Sem Querer, Juntos!

4 Capítulo 4 - Mudanças


Notas iniciais
Demorei um bocado e para compensar essa demora, postagem de dois capítulos! Esperem que gostem e por favor, comentem.

Sem querer, juntos.

Capítulo 4 – Mudanças.

“Ayame[1]”, o nome da filha que havia sido escolhido previamente por Sakura rodopiava em um pedestal sobre o berço, da mesma forma que estava disposto em letras coloridas na porta do quarto e na parede branca ao lado do berço.

Naruto estava encostado rente a janela. O olhar longínquo voltado para o céu ensolarado além do vidro fechado, os braços cruzados no peito. Ele vestia apenas o roupão de banho e parecia desligado daquela realidade. A mente certamente vagava em uma dimensão onde o choro da neném recém-nascida não o alcançava.

Deixei a cesta de frutas em cima da cômoda ao lado da porta e me aproximei do berço, notando de imediato a mancha de urina no lençol.

— Você precisa trocá-la — eu o avisei e fui totalmente ignorado.

Voltei-me para criança e, sem prática alguma, peguei a bebê segurando-a por debaixo dos bracinhos. Minhas mãos grandes envolveram suas costas e percebi que ela não era um objeto extremamente frágil como eu imaginava.

Enquanto o choro continuava ecoando de maneira estridente, depositei-a sobre o trocador. Olhei Naruto, sustentando uma última esperança de que ele decidisse fazer aquilo, mas seus olhos continuavam distantes.

Suspirei fundo.

Com cuidado passei a desabotoar o macaquinho rosa que a bebê estava vestindo. Depois de tirá-lo, o dobrei, e o coloquei dentro de um recipiente rosa com a tampa que lembrava a cara achatada de um urso panda, onde estava escrito: “roupas para lavar”. Até ali eu estava indo bem sozinho, e continuei indo bem até a parte de tirar a fralda suja e limpar a Ayame-chan com lenços umedecidos. Entretanto, a etapa de colocar a fralda limpa e prendê-la com as fitas adesivas foi um desafio, o qual eu venci com louvor — quero deixar claro — depois de ler as instruções no pacote e assistir dois vídeos tutoriais na internet pelo celular.

A pequena Ayame havia interrompido o choro no meio do processo e passou a me encarar com seus olhinhos curiosos, certamente achando graça da minha falta de habilidade. Ao terminar a apanhei novamente, segurando-a por debaixo dos bracinhos.

— Eu sei que por dentro você está rindo de mim. Esses seus olhinhos espertos não mentem — comentei.

Mas não é que aquela danadinha tinha mesmo um plano? Desde o começo ela havia elaborado um plano para tornar minha primeira troca de fraudas um tremendo fracasso. Não demorou e logo veio à confirmação do que eu estava imaginando: a fralda mudou de cor na parte debaixo e na sequência ela recomeçou o choro.

— Tenho quase certeza que bebês são dotados de inteligência lógica — resmunguei, depositando-a de volta no trocador. — Só não são capazes ainda de se expressarem e por isso se safam com essas carinhas fofas.

Suspirei fundo mais uma vez. Conseguir ser ágil na segunda troca. As fitas da fralda não grudaram aonde não deviam e até consegui vestir nela outra roupa seca, a qual eu encontrei junto com muitas outras que estavam bem organizadas nas gavetas da cômoda. Sakura havia mesmo deixado tudo preparado para chegada da Ayame-chan.

— Certo, agora está tudo resolvido, não é? — perguntei ao apanhá-la novamente. — Está limpinha e seca. Nada de planos malignos, entendido?

Fui eu fechar a boca e percebi o rostinho da pequena se contorcer e ganhar um tom ainda mais vermelho nas suas bochechas antes rosadas.

— Você não está fazendo o número dois, está? — sugestionei para perceber que as mulheres já nascem sensíveis, minha pergunta obviamente a ofendeu, pois seus olhinhos claros brilharam de lágrimas e ela recomeçou o choro ainda mais alto.

Mais depressa o possível a depositei no trocador novamente, reabri a roupa e analisei a fralda, apenas para constatar que estava tudo em ordem. Deduzi então que só podia ser fome. Mas aí já era algo complexo demais para mim. O que os bebês comiam afinal? Apesar de que, tenho a leve impressão que os bebês só tomam leite ou líquidos, pois aquela banguelinha ali certamente teria dificuldade de comer não tendo nenhum dente na boca ainda.

