Sem Querer, Juntos!
6 Capítulo 6 - Convivencia
Notas iniciais
Sem querer, juntos.
Capítulo 6 – Convivência.
Depois do meu grande desabafo as coisas entre eu e Naruto ficaram um pouco mais estranhas.
No momento em que eu estava desabafando não pensei no depois, porque simplesmente imaginei que não haveria depois. Eu acreditava veemente que se confessasse ao Naruto tudo que estava engasgado ele me expulsaria da sua vida. Entretanto, não foi como eu pensei.
O Naruto com o qual passei a conviver era muito diferente do ogro que conheci a primeira vista e muito mais diferente ainda do fantasma-ambulante-depressivo que surgiu no lugar do ogro depois da morte de Sakura.
A nuvem negra que pairava estacionada sobre sua cabeça se dissipou completamente. Assim como desapareceram também o olhar de desconfiança e a cara de repulsa por ele não gostar de mim. No lugar disso, Naruto passou a exibir um semblante leve, confiante e até mesmo sorridente. Algo que me deixava estranhamente constrangido. Pois quando ele sorria, parecia expor sua alma, como ato de expor o corpo quando está se despindo. Talvez essa comparação grosseira é que me fazia ficar constrangido todas às vezes que eu o via sorrir.
Eu já conseguia compreender um pouco dos motivos que levaram Sakura a se apaixonar por ele, além do belo corpo e do par de olhos azuis, óbvio. Afinal, tenho que confessar, as mulheres são difíceis de compreender, no entanto, são bem mais maduras que os homens em alguns quesitos, um deles, é presar mais pelo que as pessoas tem a oferecer por dentro do que por fora.
No entanto, a meu ver, Naruto ainda tinha muitos defeitos. Posso enumerar tranquilamente os principais: dormir até tarde, aversão aos serviços domésticos e na cozinha ser um verdadeiro desastre. Sempre ouvi falar de pessoas que não sabem ‘fritar nem um ovo’, mas nunca tinha visto uma de verdade. O que me levava crer que essa história era somente um tipo de lenda urbana sensacionalista. Afinal, a comida é essencial para a vida, como alguém pode não saber cozinhar? É como não saber beber água, tomar banho, escovar os dentes, arrumar a própria cama, lavar o prato que come. O indivíduo pode não saber cozinhar bem, isso é um fato, mas não saber sequer montar um sanduíche? Cortar verduras e fazer uma salada? Cozinhar macarrão e preparar um molho? Muitos ingredientes hoje vem prontos em caixa, é só esquentar e montar a sua maneira. Mas Naruto me surpreendeu ao mostrar que a única coisa que ele sabe fazer é macarrão instantâneo, vulgo “ramen”. Ramen pode ser considerado básico para sobrevivência? Óbvio que não! O nosso corpo necessita de nutrientes encontrados em variados tipos de alimentos, um único alimento jamais vai suprir o nosso organismo de tudo que ele precisa para funcionar cem por cento.
Enfim, acabei criticando-o ao dizer que ele não tinha só a aparência de príncipe de contos infantis, mas que ele parecia ser um de verdade; tamanha era sua falta de jeito para desenvolver atividades básicas a sobrevivência humana. Ele só sorriu em resposta, e eu acabei totalmente desconcertado.
Naruto não era somente sorriso, descobri um lado bem rabugento, como o fato dele detestar perder. Todas as vezes que jogávamos algo, fosse um futebol na grama do jardim, basquete na área do fundo ou até mesmo videogame, — e ele perdia —, eu poderia me preparar para ouvi-lo reclamar durante o dia todo, isso quando ele não ficava pedindo uma revanche atrás da outra. Em alguns casos, eu o via treinando sozinho com a promessa de que me venceria na próxima partida.
Eu não me importava de verdade com esse mal humor que é natural do espírito de disputa masculino. Jogamos pra ganhar, nunca pra perder. Para que os jogos seriam criados senão para competir? E quem seria idiota o suficiente para entrar em um jogo sem o desejo de vencer? Se não houvesse o desejo de vitória, não haveria o preparo e a busca por superação. O desejo, acima de tudo, é de se provar que é superior naquilo em que está competindo.
