Dou uma risada anasalada.
— Olha só quem fala. – Retruco rindo e meus olhos recaem sobre Shawn, que murmurava algo sem nexo algum para mim. – Está tudo bem com ele?
— Vamos dizer que ele não está tendo um bom dia. – Responde Clint, encarando o amigo com preocupação. – Ele recebeu o resultado da prova que ele fez para entrar na NASA e acabou sendo recusado. Shawn também descobriu que a ex-namorada sem caráter dele o traiu com o antigo tutor dos dois da faculdade, que era uma das pessoas que ele mais admirava no mundo. Para completar, ela está grávida e os dois ainda mandaram o convite de casamento para ele por e-mail, afirmando que não aceitam que ele não compareça.
— Caramba. – Sussurro, imaginando o quanto ele deveria estar sofrendo. Suspiro e o encaro com compreensão. – Eu te entendo, Shawn. Também não estou tendo um bom dia. — Ele murmura alguma coisa e toma a vodca em seu copo de uma vez. – Shawn parece estar bem alterado. Antes de ontem ele me disse que era bem resistente a bebidas.
— E ele é. Mas Shawn começou a beber desde que cedo, depois dessas notícias chocantes. Ele já bebeu duas garrafas de whisky e agora está bebendo uma de vodca. Qualquer pessoa no lugar dele já teria entrado em coma alcóolico. – Explica Clint, suspirando cansado. – E o pior é que eu preciso sair e não quero deixar esse teimoso sozinho aqui. Teria como você fazer companhia a ele enquanto resolvo alguns problemas?
— É mentira dele! Ele acha que você e eu podemos ser um casal e por isso quer que a gente fique sozinhos juntos. – Revela Shawn, encarando Clint com repreensão.
— Você me pegou. – Responde Clint, erguendo os braços em sinal de redenção. – Acho que sob efeito de álcool, vocês ficam muito mais sinceros sobre os sentimentos de vocês, que poderia até investir em uma relação.
— Clint! – Repreendo o homem, que dá de ombros. – Shawn e eu somos apenas amigos.
— Mas nada impede de vocês serem algo mais. Ao menos eu sei que química vocês têm. Só falta prestarem atenção em seus sentimentos e tenho certeza de que vão formar um casal perfeito. – Retruca o bilionário, encarando-me com um sorriso malicioso. Naquele momento eu soube que ele tinha visto meu beijo com Shawn. Bufo e sinto meu rosto esquentar.
— Você realmente não vale nada. – Resmungo e Clint gargalha.
— Ele é um saco. – Afirma Shawn, colocando mais vodca em seu copo.
— De qualquer forma, eu realmente preciso sair. Tenho que ir ao cartório autenticar alguns documentos com um amigo. – Responde Clint, encarando o relógio. – Eu já estou atrasado. Você pode cuidar dele para mim, Hills? Prometo que eu não demoro.
Mordo meu lábio, sem saber o que fazer. Depois do que vi na televisão, eu sabia que não era seguro ficar perto de Shawn. Com paparazzis espalhados pelo hotel, era apenas questão de tempo até que descobrissem a identidade do cientista. No entanto, como eu poderia me negar a cuidar dele, quando ele sofreu tanto cuidando de mim? Não seria justo ir embora quando ele se encontra em seu estado mais vulnerável.
Os lindos olhos azuis do rapaz recaem sobre mim. Eles expressavam tanta dor e confusão. E eu odiei vê-lo assim, porque eu simplesmente pressentia que compartilhávamos da mesma dor. Ambos sofrendo pelo passado e amores que jamais foram capazes de nos corresponder.
— Tudo bem. Eu posso cuidar dele. – Respondo, ignorando todos os protocolos de segurança que eu deveria seguir. E é claro que esse foi apenas mais um dos inúmeros erros que eu cometeria até o final da noite.
— Certo. O Shawn não é um bêbado muito difícil de cuidar. Ele é calmo e geralmente fica no canto do bar, chorando sozinho ao lembrar de seu passado. Mas caso ele dê muito problema, é só me ligar que eu venho correndo. – Orienta Clint e eu assinto em concordância.
— Está bem.
— Obrigado, Hills! – Clint deixa um beijo estralado em minha bochecha e se vira para Shawn. – Não dê trabalho para a Hillary. Logo eu estarei de volta para dar um jeito em você e nessa sua fossa.
— Tanto faz. – Resmunga o outro, um pouco rabugento. Clint ri e encosta a testa na do amigo, dando tapinhas em suas costas antes de sair, acenando para nós em despedida.
Suspiro e me sento ao lado de Shawn, guardando meu celular quebrado dentro de minha bolsa. Viro-me para o cientista e me surpreendo ao notar que eu era alvo da sua atenção. Ele suspira e bebe um pouco mais de sua vodca, antes de voltar a encarar suas mãos.
