Sem Tempo para o Amor
4 Arriscando a Identidade
Notas iniciais
SEM TEMPO PARA O AMOR
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CAPÍTULO III - ARRISCANDO A IDENTIDADE
Desde que eu era criança, eu me lembro de brincar de ser uma grande heroína assim como a Mulher Maravilha, que salvava as pessoas com um bonito sorriso no rosto. Eu queria ter a agilidade, inteligência e toda a elegância de uma das maiores heroínas do mundo dos quadrinhos. E conforme eu crescia, mais o desejo de me tornar alguém que poderia ajudar as pessoas se intensificou, ao ponto de me levar a entrar para a CIA.
No entanto, assim que o sonho de infância se tornou realidade, eu entendi o motivo de precisar preservar tanto a minha identidade. Muito além da minha proteção, da minha família e meus amigos, a partir do momento em que se torna pública a identidade de um espião, as chances de sofrer um ataque onde pessoas inocentes possam se machucar são enormes.
É por isso que sempre tive muito cuidado. Estipulei regras a mim mesma sobre como deveria me portar em determinadas situações e como me manter distante das câmeras quando estivesse em ação. A primeira regra era nunca expor o meu segredo para pessoas que não sejam de confiança. Amigos e familiares jamais poderiam saber que eu trabalho na CIA, tampouco meus fãs e a mídia.
A segunda regra era nunca, em hipótese alguma, me envolver em escândalos ou outras atividades que pudessem me deixar em evidência demais. Eu preciso de fama somente para ser convidada para as festas onde eu possa conseguir informações importantes para a CIA. Nada de heroísmo ou demonstrações das habilidades que adquiri treinando com Natasha enquanto estivesse em público.
Durante os últimos dez anos, não tive problemas em manter minha identidade em segredo. Sendo uma das poucas exceções da unidade de comando especial da CIA, que possuía família e ainda existia na sociedade, eu recebi a ajuda da S.H.I.E.D em todas as poucas vezes em que suspeitaram de mim.
Com a idade e a maturidade, viver uma vida dupla se tornou muito mais natural e fácil de lidar. O fato de ser apenas um banco de dados e um contato da CIA também contribuía para que eu não tivesse muitas preocupações. Tudo o que eu precisava fazer era comparecer a eventos, fazer as perguntas certas às pessoas certas e pronto. O restante ficava por conta dos outros agentes da S.H.I.E.D. descobrirem. Em alguns casos, contava com a ajuda de meu parceiro, Steve Rogers, ou com Dakota para obter informações mais complicadas.
Mas tudo mudou há um pouco mais de um ano, quando eu fui obrigada a atuar em operações especiais por causa das ações intensas da HYDRA. Cada vez me expus mais. Tive que revelar a minha identidade a amigos e desconhecidos, me coloquei na linha de frente e matei pessoas, algo que até então nunca tinha feito, ainda que eu tivesse sido treinada para isso e soubesse que em algum momento, algo assim aconteceria.
Com a maior organização criminosa do mundo se tornando cada vez mais ousada, todos os agentes da CIA foram forçados a trabalhar em campo. A situação se complicou ainda mais com o interesse inexplicável da HYDRA na família de Clint e Natasha. Mesmo agora, com a morte de seu líder, a HYDRA continua a atuar e a causar o caos no mundo. O que me obrigava a trabalhar cada vez mais e a me preocupar constante com a segurança da minha identidade e da minha família.
E era por isso que eu estava determinada a não me expor mais. Desde a missão em Paris no ano passado, onde fui obrigada a matar uma pessoa e ainda levei um tiro pela primeira vez, eu decidi que faria o possível e o impossível para que as pessoas jamais desconfiassem do meu envolvimento com a CIA.
Mas é claro que o universo continuava a me testar a provar que eu jamais teria o controle sobre a minha vida. Se eu achava que estava sendo difícil eu me manter discreta diante do público, é porque eu não imaginava a loucura que eu faria diante da mais agitada avenida de Hawkins, durante o horário do almoço, que devo destacar que é o horário onde mais se tem pedestres andando pelas lindas ruas da cidade.