E eu não podia negar, Naruto era sincero nesse e em muitos outros momentos. Tão límpido e transparente como seus olhos claros.
Isso foi brega.
Céus, estar apaixonado é brega. Afinal, quem mais acharia linda a cara emburrada de outra pessoa? Somente tolos apaixonados, como eu. Todas as expressões de Naruto me fascinavam, a de raiva, mais que qualquer outra. Suas bochechas inchadas e vermelhas eram lidas, os lábios contraídos e formando um grande bico eram fofos, a testa enrugada, as mãos cruzadas no peito, perfeitos.
Vê-lo tendo essas crises tornava difícil conter o sorriso que nascia espontaneamente no meu rosto, e que só servia para deixá-lo ainda mais enraivecido, como se eu estivesse rindo da derrota dele, enquanto na minha mente o que se passava era somente o desejo de congelá-lo para sempre com aquela expressão de criança mimada.
A Aya-chan é minha pequena cúmplice nesse gosto em comum. Pois eu percebi o quanto ela também se diverte ao ver o pai dando suas crises.
Ademais, nosso convívio se tornou algo bem normal para dois caras solteiros que dividem uma mesma casa, se não fosse a exceção de estarmos cuidando de uma criança juntos. Um fato que por si só já quebrava toda a normalidade da situação.
Apesar da minha confissão ter tornado a convivência entre Naruto e eu mais leve, tenho que admitir que ela não me deu expectativas para algo no futuro. Também não posso afirmar que não ter esperança não me incomoda, porque incomoda e muito.
Os antigos receios que eu tinha se foram, mas eles deram lugar a novos e mais assustadores.
Antes meu medo era apenas que Naruto me expulsasse de sua vida ao saber sobre os meus sentimentos. Agora que ele sabia, e não me dava indícios de que iria me expulsar, tampouco me responder positivamente, eu começava a me sentir incomodado com outros pensamentos. Todos relacionado a um futuro provável e tão horripilante que me dava embrulho no estômago. Nesse futuro eu via Naruto voltando a sua rotina, ao trabalho, as amizades... Até aí tudo bem. O problema dessa minha visão do futuro era quando eu o imaginava se esbarrando com alguém. Alguém interessante, uma garota interessante.
Ainda não acabou. A minha imaginação consegue ser ardilosa e tornar esse filme ainda pior ao me fazer imaginar Naruto apresentando sua nova pretendente a mim, enquanto falava com o sorriso mais lindo dom mundo: “Sasuke, chegou o momento de superar a perda da Sakura e seguir em frente”.
Ai, minhas entranhas.
E, como um sonho se tornando pesadelo, eu me via sendo padrinho mais uma vez, assistindo ao parto de novos filhos, enquanto a bela-futura-estranha se apossava de tudo aquilo que Sakura me confiou, e o qual eu me esforcei tanto para manter inteiro.
Exatamente como ocorre em uma disputa, onde nem sempre conseguimos sair vencedores, no amor, nem sempre sairemos vencedores, ou melhor, correspondidos. Todavia, não dá pra se declarar “perdedor” sem ao menos entrar na competição pra valer. Sei que não é certo impedir a pessoa que amo de encontrar outro alguém, formar uma nova família e seguir em frente, mas não seria justo comigo também se eu simplesmente desistisse sem tentar.
Tenho ciência de que aleguei a princípio que, formar uma família, não era algo do meu interesse. Afirmei também que somente em contos de fadas, filmes açucarados, ou através de magia, um cara heterossexual, do tipo que tem aversão a gays como o Naruto, se tornaria homossexual da noite para o dia. No entanto, eu nunca senti por ninguém o que estava sentindo. Acredito que sou humano, e posso me dar ao direito de ser redundante como a maioria dos seres humanos são ao menos uma única vez.
