Sem Tempo para o Amor
9 Loucuras e Bebidas
Notas iniciais

SEM TEMPO PARA O AMOR
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CAPÍTULO VIII – LOUCURAS E BEBIDAS
Durante os anos em que estudamos, nós nos deparamos com diversos grupos diferentes, que mesmo sem dizer nada, conseguimos identificar com facilidade apenas pela forma como eles se vestem, se comportam e com quem eles se relacionam.
Nós temos os atletas, que são aqueles que se destacam por sua desenvoltura nos esportes. As líderes de torcida também entram nesse grupo. Geralmente são o centro das atenções pela sua energia e barulho. Eles são os responsáveis por trazer reconhecimento e prestígio para a escola, por isso são bastante valorizados pelos diretores e coordenadores.
E então temos os artistas, que é comporto por cantores, dançarinos, atores, desenhistas e músicos. São aqueles alunos que mais competem com os atletas, já que nem sempre são áreas reconhecidas pela escola. Durante o intervalo, você sempre os verá demonstrando seus talentos de alguma forma. Seja brincando ou praticando suas habilidades, não demora muito para os reconhecer.
Nós temos também o grupinho dos palhaços. Pessoas engraçadas, escandalosas e que chamam a atenção por rirem e falarem alto. Eles estão sempre de alto astral e não perdem a oportunidade de fazer piada, ainda que o momento não seja apropriado. No geral são pessoas que ou você gosta ou você odeia. Dificilmente existe um meio termo para lidar com a personalidade elétrica deles.
Existe o grupo dos valentões, que utilizam de sua força bruta para intimidar os outros alunos e conseguir mordomias na escola. Não são tão inteligentes, mas são cruéis e detestáveis. Esse grupo é responsável por acabar com a saúde mental de mais da metade dos alunos fisicamente mais frágeis. Ainda assim, ninguém tem coragem de os desafiar, porque temem por suas severas retaliações.
Os rejeitados consistem em antissociais, introvertidos, estranhos e pessoas que não conseguem se encaixar em outros grupos ou se socializar. Em outras palavras, são aquelas pessoas que a maior parte dos alunos irão esquecer o nome, porque não se destacaram, não conseguiram ou não fizeram questão de se misturar. Eles são constantemente alvos das brincadeiras nada divertidas dos valentões.
Os nerds eram o grupo que eu fazia parte. Extremamente inteligentes, mas com pouco domínio social. Assim como rejeitados, também sofrem retaliações traumáticas dos valentões da escola e não são muito atléticos, o que os torna alvos também dos atletas da escola. Os nerds são o grupo mais complicado de lidar e espantam facilmente os outros grupos com seu senso crítico aguçado e a falta de sensibilidade para ler o ambiente. Nem mesmo os rejeitados costumam ser muito próximos dos nerds. Geralmente eles são procurados apenas para fazer trabalhos, pegar cola ou aprender matéria antes do horário da prova.
E por fim, temos os populares. Se colocarmos a escola em uma pirâmide social, eles definitivamente estariam no topo. Eles são bonitos e possuem carisma poderosa o bastante para que eles possam se misturar em qualquer grupo sem serem questionados. Os populares podem ser atletas, artistas ou nerds e jamais serão julgados. Isso acontece pelo fenômeno que eu chamo de gravidade social – teoria desenvolvida por mim.
Assim como as superestrelas que atrai outros corpos celestes ao seu redor, os populares possuem brilho e uma gravidade única que conquista todos a sua volta. Você pode resistir, mas em algum momento você acaba admirando as habilidades deles se adaptarem e conseguirem influenciar o clima ao seu redor. Uma palavra deles é o bastante para fazer uma população mudar completamente de ideia.
E era por isso que aos meus olhos, Hillary era como a estrela LBV 1806-20, a estrela mais luminosa e de maior massa identificada no universo até o momento. Ela é entre cinco milhões a quarenta milhões de vezes mais luminosa do que o Sol. Descrita como uma variável azul luminosa – um tipo de estrela relativamente raro, caracterizada por ser uma estrela muito quente e luminosa -, a LBV 1806-20 é linda, misteriosa e inalcançável.
