Sem Tempo para o Amor
6 Proposta Irrecusável
Notas iniciais
SEM TEMPO PARA O AMOR
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CAPÍTULO V — PROPOSTA IRRECUSÁVEL
Um barulho estranho vindo da porta dos fundos de minha casa me desperta. Levanto da cama imediatamente e logo me arrependo pelo movimento brusco, sentindo minha cabeça rodar pela pressão baixa. Respiro fundo e encaro o relógio. Era um pouco mais de seis horas da manhã de um domingo.
Os sons vindos da cozinha se tornam mais intensos. Eu tinha certeza que tinha trancado todas as portas na noite anterior e todos os que geralmente me visitam – que se resumem a minha mãe e a Clint – possuem a chave da entrada, então não precisariam entrar pelos fundos, então definitivamente tem alguma coisa de errada.
Desperto e enfurecido pela invasão, busco pela minha arma debaixo do meu colchão, mas bufo frustrado ao notar que minha mãe havia a escondido mais uma vez. Levanto da cama e tropeço em algumas roupas jogadas pelo chão. Meu quarto estava uma verdadeira zona.
Ao notar que estou apenas de cueca, visto a primeira blusa que encontro jogada no chão e pego o abajur do meu quarto como uma arma improvisada. Com cautela, sigo pelo corredor a passos silenciosos. Minha casa não era tão grande – possuía apenas dois quartos, um banheiro, uma sala e a cozinha -, então precisava tomar cuidado para que não fosse notado antes de descobrir quem era o invasor. A minha suspeita é que fosse um maldito paparazzi, como tem acontecido com frequência nos últimos meses.
Dois meses haviam se passado desde o acidente e minha vida havia mudado por completo. Do dia para a noite, eu deixei de ser um astrofísico e professor universitário para me tornar uma espécie de subcelebridade, que participou de algo histórico. Aparentemente, o fato de ser salvo por Hillary de um atropelamento era algo que a mídia e nem as testemunhas do que aconteceu imaginavam.
Por mais que a CIA tivesse excluído os vídeos das câmeras de segurança do local e Clint tivesse usado toda a sua influência para impedir que a notícia se propagasse, nada disso foi o suficiente para evitar que as filmagens parassem na internet. Infelizmente, tudo ocorreu em um local público com inúmeras testemunhas com acesso a celular. Até mesmo haviam transmitido ao vivo o momento em que Hillary se jogava em minha direção.
Obviamente, isso não foi bom para nenhum dos dois. Sendo uma agente da CIA, Hillary não podia se expor demais, e a atenção da mídia estava atrapalhando a garota a realizar suas missões, enquanto eu estava tendo problemas com toda a invasão de privacidade que eu estava sofrendo desde que descobriram a minha identidade.
Eu já não conseguia mais sair de casa sem que alguém não me reconhecesse como “o cara que foi salvo pela supermodelo Hillary Leblanc”. Não que eu realmente não fosse. Eu devia a minha vida a Hillary, que não pensou duas vezes antes de agir e impedir que eu fosse esmagado pelo caminhão. Eu seria eternamente grato a ela. No entanto, eu já estava ficando impaciente com toda essa exposição da minha vida.
Novamente barulhos chamam a minha atenção. Parecia alguém estava mexendo nas minhas coisas, como se estivesse procurando por algo. Aperto mais o abajur e me aproximo com cuidado. A porta da cozinha continuava aberta e a pessoa parecia continuar procurando alguma coisa nos armários da cozinha. Ainda que não estivesse vendo o rosto do invasor, pela altura e corpo, eu sabia que era um homem.
Respiro fundo e conto mentalmente até três. Eu precisava ser rápido. Então, disposto a surpreender o invasor, pulo de uma vez na cozinha e preparo para jogar o abajur na cara do maldito. No entanto, nada sai como eu havia planejado em minha mente.
Para a minha surpresa, a pessoa que havia invadir minha casa não era um paparazzi. Tampouco se tratava de um bandido em busca de algum dinheiro ou algo valioso que pudesse vender. O sorriso traquina e o brilho divertido nos olhos de meu melhor amigo me impede de jogar a peça em minha mão contra o homem.
— Eu deveria sentir medo dessa sua blusinha de Homem-Aranha e do abajur? – Questiona Clint, parecendo finalmente encontrar o que procurava em meu armário. – Por que você não tem uma jarra de suco decente?