Assim, enquanto eu conversava com Freddie, informando que eu estava em frente ao Sense's, conforme havíamos combinado, reconheço Shawn Kennedy atravessando a avenida em direção ao restaurante de seu melhor amigo. Ainda que não fôssemos próximos e a última vez que eu tinha o visto tinha sido na festa de Ano Novo na casa de Clint, aceno em cumprimento ao notar o seu olhar sobre mim.
Nesse mesmo instante, o som de buzinas chama a minha atenção. Na mesma avenida que Shawn atravessava, um caminhão desgovernado avançava em alta velocidade na direção do cientista. Ao notar o que acontecia, o melhor amigo de Clint parece entrar em estado de choque, pois tudo o que faz é encarar o caminhão.
Então, utilizando o raciocínio rápido para situações de crise que desenvolvi com bastante treinamento da CIA, corro até o policial que estava próximo de mim, deixando meu celular ir ao chão. Com destreza, retiro a arma do coldre preso em sua coxa e engatilho a arma.
Corro na direção de Shawn e atiro nas duas rodas do caminhão, que roda na pista. Aumento a minha velocidade e me jogo sobre Shawn, empurrando-o para que não fosse atingido pelo veículo que continuava a vir em sua direção rodando em alta velocidade. Infelizmente, apesar de ter contribuído consideravelmente para que o impacto fosse menor, Shawn e eu ainda somos atingidos pelo caminhão e jogados à uns cinco metros de distância do local do acidente.
Tudo aconteceu rápido demais para que eu fosse capaz de assimilar. Caímos de maneira desengonçada e bastante dolorosa no asfalta e ainda rodamos algumas vezes até parar. Ouço os gritos e o som do freio do caminhão por alguns instantes, até que tudo se torna silencioso. Assim que abro os olhos, noto que continuava abraçada a Shawn, que estava encolhido e tremia intensamente em meus braços. Suspiro aliviada por ver que ele continuava vivo.
— Shawn? – Chamo delicadamente. – Você está bem?
Não tenho respostas. Meu corpo doía e eu tinha certeza de que se não fosse pelo treinamento que recebi da CIA sobre como cair, eu estaria com pelo menos seis ossos quebrados. Levanto-me um pouco para dar espaço a Shawn, mas preciso morder meus lábios para não gritar de dor. Respiro fundo e noto que havia me ralado bastante nos braços e nas pernas.
Rodo para sair de cima de Shawn e encaro o céu azul típico de um dia de verão em Hawkins. Ouço mais gritos e várias pessoas falando ao mesmo tempo, mas não consigo entender nada. Respiro fundo e me sento no chão. Observo o rapaz em estado de choque ao meu lado.
— Shawn.
Arrisco mais uma vez com a voz um pouco mais firme e com o tom mais alto. O cientista finalmente me encara. Ele estava pálido. A boca tremia intensamente, enquanto os olhos piscavam sem controle, como se ele estivesse fora de órbita. Eu não o culpava. A experiência havia sido assustadora.
— Hillary... – Ele sussurra com a voz rouca. – Eu... eu estou... vivo?
— Sim. Você está. – Garanto, finalmente criando coragem para me levantar. Travo os dentes ao sentir as costelas reclamarem de dor. Eu definitivamente ficaria com um grande hematoma no local. Os ferimentos nos cotovelos, joelhos e rosto também seriam um grande problema. – Permaneça deitado. Eu vou chamar reforços para confirmar se você quebrou algum osso ou tem alguma fratura que o coloque em risco.
— Eu estou... vivo. – Shawn balbucia mais uma vez, encarando as próprias mãos. Ignorando as minhas recomendações, ele se levanta e encara o corpo com atenção, apalpando cada parte dele como se quisesse confirmar as minhas palavras. Seria cômico se não fosse uma situação tão alarmante.