Comparado a Hillary, eu sou apenas uma poeira estelar que desaparece facilmente em meio à multidão. Com um QI acima da média, eu fui para a faculdade quando os garotos da minha idade estavam se preparando para ir para o ensino médio. O que foi excelente academicamente falando, mas prejudicou ainda mais a minha competência social.
Por ser extremamente tímido, desinteressante demais para conversar com outros alunos e novo demais para participar das confraternizações universitárias, meu grupo de socialização se resumia a mestres e doutores velhos com muito conhecimento científico e poucas habilidades sociais.
Mas Hillary é exuberante. Ela possui um brilho que não se pode ignorar. Sentado ao seu lado, enquanto escuto suas histórias divertidas de quando estava embriagada, eu só conseguia reparar em sua beleza única e em como é inevitável não se sentir atraído por sua aparência e sua personalidade altruísta.
— Você ainda não respondeu a minha pergunta, dr. Shawn. O que está fazendo em Las Vegas? Não me leve a mal, mas você não parece muito o tipo de pessoa que escolheria uma cidade tão pecaminosa como essa para passar as férias. – Comenta Hillary, rindo. Ela faz sinal para que o barman trouxesse mais de sua bebida e eu já podia ver que ela estava começando a perder a razão.
— Clint Barton. – Respondo, dando de ombros. Bebo um pouco mais de meu whisky e encaro a garota que estava linda com o vestido curto vermelho que usava, os saltos altos pretos e os longos cabelos negros caindo em cascatas pelas suas costas.
— Isso explica tudo. – Afirma a garota com humor. Ela pega o copo de bebida que o barman coloca a sua frente e bebe um gole. – Deixa eu adivinhar. Clint contratou brutamontes para te arrastar até o aeroporto ainda que você tenha recusado o convite?
É inevitável não ri com a suposição da garota, que descrevia como havia sido o nosso primeiro encontro. Era o aniversário de Clint e como sempre, ele decidiu fazer uma festa gigantesca. E assim como sempre acontecia, eu me recusei a ir. Interações sociais para mim era quase como ser colocado em uma câmara de tortura.
Mas não existe a palavra ‘não’ no vocabulário de meu melhor amigo. Então, indo contra minha vontade, Clint mandou dois homens enormes até o meu laboratório para me arrastar até a sua festa de aniversário. Indignado com a forma como fui obrigado a comparecer ao evento e com o humor alterado por estar várias noites sem dormir, enquanto eu esbravejava com Clint, acabo esbarrando em Hillary e derrubo a taça de vinho que ela tinha em mãos em seu belíssimo vestido branco.
Eu tenho certeza de que a primeira impressão que Hillary teve de mim não poderia ter sido pior. A partir daquele momento, foi difícil interagir com a modelo sem me sentir culpado por ter sido um babaca com ela.
— Quase isso. – Respondo a garota, encarando-a com divertimento. Hillary ri e apoia o cotovelo no balcão e se aproxima mais de mim, demonstrando o interesse em saber como Clint havia me convencido a vir para Las Vegas. – Ele disse a minha mãe que eu o acompanharia nessa viagem.
Hillary me encara confusa por alguns instantes e não demora muito para que ela começasse a gargalhar, batendo palmas. Definitivamente ela já estava bastante alterada. Ainda assim, é impossível não me contagiar com a sua risada.
— Quão persuasiva sua mãe pode ser para convencer você a vir para Las Vegas contra a sua vontade? – Questiona Hillary aos risos.
— Minha mãe é adorável como um filhote de panda e feroz como um guepardo. – Comento, nostálgico. Hillary ri ainda mais. – Mas a verdade é que eu já estava tentado a sair um pouco da rotina. Obviamente, Las Vegas estava longe de ser a minha primeira opção turística, mas Clint está pagando a viagem. Como ele mesmo diz, eu preciso aproveitar o fato de meu melhor amigo ser bilionário.
— E onde ele está agora? – Pergunta a garota, olhando bruscamente ao seu redor, antes de voltar sua atenção para mim.