— Naruto? Naruto? — eu o chamei depois de me aproximar o suficiente para sacudi-lo por um dos ombros, enquanto segurava a pequena Ayame-chan de forma desajeitada em um dos meus braços. — Sua sogra não iria ficar depois do enterro para cuidar da bebê?

A verdade é que eu não tinha certeza daquela afirmação, pois durante o funeral eu apenas ouvi rumores de que os pais de Sakura ficariam para apoiar o Naruto. Mesmo assim, eu não os via desde o enterro. O que remetia ao fato de que eles não estavam mais na capital e a possibilidade de que haviam voltado para a cidade que moravam era grande.

Para alguém de fora, como eu, era difícil deduzir o que estava realmente acontecendo, já que não tinha intimidade com a família de Sakura e tão pouco com o próprio Naruto. A única coisa que eu sabia era que a pequena Ayame havia tido alta um dia depois do enterro de Sakura e sabia isso porque liguei no Hospital e me informei. Também descobri que Naruto tinha ido apanhá-la.

Interrompi o meu fio de raciocínio quando finalmente Naruto se moveu, ele me olhou e assim que o fez algo em mim se quebrou. O belo rosto que ele tinha estava com uma expressão destruída. Havia olheiras profundas e o branco dos olhos estavam avermelhados. Era como se ele se não dormisse desde a morte de Sakura, há quatro dias.

A verdade é que eu imaginei que Naruto iria mesmo passar por um estado de depressão devido a perda, só não imaginei que ele estaria tão sozinho nesse processo. No enterro de Sakura eu havia percebido os pais dela estranhamente distantes dele. O olhavam como se a filha não tivesse sofrido uma fatalidade do destino e, sim, tivesse sido brutalmente assassinada. E muito pior do que isso, que o culpado era o marido.

Em um gesto automático Naruto me surpreendeu ao pegar a Ayame-chan do meu braço e aconchegá-la junto ao seu peito. Mas em seguida, voltou apoiar o cotovelo no beiral da janela e o queixo no punho fechado, enquanto os olhos se voltaram mais uma vez para o vidro. Ele não me respondeu. A criança ficou resfolegando o rostinho no robe aberto dele até que o mamilo esquerdo — que já estava vermelho e levemente inchado — se descobriu e instintivamente ela o encontrou, o abocanhou e passou a sugá-lo. O choro acalmou momentaneamente, mas ao notar que dali não saía nada que fosse alimentá-la, o choro retornou.

— Naruto? Eu te fiz uma pergunta. — insisti, elevando um pouco o tom da minha voz para me fazer audível. Mas ganhei aquele olhar aturdido por parte dele. Um olhar de surpresa e estranhamento, como se de repente eu fosse um armário que obtivera vida e estava lhe fazendo perguntas.

— Ah, disseram que vem amanhã... — respondeu simplesmente, e voltou a encostar o queixo no punho, o qual tinha levantado minimamente para me dirigir aquele olhar vago e atordoado.

Não. Eu já deveria imaginar. A mãe de Sakura não viria. Era o terceiro dia que eu o visitava e das outras duas vezes ele meu deu a mesma resposta. Eu ainda insistia em perguntar. Insistia em acreditar que ele não estava sendo culpado pela morte da esposa e que ele mesmo não estava se sentindo culpado por isso. Mas a verdade não era essa. A família de Sakura estava machucada e naquele momento Naruto e a criança eram o foco dessa ferida. Apoiar o genro e a neta talvez significasse manter a ferida aberta. Eles precisavam de um tempo para se recuperar e esperar a ferida cicatrizar e enfim aceitar a realidade.

Só que eles não estavam levando em consideração que aqueles dois ali também precisavam de ajuda.

Talvez, mais que qualquer um deles.

Então notei outro detalhe: a aparência da bebê. Ayame nascera praticamente careca, na verdade, havia apenas uma fina pelugem ruiva recobrindo sua cabeça. Ela seria ruiva. Mas não teria o cabelo ruivo avermelhado e sim um tom mais para o alaranjado, acobreado; certamente o resultado da mistura do loiro de Naruto com o rosa dos cabelos de Sakura. Os olhos dela eram grandes como os de Naruto, um azul cujo tom ainda era turvo, por se definir. Mas eu já conseguia vê-la exatamente como aquela ruiva personagem da série da J.K. Rowling a qual não me recordo o nome agora, pois não li os livros, só vi algumas imagens aleatórias na internet ou em pôsteres em livrarias e cinemas. Mas conseguia imaginá-la com longos cabelos ruivos acobreados, olhos azuis brilhantes e sardas nas bochechas. Era uma criança perfeita. Resultado de um grande amor.

