Sem Querer, Juntos!

5 Capítulo 5 - Turbulência.


Sem querer, juntos.

Capítulo 5 – Turbulência.

A recuperação de Naruto foi ocorrendo gradativamente. Acredito que o passo mais importante dado por ele foi a decisão de não tomar mais os calmantes que o induziam a um sono profundo durante a noite toda. Ele queria acordar quando a filha precisasse dele e, por esse motivo, chegou ao ponto em que começamos a dividir as noites em claro juntos.

A sensação de estar na companhia dele ainda era incômoda, pois ainda éramos estranhos um para o outro. Falávamos muito pouco, o necessário.

Quando a bebê acordava chorando eu já me prontificava a preparar a mamadeira enquanto ele se encarregava da tarefa de tentar acalmá-la.

Por mero acaso acabamos os três dividindo o mesmo quarto na residência Hyuuga. A princípio, eu só os deixei no mesmo cômodo para ficar de olho em ambos durante as madrugadas, pois tanto pai quanto filha inspiravam cuidados. Mas não esperava que Naruto continuasse ali, no mesmo cômodo que a gente, mesmo não estando sobre os efeitos dos sedativos. Apesar de ser algo normal, afinal ele também havia se prontificado a cuidar da Ayame durante as noites.

Porém, esse fator era triste por um único motivo: algumas noites, quando eu pegava no sono primeiro, acordava pouco tempo depois o ouvindo soluçar. Não nego que nesses momentos sentia um desejo imenso de confortá-lo, abraçá-lo, aconchegá-lo em meus braços, mas não o fazia por medo. Medo de que minha aproximação o fizesse recordar o asco por homossexuais e que acabasse me pedindo para deixá-los. Eu sei que acontecer algo entre ele e eu seria tão improvável quanto um cara milionário se casar com uma garota de programa. Histórias assim só acontecem em romances açucarados. Sou muito realista e não deixaria de ser por estar apaixonado.

Sei que tudo que estou fazendo por ele e pela pequena Ayame é mais pelo que sinto por Naruto do que pelo o pedido de Sakura. Também tenho consciência de que esse tempo que estamos vivendo juntos é passageiro, quando Naruto se recuperar completamente serei obrigado a me afastar. Pensar nessa realidade estava começando a me perturbar e esse sentimento de perturbação estava influenciando no meu humor da pior forma possível. Afinal, nem um dos dois me pertencem. Eles não são minha família, não há motivos para eu ficar preocupado em deixá-los.

Afastei o edredom sentindo calor, o inverno estava chegando e Naruto sentia muito frio durante as madrugas, quando aumentava a temperatura do aquecedor e esquecia de desligá-lo ao amanhecer. Nós dois estávamos dormindo no tatame e a Ayame em um cesto que ficava entre nós dois. Virei para ver como eles estavam antes de levantar para preparar o café e meu coração deu um pulo no peito. O cesto da Ayame estava do outro lado do quarto e Naruto e a neném estavam deitados no tatame. A neném, ao contrário dele, estava bem acordada e esfregava o rostinho no peito descoberto do pai. Engoli em seco. Naruto se mexia muito durante a noite e por isso estava com a Yukata toda desalinhada, abrindo a brecha para que a pequena Ayame abocanhasse e sugasse seus mamilos. Já havia pedido várias vezes para ele não permitir que ela continuasse fazendo aquilo, pois iria se tornar um hábito difícil de tirar dela depois, mas aquela era uma forma dele fazê-la cessar o choro mais rápido e por isso ele estava deixando se tornar um costume.

Sentei-me e apanhei a neném no meu colo. Naruto se mexeu, virou-se e ficou de barriga pra cima, ainda roncando alto, com a cueca samba canção de seda aparecendo pelo vão aberto da Yukata e os mamilos descobertos avermelhados e ouriçados. Não seria tudo mais simples se ele dormisse de moletom como eu fazia?