— Explorando o possível próximo investimento dele. Aparentemente, o dono desse cassino está querendo vender esse lugar para Clint. Acho que ele está correndo o risco de ir à falência. Então, antes de fechar o negócio, Clint disse que iria investigar o lugar e ver se o lugar valia a pena todo o dinheiro que ele terá que desembolsar para ter a posse.
Respondo, bebendo mais um pouco de minha bebida. Seria a minha última dose. Sendo responsável por Hillary, eu preferia não correr o risco de perder a consciência, ainda que eu fosse muito mais forte para bebida que a garota que ria ao meu lado.
— Como era de se esperar de um dos homens mais ricos do mundo. – Comenta Hillary, voltando a encarar sua bebida. – Mas ele é uma pessoa incrível. Em todos os sentidos.
— Sim. Ele é. – Concordo, terminando de beber meu whisky. – Ele é um idiota e me tira do sério várias vezes no dia, mas é a pessoa mais confiável e leal que eu conheço.
— Como vocês se conheceram? – Indaga a morena, virando-se para mim.
— Na faculdade...
— Vocês estudaram juntos? – Hillary me interrompe, arfando surpresa. Solto uma risada discreta e nego, vendo-a beber seu drink como se fosse água.
— Não. Quando eu tinha catorze anos eu entrei na Universidade de Pesquisas Cientificas e Tecnológicas Avançadas de Hawkins. Como você já deve saber, o diretor da universidade é amigo de infância de Clint. – Começo e ela assente, concordando. – Durante o intervalo das aulas, enquanto eles visitavam o campus, Giuseppe e Clint me viram lanchando sozinho no meio de inúmeros alunos com seus grupinhos.
“Clint se aproximou de mim e se sentou na mesa em que eu estava e começou a falar sobre o espaço. Aquela era a primeira vez que eu conversava com alguém tão jovem que parecia saber tanto sobre o universo. E quando eu menos percebi, todos os dias eu estava almoçando com Clint e descobrindo mais da mente brilhante dele. De repente, já não era mais solitário ir para a faculdade. Ele era divertido e eu sempre aprendia algo de novo durante as nossas conversas.
Eu me apeguei a Clint como se ele fosse o meu irmão mais velho. Logo ele conheceu minha mãe e passou a ajudar com as despesas de casa. Ele conseguiu um emprego melhor para minha mãe e a ajudou a comprar uma casa. Clint me orientou e me guiou até que eu fosse capaz de arcar com meus próprios estudos para não sobrecarregar a renda da minha mãe.
Apesar de vivermos como cães e gatos, eu realmente respeito e sou muito grato a Clint. Ele foi capaz de estender sua mão quando todos viravam as costas para nós. Clint ajudou minha família de inúmeras formas e ainda me ensinou a sair da minha zona de conforto para me comunicar com as pessoas, mesmo que até hoje eu tenha muita dificuldade para isso. Perco as contas de quantas vezes ao dia ele me tira do sério, mas não tem ninguém no mundo que eu admire mais do que Clint.” – Respondo com sinceridade e vejo o rosto de Hillary molhado. Arfo, surpreso. – Hillary, você está chorando?
— É que... – Ela funga e chora com ainda mais intensidade. – A amizade de vocês é tão bonita.
— Certo. Mas não precisa chorar por isso. – Comento rindo, enquanto passo meu polegar em suas bochechas, limpando as lágrimas que manchavam seu bonito rosto. Ela me encara surpresa e felizmente para de chorar.
Seus olhos então se fixam nos meus. E eu me sinto completamente hipnotizado pela intensidade deles. Eles pareciam carregar uma galáxia neles. De repente, eu já não tenha mais tanta certeza da minha sobriedade. Eu nunca me senti tão atraído e fascinado por alguém como me sentia naquele momento por Hillary.
Cada detalhe seu era encantador. Os olhos negros eram brilhantes, doces e misteriosos. Eu não fazia ideia do que se passava em sua mente, mas eles transmitiam uma paz que eu não sentia há muito tempo. A pinta em cima dos lábios era incrivelmente charmosa. A boca carnuda pintada pelo batom vermelho intenso eram atrativos e me faziam querer saber como é a sensação de experimentá-los.
