Sem Tempo para o Amor
5 Pedido de Casamento
Notas iniciais
SEM TEMPO PARA O AMOR
⏳
CAPÍTULO IV - PEDIDO DE CASAMENTO
Protegidos do caos que acontecia do lado de fora, suspiro cansada e encaro Shawn, que era examinado com afinco por Clint. Apesar de passarem o tempo todo brigando, os dois possuíam um carinho e uma admiração muito forte um pelo outro. Era como se eles fossem irmãos, que vivem se provocando, mas que não pensam duas vezes antes de ir ao socorro do outro.
— Você está bem? – Questiona Freddie, passando a me analisar com preocupação.
— Eu estou bem. Não se preocupe. – Garanto, sorrindo agradecida pelo cuidado de Freddie.
— De qualquer forma, é melhor cuidarmos desses ferimentos antes que eles infeccionem. – Comenta meu melhor amigo, pegando em meu braço para verificar o meu cotovelo ralado que sangrava.
— Portas trancadas. Ninguém entra e nem sai do Sense's até descobrirmos o que devemos fazer. – Avisa Mon-El, aproximando-se de nós.
O homem trabalha para Clint há anos, apesar de ser apenas dois anos mais velho do que eu. Ele gerencia não apenas o Sense's como também o Hawkeye, a casa burlesca de Clint. Não o conheço tão bem, já que apenas nos encontramos algumas vezes, mas pelo que Natasha havia me dito, ele é uma das poucas pessoas que sabe tudo sobre o passado de Clint.
— Devo preparar o carro? – Questiona o gerente do Sense's encarando o dono do estabelecimento.
Clint se afasta de Shawn e passa a me analisar com cuidado. Penso em dizer para ele que eu estou bem, mas o olhar severo do homem no momento em que ouso abrir a boca me dá uma dica de que eu deveria permanecer quieta naquele momento e deixar que ele me examinasse.
— Sim. – Responde Clint, suspirando aliviado. – Nenhum dos dois apresentam fraturas expostas e acredito que eles não tiveram nada além de alguns arranhões, hematomas e cortes. Ainda assim, prefiro que eles passem por exames para garantir que eles estão realmente bem.
— Certo. – Concorda Mon-El, dando uma última olhada em nós com preocupação antes de sair.
Clint e Shawn começam a conversar em sussurros e eu acabo me desligando um pouco da realidade para observar o restaurante. Havia apenas alguns poucos clientes que pareciam ignorar completamente a nossa presença. No entanto, pelos pratos postos e cadeiras bagunçadas no salão principal do restaurante, eu sabia que muitos haviam saído para descobrir sobre o acidente e acabaram trancados do lado de fora.
Suspiro e procuro pelo meu celular. Precisava avisar Dakota sobre o ocorrido, ainda que eu desconfiasse que a essa altura do campeonato, ele já deveria ter descoberto da pior maneira possível o meu envolvimento no acidente. Eu quase conseguia ver o meu agente a beira de um surto psicótico quando as manchetes revelassem que Hillary Leblanc havia se jogado de frente a um caminhão para salvar a vida de um homem estranho.
— Você o deixou cair enquanto falava comigo quando foi salvar o Shawn. – Informa Freddie, provavelmente sabendo que eu procurava pelo meu celular. Ele suspira e se aproxima mais de mim. – Você tem que parar de me assustar desse jeito, Hills.
— Desculpa. – Lamento, dando um fraco sorriso. – Eu não pensei direito. Quando eu vi que Shawn iria ser atropelado, eu apenas agi. Sinto muito por ter atrapalhado o nosso plano de comprar as alianças.
— Hills, não seja boba. – Meu melhor amigo sorri com doçura e se afasta. Ele vai até a mesa mais próxima, pega um copo com água que havia sido deixado no local e um guardanapo de pano limpo. Ele se aproxima mais uma vez e passa a limpar meus ferimentos com cuidado. – As alianças eu posso comprar qualquer outro dia. Isso é o de menos. Sam e eu esperamos anos para ficarmos juntos. Alguns dias a mais ou a menos não vai mudar nossos sentimentos. Mas você é insubstituível, Hills. Eu já perdi as contas de quantas vezes se ficou de frente com a morte desde o ano passado.
Freddie suspira e me encara com seriedade, quase como se fosse um pai repreendendo a filha que foi pega fugindo da escola com as amigas para ir ao shopping.