— Clint? Que merda você está fazendo aqui às seis horas da manhã de um domingo? – Questiono indignado, enquanto colo o abajur sobre a mesa da cozinha. — E que ideia maldita foi essa sua de entrar pelos fundos? Para que diabos eu te dei a droga da cópia da chave da frente se você não vai entrar por ela, desgraçado?
— E qual seria a graça? – Ironiza Clint, fuçando meus armários. Encaro o abajur, ponderando seriamente em jogar contra o maldito que eu chamo de melhor amigo. Ele é bom de luta e é resistente. Aposto que não mataria. – Se você jogar o abajur contra mim, Susan vai ficar furiosa.
— Você quase me matou do coração, maldito. – Resmungo irritado e Clint apenas ri com diversão, enquanto continua a fuçar em meus armários. – O que você quer, babaca?
— Essa casa não tem nada além de café? – Pergunta, encarando-me com a sobrancelha erguida em questionamento. Dou de ombros. – Não me diga que você está vivendo a base de fast food de novo, Shawn?
— Você sabe que eu não tempo para cozinhar para mim e muito menos habilidade. – Respondo, evitando olhar para Clint, enquanto ele me encarava com repreensão.
Já havíamos discutido muitas vezes por causa da minha falta de paciência para fazer comida. Mas a verdade é que não valia a pena. Eu moro sozinho. É muito mais fácil pedir comida do que perder tempo cozinhando algo que definitivamente eu vou odiar. Eu sou capaz de resolver qualquer cálculo complexo de física ou matemática, mas infelizmente, minhas habilidades culinárias são tão desastrosas que eu preciso evitar a cozinha.
— Eu vou ter que conversar com a Susan de novo? – Ameaça Clint, usando aquele tom paternal que sempre me irrita.
— Não se mete, Clint. Da última vez, minha mãe ficou no meu pé por seis meses. Já basta o último mês em que ela não saia um minuto do meu lado. – Retruco e ele suspira insatisfeito. – E você ainda não me disse o que veio fazer a essa hora da manhã de um domingo. Você sabe que hoje é o meu dia de folga.
— Hoje é aniversário de Susan. Mandei uma mensagem para ela ontem, dizendo para ela vir para cá pela manhã e comprei um bolo para ela. Pensei em preparar um café da manhã para ela aqui e cantar parabéns. Felizmente, eu trouxe algumas compras, mas esperava que você tivesse mais alimentos saudáveis por aqui. – Respondo e somente nesse momento eu me lembro que de fato é aniversário da minha mãe. Eu não conseguia acreditar que eu tinha sido capaz de esquecer desse detalhe. Tanta coisa aconteceu que eu nem mesmo me lembrei de comprar algum presente para ela. – Eu comprei um presente para você dar para ela. De nada.
— Como...?
— Você é muito fácil de ler, Shawn. Além disso, eu te conheço há anos. Eu sabia que você ia acabar se esquecendo. – Comenta Clint, sorrindo convencido. – De nada.
— Obrigado. – Agradeço, envergonhado.
— Agora vai se arrumar e vestir algo descente. Preciso que vá no supermercado comprar alguns ingredientes que estão faltando, enquanto eu preparo o café da manhã. – Fala Clint, empurrando-me para fora da cozinha. Suspiro e acabo fazendo o que ele pede. Não é como se eu tivesse muita escolha mesmo.
Talvez fosse pelo horário e dia da semana, mas felizmente, eu não fui reconhecido enquanto fazia compras e não tive problemas ao retornar para casa. Enquanto Clint prepara o café da manhã, aproveito o silêncio e a concentração do homem no que fazia para verificar meu e-mail, mensagens e compromissos que eu teria nas próximas semanas.
Como sempre, nenhuma novidade na minha vida monótona. Assim como tem sido nos últimos meses, tudo o que para fazer é trabalhar em minha pesquisa sobre as ondas gravitacionais e a Teoria da Relatividade Geral de Einstein e dar aulas na universidade. Suspiro, um pouco entediado.
— O que foi? – Questiona Clint, chamando minha atenção. – Você parece desanimado.
— Apenas um pouco entediado. Tirando a invasão de privacidade irritante da mídia, não tive grandes avanços na minha pesquisa e as aulas têm sido um pouco monótonas esses dias, já que estamos na semana de preparação para a exposição de trabalho dos alunos. – Comento, olhando as atividades que recebi de meus alunos.