Mas a verdade é que pesquisei e descobri que há vários casos, senão a grande maioria, de homossexuais que se descobriram homossexuais depois estarem casados e firmes em um relacionamento heterossexual. Li em um site especializado no assunto o artigo de uma psicóloga que alega que todos os indivíduos nascem heterossexuais porque a sociedade impõe desta forma, mesmo que um recém-nascido não tenha ainda autonomia de escolha, nem consciência para saber o que é um ou o outro. Então esse indivíduo cresce acreditando que existe apenas uma forma de relacionamento e que os outros tipos, e as pessoas que os disseminam, são aberrações da natureza, anomalias genéticas, doentes, pervertidos, pecadores, blasfemadores.
Indiferente ao que outros pensam, continuo acreditando que ninguém consegue transformar outro ser humano em algo que ele não queira ser, ou se entregar. Porém, quando se trata de amor, tudo pode ser possível.
Não fui eu quem disse que o amor não enxerga barreiras, são os relatos das pessoas que já viveram um amor que antes parecia ser impossível. Um negro pode amar um branco, um ateu pode amar um religioso, um baixo pode amar um alto, um terráqueo pode amar uma alienígena, porque não há regras para que o amor nasça e se expanda dentro de alguém.
Dizem que a capacidade de amar, acima dos instintos, é o que nos distingue dos seres irracionais. Então, se o que está em jogo é o amor em sua forma universal, querer ser correspondido, de alguma forma, não é uma questão tão fora de cogitação. Eu quero dar essa chance para o Naruto avaliar a possibilidade. Quero ao menos entrar no jogo, antes de me declarar perdedor. Se, mesmo depois da minha tentativa, não conseguir cruzar a linha de chegada, vou me resignar, mas não me condenar no futuro por não ter tentado.
Suspirei fundo.
Com essa nova meta traçada em minha mente, eu só precisava encontrar o momento oportuno para agir.
Algo que eu coloquei na cabeça é que era importante não me afobar, para não vir a cometer erros. Pois em uma situação delicada como essa, um erro poderia significar morte súbita.
....
Naquela tarde decidimos visitar Neji e Hinata. Passamos a tarde inteira na companhia dos novos papais corujas e seu pequeno Tori[1].
Quando entramos no assunto de que eu estava a procura de emprego, fui surpreendido por uma proposta de Neji, que era sócio de um escritório de advocacia.
— A Hinata-san me disse que você era revisor na agência que a Sakura-san gerenciava. Depois que o Tori-chan nasceu não estou tendo tempo de revisar os processos porque preciso passar mais tempo em casa. Para falar a verdade, há algum tempo estou precisando de um assessor, e venho adiando a ideia, mas agora não dá mais pra adiar, minha prioridade se tornou outra — ele olhou com carinho para o filho que estava no colo da Hinata, que estava sentada em uma poltrona na frente do Naruto, que por vez, estava com a Ayame-chan no colo.
E eu nem precisava daquele gesto para compreender de qual prioridade Neji se referia.
— Eu não tenho muita noção de termos jurídicos — comentei, fazendo-o voltar a atenção novamente para mim.
— Para isso existem os dicionários jurídicos no escritório.
Eu abri um sorriso.
— Não sei como posso agradecê-lo.
— Estando no meu escritório amanhã as dez.
Neji estendeu a mão na minha direção, querendo selar aquele compromisso. Claro que, rapidamente, uni minha mão com a dele e a apertei firme, correspondendo ao cumprimento e garantindo assim que estaria lá.
Naruto não se moveu, mas observou nossa troca de cumprimento de canto de olho, deixando a entender que havia ficado a par do que estava ocorrendo.
Hinata chamou nossa atenção ao ajeitar o bebê no colo, fazendo menção de que queria se levantar.
— Neji-san, poderia pegar o Tori-chan por um minuto, por favor? — ela se ergueu e veio na nossa direção.
— Deixa que eu pego — eu me propus, levantando na frente e estendendo os braços na direção dela. Percebi Neji me fitar um pouco apreensivo. Mas quando ele percebeu que eu tinha habilidade suficiente para aquela tarefa ele se acalmou.