— Vai pedir alguma coisa? – Pergunta o barman de cabelos encaracolados e olhos amendoados, sorrindo educado.
— Não. Obrigada. – Respondo e ele assente educadamente, antes de sair para continuar a limpar seus instrumentos de trabalho.
— Você deveria beber. – Comenta Shawn, pensativo.
— Ah, não. Da última vez que eu bebi, dei muitos problemas a você e ainda coloquei a sua identidade em perigo. Eu não sou boa com bebidas. – Afirmo, dando um fraco sorriso.
— Ainda assim, você deveria beber. – Insiste Shawn, colocando mais vodca em seu copo, antes de estender para mim.
— Por quê? – Questiono, tentando entender o motivo de sua insistência.
— Porque você está triste e com raiva. – Responde, surpreendendo-me.
— Como sabe disso? – Eu não conseguia acreditar na precisão de Shawn e na determinação presente em seu comportamento, enquanto ainda estendia seu corpo em minha direção.
— Seus olhos. Eles são como a galáxia. São lindos, poderosos e encantadores. Mas hoje as estrelas estão brilhando mais fracas do que de costume. – Explica Shawn com seriedade. Sinto meu rosto esquentar com a comparação do cientista.
— Você acha mesmo que meus olhos são como a galáxia? – Indago, pegando o copo de sua mão. Ele assente e desvia o olhar para encarar a garrafa sobre o balcão.
— Acho. – Afirma, voltando a me encarar. – Beba.
— Mas são duas horas da tarde. – Comento e ele bufa.
— E daí? Por acaso tem alguma lei que diga que existe um horário para se beber? – Retruca Shawn, encarando-me com tédio. – Além disso, nós estamos em Vegas. Estranho seria se você não bebesse.
— Eu não sei, Shawn. – Respondo, incerta sobre o que eu deveria fazer. – Eu sempre perco o controle quando bebo.
— O que acontece em Vegas, fica em Vegas. Se alguém questionar, você apenas diz que estava em uma cidade onde é impossível não beber e que extrapolou. Ninguém pode julgar você por ter seu momento de fossa desde que tudo aconteceu. E você pode colocar a culpa em mim e dizer que você foi vencida pela minha teimosia. – Responde o rapaz, bebendo um gole da vodca direto da boca da garrafa. – Que se dane a vaga na NASA, casamento dos traidores e esse dia maldito.
Ele bebe mais um gole da sua bebida e suspira, pensativo. Pondero sua fala. O dia estava sendo uma droga e eu realmente estava triste e com raiva. No entanto, eu sei melhor do que ninguém que eu perco o controle sob o efeito de álcool. Ainda assim, havia uma vozinha irritante dentro de mim que dizia que Shawn estava certo e de que eu deveria beber.
— Que se dane os casamentos, os paparazzis e os dias malditos! – Bato o copo de Shawn em sua garrafa e bebo a vodca em apenas um gole.
Sinto o líquido descer queimando a garganta e estremeço com o sabor. Eu sempre preferi bebidas doces ou com frutas que pudessem disfarçar o gosto do álcool. Shawn me encara e ri, parecendo se divertir com as minhas caretas, tentando me acostumar com o péssimo gosto da bebida.
— Agora você ri, não é? – Resmungo, chamando o garçom. Shawn dá de ombros e me encara com um sorriso diferente em seus lábios. O garçom então aparece e me encara, esperando o meu pedido. – Uma Margarita, por favor.
— Um instante, por favor. – Pede o garçom, afastando-se para preparar a bebida.
— Obrigada. – Agradeço e passo a encarar Shawn. Relembro que eu ainda não havia agradecido por ele ter cuidado de mim na minha primeira noite em Las Vegas. Pondero se deveria esperar ele estar sóbrio ou se falo logo e me livro de uma vez por todas desse sentimento de culpa. Suspiro e me acomodo melhor na cadeira. Shawn me analisa com curiosidade. – Eu ainda não agradeci a você por ter cuidado de mim.
— Eu não fiz nada demais. – Responde o cientista, colocando sua garrafa sobre o balcão. – Sinto muito por te deixar sozinha no quarto.
— Não se preocupe com isso. Achei fofo da sua parte se preocupar com a minha reputação. – Comento, dando uma fraca risada ao lembrar de seu bilhete. – À propósito. Você disse que teve problemas com garotas bêbadas no passado. O que aconteceu?
— É uma longa história que envolve a minha ex-namorada e muitos adolescentes babacas. – Responde, parecendo decepcionado ao lembrar do assunto.
— Bom, eu estou com tempo. Meu celular estar quebrado e minhas amigas devem estar envolvidas em uma briga nesse momento. – Conto e Shawn ergue o olhar em confusão. – Mas se você se sentir muito desconfortável em relatar a história, não precisa me contar.