Era uma visão perturbadora, tanto que precisei respirar fundo e evocar toda a calma necessária para não despertar uma ereção matinal.

Olhei a pequenina que estava em meu colo e notei que ela me encarava com aqueles grandes olhos que oscilavam de cor a todo o momento e que naquele instante exibiam uma linda e exuberante cor azul-piscina.

— Largue de complô, pequenina — eu sussurrei para ela, apontando meu dedo indicador o qual ela apanhou com sua mãozinha. — Não ajude seu pai a ficar se expondo desse jeito tão erótico ao lado de um cara gay ou eu não responderei pelos meus atos.

Ela riu.

— Eu sei que você me entende. Veja, olha como ele está sexy com esse samba-canção... preto com pimentas vermelhas? — Olhei para Ayame e ela ficou séria. — Sim, eu concordo completamente com você. É bem piegas. Mas as pimentas fazem alusão de algo hot e picante, não é?

Ayame voltou a sorrir e eu me levantei com ela em meu colo.

— Vamos deixá-lo dormir mais um pouco. Você deve estar com fome. Vou preparar sua mamadeira.

...

Na cozinha, deixei A Ayame na cadeirinha do bebê conforto enquanto preparava a mamadeira. Vasculhei a geladeira e a dispensa para encontrar algo para eu preparar para o meu café e de Naruto, mas notei tudo vazio. Haviam se passado quase três meses. Hinata sempre trazia mantimentos em suas visitas, mas ela estava prestes a ganhar seu bebê e já fazia alguns dias que ela não aparecia. Apesar de Hinata pertencer, aparentemente, a uma família bem de vida, não era nada justo ficar dependendo dela até para comermos. Já que ela não cobrava aluguel pela casa, nem pelos gastos com água, aquecedor, gás, energia.

Eu tinha umas poucas economias, mas elas não durariam muito por isso era o momento de procurar um emprego e voltar a trabalhar nem que fosse por meio período.

— Depois que estiver alimentada vamos fazer compras, Ayame-chan — eu a avisei. — Aproveito pra comprar o jornal e olhar os classificados.

...

Resolvi caminhar e ir a pé até a conveniência, apesar da temperatura um pouco baixa estava fazendo sol aquela manhã e o ar fresco seria bom para Ayame. Não saímos muito de casa durante aqueles últimos dias porque estávamos em uma época bem chuvosa naquela região.

Prendi a neném no suporte canguru no meu peito, para ter as mãos livres para fazer as compras, e saí para a rua. Assim que cruzei o portão vi a nossa vizinha, que morava ao lado, limpando a calçada que ladeava a rua. Era uma senhora de idade, certamente aposentada e que sempre me cumprimentava.

— Bom dia — ela disse, largando a vassoura encostada na cerca e se aproximando para ver a bebê e puxar conversa, algo que ela ainda não tinha feito. — Como ela se chama?

— Ayame.

— Vai passear a pé com a Ayame-chan, hoje? Vejo você saindo apenas de carro ou com aquela outra moça grávida, a dona da casa, que vem visitá-los de vez em quando com o marido — a mulher falou, mostrando o que o ser humano sabia fazer de melhor: especular a vida dos outros. — É bom andar um pouco a pé, né? O dia está bonito — ela mesma deu a resposta.

— Só vou fazer compras.

— Ainda não vi a mãe — a vizinha comentou com uma naturalidade surpreendente a curiosidade que certamente a estava corroendo por dentro.

“E nem verá” eu pensei na má resposta, mas depois de suspirar respondi com sinceridade.

— Faleceu no parto.

— Oh? Mesmo? — exclamou ela. — Que tragédia! Mas a bebê não é sua, né? Com esses olhos tão claros ela só pode ser filha daquele rapaz loiro e de aparência estrangeira que também está vivendo aí, não é?