— Shawn, fica quieto! – Repreendo o rapaz, alarmada com a agitação dele.
— Eu estou vivo, Hillary! – Comemora o outro, abrindo um largo sorriso, o que o deixa um pouco macabro por causa do sangue que escorria pela sua testa. – Eu não morri!
— É. Eu sei. Fui eu quem te salvo. E é por isso que você deve se deitar e esperar a equipe de resgate. Você acabou de ser atropelado e eu espero de verdade que o fato de me jogar de frente a um caminhão para te proteger não tenha sido em vão. – Resmungo, empurrando o rapaz para que ele se deitasse ou pelo menos se sentasse.
Pela minha experiência, pessoas que acabaram de passar por uma situação de vida ou morte tem tendência a não sentir as dores da colisão no momento em que ela ocorre. As consequências aparecem apenas quando o sangue esfria e eles têm oportunidade de verificar seus estados físicos.
— Você também foi atropelada. – Retruca Shawn, finalmente atendendo ao meu pedido.
Antes que eu o respondesse, noto que não estamos sozinhos. Diversas câmeras de celulares estão apontadas para nós. As pessoas nos encaravam sem acreditar em como sobrevivemos ao atropelamento. Olho em minha volta e vejo que o caminhão que eu havia atirado, havia tombado e que toda a avenida havia parado para assistir a cena.
Arfo e sinto meu coração errar algumas batidas. Eu estava encrencada. Muito encrencada. Dessa vez, não havia nada que eu pudesse fazer para amenizar a situação. Chegou o momento de dar adeus a minha carreira como modelo e espiã da CIA.
— Hills! Shawn!
Em meio as inúmeras vozes, flashes e olhares curiosos, reconheço Clint se aproximando de nós acompanhado de Freddie, que encarava tudo assustado com a situação. Engulo em seco e me viro para Shawn, que continuava em uma espécie de estado de choque, onde tudo o que fazia era sorrir e encarar as próprias mãos em fascínio.
— Clint! – Choramingo, sabendo que ele entenderia meu desespero.
— Fique calma. – Pede o marido de minha melhor amiga, assim que nos alcança. Ele olha em volta e encara Freddie. – Corra até o Sense's e avise Mon-El que nós temos um alerta número sete.
— Está bem. – Concorda Freddie, ainda me encarando com os olhos arregalados.
— Freddie! – Clint chama a atenção do rapaz que ainda não havia movido mesmo depois das orientações terem chegado ao fim.
— Sim? – Questiona, atordoado.
— Agora! Vai! Informe Mon-El sobre o alerta número sete. Não temos muito tempo até que eles nos alcancem! – Alerta o mais velho e Freddie parece finalmente despertar de seu estado de choque. Ele assente e finalmente começa a correr em direção ao restaurante.
— Vocês conseguem se levantar? – Questiona Clint, virando-se para nós. Shawn e eu aquiescemos, atordoados com os flashes e com os curiosos cada vez mais próximos de nós. – Precisamos sair daqui o mais rápido possível daqui antes que a identidade de Hills seja comprometida. Então, quando eu contar até três, vocês se levantam e me acompanham em direção ao Sense's sem olhar para trás. Deem as mãos e não a soltem por nada. Não importa o que aconteça, não olhem para trás. Mantenham seus rostos escondidos. A situação pode sair do controle, então tenham muito cuidado. Não digam nada. Não olhem para nada além do chão.
— Certo. – Concordo, abaixando a cabeça.
— Um... dois... três.
E ao término da contagem, assim como o excêntrico bilionário havia orientado, Shawn e eu damos as mãos e eu pego na de Clint. Sem se importar com o que diriam, nós nos movemos com todas as nossas forças por entre a multidão até alcançarmos as portas de entrada do restaurante que rapidamente são fechadas assim que estamos dentro.
Nós agora estávamos salvos, mas eu sabia que isso era apenas um paliativo. Com as imagens que as pessoas estão espalhando pela internet é só uma questão de tempo até que todos descubram a nossa identidade.
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