— Desculpa. Eu vou me cuidar. – Garanto, sorrindo sem graça. – Mas esse tipo de coisa é algo que eu não posso evitar que aconteça, Freddie. Antes de ser modelo, eu sou uma agente da CIA. Eu fiz um juramento que levo muito a sério. O meu objetivo sempre será salvar vidas inocentes, ainda que para isso eu tenha que colocar minha vida em perigo.
— Eu sei. – Ele suspira mais uma vez e passa a limpar o meu rosto. – Ainda assim, isso não diminui minha preocupação.
— Obrigada. – Agradeço, abraçando Freddie. Ele corresponde ao gesto com carinho e cuidado para não me machucar, enquanto ainda segurava o copo e o guardanapo.
Esse é um dos grandes problemas de se estar apaixonada por Freddie. Seria tão mais fácil para mim me livrar de meus sentimentos se ele fosse um babaca sem coração que apenas se aproveita das pessoas. Mas não. Ele tinha que ser um rapaz inteligente, cuidadoso, doce, gentil e compreensível para fazer eu me apaixonar ainda mais por ele a cada momento de fragilidade que eu o tenho ao meu lado.
— O carro está pronto. – Avisa Mon-El, aparecendo de repente.
— Está na hora de irmos. – Anuncia Clint, alternando seu olhar entre Shawn e eu. – Usaremos a garagem de trás para sair. Como a mídia não conhece essa passagem, não teremos que lidar com eles.
Assim, seguimos para o carro que estava no estacionamento subterrâneo do restaurante. Sem a presença da imprensa e do público para nos interrogar, não tivemos que lidar com mais nenhum contratempo enquanto seguíamos para o IU Health Methodist Hospital, o maior hospital da cidade que é comandado pelos melhores amigos de Clint.
Depois de realizar inúmeros exames, Shawn e eu tivemos apenas que fazer alguns curativos nos machucados superficiais que tínhamos e recebemos alguns medicamentos para as dores que sentiríamos quando o sangue esfriasse. Felizmente, não havíamos quebrado nenhum osso e as tomografias mostraram que não tivemos nenhuma sequela do impacto.
— Bom, é isso. Você está liberada, Hillary. Apenas repouse e tomem os medicamentos no horário certo. Se sentir alguma dor incomum, volte ao hospital, que faremos novos exames. Mas pelo que tenho aqui, foi apenas um susto. – Responde Echo Allen, a neurologista do hospital, com um sorriso gentil. – Alguma dúvida, Hillary?
— Não, doutora. Obrigada. – Agradeço, sorrindo. No mesmo instante, Freddie se levanta e me encara com doçura. Ele havia permanecido ao meu lado o tempo todo, ajudando-me com tudo o que eu precisava. – Vamos?
— Sim. Obrigado, dra. Echo. – Freddie sorri em agradecimento e posso ver o alívio em seus olhos agora que tinha a certeza de que eu estava bem.
— Não precisam agradecer. Se cuide, Hillary. – Afirma a médica, acenando em despedida.
Freddie pega os meus exames e a receita médica e empurra a minha cadeira de rodas para fora do consultório. Apesar de não ter fraturado nada, eu ainda sentia dores intensas. Por isso, eu havia tomado alguns fortes analgésicos fortes, que acabaram me deixando fraca e sonolenta.
— Agora vamos apenas passar na farmácia para comprar os seus remédios e vamos para a sua casa. Eu já liguei para a Sam e ela vai te ajudar a tomar banho, enquanto eu preparo alguma coisa para você comer. – Comenta Freddie, enquanto saímos da sala.
— Não precisava incomodar a Sam. Eu poderia muito bem cuidar de mim sozinha. E você também não precisa ir, Freddie. Eu sei que está cansado e você já fez muito por mim. Obrigada mesmo, mas eu já estou bem e já incomodei demais você. – Garanto e ele suspira, inconformado.
— Não diga besteiras. Você não incomodou ninguém. Além disso, foi a própria Sam que disse que assim que saísse da empresa, iria direto para a sua casa. Ela ficou extremamente preocupada quando soube que você foi atropelada. Acho que ela só não veio direto para cá, porque eu continuei informando sobre o seu estado de saúde para ela. Nós dois sabemos que quando Sam coloca alguma coisa na cabeça, ela nunca muda de opinião. – Responde o rapaz, parando a cadeira de rodas. Ele vem para minha frente e se abaixa para ficar na minha altura. — Estamos fazendo isso porque a gente gostas e se preocupa com você. Então apenas sorria e aceite a nossa ajuda.