— E aí, garotão? — eu perguntei, voltando a me sentar ao lado do pai da criança. — O que está achando do ambiente aqui fora?
— Você leva jeito, Uchiha — Neji observou. — Acredito até que tem mais jeito do que eu.
— Meio que fui obrigado a aprender. Mas é questão de tempo, logo você perde o medo.
— Será? — ele duvidou, soltando um breve suspiro. — Bebês parecem tão frágeis que dá impressão que vão se quebrar facilmente dependendo de como vamos pegá-los.
— Eu também tinha essa impressão no começo, por isso digo que é uma questão de tempo, você vai pegando o jeito de segurá-los e vai perdendo o medo.
— Entendi.
— Naruto-kun? — a voz feminina de Hinata repercutiu tão harmoniosa dentro da sala, eu poderia arriscar até “afetuosa demais”, ao chamar por Naruto que, tanto eu quanto Neji, nos voltamos automaticamente para ela.
Depois de me entregar o Tori, a Hinata havia entrado em um dos cômodos da casa e retornado trazendo consigo o que parecia uma sacola de presente. Naruto olhou para ela e depois para sacola, voltou a repetir o gesto e enfim perguntou:
— O que é?
— Presente — ela respondeu simples e docilmente.
— Eu não posso aceitar — ele replicou rápido.
— Por favor, aceite. Eu fiz com carinho. Hoje é seu aniversário.
A informação me pegou totalmente desprevenido. Rapidamente me voltei para Neji, entendendo o porquê dele, que me aparentava ser do tipo extremamente ciumento, estava tranquilo enquanto a esposa presenteava um outro cara.
Voltei a observar Naruto, que se mantinha receoso em aceitar o presente. Então eu vi a Hinata deixar o presente na mesinha ao lado da poltrona onde Naruto estava acomodado e estender os braços pra apanhar a Aya-chan que dormia tranquila no colo dele. Assim que ela pegou a bebê, apontou para sacola e pediu novamente, o tom de voz soando desta vez como uma demanda.
— Aceite, por favor, Naruto-kun.
Depois de coçar a nuca, olhar de um lado para o outro, eu vi Naruto apanhar a sacola e espiar o que tinha dentro.
— Feliz aniversário — Hinata aproveitou para desejar.
— Arigatô, Hinata. Posso mesmo?
— Hm — ela assentiu com a cabeça também.
Em seguida, ele retirou de dentro da sacola um lindo cachecol feito a mão o qual enrolou no pescoço. Depois disso sorriu carinhosamente para a bela mulher que segurava sua filha e se curvou para agradecê-la. A cor do cachecol era de um tom alaranjado escuro, quase chegando a um vermelho, com umas listras pretas na ponta. Lindo. E pelo que havia compreendido, tinha sido confeccionado a mão pela própria Hinata. Um presente não só personalizado, mas pessoal, íntimo. Afinal, ela deveria ter colocado sua alma e todo seu carinho ao confeccioná-lo. Era quase como se fosse uma parte dela, talvez os braços, que agora envolviam elegantemente o pescoço de Naruto.
Mesmo que parecesse medíocre da minha parte, aquele sentimento ruim surgiu com força, fazendo meu estômago se contrair.
Inveja, ciúmes. Não pelo presente em si, mas por saber que aquela garota tão linda, meiga, delicada, e que tinha tanto carinho por Naruto, tinha mais chances de ganhar o coração dele com aquele simples gesto, do que eu teria em uma vida inteira de dedicação ao lado dele.
Tentei desviar minha atenção deles para amenizar aquela coisa ruim que eu estava sentindo e que fazia meu estômago embrulhar. Mas quando olhei o Tori-chan em meu colo, me observando com aqueles olhinhos atentos e bem abertos, percebi que não fui invadido pela mesma paz interior que sentia quando eu admirava a Ayame. A sensação ruim que eu estava sentindo não desapareceu também, poderia até afirmar que ela se intensificou, ao imaginar que aquele lindo bebê no meu colo seria um perfeito irmãozinho para a Aya-chan.