É claro que eu sabia que Hillary era atraente. Ela não é uma das modelos mais famosa do mundo só pela influência da CIA. Mas ela não era a primeira mulher bonita com quem tive contato na vida. Ainda assim, nenhuma delas foi capaz de fazer eu me sentir tão desconcertado e atordoado como ela estava me fazendo ficar.
Talvez fosse o efeito do álcool agindo no meu corpo. Talvez eu não seja mais tão resistente a bebidas como antigamente. Essa é a única explicação plausível para justificar a minha mente gritando incessantemente para que eu a beijasse, que provasse mais de Hillary Leblanc.
— Shawn! – Ela grita de repente, pegando-me de surpresa.
— O quê? – Questiono e ela pega minhas duas mãos.
— Você é tão bonito. – Afirma a garota, aproximando-se de mim o bastante para que eu sentisse sua respiração se chocar contra a minha. Ela acaricia meu rosto e me encara com tanta intensidade que acabo prendendo a respiração. – Você é realmente muito bonito, Shawn. E sexy. Definitivamente você é sexy.
— Obrigado. – Agradeço, envergonhado. Afasto Hillary com delicadeza e a faço se sentar mais uma vez. Aquele excesso de aproximação acabaria me levando a fazer alguma loucura. Eu havia prometido cuidar dela, enquanto ela estivesse alterada pela bebida, e é isso que eu vou fazer. – Parece que alguém já passou da sua cota de álcool por hoje.
— Eu não estou bêbada. – Responde Hillary, bebendo mais de seu drink.
— Ainda assim, é melhor você...
— Eu quero dançar. – Hillary me interrompe mais uma vez, levantando-se da cadeira em que estava sentada.
— O quê? Mas não tem como você dançar aqui, Hillary. – Argumento e recebo um olhar furioso da garota. – Vem se sentar.
— Não! Nós vamos dançar, Shawn. Eu quero dançar. – Insiste Hillary e eu suspiro sem saber o que fazer.
— Hillary, não tem como você dançar aqui. Olha o tanto de gente que tem aqui. E nem mesmo dá para ouvir a música que está passando em meio aos gritos e conversas das pessoas.
— Mas eu quero dançar! – Hillary parecia irredutível. Olho em volta, mas não consigo pensar em nenhuma solução para essa ideia maluca da garota.
— Tem uma pista de dança no andar superior. – Informa o barman, parecendo entender o meu dilema.
— Vamos dançar, Shawn! – Grita Hillary e eu acabo tendo que me dar por vencido. Ela então começa a se afastar do balcão como se nada tivesse acontecido. Seguro o braço dela com cuidado e a puxo de volta para onde nós estávamos.
— Obrigado. – Agradeço ao barman, suspirando. Ele sorri e balança a cabeça, negando qualquer agradecimento. – Poderia colocar as bebidas dela e as minhas na conta do quarto trezes mil e doze?
— Como desejar, senhor. – Responde o rapaz de cabelos escarlates.
— Vamos, Shawn! – Grita Hillary, grudando seu braço no meu, enquanto me puxa mais uma vez pelo salão do bar, sem nem mesmo saber para onde estávamos indo.
Depois de esbarrarmos em várias pessoas e sermos reconhecidos por pelo menos uma dezena delas, nós finalmente chegamos a um dos elevadores do cassino que dava acesso ao hotel. Assim que entramos, aperto o botão para o segundo andar.
— Nós vamos dançar, Shawn! – Comemora Hillary, apoiando sua cabeça em meu ombro.
— Você vai dançar, Hillary. – Respondo e o elevador abre suas portas. – Eu não danço.
— Mas você te que dançar comigo. – Choraminga a garota, pegando em minha mão, assim que deixamos o elevador.
Para a minha surpresa, o andar inteiro era dedicado para a espécie de balada que havia no lugar. O ambiente escuro era iluminado apenas pelos jogos de luzes coloridas. A música alta e a fumaça liberada pelo DJ dava um ar ainda mais caótico ao local.
Hillary abre um grande sorriso e me puxa pelo salão, dançando no ritmo da música eletrônica que tocava. Eu me sentia completamente deslocado. Todos dançavam e pulavam animados, enquanto eu permanecia petrificado, observando Hillary com preocupação.