— Obrigada. – Agradeço, sorrindo com sinceridade.
— Isso aí! – Exclama Freddie, bagunçando meus cabelos como um irmão mais velho, ainda que eu fosse mais velha que ele. – Agora, vamos. Sam já deve estar na sua casa, provavelmente assaltando a sua geladeira.
Rio e suspiro. Eu os adoro. Muito além de estar apaixonada há anos por Freddie, eu adoro a Sam. Eles formam um casal incrível. Mesmo sabendo dos meus sentimentos por ele, a futura esposa de meu melhor amigo sempre foi muito gentil e nunca me impediu de ficar próxima de Freddie, ainda que tenha motivos. Ela é uma amiga maravilhosa.
Enquanto seguíamos para fora do hospital para pegar um táxi e ir para casa, encontramos Shawn e Clint na recepção. O cientista é o primeiro a notar a minha presença e a vir em nossa direção. Ele estava com a cabeça enfaixada e o braço em uma tala. Também tinha alguns curativos no rosto e mancava um pouco enquanto se aproximava. Clint vem logo atrás, sorrindo docemente.
— Hills! Como foi a consulta? – Pergunta Clint, assim que nos alcança. Ele deixa um beijo em minha testa e me encara com aquele brilho paternal.
— Foi tudo bem. A dra. Echo disse que foi apenas um susto. Eu apenas preciso ficar alguns dias de repouso e tomar alguns remédios para dores. – Respondo, encarando Shawn. – E como você está? Vejo que machucou o braço. Está tudo bem?
— Apenas uma luxação e alguns cortes superficiais. Nada demais. E você? – Questiona o rapaz com um brilho de preocupação e culpa nos olhos.
— Não precisa me olhar assim. Eu estou bem. Apenas alguns ferimentos superficiais e hematomas pelo corpo. Nada que eu já não esteja acostumada, afinal, você sabe muito bem que eu sou mais do que apenas uma modelo. – Garanto e ele suspira, parecendo aliviado.
— Hillary, eu... eu percebi que não te agradeci pelo que você fez. – Seus bonitos olhos azuis me encaram com tanta gratidão que eu acabo me sentindo encabulada. Shawn então se ajoelha e sorri com doçura.
Tudo bem que não nos conhecemos muito bem e nossas interações tenham sido mínimas, mas aquele sorriso era algo que eu nunca o vi fazer desde que nos conhecemos. E ele era tão genuíno e sincero que preciso de alguns instantes para me recompor. Sem todo o seu mal humor e o sarcasmo presente em sua voz, Shawn se tornava um homem incrivelmente atraente.
— Não... foi nada. – Minha voz falha e eu tenho certeza de que o sorriso que direciono a Shawn deveria estar estranho. Felizmente, ele parece não notar o quão instável eu estava.
— Obrigado por salvar a minha vida. – Shawn desvia o olhar, envergonhado. Ele então volta seu olhar para mim e me encara com tanta intensidade que me sinto um pouco atordoada. – Eu prometo que um dia eu serei capaz de recompensar você por ter se arriscado tanto apenas para me salvar.
— Não...
— Nem adianta tentar convencê-lo do contrário, Hills. – Responde Clint, interrompendo-me. Ele coloca a mão sobre o ombro de Shawn e me encara com um sorriso gentil. – Apenas aceite os sentimentos dele. Tenho certeza de que você não irá se arrepender. Apesar da péssima personalidade, falta de senso comum e de habilidades sociais...
— Ei! – Resmunga Shawn, voltando a exibir aquela expressão mal-humorada de sempre, enquanto se levanta.
— Apesar de tudo isso, ele é uma boa pessoa e leva muito a sério suas promessas. Nunca se esqueça disso. – Clint me lança uma piscadela e sorri como se soubesse de algo que mais ninguém sabia.
— Clint. Vamos embora. – Pede Shawn, parecendo sem graça. Ele não me encarava mais e eu sentia que havia perdido alguma coisa.
— Claro. Eu vou te deixar em casa e aproveitar para ligar para Susan. Ela deve estar morta de preocupação. – Comenta Clint, pensativo. Ele então volta a me encarar. – Você e Freddie precisam de carona?
Mordo meu lábio inferior ao notar que naquele momento, eu fiquei tão concentrada em Shawn que havia até mesmo esquecido de Freddie. Clint parece perceber, pois solta uma risada discreta. Felizmente, ele também nota o meu olhar de desespero e não diz nada.