— Quem diria que um dia eu ouviria Shawn Kennedy dizer que está entediado da rotina entediante dele. – Comenta Clint com humor, suspiro, mas não digo nada. – Você apenas estava acostumado comigo te arrastando para as minhas loucuras, Shawn.
— Talvez. – Concordo, pensativo.
Mesmo com todas as minhas reclamações por Clint me usar para realizar funções que fogem completamente de minhas especialidades, era realmente divertido participar de suas investigações. Eu sempre acabava descobrindo algo novo, afinal, apesar de toda a péssima personalidade, Clint Barton é brilhante. Talvez a mente mais brilhante que eu conheço.
— Semana que vem eu irei para Las Vegas. Você deveria vir comigo. – Revela meu melhor amigo, surpreendendo-me. Ele desliga o fogo dos ovos mexidos que fazia e me encara. – Um conhecido está com problemas financeiros e está vendendo o cassino dele. Estou pensando em comprar, já que cassino é uma das poucas coisas que eu nunca tive.
— Esnobe. – Resmungo e Clint ri, dando de ombros.
— De qualquer forma, antes de fechar o negócio, eu preciso conhecer o lugar e estudar as vantagens de comprar o Casino Bellagio. Eu ficarei apenas por três dias, mas deve ser o bastante para você se divertir. O que me diz? – Oferece Clint e eu o encaro com um sorriso irônico.
— Clint, eu por acaso pareço com alguém que frequenta cassinos? – Ironizo e o homem me encara com tédio. – Não. Obrigado.
— Você é sempre um estraga prazeres. Estou te oferecendo uma viagem de graça para um dos mais famosos cassinos de Las Vegas e você ainda tem a coragem de recusar? – Questiona Clint, voltando a preparar o café da manhã de minha mãe.
— Diferente de você, eu tenho emprego de verdade, sabia? Não sou dono do meu próprio negócio. Além disso, eu preciso focar na minha pesquisa. Eu sinto que estou a negligenciando demais desde o acidente. – Comento, levantando-me para pegar um pouco mais do café que eu havia preparado assim que cheguei do mercado.
— O que foi? Você não para de pensar em Hillary Leblanc? – Provoca meu melhor amigo e ele ri com o meu mau-humor.
— Não começa. – Resmungo, voltando a me sentar com a minha caneca cheia de café em mãos. Bebo um gole e suspiro, apreciando o sabor.
— O quê? Vai me dizer que não sente nada por ela. – Debocha Clint, colocando os pratos que preparou sobre a mesa.
— É claro que eu sinto. Gratidão por ela ter salvo a minha vida. – Respondo e o homem dá uma risada anasalada, como se não acreditasse em minhas palavras.
— É claro. – O sarcasmo presente em sua voz faz com que eu revire os olhos.
— Eu nem mesmo a conheço direito, Clint. Ela é apenas a melhor amiga da sua esposa. A única coisa que temos em comum é que sofremos por causa da sua excentricidade. Nada além disso. – Relembro Clint, mas ele continuava a esboçar aquela expressão irritante que dizia claramente que eu sou um idiota.
— Eu vi como você olhou para ela no hospital, Shawn. – Comenta Clint, dando um pequeno sorriso. – Você ficou mexido com a ação dela.
— Para de ficar colocando coisas nessa sua cabeça de fantasia. Eu já disse que tudo o que sinto por Hillary Leblanc é admiração e gratidão. Ela arriscou a vida e a carreira dela para me salvar. – Garanto, cansado de repetir essa mesma fala para o homem.
Desde o acidente, Clint não parava de pegar no meu pé por causa da suposta maneira que eu encarei Hillary no hospital. Eu não faço ideia do que ele acredita ter visto em meus olhos, mas aparentemente, eu me apaixonei sem meu conhecimento.
É verdade que eu tenho pensado muito em Hillary nos últimos dois meses – muito mais do que eu deveria pensar -, mas isso é só porque ela salvou a minha vida e porque as pessoas não paravam de perguntar sobre ela. Nada além disso. É natural que eu pense em minha heroína.
— Shawn, você sabe que não é porque a Carol pisou no seu coração e te fez de idiota que todas as outras mulheres farão o mesmo, certo? – Questiona Clint, encarando-me com intensidade.
— A Carol não tem nada a ver com isso, Clint. Ela ficou no passado, então pare de dizer bobagens. – Respondo, irritado por ter que lembrar da maldita da minha ex-namorada.