Ela sorria animada e se movia ao meu redor, mexendo em meus braços para que eu dançasse junto. Era impressionante que mesmo sob o efeito de álcool, ela se movia com uma sensualidade indescritível. Comparado aos outros que dançavam, Hillary era como um anjo. Ela parecia flutuar na pista de dança e eu não conseguia nem mesmo me mexer sem tropeçar no meu próprio pé.
— Vamos, Shawn! Você tem que dançar comigo! – Grita Hillary próxima do meu ouvido, puxando-me pelas mãos em uma tentativa de me fazer dançar. A música estava tão alta que era até mesmo difícil entender o que ela falava mesmo com a nossa proximidade.
— Eu não sei dançar, Hillary. – Respondo próximo a ela e logo me arrependo por ter me aproximado tanto. Seu perfume me embriaga e preciso de alguns instantes para recuperar a razão, enquanto ela me encarava com um sorriso divertido nos lábios.
— Eu te ensino! – Grita a garota, fazendo com que eu a rodasse.
— Hillary... – Gemo com sofrimento. Eu realmente não sirvo para dançar. Nasci com dois pés esquerdos e não tenho nenhuma coordenação motora. Ao contrário de Hillary que parecia ter nascido para dançar, eu era um completo desastre artístico. Sem talento para música, dança, desenho ou qualquer trabalho delicado.
— Se solta, Shawn. Você está muito tenso. – Recomenda Hillary, cutucando minha cintura. Encolho-me e tento fazer algum tipo de dança, mas a minha falta de jeito faz com que Hillary gargalhasse. – Assim não! Assim, olha...
Ela começa a dançar na minha frente e eu acho que nunca vi alguém brilhar tanto como ela. Seus movimentos são simples, mas hipnotizantes. Hillary desce sensualmente, sempre mantendo os olhos presos em mim e algo dentro de mim se revira. De repente, o local está quente demais. Ela sorri e se aproxima de mim, apoiando seu corpo contra meu peito.
— Entendeu? – Sussurra contra meu ouvido mais uma vez e sinto todos os pelos de minha nuca se arrepiarem. Estremeço e enrijeço meu corpo e prendo minha respiração, tentando ignorar a presença intensa da linda mulher. No entanto, como se não bastasse toda a proximidade, Hillary aproxima seu nariz de meu pescoço e aspira. – Você cheira tão bem...
Engulo em seco, sentindo meu coração descompassar. Minhas mãos tremiam e respirar estava sendo algo complicado. E então as mãos de Hillary passam a deslizar pelo meu peito até minha nuca. Um arrepio percorre minha espinha. Cometo o erro de encará-la, pois seus olhos estavam novamente fixos no meu.
— Hillary... – Sussurro com a voz fraca. – É melhor você se afastar.
— Por quê? – Questiona Hillary, alternando seu olhar entre meus olhos e minha boca. Sinto suas unhas arranharem minha nuca até se prenderem em meus cabelos. – Do que você está com medo, Shawn?
Eu me sentia em uma encruzilhada. Uma parte de mim, a racional e consciente, dizia que eu precisava me afastar e levar Hillary de volta para seu quarto, já que ela estava começando a perder o controle de suas próprias ações. No entanto, outra parte minha, a emocional e alterada pelo álcool, estava completamente hipnotizado pela beleza e sensualidade de Hillary. E infelizmente essa parte era a que estava falando mais alto.
Então, ignorando os avisos de alerta em minha mente, coloco minhas mãos na cintura fina de Hillary. Uma batalha interna me faz ponderar se o que eu estava prestes a fazer era uma boa ideia. A modelo está bêbada e apaixonada por outro homem. Eu deveria me afastar e impedir que essa loucura prosseguisse. Mas então ela sorri. Daquela forma sedutora e determinada. Como se estivesse ciente e satisfeita com o que iria acontecer.