— O que você acha, Hills? Eu chamei o táxi, mas acho que não tem problema cancelar. – Comenta Freddie, encarando-me com curiosidade.
— Ah, eu não quero incomodar ainda mais o Clint. Vamos de táxi hoje. – Respondo, dando uma risada um pouco forçada. Clint dá de ombros e Shawn me encara com atenção.
— Tudo bem. – Concorda Clint, esboçando um sorriso compreensível. – Amanhã eu te ligo para saber como você está. Se precisar de qualquer coisa, você sabe que é só me ligar.
— Obrigada, Clint. – Agradeço e recebo um beijo carinhoso em minha testa como despedida.
Shawn acena e me encara de forma demorada antes de se virar e ir na direção contrária a que Freddie e eu seguiríamos. Observo suas costas enquanto ele se afasta acompanhado de Clint e me questiono o que tinha acabado de acontecer. De alguma forma, eu sentia que as palavras de Clint tinham um significado maior e que não demoraria para eu descobrir.
[...]
Uma semana havia se passado desde o acidente e desde então a minha vida havia se tornado a definição perfeita de caos. Ainda que a CIA tenha feito o possível para impedir que a notícia se espalhasse, foi inevitável que imagens e vídeos do momento em que salvei Shawn de ser atropelado parassem na internet. Obviamente, isso despertou mais atenção do que necessária para mim.
Eu precisei me ausentar das redes sociais e evitar sair de casa. Infelizmente, a mídia acabou encontrando a minha localização e a situação começou a sair do controle. Temendo me complicar ainda mais, eu precisei me hospedar temporariamente na mansão de Clint e Natasha. O casal era o único capaz de impedir que os malditos paparazzis me pegassem ou que descobrissem mais informações do que necessário sobre mim.
Com o meu nome em alta por ter salvo a vida de um homem que iria ser atropelado por um caminhão, várias empresas passaram a entrar em contato para que eu promovesse a sua marca. Ainda que eu tivesse recusado todos os convites para entrevistas, as emissoras de televisão continuavam a exibir os vídeos do acidente e alguns dos meus trabalhos. Então, todo o trabalho que Dakota e a S.H.I.E.L.D. tiveram de controlar o meu grau de fama foi todo por água abaixo.
No entanto, eu não me arrependia de nada do que fiz. Se pudesse voltar no tempo, eu teria feito tudo de novo. Eu cumpri com o meu objetivo como uma agente da CIA. Salvei a vida de um civil em perigo, assim como a promessa que fiz assim que entrei para a agência de segurança do país. Felizmente, meus superiores pensavam o mesmo. Então ainda que eu estivesse bastante encrencada por ter me exposto demais, eu não fui repreendida pelo o diretor da CIA, Nick Fury, ou por Natasha, que é a responsável pela S.H.I.E.L.D.
O mesmo eu não posso dizer da minha mãe que quase infartou com a notícia. Durante três horas, eu precisei ouvir o desespero da mulher, repreensão pelas minhas atitudes irresponsáveis, como ela mesmo havia dito e o medo que ela sentiu ao pensar que eu poderia ter me machucado.
Não foi fácil convencer a minha mãe a não vir para Hawkins para cuidar de mim. Não que eu não quisesse a mulher por perto. Surpreendendo a mim mesmo, que sempre evitava as loucuras de minha mãe, eu realmente a queria comigo nesse momento. Mas a minha vida já estava complicada demais. Se ela se envolvesse no caos em que eu estou metida, apenas traria mais dores de cabeça.
— Para onde estamos indo? – Questiona Sam, encarando-me com curiosidade.
— Para o restaurante de um amigo, que fica mais afastado da cidade. – Respondo, sorrindo para a loira que estava do lado do passageiro do meu carro. – Obrigada por ter aceitado vir comigo.
— Não foi nada. Eu sei bem como os últimos dias tem sido complicado para você. – Comenta Sam, dando um sorriso caloroso, enquanto coloca a mão sobre o meu ombro em um gesto de consolo.
Com o tempo de repouso que estava passando na casa de Clint e Natasha, a operação Pedido de Casamento de Freddie e Sam havia se iniciado com força total. Mesmo sem poder colocar os pés para fora da residência dos Barton, com a visita do joalheiro e de Freddie na mansão, eu consegui ajudar o meu melhor amigo a escolher a melhor aliança para pedir Sam em casamento. Aproveitamos para planejar como o pedido seria feito.