A verdade é que nem eu sabia exatamente sobre Naruto ser ou não estrangeiro. Apesar dos olhos claros e dos cabelos loiros atípicos a nossa etnia, ele tinha os olhos puxados e não havia nenhum sotaque estrangeiro na sua voz. Algo que me fazia pensar que ele pudesse ser somente descendente de estrangeiros, mas que provavelmente vivia no Japão desde que nascera.

— É filha do outro rapaz que está hospedado aqui comigo sim — confirmei apenas esse fato e não o dele ser estrangeiro, já que também não sabia.

— Então você não é parente desse rapaz? Era da viúva?

— Amigo — respondi secamente. — Estou dando uma força.

— Entendo. Você é um desses raros rapazes generosos, né? — ela meio que me alfinetou, e nem deu tempo para minha resposta, e já emendou outro questionamento. — Qual dos dois tem ligação com os Hyuuga?

Pois é. A mulher havia mesmo deixado a discrição de lado e estava me submetendo a um interrogatório pior que o da CIA[1]. Era hora de cortar a conversa.

— Eu e a Hyuuga Hinata fomos padrinhos de casamentos, ambos conhecíamos os dois, por isso estamos dando apoio pro Naruto nesse momento difícil. Agora, se a senhora me der licença, preciso fazer compra.

— Ah, claro! Você quer ir às compras. Chamo-me Chiyo. Moro com meu irmão aqui nessa casa — ela apontou o local. — Apesar de aparentarmos sermos dois velhos inúteis, caso precisar de alguma ajuda, não se acanhe.

Sorri em agradecimento e assenti.

— Tenha um bom dia — acrescentei e saí andando.

— Você também, meu jovem.

Dei graças aos Céus quando consegui finalmente esquivar da nossa vizinha. Acho que nem nesses quase quatro meses que estou convivendo com Naruto conversamos tanto quanto conversei com essa senhora nesses poucos minutos.

Mas sabia que iria passar por muito mais questionamentos como aquele, no entanto, em nenhum deles poderia dar a resposta que realmente me deixaria satisfeito: eles são a minha família. Porque não são. Eu sou somente um parasita. Aproveitando-me de um infortúnio para me manter nessa relação, se é que dá para chamar o que vivo de relação.

...

Fiz as compras e voltei para casa rapidamente. Não tive outras abordagens, apenas algumas donas de casas que me encararam com certo encantamento. Deve ser estranho — e ao mesmo tempo divertido — ver um homem cuidando de um recém-nascido; mesmo que estejamos em um mundo moderno onde os papeis de “marido” e “mulher” podem ser facilmente invertidos. A dona Chiyo não estava mais limpando o quintal quando cheguei, o que me deixou realmente aliviado. A Ayame foi boazinha durante todo o percurso, não chorou em momento algum. Acho até que ela gostou de caminhar, porque ficou observando tudo a sua volta com seus grandes olhos atentos.

Depositei as sacolas de compra e o jornal que já estava na página de classificados de emprego sobre a mesa, enquanto ouvia a voz de Naruto ecoando pelos corredores vazio daquela casa tão ampla, ele estava falando ao telefone pelo que percebi. Era engraçado como somente o som da voz dele já fazia meu estômago se contrair. A voz foi ficando mais próxima, até que ele entrou na cozinha.

— Ok. Pode deixar. Iremos visitá-los daqui uns dias. Descansem. Parabéns mais uma vez — concluiu e largou o celular sobre o balcão do armário. Ele olhou para as compras e depois para mim, ou para a bebê em meu peito, não deu para entender direito, porque eu evitava olhá-lo diretamente. — Fazendo compras?

— É — respondi secamente, tentando tirar a Ayame do Suporte Canguru pra poder guardar as compras. — Era a Hinata? — perguntei, referente a pessoa com que ele falava na ligação.

— O Neji — ele respondeu. — A Hinata ganhou o bebê a noite passada, é um menino. Os dois passam bem — deu a notícia de forma não tão animada de quando ele falava ao telefone.