Hillary não me dar oportunidade de recuar. Usando todo o seu domínio, ela me avança em minha direção. Nossos lábios se chocam. Intensos e tempestuosos. Aperto sua cintura e levo minha mão até sua nuca. Ansiando por experimentar mais daquela insanidade, puxo seu cabelo e ouço um suspiro abandonar os lábios de Hillary.
Aprofundo ainda mais o beijo, apreciando a gama de sensações que ela me fazia sentir. Hillary é intensa e parece estar tão faminta quanto eu. Era tudo tão alucinante e surreal. Eu já não conseguia mais dizer se tudo não passava de uma loucura criada por minha mente embriagada ou se eu realmente estava beijando Hillary Leblanc.
Não sei quanto tempos passamos perdidos em nosso próprio mundo, mas quando nos separamos, Hillary sorri e lambe os lábios com malícia. Engulo em seco, tentando manter o controle. Ela está bêbada. Provavelmente ela nem mesmo vai se lembrar do que aconteceu e se lembrar, eu tenho certeza de que vai acabar se arrependendo de ter me beijado.
— Você tem um gosto bom, Shawn. – Comenta Hillary, fazendo círculos em meu peito. Estremeço mais uma vez diante de seu toque. – Eu quero mais.
— Não, Hillary. Vamos parar. – Peço, afastando-a delicadamente. Eu tinha que ser racional. Estava na hora de voltar a dar voz a minha razão. – Você está bêbada e provavelmente vai se arrepender disso amanhã. Eu prometi que iria cuidar de você e é isso que eu vou fazer.
— Eu não vou me arrepender. – Afirma a garota com determinação. Ela se aproxima de novo e me rouba mais um beijo, mas dessa vez muito mais calmo e suave. Seus olhos brilham com tanta intensidade que fazem meu coração errar algumas batidas. – Pare de pensar, Shawn. Vamos apenas nos divertir essa noite.
Suspiro e levo as mãos ao rosto. Hillary estava mexendo com a minha mente de uma forma perigosa. Isso não era bom. Deveria ser eu a manter o controle da situação enquanto ela está alterada e não o contrário. Eu prometi que a impediria de cometer loucuras ou fazer qualquer coisa que ela pudesse se arrepender depois. Mas por que era tão difícil dizer “não” a ela? Como ela consegue ter esse domínio sobre mim? Nós nem nos conhecemos direito. Não faz sentido.
— Shawn... – Sussurra Hillary com os lábios a centímetros dos meus. Sua respiração se chocava contra a minha, fazendo meu corpo inteiro se arrepiar. Ela sabia que possuía algum poder sobre mim e parecia adorar. – Vamos, Shawn. Eu sei que você também quer...
Maldita tentação!
Respiro fundo e tento olhar para qualquer lugar que não fosse os olhos de galáxia de Hillary ou seu sorriso malicioso que me causava reações nada inocentes em meu corpo. Suas mãos não me ajudavam em nada ao traçarem um caminho perigoso pelo meu tórax e nuca.
— Vamos embora, Hillary. – Peço, suspirando. – Você sabe em qual quarto você está hospedada?
— O que você está planejando, Shawn? Não pensei que você fosse ser tão rápido assim. – Provoca Hillary, mordendo minha orelha em seguida.
Afasto-me, procurando alguma distância segura para a minha sanidade. Eu não estava mais reconhecendo Hillary. A Hillary que eu conheço é uma mulher contida, extrovertida, mas que se envergonha facilmente. A que estava diante de mim era uma versão ousada, maliciosa e provocante, que estava me fazendo experimentar o céu e o inferno ao mesmo tempo.
Não que essa versão fosse ruim. Na verdade, ela era ainda mais marcante. O grande problema é que essa versão estava destruindo por completo qualquer resquício de sanidade e autocontrole que eu tenho. Como resistir a uma mulher como Hillary? Deus é testemunha de que estou me esforçando, mas é quase impossível não cair em tentação.
Suspiro e esfrego meu rosto, procurando me acalmar. Assim que me sinto mais estável emocionalmente, viro-me na direção em que Hillary deveria estar para tentar convencê-la a irmos embora. Mas como era de se esperar dessa noite nada convencional e de fortes emoções, Hillary simplesmente havia desaparecido em meio à multidão de corpos que pulava e dançava diante da música animada que passava.