Freddie queria que tudo fosse bastante romântico e significativo, então optamos por envolver o tema Paris na decoração do lugar onde ele pediria a mão dela. Ainda que eles se conhecessem desde crianças em Hawkins, Paris foi a cidade que despertou os sentimentos deles.
Foi em um voo em direção a capital francesa que eles tiveram a primeira vez, sem nem mesmo saberem que se conheciam. As coincidências não pararam por aí. Eles se encontraram de novo no manicômio do meu pai, onde Freddie trabalhava. Sam foi internada contra a vontade dela pelo tio ganancioso que estava de olho na fortuna dela.
Eles se ajudaram e quanto mais tempo passavam juntos, mais eles deixavam as diferenças de lado e se entregavam aos seus sentimentos. O resultado foi um relacionamento louco, mas cheio de amor. Eles têm altos e baixos em seu namoro já que ambos são bastante teimosos e possuem a personalidade forte, mas não importa quantas vezes os olhe, é evidente o amor que sentem um pelo o outro. Eles já passaram por muita coisa. Definitivamente merecem ser felizes.
É por isso que tudo precisava sair perfeito. Assim, depois de muito planejamento, o dia do pedido tinha chegado. Eu fiquei responsável por tirar Sam de casa e distraí-la até Freddie e os primos de Sam terminassem com a decoração na casa deles.
— Obrigada, Sam. – Agradeço, apertando a mão da mulher. – E como está o seu sobrinho? Freddie me mostrou uma foto dele. Que bebê mais fofo!
— Ah, Kyle é o garoto mais esperto e lindo que eu já vi. – Comenta Sam com os olhos brilhando ao falar do bebê que a irmã mais velha havia tido há um pouco mais de dois meses. – Não tem como não babar por ele.
— Está pensando em ter o seu? – Pergunto como quem não quer nada. Sam me encara surpresa, mas logo abre um sorriso envergonhado.
— Confesso que sim. – Responde, suspirando. Sam encara a paisagem com um ar apaixonado. – Eu nunca fui o tipo de mulher que sonhava em ter filhos, mas desde que Freddie e eu começamos a namorar, acho que não seria tão ruim assim ter a experiência da maternidade, sabe?
"O nerd meio que me fez sentir vontade de fazer coisas que eu jamais imaginei que sentiria. Primeiro foi ir em eventos de trens só porque eu amo o sorriso dele e como ele parece feliz no meio daqueles nerds idiotas. – Conta Sam, revirando os olhos. Rio e balanço a cabeça em negação. – E agora eu fico me imaginando entrando em uma igreja com vestido branco e planejando os nomes de nossos filhos. Não sei. Talvez conviver com Beth, Daryl e Kyle tenha contribuído para que meu relógio biológico despertasse ou eu só esteja sensível demais por conviver com um bebê.
— Ou talvez você só precisasse de algum incentivo para perceber que esse sempre foi um sonho que você tinha guardado dentro de seu coração, mas que tinha medo de notar e nunca ser capaz de realizar. Agora que está com o homem que você realmente ama e que te ama em igual intensidade, você finalmente percebeu. – Sugiro e ela dá de ombros.
— Talvez. – Concorda, dando um pequeno sorriso. – De qualquer forma, são apenas planos. Nossa vida está uma loucura nos últimos tempos. Já que Beth ficará seis meses afastada para cuidar de Kyle, estamos totalmente focados na empresa. Então, é provável que a gente ainda tenha que esperar pelo menos mais um ano para pensar no assunto. Mas não descarto a possibilidade de engravidar ou de me casar com Freddie. Eu não imagino o meu futuro com outra pessoa que não seja ele, então não importa se for agora ou daqui alguns anos, acho que ele continuará sendo o homem que quero ter ao meu lado pelo resto de minha vida.
— Fico feliz em ouvir isso, Sam. – Digo com sinceridade. Sam me encara com um grande sorriso no rosto. – Espero que eu seja ponderada para ser a madrinha de casamento e de pelo menos um dos inúmeros filhos que vocês terão.
— Vamos com calma. Quando eu digo filhos, estou me referindo a no máximo três. Não conseguiria cuidar mais do que isso. – Responde e eu acabo rindo de seu leve desespero. – Mas é claro que você será a madrinha de um deles e de casamento também. Jamais teríamos chegado até aqui se não fosse por você. Ao mesmo tempo, eu me sinto um pouco mal...