Todavia, era certo que ela ainda não carregava características marcantes dos pais, e talvez, fosse esse um dos motivos que fizessem os pais de Sakura não concebê-la ainda como neta, um pedaço que a filha deixou no mundo para crescer recebendo um amor incondicional do pai e de qualquer um que a rodeasse.

Então aquela estranha angústia me atingiu tão rápido quanto um soco na boca do estômago e precisei sair do quarto às pressas. Não fui muito longe. Encostei a porta cuidadosamente atrás de mim e sentei no chão mesmo, ao lado da entrada, a qual havia fechado. Recostei-me a parede, encobri o meu rosto com ambas as mãos e o choro finalmente desentalou.

Chorei como não havia chorado no funeral de Sakura. Chorei como se fosse o meu mundo desabando e não o de Naruto. Chorei como se fosse capaz de sentir cada milímetro da dor daquele pai ali dentro ao segurar aquela criança sem mãe no colo.

E foi nesse momento que decidi aceitar o destino que foi me imposto por Sakura: cuidar do homem que ela amou e da filha que ela lhe deu de presente.

Seria um grande desafio...

Sequei o rosto com o antebraço, inspirei fundo e me levantei. Já com a primeira tarefa determinada em minha mente: arrumar uma enfermeira. A criança precisava de cuidados dos quais Naruto, tampouco eu, teríamos condições de dar.

Mas antes disso, a neném estava chorando de fome e era preciso alimentá-la. Há dois dias Naruto a estava alimentando e eu só precisava entender como ele estava fazendo aquilo, sendo que ele parecia tão fora de órbita.

Movido por minha curiosidade, entrei na cozinha e vi tudo limpo e arrumado. Mas notei alguns vestígios de que realmente ele estivera preparando o alimento da criança, pois havia utensílios da bebê organizados em uma parte da pia, uma lata de leite, mamadeira, uma panela pequena.

Nos outros dois dias anteriores eu estava indo visitá-lo depois do expediente, por isso não o vi fazendo nada. Mas hoje é sábado, meu dia de folga, por esse motivo vim visitá-lo mais cedo e passar mais tempo com os dois.

Sobressaltei ao ter meu pensamento interrompido pelo barulho do interfone tocando. Fui até o aparelho e o atendi rapidamente, esperançoso que pudesse ser a sogra de Naruto.

— Alô?

— Na- Naruto-kun? — eu reconheci aquela voz. — V- você poderia abrir? Viemos ajudá-lo novamente.

— Hinata-san?

— Sa- Sasuke-kun?

— Sim. Sou eu. Um minuto, eu vou abrir.

Assim que o casal ultrapassou a porta eu entendi enfim o que estava acontecendo. Desde o casamento eu não via Hinata e me surpreendi ao vê-la também com uma barriga pequena, ainda discreta. O marido ao lado dela era um homem de expressão fechada, tinha alguns traços que me lembravam os da própria Hinata, fazendo-os parecer mais irmãos do que marido e mulher. Entretanto, formavam um casal bonito, diria homogêneo.

Os dois me cumprimentaram de maneira formal, curvando metade do corpo para frente. Formais exatamente como suas expressões sérias. Repeti o cumprimento e fiz um gesto para que entrassem. Mas não deu tempo de pedir que se acomodassem, pois o choro estridente da Ayame conduziu Hinata pelos cômodos da casa, como se ela já estivesse estado ali antes e soubesse precisamente onde encontrá-la.

Antes que eu me sentisse incomodado diante daquele homem vestido de terno em pleno sábado de manhã, Hinata voltou à sala embalando a neném em seu colo.

— Ela deve estar com fome — Hinata comentou.

É. Até ali eu também havia deduzido. Mas, novamente, antes que eu dissesse algo, Hinata se aproximou do marido e depositou a bebê nos braços dele, informando em seguida:

— Vou preparar a mamadeira. Enquanto isso, cuide dela, Neji-san.