Desesperado e temendo que Hillary fizesse mais uma loucura, corro e empurro as pessoas em busca da modelo. A falta de iluminação e a quantidade exacerbada de pessoas no local não facilitava em nada a minha tarefa. As lembranças de seus feitos nas últimas vezes que bebeu demais voltam a minha mente. Eu jamais me perdoaria se ela acabasse cometendo mais uma loucura, quando resolveu confiar em mim para cuidar dela.
Mas para a minha sorte, quando eu estava cogitando a ideia de subir no palco e obrigar o DJ a procurar pela garota, eu a encontro no bar da balada em uma espécie de competição para ver quem bebia mais doses de tequila com um desconhecido.
— Hillary! – Grito, chamando a atenção de todos que incentivavam a competição com gritos e palmas.
— Shawn! – Ela ri e tropeça nos próprios pés. Corro para segurá-la antes que ela fosse ao chão. – Opa!
— Vamos embora. – Peço, frustrado ao ver o estado da mulher.
— Mas já? Eu comecei a jogar agora com o... – Ela se vira para o rapaz com quem competia. – Qual seu nome mesmo?
— Troy, mas você pode me chamar de amor da sua vida. – Responde o homem musculoso e de sorriso que me causava uma fúria inexplicável. Hillary ri e se apoia em mim.
— Nós estamos brincando de... de alguma coisa com shot. – A fala de Hillary sai embolada e eu quase não consigo entender o que ela diz.
— Certo. Mas já está na hora de ir. Você bebeu demais. – Respondo, começando a puxá-la para irmos embora. Ela estava tão bêbada que não tinha controle de suas pernas, o que me levava a fazer todo o trabalho.
— Ei, cara. Onde você pensa que está indo com ela? A gente só começou. – O tal Troy puxa meu braço e me encara em desafio, enquanto estufa o peito em uma ingênua tentativa de me fazer ficar intimidado. Encaro sua mão e então lanço o meu pior olhar para que ele me soltasse.
— O jogo acabou por aqui. – Respondo, voltando a arrastar Hillary para longe daquele babaca que claramente estava apenas esperando a oportunidade perfeita para levá-la para cama.
— Ei! Deixe a garota... – O maldito me puxa novamente, mas dessa vez, empurro-o para que me soltasse. Eu estava começando a perder a minha paciência com ele. – Qual é a sua cara? Não está vendo que nós estamos em um lance...
— Se manda! – Exijo, entredentes. Mais um pouco e eu definitivamente quebraria os dentes do babaca.
Por alguns instantes, ele parece se intimidar com a minha expressão assassina, mas logo volta a me incomodar, colocando-se de frente para mim. Suspiro e encaro Hillary, que já estava começando a dormir em pé.
— Quem você pensa que é para levar embora a minha presa da noite? – Indaga Troy, sorrindo de maneira perigosa. – Está muito enganado se pensa que eu vou te deixar ir embora com ela antes que eu saboreei esses peitos incríveis dessa puta...
Sentindo meu sangue ferver, solto Hillary e uso toda a minha força para acertar o maxilar do babaca, que cai inconsciente no chão. Quem estava a nossa volta arfa assustado e em choque. Pego Hillary no colo e saio do lugar sem olhar para trás e sem me importar com os olhares que eu recebia. Eu estava tão cego de raiva que nem mesmo percebo quando chego ao elevador.
Sem saber o andar em que Hillary estava hospedada, decido levá-la para o meu quarto. Minha cabeça pesava e eu nunca havia sentido tanta raiva como naquele momento. Meu coração batia tão intenso que parecia que sairia do meu peito a qualquer momento.
— Shawn... – Sussurra Hillary, acomodando-se em meu peito.
Ela ressonava e dormia sem nem mesmo imaginar o furacão de sentimentos que me corroía. Respiro fundo e a observo por alguns instantes. Hillary possuía uma expressão angelical e serena em seu rosto, que me fazia esquecer momentaneamente o meu desejo de esquartejar o babaca da balada.