— Se você falar sobre os meus sentimentos pelo Freddie, eu vou te jogar desse carro. – Ameaço com humor. Sam suspira e me encara com preocupação. – Eu já superei, Sammy. É sério.
— Tudo bem. – Sam suspira e me parece aceitar minhas palavras. – E como você está com toda essa loucura da mídia? Tia Tasha disse que você também foi afastada da CIA.
— Apenas por duas semanas. É uma tentativa de esperar a poeira abaixar até eu voltar à ativa. No momento, qualquer movimento que eu faça pode ser captado pelas câmeras de um paparazzi ou um civil. Infelizmente, estou conhecida demais. Não posso me arriscar tanto. Então estou esperando que outro alguém vire notícia para voltar a minha rotina. Até lá, estou presa na casa de Clint e Naty, sem poder usar minhas redes sociais.
— Bom, ao menos você pode aproveitar esse tempo para descansar. Freddie me contou que faz anos que você não tira férias. – Comenta a loira, encarando-me com curiosidade.
— Eu queria férias, mas não dessa maneira. – Resmungo, cansada. – Detesto ficar presa. Queria passar uns dias em Paris ou ir para Las Vegas.
— Las Vegas... – Repete Sam, pensativa. – Eu também gostaria de voltar lá. A última vez que estive lá foi com Beth, mas gostaria de ir com as minhas primas e com você também. Imagina fazer uma viagem só de garotas?
— Seria incrível! – Respondo, sorrindo animada só de pensar na ideia. – Eu tenho certeza de que iriamos nos divertir bastante. Soube que as despedidas de solteiro de lá são insanas. Poderíamos fingir que alguma de nós vai se casar e ver como realmente é.
— Podemos usar a Cait, afinal, ela já está noiva de Barry mesmo. – Comenta Sam, refletindo sobre a minha ideia. – Eu aproveitaria para chamar a Carly também. Eu só não sei se Nancy e Beth iriam por agora. Hope e Kyle ainda estão muito novinhos, então tenho certeza de que elas não deixariam as crianças para trás. Além disso, Las Vegas definitivamente não é lugar para bebês.
— Tem razão. Las Vegas é um lugar para se fazer bebês e não para levar alguns para uma diversão recheada de álcool, jogos, apostas, drogas e muito nudismo. – Comento, fazendo Sam gargalhar.
— Da última vez que eu estive lá, eu bebi tanto que acordei do outro lado da cidade, dentro de uma jacuzzi com mais três mulheres e dois homens completamente nus. – Relembra Sam, rindo com diversão.
— Mentira! – Começo a rir ao imaginar a cena. Apesar da pose de durona e da força sobrehumana, Sam é bastante tímida quanto a sua intimidade. – Imagino que deva ter sido bem assustador. Estou surpresa que lembre da história com humor.
— Agora eu consigo rir da situação, mas na época, fiquei tão apavorada que sai gritando e batendo em todo mundo e chamando todo mundo de pervertido, sem nem perceber que eu também estava completamente nua. – Conta a loira, fazendo com que eu risse ainda mais. – Mas eu ainda estava em uma situação melhor do que a de uma menina que estava hospedada com as madrinhas de casamento no mesmo hotel que eu e Beth. Ela bebeu tanto que acabou se casando com um desconhecido justamente na sua despedida de solteiro. Imagina contar para o noivo que ela não poderia se casar no dia seguinte porque estava casada com outro homem?
— Nossa. Que situação complicada. Mas também, que ideia estúpida foi essa a dela de se casar? Tudo bem que a gente fica completamente louco em Las Vegas, mas tudo tem limite. – Respondo e Sam dá uma risada fraca. – Eu tenho certeza que eu jamais faria algo assim. Mesmo se eu estivesse completamente bêbada.
— Nunca se sabe o que pode acontecer quando se está na "Cidade do Pecado", afinal, é como sempre dizem. Tudo o que acontece em Vegas, fica em Vegas. Não acho tão... – Antes que Sam continuasse a falar, o celular dela começa a tocar.
Sorrio discretamente. O grande momento havia chegado. Se eu estiver certa, a pessoa do outro lado da linha é Beth, implorando para que Sam pegasse a chupeta predileta de Kyle que ela havia deixado em casa. Como Freddie "estava viajando para a casa da mãe" desde o dia anterior, ela é a única que poderia pegar.