Por alguns instantes, Shawn permanece em silêncio. Minha bebida chega e eu já tenho certeza de que ele não irá me contar o que aconteceu. No entanto, surpreendo-me quando ele suspira e sua voz se faz presente, carregada de mágoa e fúria.
— Quando eu estava no último ano da minha primeira graduação, eu conheci Carol Zimmers. Ela era rica, extrovertida e popular. O completo oposto de mim. Nós tínhamos uma aula juntos, mas nunca sequer trocamos um “oi”. E foi então que em um pouco antes de nossas férias de verão, nós fomos convidados para fazer parte do grupo de estudos de verão de Richard Wright. Ele era um dos maiores especialistas em astrofísica da Universidade de Pesquisas Cientificas e Tecnológicas Avançadas de Hawkins. Eu tinha dezessete anos na época e não tinha amigos nenhum na faculdade, então eu logo me animei com a ideia de conhecer pessoas que compartilhassem dos mesmos interesses e tivessem mais ou menos a minha idade.
“No entanto, como era de se esperar, eu era tímido demais para fazer amizade e na primeira semana, eu fiquei sozinho e completamente isolado da turma. Carol e os outros alunos populares que participavam do grupo de estudo já se conheciam e não faziam questão de se misturar. Eles estavam ali apenas para conseguir pontos de atividades complementares.
Mas então em um dia completamente aleatório, Carol se aproximou de mim. Pela primeira vez desde que eu entrei na faculdade, alguém tomou a iniciativa de falar comigo sem ser para pedir meus trabalhos ou ajudar nos estudos, então eu fiquei feliz.
Você já deve imaginar que eu não era muito acostumado com interações sociais, então de certa forma eu era muito ingênuo para ver as intenções das pessoas. Carol tinha vinte anos e era a estrela do nosso curso. Saber que ela se interessava em se aproximar de mim fez com que eu ficasse cego para ver o que estava acontecendo.
Durante os estudos das férias de versão nós conversamos e nos tornamos amigos. Ela passou a me levar para os eventos que ela participava e a me incluir nos seus círculos de amigos. Eu sempre me sentia deslocado, mas ela insistia para que eu fosse e eu acabava me deixando levar pelo seu charme.
Em uma dessas festas, nós nos beijamos e começamos a namorar. Eu não podia estar mais feliz. Estava apaixonado e orgulhoso pelos meus sentimentos serem correspondidos. Ou pelo menos, eu achava que eram correspondidos.
Quando estávamos completando seis meses de namoro, ela insistiu para que fossemos em uma festa de algumas pessoas nada legais da faculdade. Eu não queria ir. Precisava entregar meu trabalho de conclusão de curso na próxima semana, então preferia estar em casa estudando para a minha apresentação.
Ainda assim, Carol era manipuladora e logo eu me vi cercado por adolescentes bêbados, drogados e com os hormônios à flor da pele. Todos pareciam se divertir, menos eu. Em algum momento, Carol desapareceu da festa. Eu passei a procurá-la por todo lugar, com medo de que ela estivesse passando mal.
E então, eu esbarrei com a melhor amiga de Carol, Britney James. Ela também fez parte do grupo de estudos de versão. Britney parecia estar tão bêbada que mal parava em pé. Preocupado com a garota, eu a levei para um dos quartos da casa onde a festa acontecia para que ela pudesse descansar um pouco.
Quando chegamos ao quarto, o que eu não esperava era encontrar Carol transando com um dos jogadores do time de basquete da faculdade. Eu fiquei furioso e exigi explicações. A resposta de Carol foi que ela só tinha ficado comigo, porque tinha apostado com os seus amigos que eu me apaixonaria perdidamente por ela e ainda faria seus trabalhos, assim como ironicamente aconteceu.
Na segunda-feira, fotos minhas com chifres e a palavra otário escrito na testa foram distribuídas pela faculdade. Durante dias, eu tive que suportar toda a humilhação dos outros alunos, afirmando o quanto eu fui idiota por acreditar que uma garota incrível como a Carol teria mesmo se apaixonado por um nerd sem graça como eu.” – Ao fim de sua narração, Shawn bebe um gole generoso da garrafa e ri amargurado. – E agora ela me manda um convite de seu casamento com o professor Wright exigindo a minha presença? Maldita! Os trabalhos que ela apresentou para ele fui eu quem fiz e não a brilhante e popular Carol!
— Ela é mesmo uma mulher mau caráter, Shawn. – Afirmo, furiosa por pensar o quanto ele deve ter sofrido por causa dessa mulher. Sinto meu sangue ferver e o álcool começar a alterar meus pensamentos. Pego a garrafa da mão de Shawn e bebo mais de sua vodca. – Como ela ousa fazer algo tão cruel quanto trair? Pior ainda é te chamar para o casamento dela. Ela não tem vergonha na cara não?