As portas do elevador se abrem, despertando-me da hipnose em que me encontrava. Desvio o olhar de Hillary e passo a andar com ela em direção ao meu quarto. Com certa dificuldade por estar segurando-a em meu colo, consigo pegar o cartão de acesso do quarto e abrir a porta.
Com cuidado, coloco Hillary na cama e fecho a porta do quarto. Suspiro cansado e a encaro por alguns instantes. Pelo que Hillary havia me contado, ela estava em Las Vegas com as sobrinhas de Clint. As garotas com certeza deveriam estar preocupadas com o sumiço da modelo. Eu precisava avisá-las, mas não tinha o número de nenhuma delas.
— Acho melhor ligar para Clint e pedir para ele avisá-las que você está bem. – Falo, encarando Hillary.
Ela resmunga algo incompreensível e se mexe na cama. Suspiro mais uma vez e resolvo primeiro tirar seus sapatos de salto alto que pareciam estar incomodando. Ajeito Hillary na cama para que ela não sentisse dores quando acordasse e a cubro.
— Pronto. Agora deixa eu ligar para Clint. – Digo para mim mesmo, vendo que a modelo dormia mais à vontade. Pego meu celular no bolso de minha calça e disco o número que eu sabia de cor.
— Por que você está ligando para mim quando deveria estar aos beijos com Hillary Leblanc? – Indaga Clint, atendendo a ligação.
— Como...? – Balbucio, surpreso.
— Como eu sei que você e Hillary estavam se beijando? Você não sabia que eu leio mentes? – Ironiza Clint e eu bufo, impaciente. O homem ri, divertindo-se ao ver que já havia me tirado do sério. – Eu vi vocês se beijando quando fui conferir o salão de baile do hotel. Alias, que beijo, hein? Parecia que vocês iam se engolir.
— Cala a boca. – Resmungo, sentindo meu rosto esquentar de vergonha. Clint gargalha ainda mais. Ele me conhecia bem o bastante para provavelmente estar imaginando o meu estado. – Eu preciso de um favor.
— No que posso ser útil? – Questiona com curiosidade.
— Poderia avisar a suas sobrinhas que Hillary vai dormir no meu quarto e que está bem? Ela bebeu demais e agora está dormindo. Eu vou deixá-la descansar aqui essa noite e vou dormir em seu quarto. – Peço, observando Hillary dormir.
— Claro. Precisa de ajuda com ela? – Indaga o homem com preocupação. Apesar de ser um idiota na maior parte do tempo, Clint sempre foi bastante responsável com a saúde e bem-estar das pessoas com quem ele se importa. – Eu sei bem como ela pode ser complicada quando está bêbada.
— Não precisa. Ela já está deitada em minha cama, dormindo serenamente. Eu vou apenas deixar um recado para ela e aspirina para ela tomar pela manhã e vou para o seu quarto. – Respondo e ele suspira.
— Tudo bem. Eu não vou demorar a voltar para o quarto, mas caso eu acabe me enrolando por aqui, a senha do meu quarto é zero, cinco, três, nove, quatro e sete. – Informa Clint.
— Zero, cinco, três, nove, quatro e sete. – Repito, decorando a sequência. – Certo, Clint. Obrigado. – Agradeço e sinto o cansaço tomar conta do meu corpo. – Vou desligar agora. Nós nos falamos depois.
— Até mais.
Despeço-me de meu melhor amigo e encerro a ligação. Assim como eu havia dito a ele, escrevo um bilhete breve para Hillary, informando que ela estava em meu quarto e que não precisava se preocupar, que não havia feito nada que colocasse sua reputação em risco e deixo meu número para que ela entrasse em contato comigo, caso precisasse de alguma coisa.
Procuro por alguma aspirina e deixo a jarra de água com o copo sobre o rack ao lado da cama junto com o bilhete. Confirmo mais uma vez que Hillary está confortável e regulo a temperatura do quarto para que ela não sentisse frio durante a noite.
Com tudo pronto, pego a mochila que trouxe para passar os três dias em Las Vegas e vou para o quarto de Clint. Eu tinha muito o que pensar e esperava que o demorado banho que eu tomaria pudesse responder a todas as perguntas que rondavam a minha mente naquele momento.
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