— Isso é ótimo.

— É. Nem todas as mães morrem no parto — ele respondeu, apanhando café na garrafa. — Só a Ayame-chan não teve essa sorte.

Eu suspirei fundo para não responder que ele precisava parar de ser “dramático” e ficar feliz pela a Hinata estar saudável, porque havia sim muitas crianças que não dispunham da sorte de crescer junto com os pais nesse mundo, ele e eu éramos bons exemplos.

Mas a Ayame começou a chorar assim que consegui tirá-la do suporte e o Naruto largou a xícara de café de lado e se aproximou, apanhando-a de mim e embalando-a em seu colo.

— Ei, ei. Que foi, Ayame-chan? O papai está aqui. Não chore. Será que é a fralda?

— Pode ser.

— Vou lá ver.

— Tá.

Naruto saiu carregando a neném que chorava e eu senti vontade de me esmurrar por não respondê-lo. Não entendia porque eu não conseguia. Muito menos ser ferino com ele como era no começo, como seria com qualquer outro. Será que a paixão deixa as pessoas idiotas? Eu simplesmente aceitava as coisas estúpidas que ele falava calado.

Comecei a guardar as compras no armário e na geladeira e separei o que iria usar para o almoço. Minha cabeça estava doendo devido a irritação causada por tentar conter as más respostas que gostaria de dar à ele. Talvez eu o fizesse pelo fato de querer poupá-lo de mais dor, mas estava ficando difícil me segurar.

O choro da pequena Ayame cessou e ele apareceu de volta na cozinha com a neném deitada em seu colo, ainda com o robe aberto, deixando a Ayame fazer aquilo (sugar o mamilo dele) de novo.

— Era fralda. Eu a troquei.

— Por que não coloca uma roupa e tira esse robe? — eu finalmente estourei. — Você viu o que ela está fazendo?

— Sim. Eu vi. Ela não chora quando está fazendo isso.

— Sim, eu sei, mas para isso existem chupetas. Veja. Eu comprei uma para ela — mostrei o objeto que estava sobre a mesa. — É só esterilizar na água fervente e você pode dar à ela. — expliquei, retirando a chupeta do pacote e despejando a água que já borbulhava na chaleira ao fogo.

— Por que isso te incomoda tanto? — ele de repente quis saber.

— Por quê? — eu repeti a pergunta dele, em tom de indignação. — Porque isso é erótico, idiota! Se não é para amamentar, no caso da mulher, quando um homem ou uma mulher têm seus seios ou mamilos sugados?

Com os olhos arregalados, dando a entender que havia compreendido muito bem a minha alusão, Naruto retirou a bebê do seu peito e rapidamente arrumou o robe, cobrindo o peito nu. A Ayame começou a chorar e eu estendi a chupeta a qual ele apanhou com desconfiança. Depois de conseguir fazer com que ela ficasse com o objeto na boca, ele franziu o cenho na minha direção.

— Você chegou mesmo a pensar em sexo enquanto via essa cena?

— Todas às vezes — consegui finalmente ser sincero, apesar das minhas mãos trêmulas. — Claro que eu automaticamente apago a imagem da Ayame-chan — eu acrescentei rápido. — Não estou tendo nenhum tipo de pensamento pedófilo se é o que está passando por sua cabeça. Imagino só você e eu.

“E na minha imaginação é a minha boca sugando não só seus mamilos, mas cada pedacinho do seu corpo” eu quis concluir, mas achei por bem ficar calado, já havia sido claro suficiente.

Passei as mãos nos cabelos e de certa forma senti um estranho alívio por finalmente conseguir expor aquilo. Poderia até ser expulso daquela casa por ele naquele momento, mas aquilo não estava me preocupando mais. Acho que havia acordado aquela manhã esperando que algo fosse acontecer para nos nortear.