— Tudo bem. Eu não vou forçar e nem falar mais nada sobre isso. – Afirma o homem, parecendo entender que eu não queria falar sobreo o assunto “Carol”. – Mas você realmente deveria aceitar a minha oferta. É uma proposta irrecusável, Shawn. Nós estamos falando de Las Vegas. Tudo pode acontecer naquele lugar. Essa é a sua chance de descansar a cabeça e se inspirar para voltar a sua pesquisa. Serão apenas três dias. Eu tenho certeza de que Giuseppe o liberaria sem problemas.
— Eu vou pensar no assunto. – Respondo sem ter muita certeza se eu realmente faria isso.
Clint parece querer retrucar, mas no mesmo instante, o som da porta da frente da casa chama a nossa atenção. Pelo horário e o barulho das chaves, não tínhamos dúvidas de que minha mãe tinha chegado. Meu melhor amigo se afasta e vai pegar os presentes, enquanto eu vou para a sala recepcioná-la.
— Feliz aniversário, mãe! – Felicito a mulher, abrindo os braços enquanto vou em sua direção. Ela corresponde ao abraço com intensidade.
— Obrigada, meu menino. – Minha mãe agradece, apertando-me ainda mais contra ela. – Eu te amo.
— Eu também te amo. – Declaro, afastando-me dela para dar um beijo estralado em sua bochecha.
— Susan Kennedy. A segunda mulher mais bonita do universo. – Comenta Clint, aproximando-se com duas caixas em mãos. Minha mãe gargalha.
— E quem é a primeira? – Pergunta a mulher de características físicas tão semelhantes às minhas.
— Minha esposa, evidentemente. – Responde Clint, fazendo minha mãe rir ainda mais.
Eles se abraçam apertado e sorrio discreto ao ver o rosto de minha mãe. Assim que eles se afastam, Clint a conduz até a cozinha e logo iniciamos nosso café da manhã com tranquilidade, risadas e muitas histórias. Clint contava sobre a experiência que está tendo de ser pai mais uma vez, depois do assassinato dos filhos. Minha mãe falava sobre a minha infância, contando tudo o que eu costumava a fazer quando estava na adolescência.
Enquanto isso, eu me concentrava em comer. Eu tinha que dar o braço e dizer que a comida de Clint estava extremamente saborosa e ele realmente parecia estar se divertindo com minha mãe. Até que finalmente chega o momento de cantarmos parabéns para a mulher.
— Faça um pedido antes de apagar as velas, Susan. – Orienta Clint, assim que finalizando a canção de felicitações.
— Tudo bem. – Ela respira fundo e fecha os olhos. Assim que puxa o ar, ela assopra a vela com delicadeza até que ela se apagasse. – Pronto. Eu pedi para que Shawn se casasse e me desse netos.
— Ah, não, mãe! – Reclamo e ela dá de ombros.
— O aniversário e o pedido são meus, então fique calado. — A mulher me repreende com sua típica delicadeza. – Mas mãe...
— Nada de “mas mãe”, Shawn. Nós vimos nos últimos meses como a saúde humana é frágil. Eu não sei o dia de amanhã e eu quero ter netos, conhecer e cuidar deles. – Responde minha mãe com seriedade. – Você é bonito, inteligente, educado e gentil, filho. Está na hora de aprender que a vida é muito mais do que estudos e trabalho. Você ganhou uma segunda chance para viver. Não pode desperdiçá-la mais uma vez trancado no seu laboratório. Você precisa sair, conhecer pessoas e viver um grande amor. Não cometa os mesmos erros que eu cometi, Shawn. Hoje estou velha e arrependida de ter me privado tanto. Apenas ame, viva e aproveite como se todos os dias fossem os últimos de sua vida.
— Está bem, mãe. Eu farei o meu melhor. – Concordo, apenas porque sabia que eu se eu não fizesse isso, ela continuaria a falar sem parar.
— Não se preocupe, Susan. Semana que vem mesmo, Shawn viajará comigo para Las Vegas. – Avisa Clint, surpreendendo-me. Ele sorri e me encara como se
— É mesmo? Isso é ótimo, filho! – Comemora minha mãe, animada. Clint sorri como se me desafiasse a desmenti-lo. Suspiro e assinto concordando. Aparentemente, eu não tinha escolhas além de aceitar que eu realmente iria para Las Vegas.
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