E saiu afobada para cozinha. O marido me olhou atordoado, com se me perguntasse “o que eu faço?”. Ele parecia mais desajeitado do que eu com a criança, então me ofereci.

­ — Quer que eu a pegue?

Mas ao contrário do que imaginava, ele franziu as sobrancelhas finas, como se eu fosse alguém suspeito. Mais do que isso, verbalizou o que realmente pensou.

— E quem é você? De onde conhece minha esposa?

Ah, ótimo. Momento perfeito para interrogatório de um marido ciumento. Além de tudo vou ser pivô de uma suspeita de traição?

— Ele é o Sasuke-kun, Neji-san — a própria Hinata quem respondeu ao ouvir a pergunta do marido, já que a cozinha só era separada da sala por uma parede. — Falei sobre ele com você. Ele foi meu par no casamento.

Obviamente aquela notícia não amenizou a cara feia do tal ‘Neji-san’, que juntou ainda mais as sobrancelhas, denotando toda sua desconfiança sobre minha pessoa. O que é bem normal, afinal, minha boa aparência trás dessas desconfianças. Mas eu sei exatamente como aplacar essa suspeita em menos de um minuto e ainda de quebra constrangê-lo.

— Gostei do seu terno — observei e sorri de canto. — Não é comum vermos um homem bonito e elegante desfilando em um Armani todos os dias. Hinata, você não me disse que seu marido era tão bonito. Ainda bem que você o fisgou antes, ele faz exatamente o tipo que aprecio. Uchiha Sasuke, assistente e melhor amigo de Sakura.

Enquanto o olhar dele mudava de desconfiado para aparvalhado, Hinata saiu da cozinha com a mamadeira nas mãos e pegou a bebê que ainda chorava dos braços do marido. Sentou-se no sofá, acomodando a Ayame-chan em seu colo e direcionou na boquinha dela o bico da mamadeira.

— Pronto, pronto, Ayame-chan. Aqui está o leitinho. Não chore mais.

O senhor Neji olhou totalmente constrangido para esposa e depois para mim, então suspirou e estendeu a mão para responder ao meu cumprimento. Mas foi breve. Muito breve.

— Hyuuga Neji — disse, apertando minha mão de uma maneira firme e puxando-a de volta para si em seguida. Depois, se acomodou no sofá ao lado da esposa.

Claro que precisei me esforçar para segurar o riso. Tipos como ele eram tão fáceis de ler e mais fáceis ainda de lidar.

Depois desse momento, aparentemente de descontração, voltamos a ficar sérios. Enquanto Hinata amamentava a bebê, ela me explicou:

— Viemos para o enterro. Mas infelizmente não chegamos a tempo. Então decidimos visitar o Naruto-kun. Foi no dia em que ele chegou do hospital com a Ayame-chan. Mas ele estava sozinho. Ficamos em torno de meia hora tocando o interfone até ele vir nos atender. Só insistimos porque sabíamos que ele estava em casa devido ao choro da neném que dava para ser ouvido lá lado de fora. Mas o tempo inteiro que ficamos aqui o Naruto-kun não disse uma palavra.

— Ele está passando por um estado de depressão. — Alternei o olhar para o marido de Hinata que tomara a palavra. — Tentamos convencê-lo a ir conosco ao médico, mas ele não mostrou nenhuma reação. Então, ontem, tomamos a liberdade e trouxemos um médico conosco. Ele receitou antidepressivos. Assim que Naruto ingeriu a primeira dose, ele pegou no sono, dormiu durante todo o dia. Fomos embora quando ele acordou, mas decidimos não deixar o remédio, porque tememos que ele pegasse no sono durante a noite inteira e não ouvisse algum contratempo que ocorresse com a neném.

— Por isso que ele parecia bem mais disposto ontem quando vim visitá-lo a noite do que hoje — observei.

— Sim — concordou Hinata. — O médico nos explicou, Sasuke-kun, que o tempo de recuperação por perda depende muito de cada caso. Que em alguns casos os parentes de primeiro grau levam meses para aceitar e em outros levam até anos. No caso do Naruto-kun, ele disse que a recuperação pode demorar muito mais, já que o ambiente que ele vive não ajuda.