— Você sente algo por mim? — ele perguntou com a face toda contorcida, como se estivesse sentindo nojo daquela possibilidade.

Eu pensei que ele soubesse da resposta, levando em consideração aquele dia que eu o assediei no meu “escritório-arquivo” na editora. Mas pela expressão de aturdimento que Naruto exibia, talvez ele fosse mais lerdo do que eu imaginava. De qualquer forma, a pergunta havia me pegado de surpresa. Ter que responder algo tão delicado e de forma tão direta ainda não havia me passado pela cabeça. Mas ao encarar seu rosto contraído, as sobrancelhas franzidas e o ar de indignação brotando de cada ruga em sua testa, me encheu de uma estranha coragem.

— Eu...

— Ou você pensa essas coisas nojentas com qualquer cara? — ele cortou minha resposta para jogar na minha cara sua ignorância.

Ah! A ignorância! Ela tarda, mas não falha. Agora eu entendia a expressão tão intensa de repúdio naquele rosto que eu considerava tão bonito. Naquela cabeça loira, a culpa certamente não era dele que vinha se expondo de forma descuidada para um cara gay, a culpa era minha, por ser gay, e estar desejando um cara hetero e inocente em seu momento de fraqueza.

Mas quando eu achei que não podia sair mais nada de absurdo daquela pequena cabeça ignorante, ele conseguiu superar minhas expectativas.

— Esses dias convivendo juntos me fizeram pensar que você fosse... um cara normal. Mas pelo jeito eu estava tentando me enganar. Você é mesmo do tipo nojento e pervertido — ele concluiu, aumentando sua expressão de nojo.

Expressão a qual presenciei tantas e tantas vezes na minha vida.

E eu gostava daquilo, porque fazia meus instintos de defesa aflorarem automaticamente. Quando o ser humano mostrava sua verdadeira face e o tão ignorante ele conseguia ser, eu também conseguia me armar e finalmente dar respostas à altura. Foi o que eu fiz, repliquei sem receios.

— Se um ignorante como você tivesse mesmo essa capacidade, a de "pensar", iria perceber que sou sim um cara "normal”.

— Um cara normal não fica excitado vendo o peito de outro cara descoberto! — ele se exaltou. — Aliás, o que você tá fazendo aqui ainda? A gente sequer é amigos. Você deixou seu serviço para trás e me arrastou para essa cidade, para quê afinal? Será que é porque longe das pessoas que conhecemos fica mais fácil de você tentar convencer um homem fragilizado pela morte da esposa a virar gay? Seja lá qual for o plano ridículo dessa sua cabeça pervertida, ele não dará certo. Eu vou voltar para Tóquio.

As palavras exaltadas de Naruto assustaram a Ayame que começou a chorar depois de derrubar a chupeta no chão. Ele saiu da cozinha com ela no colo e eu os segui até o quarto. Ele deixou a Ayame no cesto e depois disso passou a enfiar as roupas que estavam separadas para lavar de qualquer jeito dentro da bolsa de viagem, junto com as limpas.

Segurei o pulso dele e ele o puxou de volta, mas não conseguiu se livrar do meu agarre, então ele pediu:

— Me solta.

— Não.

Ele puxou com força o pulso, mas ainda assim não conseguiu se livrar de mim. Então ele tentou me golpear com o punho livre e eu detetive o golpe com minha outra mão aberta. Diferente da primeira vez, a que apanhei dele, havia retomado às aulas de defesa pessoal e sabia muito bem como imobilizar um cara irritadinho como ele.

— Me larga, sua bicha!

Eu o puxei para perto de mim e quanto mais ele tentava se livrar daquela proximidade, mais eu conseguia me aproximar e enfim pude imobilizá-lo. Agarrei-o por trás e prendi as pernas dele com as minhas e dei nele uma chave de braço no pescoço.

— Eu vou chamar a polícia. Desencosta da minha bunda, seu gay, nojento, pervertido de uma figa!