Apenas a mão de Neji apertando meu ombro foi capaz de dispersar todos aqueles pensamentos. Eu me voltei para ele, e notei que o senhor Hyuuga tinha uma face endurecida, as sobrancelhas levemente franzidas e um olhar frio, quase homicida, na direção dos dois.
Sim, Neji compartilhava da minha angústia.
— Sabe, Uchiha — ele comentou, parecendo ter cuidado em ponderar as palavras. — Espero que essa sua expressão seja a de alguém que esteja prestes a tomar alguma providência — ele completou em um tom baixo, para que os outros dois que estavam conversando animadamente, alheios a nossa tensão, não ouvissem.
Eu encarei Neji, que continuou com sua atenção fixa na esposa e em Naruto.
— O Naruto não é gay, Hyuuga. Se está achando que...
— Ninguém é — ele me interrompeu, fixando seus olhar furtivo em mim. — Essa criança em seus braços é um exemplo. Agora, nesse momento, ela também não é. E espero sinceramente que jamais seja. Mas não sou eu quem irá determinar. É algo que simplesmente pode acontecer. Ninguém tem um controle ou a absoluta certeza de nada nesse mundo — ele concluiu e voltou a encarar Naruto e a esposa.
Voltei a fitar o Tori-chan que de tão confortável em meu colo havia fechado os olhinhos e agora ressonava baixinho. Admirei suas bochechas rosadas, sua paz, a inocência, e enfim consegui sorrir. Aquela sensação estranha de angústia se dissipou por completo e a minha alto-confiança retornou com força.
Mas eu não sabia se eu simpatizava com Neji, ou se ficava em alerta. A princípio, resolvi receber aquele estranho aviso como palavras de incentivo, mesmo que na verdade eu soubesse que o senhor Hyuuga estivesse apenas pensando em si próprio e no desejo incandescente de afastar de uma vez por todas aquela ameaça de encantadores olhos azuis e sorriso avantajado, que ainda ocupava um grande espaço no coração da sua doce Hinata.
Nos despedimos dos Hyuuga pouco depois.
Naruto voltava a agradecer a Hinata pelo presente pela décima vez aquela noite, enquanto eu prendia a Ayame na cadeirinha do bebê-conforto na parte de trás do carro, me despedi com acenos breves e entrei na parte da motorista.
— Vamos, Naruto! — o apressei, me debruçando sobre o banco do passageiro ao meu lado e apanhando a ponta do cachecol que estava aparecendo na janela, puxando-o.
— Ei, ei, ei, peraí — ele reclamou, rindo.
— Serve como coleira.
— Ah, engraçadinho... — ele resmungou e entrou no carro sorrindo. Eu tratei de funcionar logo o motor e sair rapidamente, antes que a despedida se alongasse ainda mais.
Naruto continuou acenando pela janela aberta. Eu apenas fitei o retrovisor do meio do carro onde vi Neji abraçar a esposa pelos ombros e levá-la de volta para dentro da residência. Então achei que aquela era uma boa oportunidade para convidá-lo para sair.
— Certo, onde iremos comemorar? — perguntei ao notar que ele finalmente se arrumava no banco e colocava o cinto de segurança.
— Não precisa.
— Lógico que precisa. É seu aniversário. Apesar de eu me sentir o único idiota naquela sala por não saber.
— Não tinha porque eu ficar anunciando, é só um dia qualquer.
Eu também pensava daquela forma há um tempo atrás, mas agora era diferente.
— Quer dizer que quando a Aya-chan fizer aniversário você irá tratá-lo como um dia qualquer também?
— Claro que não! — ele rebateu efusivamente.
— Viu? Você pode não considerar seu aniversário importante, é um direito seu. Mas é especial para aqueles que nos ama. É o momento que eles podem demonstrar seus sentimentos através de gesto, palavras, ou... presentes.