— A casa está repleta de lembranças da mulher. Ainda tem a criança — Neji explicou, olhando com ternura para a pequena mamando nos braços da esposa. — Por mais que essa criança seja um ser inocente, é difícil para uma mente doente não assimilar a culpa a ela. Faz parte da natureza ruim do ser humano. Sentimos essa necessidade estranha de culpar alguém por tudo que nos causa dor.

— Por isso ficamos tão preocupados — Hinata falou, erguendo os olhos para mim.

— Se não houver alguém para apoiá-los nessa transição — o senhor Hyuuga acrescentou. — O certo seria entregarmos a criança em algum instituto social. Porque, pelo menos, em um lugar especializado, ela ficará bem amparada. Já que entendemos que os pais de Sakura também não se encontram em condições de aceitar essa criança agora.

­ — Eu também já havia pensado em tudo isso ­— respondi. — E acho que... Acho que Sakura também — adicionei, um tanto vacilante. — Ela sabia que a gravidez era de risco. Mesmo assim, ela quis ter a Ayame-chan. Ela... me procurou pouco antes do parto e pediu para que eu apoiasse o Naruto caso o pior viesse a acontecer. E agora eu entendi que essa obrigação cabe realmente a mim. Eu vou ajudá-lo a se reerguer. Foi uma promessa que fiz a Sakura. Não vou deixar a filha da mulher mais incrível que já conheci ir parar em um orfanato.

Acho que realmente pareci um cara legal naquele momento, porque o senhor e a senhora Hyuuga me olharam com um misto de satisfação e alívio.

...

Hinata e Neji me ajudaram bastante, principalmente com a mudança. Decidimos que esse era o primeiro passo: mudar. Era preciso um lugar mais tranquilo, distante da movimentada Tóquio e de tudo aquilo que recordasse à Sakura. Hinata sugeriu a cidade onde o marido e ela moravam. Ela explicou que ficaria mais tranquila em nos ter por perto, pois assim ela poderia acompanhar todo o processo de recuperação de Naruto. Além disso, o lugar era próximo da cidade onde Sakura e Naruto nasceram; onde os pais de Sakura ainda moravam. Assim o acesso dos avós a neta ficaria mais fácil também.

Pedi demissão da editora. Entreguei a licença médica do Naruto no trabalho. Aluguei meu apartamento para um amigo e pedi para que ele mantivesse as prestações do financiamento em dia como aluguel. Só não fiz nada em relação a casa de Naruto, nem mexi com a parte que diz respeito ao dinheiro que ele teria para receber do acerto de Sakura com a editora e do seguro de vida dela. Achei que esses eram assuntos delicados e que o próprio Naruto devesse cuidar quando estivesse em condições.

Nos últimos meses de gravidez Sakura havia se desfeito do carro, pois não estava em condições de dirigir; com o dinheiro arrecadado com a venda comprou um maior com o marido, o mesmo que usamos para a mudança até a província de Kochi em Shikoku.

Foram quase oito horas de viagem. A província de Kochi está localizada a quase 800 km de distância de Tóquio. Uma cidade costeira muito pequena, porém acolhedora.

Eu também nasci em uma província pequena, no outro extremo do mapa japonês, em Aomori na região de Tohoku. Mas alguns anos após a morte dos meus pais meu irmão decidiu sair da pequena Aomori em destino a Tóquio. Ele passou para o curso de engenharia da Toldai, estagiou em uma multinacional e aceitou a proposta para gerenciar um polo dessa multinacional em outro país. Minha existência nunca foi impedimento para Itachi tomar suas decisões e levá-las adiante. Assim, ele não se importou em me deixar sozinho aos dezessete anos para continuar seguindo suas ambições, ao invés de me levar com ele. Disse apenas que me mandaria dinheiro. Talvez ainda mande. Eu não sei. E isso realmente não me importa. O que eu queria dele eram coisas simples: atenção, amizade, talvez amor. Coisas que ele se negou a me dar. Então, por orgulho, eu decidi que jamais iria usufruir de nada que viesse dele. Negaria sua existência exatamente como ele negou a minha.

A chegada nessa pequena cidade e a decisão de ficar com Naruto me remetia a Itachi. Há muito eu havia abolido a ideia de família da minha mente devido a dor que a perda dos meus entes familiares me causou. Esse fora até um dos motivos pelos quais eu passei a sair com homens. Homens que não exigiriam de mim tanto compromisso, alianças e nem filhos.