— Não se preocupe. Isso ainda não é sexo, meu bem. Digamos que é só uma prévia. E uma pequena observação: me chamar de “gay”, “bicha”, não me ofende. Eu sou mesmo. Você vai se ofender se eu te xingar de ‘macho’?

— Estou ficando sem ar — ele reclamou.

— Tá, então eu vou tentar ser breve. Só me escute, Naruto. Existe uma infinidade de caras mais interessantes que você por aí me querendo. Principalmente nesse mundo gay que você tanto despreza e faz carinha de nojo. Caras importantes, boas-pintas, intelectuais, sensíveis, gentis e que dariam para mim sem eu precisar fazer o mínimo esforço; ou o mínimo possível, como mover um dedo para dar um telefonema. Já recebi propostas que até o diabo dúvida e que me deixaria rico em dois tempos. Afinal, eu sou um cara considerado bonito e inteligente, e sou desejado não só por homens gays, mas por mulheres em toda a parte. Mas eu optei por levar uma vida digna e não supérflua. Nunca aceitei presentinhos de caras ricos em troca de noites de sexo. Optei por nunca enganar ninguém e ter minha consciência tranquila. Tudo que consegui nessa vida foi com base no meu próprio esforço e honestidade. Não quero nada que venha fácil, não quero nada vindo de forma oportunista, eu não sou o tipo desprezível que você pensa. Eu gosto de foder com caras sim, mas faço isso com caras que estejam a fim de mim e eu deles. Não sou hipócrita e não vou mentir para deixar você, que tem nojinho de gays, mais tranquilo. Estou sentindo algo estranho por você sim. E estou começando acreditar que exista essa tolice chamada “amor”, porque jamais. Preste bem atenção nessa palavra: “jamais”, nunca, eu escolheria alguém ignorante, grosso e estúpido como você ao invés de um cara do meu próprio mundo. E não me culpe pelos meus instintos porque você também os têm. Você é um homem e se eu fosse uma amiga gostosona da Sakura que descuidadamente ficasse mostrando os peitos para você, eu tenho certeza que você ficaria todo assanhado e partiria para cima dela e ainda colocaria a culpa nela por estar se mostrando. Então, não me venha com hipocrisia machista, porque eu também sei ser do tipo hipócrita machista quando quero, e a culpa de eu ter pensamentos pervertidos com o seu corpo não é só minha e sim da sua falta de roupa e compostura. E a última coisa. Estou aqui porque eu quero. A Sakura me fez um pedido, um pedido o qual eu poderia ter recusado, mas só não recusei por medo de que você fizesse uma besteira e deixasse a Aya-chan sozinha. Assim como você, eu perdi meus pais ainda criança, eu sei como é triste crescer sem uma família. Por isso que eu não quero o mesmo para a filha de uma pessoa que foi tão querida por mim.

Depois do desabafo eu o soltei.

Naruto saiu de perto de mim tossindo até alcançar o outro extremo do quarto onde se sentou encostado à parede, tentando regularizar a respiração.

A Ayame-chan havia parado de chorar e parecia prestar atenção na nossa discussão.

Naruto estava com o rosto todo vermelho e depois de inspirar e espirar fundo várias vezes, ele me perguntou:

— Que tipo de besteira você acha que eu iria cometer?

— A mais idiota possível para um cara idiota como você: suicídio.

Ele arregalou os olhos.

— Eu quero que entenda outra coisa, Naruto. Eu não quero nada em troca do que estou fazendo. E mesmo eu... estando apaixonado... Esse é um sentimento só meu. Somente meu. Eu não estou nenhum pouco disposto a tentar conquistar um cara hetero e ignorante como você. Eu sou adulto. Sei que de você não posso esperar nem a amizade. Lidou com tipos até piores desde que me entendo por gente. Eu sei que não posso mudar sua natureza. Da mesma forma que não posso mudar o mundo, não posso descobrir a cura do câncer, acabar com os desmatamentos, erradicar a fome, acabar com os políticos corruptos e as filas de banco. A única coisa que quero é ajudá-los e depois disso vou voltar para o meu mundo, mas quero fazer isso com a certeza de que você estará bem o suficiente para se manter vivo e não deixar que a Ayame-chan tenha a mesma infância infeliz que nós tivemos.