— Não tem como pedir para Daryl ir buscar essa chupeta? Eu estou na rua no momento. – Responde Sam, falando com a irmã ao telefone. – Freddie não está na cidade, então não tem como ele levar para você. – O choro do outro lado da linha se intensifica. Sam suspira e se vira para mim, afastando o celular do ouvido. – Você se importa se...
— Em voltar na sua casa e levar a chupeta para Kyle? É claro que não! Eu também estou louca para ver o Kyle. – Respondo, mudando de faixa para fazer o retorno.
— Para a sua sorte, Hills também está apaixonada pelo Kyle. Espere um pouco. Em no máximo vinte minutos, chegamos aí. – Sam avisa a irmã e suspira, assim que encerra a ligação. – Eu não sei onde Beth está com a cabeça. Eu ainda perguntei para ela quando estava saindo lá de casa se ela tinha esquecido alguma coisa.
— Dá um desconto para ela. Aposto que ela não dorme há dias com o bebê acordando várias vezes na madrugada. Ainda tem a preocupação típica dos pais de primeira viagem que os deixa ainda mais apavorados. É normal que ela se sinta atordoada. – Digo e Sam assente, concordando.
Retornamos para a casa de Sam, voltando a planejar a nossa suposta viagem a Las Vegas. A loira parecia nem mesmo desconfiar do que aconteceria em poucos minutos. Enquanto isso, eu me sentia cada vez mais nervosa. Uma parte de mim estava muito feliz por Sam e Freddie finalmente terem o seu final feliz. Por outro lado, eu não podia negar que meu coração egoísta ainda tinha esperanças de ser correspondido.
Aparentemente, a ficha ainda não havia caído. No entanto, no momento em que Freddie colocasse o anel de noivado no dedo de Sam, aquele era o fim. Seria o momento de desistir de qualquer resquício de esperança que ainda havia dentro de mim. Eu teria que aceitar que todos os anos em que passei sofrendo por esse sentimento tão intenso foram em vão.
Estaciono o carro de frente a residência da Puckett e a observo descer do carro. Permaneço parada, encarando e apertando o volante em uma tentativa frustrada de me livrar daqueles sentimentos terríveis que eu tanto odiava. Inveja, tristeza, frustração. Sentimentos que eu tentava a todo custo me livrar.
Sam bate no vidro e me encara com preocupação. Desperto dos pensamentos melancólicos que me rodeavam e a encaro com um fraco sorriso. Eu definitivamente era patética.
— Hills? Está tudo bem? – Questiona Sam, analisando meu rosto com atenção.
— Sim. – Respondo, abaixando o vidro do carro para falar com ela. – Desculpa. É que eu sentir uma dor incômoda nas costas quando eu me virei. Mas já estou bem. – Minto, desviando o olhar. Retiro o cinto de segurança e respiro fundo antes de sair do carro. – Vamos então procurar a chupeta do pequeno Kyle? Eu estou louca para pegá-lo no colo.
— Certo. – Concorda Sam, desconfiada. – Certeza de que você está bem?
— Eu estou ótima! – Garanto, dando um sorriso mais confiante.
Pego no braço de Sam e a puxo para bonita casa de dois andares. As luzes estavam completamente apagadas e nem parecia que havia alguém em casa. Freddie e os outros haviam feito um trabalho impressionante.
A loira suspira e sorri, parecendo deixar de lado o meu momento de fraqueza. Ignoro todo o conflito em meu coração e decido que preciso ter coragem. Não posso continuar vivendo nessa forma patética, dizendo a todos que superei, quando continuo a desejar o amor de Freddie. Respiro fundo e a cada passo dado em direção a porta de entrada da casa, minha mente continua a me torturar com imagens de todos os momentos que fizeram eu me apaixonar por Freddie.
— Eu estou com tanta fome. Espero que a gente não demore a encontrar a chupeta de Kyle. – Comenta Sam, passando a mão pela barriga. Sorrio, escondendo meu rosto em seu ombro para evitar que a loira notasse o meu nervosismo.
— Estranho seria se você não estivesse com fome. – Respondo e Sam ri, dando de ombros.
— Touché! – Exclama, humorada. – Deixa só eu pegar a minha chave aqui.
Afasto-me de Sam e a observo procurando a chave da residência em seus bolsos. Assim que ela encontra, a garota começa a falar sobre o que gostaria de comer, mas eu estava tão nervosa que nem mesmo consigo prestar atenção no que ela dizia.