No entanto...

O som dos limpadores de para-brisa cessou assim que desliguei o veículo, pegamos uma garoa fina há uns 100 km atrás. Olhei para Naruto do meu lado e o notei sereno, cochilando com a cabeça encostada na porta ao seu lado. Não diria que o sono era natural, era efeito dos remédios antidepressivos que ele vinha tomando frequentemente. Constatando que ele estava bem, voltei-me para a Ayame-chan na cadeirinha no banco na parte de trás. Ela estava bem acordada. Os olhos grandes e espertos observando tudo a sua volta. Ela mexia as mãozinhas na frente do rosto, talvez descobrindo que fosse ela quem as movia.

— E aí, pequenina, fez uma boa viagem? — perguntei, sorrindo. — Essa é a sua nova casa. Espero que goste.

A antiga casa dos Hyuuga era a toda em arquitetura tradicional, em madeira, com peças amplas e varandas com piso de taco ladeando a construção. Até nisso a casa deles lembrava a minha própria.

Por ser uma residência tradicional não havia camas, o piso dos quartos e da sala era revestido por tatames e para dormir havia futons.

Eu havia trazido tudo que pude da bebê, incluindo um berço montável, o qual ergui no cômodo que provavelmente era o quarto principal, por ser bem espaçoso. A Hinata havia me dito um dia antes que ela tinha mandado limpar a residência para nos receber e era verdade. Estava tudo limpo, diria “espelhando”. Até mesmo os futons pareciam novos. Também notei que a dispensa estava cheia e sorri, ao perceber que Naruto era mesmo um cara de sorte por ter garotas tão especiais zelando por ele. Sakura, que se fora, e agora Hinata, que ainda o amava ao ponto de se importar com detalhes mínimos.

Não deixei de sentir um pouco de inveja por isso.

Mas foi algo que passou rápido, assim que coloquei os olhos na Ayame que estava deitada no futon enquanto eu terminava os ajustes no berço. Ela se mexia, fazendo uns ruídos estranhos com a boca e movendo as mãozinhas no ar.

— Oi? Você tá gostando da casa nova? — coloquei meu dedo entre os dedinhos dela e deixei que ela o segurasse. — Viu? É para isso que essas mãozinhas servem, para segurar.

O engraçado de toda essa situação é que desde que havia aceitado aquela missão, estava começando a lidar melhor com coisas que normalmente me deixavam mal-humorado. Crianças, choro, mudanças. Coisas que antes me irritavam profundamente. Mas a Ayame-chan era tão comportada que só chorava quando sentia fome ou estava suja e isso tornava cuidar dela uma tarefa realmente fácil.

Talvez, o meu maior desafio ainda seria Naruto.

“Falar nele, melhor ir ver o que ele estava fazendo...”.

Terminei de forrar o berço, enrolei a neném em uma manta — a garoa do lado de fora persistia e a temperatura havia caído bastante — apanhei-a no colo e a levei comigo, em um passeio pelos corredores longos daquela enorme residência.

Encontrei Naruto sentado no vão da porta de correr, entre a sala e a varanda, que davam vista para o imenso quintal a frente. O tempo continuava nublado e a garoa fria. Ele estava sem casaco, apenas com uma camisa preta e o moletom com o qual viajara. A testa encostada no beiral da porta.

Aquele algo estranho que me fazia sentir vontade de chorar cresceu com forças ao vê-lo daquele jeito. Só não se concluiu porque olhei a Ayame. Ela havia se tornado meu ponto de equilíbrio. Olhá-la me fazia sentir bem.

“Se ele também o fizesse, talvez se sentisse melhor” imaginei.

E foi com esse pensamento que me aproximei de Naruto e toquei em seu ombro. Desde que havia decidido tomar conta deles dois, foi a primeira vez que ganhei o olhar dele de verdade. Seus olhos azuis claros inundados por lágrimas. Ele ficou assim por um tempo, me encarando, fazendo de meu interior um reboliço. Então o vi afastar as lágrimas com as costas das mãos, meio desajeitado.

Eu quis perguntar: “você está bem?”, mas era uma pergunta tão cretina e sem sentido, que desisti. Apenas me limitei a algo básico.

— Podemos nos sentar ao seu lado?