Aquela era a verdade. Nem toda ela, isso era certo. Havia a parte fantasiosa. O meu desejo de um mundo colorido, onde tudo é possível, inclusive a mágica, com a qual eu poderia fazê-lo corresponder ao que eu sinto.

— Naruto? — eu o chamei, com a intenção de me desculpar por tê-lo quase sufocado, mas foi quem me interrompeu primeiro e eu deixei que ele falasse.

— Desculpe... — foi a única coisa que a voz engasgada dele conseguiu emitir. Em seguida ele esfregou as mãos nos olhos, abraçou-se aos joelhos e escondeu o rosto entre eles, ele estava chorando.

Ah. Como era difícil controlar aquele desejo louco de abraçá-lo quando ele oscilava de ogro para garotinho frágil com tanta facilidade.

Na verdade, acho que não preciso mais controlar esse desejo. Desabafar havia feito em mim um grande bem. Havia me feito retomar a confiança e a minha autoestima. O medo de ele me rejeitar, me espancar, me pedir para ir embora, haviam desaparecidos.

Então aquela coragem nasceu. O suficiente para me fazer me aproximar dele, agachar diante daquele homem e tocar em seu cabelo, descer minha mão por seu rosto até encontrar o queixo o qual segurei firme e o ergui, fazendo-o exibir aqueles olhos azuis tão lindos, totalmente marejados para mim. Eu sorri discretamente. Era uma visão deslumbrante. Talvez fosse essa incoerência que me fazia amá-lo. Ele era um homem todo ignorante, mas no fundo era muito frágil, além de lindo. Tanta incoerência me deslumbrava.

— Eu posso te abraçar? — perguntei com cuidado.

Os olhos deles se arregalaram. Mas me mantive firme, com o olhar fixo no dele. Então ele afastou minha mão do seu rosto e se ergueu, ficou me olhando até que eu me levantei também. Ficamos nos encarando, até que partiu dele o gesto e o abraço veio rápido. Ele era mais baixo do que eu, mesmo assim ele me abraçou por cima dos meus ombros. Fiquei um tempo paralisado, sentindo o calor bom que era tê-lo tão perto, se alastrando pelo meu corpo. O rosto dele encostado a lateral do meu, o cheiro dos cabelos e da pele dele invadindo minhas narinas. Suspirei vagarosamente e envolvi as costas dele, fui impondo forças aos poucos, até cruzar minhas mãos espalmadas e apertá-lo junto ao meu corpo, sentindo toda a magreza daquele corpo que parecia tão mais frágil que o meu.

A minha consciência se esvaiu e eu me entreguei ao conforto daquele abraço, enquanto sentia uma vontade imensa de chorar também.

E, mais uma vez, desejei que o poder da magia existisse, e que alguma fada-madrinha atendesse ao meu pedido e tornasse aquele homem meu, e momentos como aqueles eterno.

Continua...

[1]CIA — Central Intelligence Agency (lit. "Agência Central de Inteligência", em inglês), mais conhecida pela sigla CIA, é uma agência de inteligência civil do governo dos Estados Unidos responsável por investigar e fornecer informações de segurança nacional para os senadores daquele país. A CIA também se engaja em atividades secretas, a pedido do presidente dos Estados Unidos. (Fonte: Wikipédia).

Notas finais
Eu achei que iria terminar a fic em seis capítulos, mas ela irá terminar em 08 + 09 (capítulo bônus) e o epílogo! Ou seja, dez! Estamos na metade. ;) Até o próximo! Comentem!