Eu percebi tarde que havia dito algo idiota. Havia acabado de confessar, implicitamente, que a Hinata o amava ao presenteá-lo com algo especial, feito por ela mesmo. Não só apenas isso, havia deixado a entender que eu também o amava ao querer presenteá-lo também. Não sei porque falei essa merda, e esperei, sinceramente, que ele não tivesse percebido.
Porém, Naruto ficou sério por um tempo. Depois disso, apanhou a ponta do cachecol e sorriu, como se tivesse compreendido.
— É verdade. A Hinata foi muito gentil.
Aquela observação me feriu, Naruto havia percebido no final das contas.
Entretanto, ele só observou o que lhe convinha, os sentimentos de Hinata. Mas sequer comentou a parte na qual eu me inseria também como alguém que o amava e queria presenteá-lo naquele dia.
— Sim, muito — acabei concordando, ironicamente, afetado.
— Então é isso? — Eu o percebi se voltar para mim segurando uma das pontas do cachecol, um sorrisinho matreiro brincando em seus lábios. Como se não bastasse expor o motivo pelo qual eu estava irritado, ele passou alisar, propositalmente, o cachecol no pescoço. Quis gritar para ele parar de acariciar “os braços” da Hinata, informando que ela era casada, mas meu orgulho não permitiu. Apenas fiquei quieto, enquanto ele continuava me provocando, todo debochado. — Ficou com ciúmes porque a Hinata me deu um presente e você não? Agora quer competir? Mas saiba que só vai superar o presente dela se me der um anel de diamante azul.
— Você era muito mais agradável quando não abria a boca e não fazia piadinhas infames, interesseiro.
Ele gargalhou alto.
— Posso te pagar um jantar — eu disse. — Deixa “O coração do Oceano”[2] no fundo do mar, onde é o seu lugar.
— Mas eu estou falando sério, não quero jantar fora. Não gosto muito dessas firulas de restaurantes. Sou mais pegar umas bebidas na conveniência perto de casa, a gente pede pizza e você... poderia me ajudar a passar de fase no maldito Resident Evil!
— Ah? E o que aconteceu com o discurso: “Eu não tenho paciência para jogos de exploração, eu prefiro mil vezes Mario, Terraria, Minecraft...”?
— Vai mesmo ficar me zoando no meu aniversário?
Senti uma veia pulsar na minha testa.
— Agora convém ser seu aniversário?
— Você é quem começou com isso.
O pior é que aquela merda de alegação era verdade.
— Certo. Vou te dar um desconto porque é seu aniversário — me dei por vencido e suspirei. — Mas será que a Aya-chan aprova a ideia?
— Vou perguntar!
Naruto se voltou para trás para conversar com a filha.
— Ela nem está prestando atenção no que a gente está falando. Tá brincando com o próprio pesinho, tentando pegar o laço do sapato. Ei, filhinha? Você ouviu o plano do papai? O que acha de passarmos a noite jogando videogame, hein? Ei, estou falando com você, Aya-chan. Esse sapato é mais interessante que eu??
Enquanto Naruto disputava a atenção da bebê com o laço do sapato dela, eu me enchi de algo novo, de uma estranha... esperança.
Continua...
Nota: A cena da Ayame-chan mamando no mamilo do Naruto fez tanto sucesso, que quando vi a imagem aí embaixo, achei que casava perfeitamente com a fic. Mas as imagens originais é do Fandom de Kuroko no Basket. Créditos da arte à fanartista, o perfil dela -> Pixiv.

[1] Tori – Pássaro.
[2] Se existe alguém que não assistiu ao filme “Titanic” e não entendeu a referência de Sasuke, segue explicação: “Coração do Oceano” se refere ao nome do diamante azul que a personagem Rose (interpretada pela Kate Winslet) ganhou de presente de casamento do seu noivo Cal (Billy Zane) e como todos sabem o Titanic afundou, levando consigo a joia rara de valor inestimável que descansa no fundo do oceano. Pelo menos, é o que mergulhadores, caçadores de tesouro, imaginavam.
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