— Claro — ele respondeu, a voz rouca, mas não vaga, e se afastou. Assim que sentei eu o vi esticar os olhos para criança no meu colo, o primeiro ato consciente que o vira tomar desde o dia fatídico. — Ela tá bem? — ele ainda procurou saber e aquilo realmente me deixou contente; eram verdadeiros sinais de consciência que ele dava.

— Hm — afirmei. — Ela está lidando bem com a mudança. Quer segurá-la um pouco?

Ele me olhou de um jeito assustado, como se eu tivesse pedido para ele sair correndo e pelado na chuva.

— Você é o pai, Naruto. Chateado ou não, essa criança é uma parte de você. A vida dela foi concebida graças ao seu desejo também. Se não fosse por isso, ela não estaria aqui. A Ayame-chan é a única inocente nessa história. Ela não pediu para estar aqui, vir ao mundo. Foi você e a Sakura que decidiram isso por ela. Sua filha já fez um mês. Quanto mais vai esperar para aceitá-la? Seis meses? Um ano? Dois? Dez? A vida toda? Ou está esperando que ela tenha consciência para poder fazê-la se sentir culpada pelo que houve? Culpada pela decisão que Sakura e você tomaram?

Não sei se era o momento certo de ser tão duro, mas só senti que precisava aproveitar aquele momento de sobriedade da parte dele para fazer aquele alerta.

Naruto se encolheu. Desviou os olhos dos meus, passou as mãos nos cabelos e então se voltou para mim e para bebê.

Aquele gesto dele a seguir foi tão marcante que fez meu coração disparar. Naruto estendeu as mãos, dando a entender que queria segurar sua filha. Com cuidado, passei a neném do meu colo para o dele e o vi finalmente sorrir ao olhá-la.

— Ela tem sardas — foi a primeira coisa que ele observou.

— Se olhar bem as suas bochechas no espelho vai perceber que também tem algumas. São bem discretas, mas você as tem. — Sim. Eu havia notado até o mais ínfimo detalhe no rosto dele. Aliás, como havia notado todos os outros traços que os dois tinham em comum. O pequeno nariz, o formato dos olhos, o formato da boca. — Diz “oi” para esse cara feio, Ayame-chan. Ele quem é seu oyaji[2].

Naruto suspirou e seu hálito saiu como uma fumaça, ele estava com frio.

— Vou pegar um agasalho pra você e já volto — anunciei e não esperando uma resposta, me levantei. Quando voltei, percebi que Naruto havia engrenado em uma conversa com sua pequena.

— É? Sim, sim. Sou seu pai sim. Não sou tão feio que nem ele disse, não é?

Acoquei atrás deles e cobri os ombros de Naruto com o edredom que trouxe, fazendo questão de manter minhas mãos firmes ali. Fingindo olhar para Ayame-chan, analisei o rosto dele de soslaio. Naruto estava sorrindo, não era aquele sorriso grande e escancarado com o qual me habituara nele, mas já era um começo.

— Acho que ela gostou de mim. Ela fica me encarando.

— É. Eu sei que ela gostou.

— Né, Sasuke?

— Hm?

— Obrigado.

Eu apertei os ombros dele. Engoli em seco a medida que meu coração disparava novamente no peito. Ouvi meu nome era difícil quando meus sentimentos estavam tão misturados e pareciam querer interferir naquela readaptação e atrapalhar tudo. Mas era preciso manter meu autocontrole. Calma. Era preciso eu ter calma. Suspirei fundo e assenti.

— Hm.

O tempo estava estiando, aquela chuva logo iria passar.

Continua...

[1] “Ayame”: Íris (flor)

[2] Oyaji: é uma maneira mais informal do japonês dizer ‘pai’; na maioria das traduções para o português fica como: “velho”, o jeito informal do brasileiro chamar o pai.

Notas finais
Obrigada pelo apoio de quem comenta aqui no blog (e agora no Nyah!) e acompanha essa história. Desculpem pela demora, mas tive um mês de fevereiro bem conturbado. Mas para compensar a demora, vou postar mais um capítulo! Ou seja, corre que o próximo já deve estar postado. Mas não esqueça de deixar um comentário nesse, por favor. :D Sei que foi um capítulo meio dramático, mas depois da morte de Sakura no capítulo passado, não tinha como esse capítulo ser mais leve. Mas, o próximo as coisas poderão melhorar. Ou não. ._. Deixem seus comentários! Até o próximo! Beijos!