— É claro que ela não tem. – Resmunga Shawn, suspirando frustrado. Ele então nota que tinha terminado de beber a vodca em sua garrafa. – Ei Kendall, traz mais uma dessa. Eu quero beber e esquecer completamente o dia estúpido que me fez lembrar da maldita da minha ex.
— Traz mais Margarita, por favor! Nós vamos beber! – Exclamo animada. Eu já estava alterada demais para me importar com as consequências de minhas escolhas duvidosas. De repente, beber parecia ser o certo a se fazer naquele momento.
O barman assente e não demora a trazer nossas bebidas. Shawn e eu passamos a beber como loucos e a reclamar de nossas vergonhosas vidas amorosas. Ele, um cientista de sucesso, ainda sofrendo com os fantasmas das atitudes babacas de sua ex. Eu, uma modelo internacional e uma agente da CIA, que só teve um namorado na vida, mas que foi o bastante para destruir o meu psicológico e que ainda está sofrendo pelo casamento de seu melhor amigo com o amor da vida dele.
— Sabe, Hillary, você não merece sofrer pelo Freddie. É ele quem está perdendo a chance de se casar com a mulher mais linda que eu conheço. – Aconselha Shawn, colocando a mão sobre o meu ombro. – Você é como uma superestrela. A maior de nosso universo!
— Você acha isso mesmo? – Questiono, tocada pelas palavras doces do rapaz. O álcool já estava alterando por completo o meu pensamento e eu só pensava o quanto a camisa amarrotada de Shawn era engraçada. – Você não me acha chata ou sem-graça?
— Não! Você é fascinante, Hillary! Você é a minha estrela LBV 1806-20, a estrela mais linda, misteriosa, luminosa, quente e inalcançável de todas. Seus olhos são tão brilhantes e profundos que eu sinto como se estivesse me aventurando no espaço sideral todas as vezes que eu os encaro. Você tem um brilho único que atrai a todos por onde quer que você vá. Seu sorriso é mais radiante do que qualquer estrela no universo. E você é tão... tão... altruísta! Como alguém pode ter um coração tão gentil e bondoso como você? Não tem quem resista a sua beleza, Hillary. Eu passaria horas te beijando sem problema algum. Você é tão incrível que eu me casaria com você sem pensar duas vezes. – Garante Shawn, acariciando meu rosto. – Você é muito, muito, muito incrível.
— Shawn... – Sinto as lágrimas descerem pelo meu rosto. Eu estava emocionada com suas palavras. Ele era tão doce e encantador. – Eu deveria me casar com você. Você sim é um homem perfeito! É lindo, cheiroso, educado, inteligente e gentil.
— Você acha isso mesmo? – Questiona Shawn, parecendo em choque com as minhas palavras.
— Sim! Nós definitivamente temos que nos casar, Shawn. Você é perfeito para mim. – Respondo e ele parece confuso.
— Mas você não ama o Freddie? – Pergunta o rapaz, pensativo.
— A gente só supera um amor com um novo amor. E eu definitivamente posso me apaixonar por você. É apenas uma questão de tempo. – Afirmo e por algum motivo, eu realmente acreditava em minhas palavras. – Você não quer se casar comigo?
— Claro que eu quero me casar com você. E eu definitivamente vou fazer você se apaixonar por mim. Eu prometo que farei você me amar como nunca amou nenhum outro homem. E você vai dizer para todos quão feliz e orgulhosa você se sente por ter se apaixonado por mim. – Responde Shawn, estendendo o seu dedinho para que fizéssemos uma promessa. Sorrio e cruzo o meu dedinho no dele. – Agora que eu fiz a promessa, preciso fazer o pedido direito.
— Como? – Questiono, rindo boba. Shawn se levanta e tenta se ajoelhar, mas acaba se desequilibrando. Precisamos de alguns instantes para que ele conseguisse pegar em minha mão e ficar ajoelhado diante de mim.
— Hillary Beaumont Leblanc, você me daria a honra de me tornar o seu marido? – Pergunta Shawn, encarando-me com seriedade.
— Eu aceito! – Grito, fazendo as pessoas que estavam no bar baterem palmas animadas.
Jogo-me contra Shawn e o beijo com toda a euforia que eu estava sentindo naquele momento. Eu não fazia ideia do que estava fazendo. Era completamente insano pensar em me casar, mas completamente embriagados, nós não estávamos pensando muito bem no que aquilo iria dar. Então, tudo o que fazemos é nos equilibrar um no outro e sair do bar rumo a qualquer capela que pudesse realizar o nosso casamento.
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