A porta da casa é aberta. Sam entra e logo é surpreendida por pelas luzes e toda a decoração parisiense. Permaneço alguns instantes do lado de fora. Eu ainda não estava pronta para enfrentar a realidade. Ouço música ecoar e a voz de Freddie ao longe. Minhas pernas estavam paralisadas. Eu não conseguia me mover. Meu coração doía, meus olhos ardiam e minhas mãos tremiam.
Mordo meu lábio inferior e não demoro a sentir o gosto metálico de sangue amargar o âmago de minha alma. Logo não demora para que eu ouça Sam gritar o tão esperado sim. Todos que testemunhavam o pedido de casamento, ovacionam o casal, que provavelmente estava se beijando.
Permito que uma solitária lágrima desça pelo meu rosto e no mesmo instante eu a limpo. Respiro fundo algumas vezes e assumo a minha máscara. Dou o meu melhor sorriso e reúno toda a coragem que tenho dentro de mim para me mover.
Na entrada, consigo ver toda a sala de estar da casa decorada com flores e com toda a decoração romântica da Cidade Luz. Freddie e Sam estavam abraçados. No dedo anelar, a loira exibia o lindo e delicado diamante. Eles se afastam e então se viram para mim, sorrindo apaixonados. Engulo em seco e sorrio, acenando. O momento de enfrentar a realidade havia chegado e eu precisava ser forte.
— Hills! – Sam corre em minha direção e me abraça. – Você sabia disso?
— Quem você acha que planejou tudo isso? – Questiono, afastando-a para encarar seus olhos azuis brilhantes.
— Obrigada. – Sam agradece, emocionada.
— Não precisa agradecer. Depois de tudo o que aconteceu, vocês merecem dar um novo passo em suas vidas. – Respondo, limpando as lágrimas presentes nos olhos de Sam.
— Não, Hills. Eu preciso sim. – Sussurra Sam, suspirando. – Por mais que finja que não, eu sei que ainda ama o Freddie e que tem sido difícil tentar se livrar desse sentimento. Você é a pessoa mais doce e forte que eu conheço. Jamais serei capaz de agradecer o suficiente por tudo o que você fez por mim e por Freddie. Então, de verdade, me desculpe por...
— Sammy, para. – Peço, encarando-a com seriedade. – Se você me pedir desculpas por estar lutando por sua felicidade ao lado do homem que você ama e que te ama, eu vou me sentir muito ofendida. Que tipo de pessoa você acha que eu sou? Eu dei minha palavra que desistiria de Freddie e seguiria em frente. Não é fácil, mas a cada dia que passa, o que eu sinto por Freddie tem se tornado apenas um carinho de amigos. Então, pare de choramingar e aceite de uma vez por todas viver seu conto de fadas sem arrependimentos. Escute o que sua madrinha de casamento está dizendo.
— Você vai mesmo ser a minha madrinha? – Questiona Sam, surpresa.
— Por quê? Você não me quer? – Indago, preocupada.
— Não! É claro que eu quero! Ficaria muito feliz em ter você como minha madrinha. Mas é que eu não quero forçar a barra e...
— E nada, Samantha Puckett. Futura sra. Benson. – Sam faz careta ao ouvir o nome. Sorrio e suspiro. – Você não está forçando a barra. Sendo sincera, eu sou a pessoa que mais pode te ajudar nesse momento. Beth e Nancy acabaram de ter bebê. Carly está em Paris. Thea e Elena iniciaram um estágio no hospital que tem tomado todo o tempo delas. Sara está cada vez mais envolvida nas missões da S.H.I.E.L.D. As namoradas de seus primos estão divididas entre a faculdade ou o trabalho e a maternidade. Então, não seja cabeça dura e aceite de uma vez por todas a minha oferta.
Sam me encara com preocupação, mas ela sabia que eu estava certa. Segundo Natasha, a garota nunca teve muitas amigas além das primas. A família Barton é enorme e estão sempre se ajudando, mas a missão madrinha exigiria um tempo que elas definitivamente não possuem.
Não que eu tivesse muito tempo livre também, mas eu sinto que essa é a chance perfeita para colocar um ponto final definitivo em meus sentimentos. Talvez Dakota tenha razão quando diz que eu estou sendo masoquista, mas me sinto culpada pelos sentimentos negativos que eu tenho tido nos últimos meses. Então, ainda que doa, eu sei que a única forma de seguir em frente é encarar o que me machuca de frente. E quem sabe essa experiência não possa me trazer algo de bom?
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